A data limite para submissão dos textos das comunicações do 13.º AIL é dia 31 de outubro de 2021 (prazo prorrogado).

13º Congresso da AIL

Europe/Rome
Sapienza – Universidade de Roma
Valeria Tocco (Universidade de Pisa)
Description

O XIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL) decorrerá entre os dias 26 e 30 de julho de 2021 na Sapienza — Universidade de Roma.

A escolha de Roma e da Sapienza como sede do XIII congresso da AIL, decidida por ocasião da Assembleia Geral do XIII Congresso, pretende levar de volta para a Europa, depois dos congressos em Cabo Verde e em Macau, o maior e mais representativo conjunto de pesquisadores no âmbito da língua, das literaturas e culturas de expressão portuguesa.

A Sapienza — que é a Universidade com o mais alto número de alunos do mundo, depois da Universidade Autónoma de México, e ocupa um lugar de destaque em todos os rankings internacionais — vai juntar pessoas vindas de vários países, no intuito de fortalecer a presença dos estudos lusófonos, não apenas na Itália, mas em toda a Europa, contrastando, de modo emblemático, o descaso crescente com que as autoridades políticas do Velho Continente olham para a importância e o valor exemplar dos estudos portugueses e brasileiros — e em geral dos países da CPLP.

Os organizadores, nesse sentido, escolheram figuras emblemáticas, como Eduardo Lourenço, Agostinho Neto e Bertina Lopes (a artista moçambicana que viveu muitos anos em Roma), que irão ser homenageadas durante o congresso, junto com dois grandes autores brasileiros que lecionaram na Sapienza: Sérgio Buarque de Holanda e Murilo Mendes.

A Comissão Executiva do XIII Congresso, ao lado do Presidente da AIL Roberto Vecchi (da Universidade de Bolonha) e do Secretário Geral Vincenzo Russo (da Universidade de Milão), vai contar com a presença de Giorgio de Marchis (Universidade de Roma Tre) e de quatro professores da Sapienza: Sonia Netto Salomão, Simone Celani, Maria Caterina Pincherle e Ettore Finazzi-Agrò.

Convidamos as/os investigadoras/es interessadas/os a remeter propostas de comunicações e painéis que foquem qualquer questão relacionada com os seguintes âmbitos, desde que integrados na alargada área de investigação nos estudos lusófonos e apresentados em português:

01. Ciências Humanas e Sociais
02. Estudos de Cultura
03. Linguística
04. Literatura
05. Teatro, Cinema, Música e Artes Plásticas
06. Geografia
07. História
08. Antropologia e Filosofia
09. Comunicação
10. Ciência Política
11. Direito
12. Economia
13. Turismo
14. Estudos Interdisciplinares

Oradores convidados:

  • Heloisa Starling (Universidade Federal de Minas Gerais)
  • Lilia Moritz Schwarcz (Universidade de São Paulo)
  • José Luís Pires Laranjeira (Universidade de Coimbra)
  • Maria Betânia Amoroso (Universidade Estadual de Campinas)
    • 13:30 15:30
      Sessão de abertura: Sessão de abertura do Congresso e Conferência Plenária
      • 13:30
        Sessão de abertura do congresso 1h
      • 14:30
        Conferência plenária: Lília Schwarcz e Heloísa Starling 1h

        Conferência plenária de Lília Schwarcz e Heloísa Starling

    • 15:30 16:00
      Pausa 30m
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 16:00
        O ensino eficaz do Português como Língua Estrangeira na educação infantil: estratégias comunicativas, mediadores icônicos e realia. 15m

        O presente trabalho de pesquisa tem como objetivo principal discutir estratégias didáticas - baseadas na Abordagem Comunicativa e na Abordagem por Tarefas e Competências - e o emprego de matérias autênticos para promover a Aprendizagem Significativa do Português como Língua Estrangeira (PLS) na educação infantil que estimulam o desenvolvimento quer do Quociente de Inteligência (QI), quer das Funções Executivas (FE) do público-alvo. Tendo em consideração os contributos teóricos do Construtivismo Sociocultural e da Pragmática Conversacional - que consideram a língua como um instrumento interativo de ação social - e os princípios promovidos pelos Quadro Comum Europeu de Referência para Línguas de 2001, propomos atividades colaborativas lúdicas e sessões criativas de aprendizagem que assentam nomeadamente no emprego de webtools (tal como o Padlet e o Avatar Falante), das novas tecnologias, de mediadores didáticos icônicos (imagens multimídia interativas)e de realia (objetos culturais e textos baseados em imagens) de molde a 1) expor os alunos à autenticidade do idioma aprendido, 2) estimular o visual learning e a memorização a longo prazo do léxico fundamental da língua portuguesa e 3) incentivar a zona de desenvolvimento proximal, fundamental para o psicólogo Lev Semënovič Vygotskij (1896-1934) ao aprender uma língua estrangeira. Estas atividades comunicativas e interativas permitem interiorizar, em termos de desempenho linguístico, as estruturas lexicais e gramaticais fundamentais do idioma alvo - reduzindo a ativação do mecanismo de defesa psicologica, definido “Filtro Afetivo” pelo linguista Stephen Krashen (1941) - e representam aliás um válido auxílio para tornar os aprendentes em agentes sociais capazes de cumprir ações através do uso básico da língua portuguesa, de molde a negociarem conteúdos elementares em contextos conversacionais.

        Speaker: Prof. Maria Antonietta Rossi (Università per Stranieri di Siena)
      • 16:15
        A aquisição do Aspeto verbal do português LE por aprendentes italianos: reflexões sobre a formação da interlíngua 15m

        O presente projeto de pesquisa tem como objetivo indicar elementos de reflexão linguística e de glotodidática sobre o tema da aquisição do Aspeto verbal da língua portuguesa por parte de aprendentes italianos. Mais precisamente, tem como objeto a análise, numa perspetiva contrastiva, da forma como categoria semântica do especto verbal em português é assimilada, no decurso da aprendizagem do português a nível universitário. Como é noto, do ponto de vista da didática, a aquisição de um conhecimento formal e funcional do sistema verbal possui uma importância crucial na aprendizagem de uma língua estrangeira e que no caso específico do binómio português– italiano, o fenómeno do transfer linguístico joga um papel fundamental. A perceção da proximidade entre os dois sistemas linguísticos é base de frequentes fenómenos de transferência de regras, expressões e construções da língua materna na língua estrangeira, que tendem a cristalizar-se. De um ponto de vista metodológico, propusemos a diversos grupos de discentes do curso de língua portuguesa da Universidade de Perugia algumas atividades didáticas com o intuito de detetar e descrever os traços característicos da interlíngua dos aprendentes italianos e alguns dos erros mais frequentes devido à interferência da L1. O exame de tais dados permitiu, determinar um percurso de aprendizagem especifico e a formulação de materiais didáticos que possam de promover elemento de transfer positivo e de evitar situações de transfer negativo. Seguindo o conceito de interlíngua, formulado por Selene (1972) tivemos em consideração a bagagem de conhecimentos pregressos que o estudante tem à sua disposição para formular hipóteses sobre o funcionamento da LE e a combinação dos conhecimentos linguísticos dominados pelos alunos.

        Bibliografia de referência:
        ANDERSEN, Roger (1990), Models, processes, principles and strategies: Second language acquisition inside and outside the classroom, in VanPatten, Bill y James Lee (eds.), Second language acquisition–Foreign language learning. Clevedon, UK: Multilingual Matters, pp. 45-68.

        Andorno, Cecilia (2006) La lingua degli apprendenti dal punto di vista delle varietà di apprendimento. L‘approccio di Interlingua in F. Bosco, C. Marello, S. Mosca (a cura di), Saperi per insegnare. Formare insegnanti di italiano a stranieri. Un'esperienza di collaborazione fra università e scuola, Torino, Loescher.

        Bernini, G. – Giacalone Ramat A. (1990) La temporalità nell’acquisizione di lingue seconde, Franco Angeli, Milano.

        Berretta M, (1992). Sul sistema di tempo, aspetto e modo nell’italiano contemporaneo, in Linee di tendenza dell’italiano contemporaneo. A cura di B. Moretti, D. Petrini, S. Bianconi, Roma, pp. 135-154.

        Bertinetto, P.M. (1982) Le strutture tempo-aspettuali dell’italiano e del inglese a confronto, in L’Europa linguistica: contatti, contrasti, affinità di lingue. A cura di A. G. Mocciaro, G. Soravia, Bulzoni, Roma, pp. 49-68.

        Bertinetto P.M. (1997) Il dominio tempo-aspettuale. Demarcazioni, intersezioni, contrasti, Rosenberg & Sellier, Torino.

        Long, M.H. (1983) Native speaker non native speaker interaction and the negotiation of comprehensible input, Applied Linguistics, 4, pp. 126-141.

        Noyau, Colette et al. (2005) Two dimensions of the representation of complex event structures: granularity and condensation. Towards a typology of textual production in I L1 e L2, in Hendriks, Henriëtte, 2005, The structure of learner varieties, Walter de Gruyter, pp. 157-202.

        Selinker, L. (1972) “Language transfer”, in General Linguistics, 9/2, 1969, pp. 67-92.

        Selinker, L. (1972) “Interlanguage”, in International Review of Applied Linguistics, X/3, 1972, pp. 209-231,

        Travaglia, Luiz C (1981) O aspeto verbal no português: a categoria e sua expressão, Uberlândia, Gráfica da UFU, 1981.

        Speaker: Paula De Paiva Limao (Università degli Studi di Perugia)
      • 16:30
        Imigração brasileira: direitos linguísticos e língua de herança 15m

        Esta contribuição faz uma contextualização do “Laboratório de Português como Língua de Herança” (LPLH), que envolve ações de pesquisa, ensino e extensão, tendo como macrofenômeno de atenção aspectos linguísticos e sociais relativos à comunidade brasileira na cidade de Pescara, na Itália, no âmbito do Projeto REDE de Estudos de Língua Portuguesa ao redor do mundo, apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq) e de outros projetos de pesquisa confluentes. Um dos princípios subjacentes à criação do PHPL envolve a noção de que a continuação e o resgate da interação em língua de herança é uma questão de direitos humanos (agenda ONU 2030). O corpus recolhido junto à comunidade citada já foi analisado em trabalhos de doutoramento, que seguimos na modalidade de doutorado sanduíche, e em algumas publicações por nós organizadas segundo os seguintes preceitos: descrição e análise linguística (Neves, 2018; Bachman e Palmer, 1996) como fornecedoras de material epistemológico e metodológico para o ensino do português brasileiro como língua não materna; teorias, métodos e metodologias do ensino de língua estrangeira e teoria literária e literatura brasileira como capital cultural aplicado ao ensino do PB. Ainda em relação à análise linguistica, os preceitos da Ecolinguística (COUTO, 2016) foram utilizados para melhor comprender as condições de produção da comunidade analisada e, assim, realizar uma metodologia de ensino e manutenção do português como língua de herança adequada ao contexto linguístico e cultural em que a comunidade (minoria linguística) está inserida Para esclarecer os aspectos até aqui expostos, no nosso estudo, localizamos o campo institucional de ação do LPLH; apresentamos a comunidade de fala e o corpus nela produzido; identificamos os projetos confluentes; destacamos alguns impactos das ações promovidas no LPLH e fazemos algumas projeções, tendo em vista a 3ª fase do REDE/Itália, iniciada em 2021.

        Referências bibliográficas

        Bachman, L.F. & Palmer, A.S., Language testing in practice. Oxford: Oxford University Press, 1996.

        COUTO, Hildo H. et al. (Org.), O paradigma ecológico para as ciências da linguagem: ensaios ecolinguísticos clássicos e contemporâneos. Goiânia: Ed. UFG, 2016.

        MOURA NEVES, M.H., A Gramática do Português Revelada em Textos. São Paulo: Unesp, 2018.

        Speaker: Prof. Katia de Abreu Chulata (Università degli Studi G. d’Annunzio Chieti -Pescara)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        Do panopticon ao anopticon: a revolução da família poligâmica em Paulina Chiziane 15m

        Inspirado por Jeremy Bentham (1787, 1791), em Surveiller et punir (1975) Michel Foucault fornece uma explicação completa do panopticon, um edifício institucional e um sistema de controle que pode ser adotado para a construção de prisões ou hospitais. O seu desenho técnico é tal que os internos de uma instituição sejam observados por um único vigilante, que não pode ser visto por nenhum dos presos, por sua vez incapazes de definir se estão sendo observados ou não. É possível criar uma correlação entre este plano e a família poligámica, uma outra instituição social na qual um indivíduo só tem nas sua mãos as rédeas do controle da família (uma comunidade a pleno título). Assim começa o romance Niketche (2002) de Paulina Chiziane: Tony é o rei incontestável da sua casa e mantém uma autoridade absoluta sobre as suas cinco esposas - Rami, Julieta, Luísa, Saly e Mauá.
        A reviravolta ocorre quando as cinco mulheres, finalmente solidárias umas com as outras, começam a cooperar como órgãos de um organismo só sob a orientação da primeira esposa, Rami. Esse momento marca uma mudança significativa nas políticas de disciplina e na administração do controle: Tony deixa de ser o guardião e, sob o pretexto dos cuidados conjugais, as mulheres tornam-no num prisioneiro de alta vigilância. Todos os seus movimentos são supervisionados e compartilhados entre as esposas que de certa forma criam um novo sistema de controle determinando todos os ritmos da vida familiar. Uma tal inversão da ordem é comparável ao anopticon que Umberto Eco teoriza no seu Secondo diario minimo (1992). Trata-se neste caso de um outro sistema de controle, de um modelo alternativo para uma prisão, onde a sentinela é a única que está a ser observada, sendo privada de qualquer oportunidade para supervisionar os detidos.
        Adotando um molde teórico pós-colonial e feminista, juntamente com uma perspetiva benthamiano-foucaultiana e ecoiana, esta comunicação quer analisar a evolução do sistema familiar poligámico descrito por Chiziane no seu romance – e estudar, como ulterior contribuição e conseqüência colateral, o novo papel, mais ativo, desempenhado pelas personagens femininas e o impacto que elas produzem no contexto narrativo.

        Speaker: Marie Claire De Mattia (Universidade de Coimbra)
      • 16:15
        Migração, identidade, trauma no Moçambique pós-independência: em torno da “memória estarrecida” dos Madgermanes 15m

        Entre 1979 e 1989 acerca de 20 mil moçambicanos foram enviados para estudar e trabalhar nas fábricas da Alemanha Oriental, sob a égide de acordos de cooperação bilateral entre a FRELIMO, partido líder da recém-nascida República Popular de Moçambique, e a República Democrática Alemã. “Magermane”, “madgermane”, “madjermane”, “madgermans”, são expressões usadas para designar esses homens e mulheres “Made in Germany” cuja migração – por detrás do propósito de impulsionar a formação técnico-profissional e de contribuir à construção do Homem Novo moçambicano – revelou inevitáveis semelhanças com o antigo êxodo dos inúmeros trabalhadores escravizados durante a época colonial nas minas da África do Sul, a saber: “enquadramento legal e institucional paternalistas, contratação rotativa de jovens solteiros (entre 18 e 25 anos), pagamento diferido de parte de salários, segregação e controle social e habitacional no país de acolhimento”. Repatriados apressadamente depois da queda do muro de Berlim e da falência do projeto socialista da FRELIMO, muitos dos Madgermanes não conseguiram reintegrar-se no alterado cenário económico e social: a que devia representar a futura elite tornou-se numa geração perdida, suspensa numa condição in-between, não cabendo nem na Alemanha reunificada nem no Moçambique das políticas neoliberais. Faz trinta anos que os Madgermanes começaram a marchar nas conhecidas manifestações de protesto das quartas-feiras, caso quase único de contestação política no pós-independência, fazendo das ruas de Maputo um palco para reivindicarem o reconhecimento das reformas e outros benefícios acumulados durante a estadia na RDA. Estas manifestações contribuíram a fortalecer a perceção de uma identidade comum, num movimento de certa forma comparável ao das Mães de Praça de Maio, em particular no desafio ao esquecimento – estratégia prevalecente em Moçambique, tal como evidenciou João Paulo Borges Coelho numa entrevista.
        Tendo despertado certo interesse no panorama artístico alemão e internacional dos últimos anos, nomeadamente na esteira da publicação da graphic novel de Birgit Weyhe (2016), as experiências vividas e os traumas sofridos pelos Madgermanes parecem ainda carecer de uma reflexão aprofundada no âmbito dos estudos lusófonos. A presente proposta visa, então, trazer à superfície algumas das luzes e das sombras desta “memória estarrecida” analisando a forma como é (ou não é) abordada no panorama cultural contemporâneo. O teatro, a fotografia, a banda desenhada serão possíveis pontos de partida para uma incursão numa história transnacional em parte silenciada: os trabalhos de Jens Vilela Neumann (a peça-exposição “Identidade – um romance danado”) e – embora ainda não traduzida para o português – a obra da mesma Birgit Weyhe, por exemplo, nos quais se entrecruzam criação artística e depoimentos orais, poderão proporcionar uma reflexão sobre a relação entre os mecanismos de transmissão de memórias e questões como identidade, pertença, experiência da migração.

        Speaker: Ada Milani (Università degli Studi di Milano, Università degli Studi di Siena)
      • 16:30
        Eros in guerra ou do vocabulário erótico nas primeiras poesias de intervenção de José Craveirinha 15m

        José João Craveirinha, o primeiro escritor africano de língua portuguesa a ter sido galardoado com o “Prémio Camões”, em 1991, é maiormente conhecido pelo seu trabalho jornalístico (O Brado Africano é o primeiro periódico para o qual o autor escreve e onde publica crónicas e artigos), sobretudo de desporto, mas também de denúncia da condição social moçambicana durante o regime colonial português. A par desse trabalho encontramos também a poesia, meio através da qual o escritor moçambicano continuou a demonstrar a mesma situação de degrado social. A poesia de José Craveirinha encontra-se dispersa em vários jornais, todavia, é pela Casa dos Estudantes do Império (CEI) que encontramos publicada a sua primeira recolha de poesia, Chigubo, de 1964. Um ano depois, em 1965, o autor acabaria por ser preso pela PIDE/DGS, acusado de fazer parte de uma célula da 4ª Região político-militar da FRELIMO, movimento criado apenas três anos antes. Seria depois libertado em 1969.
        Chigubo, depois alterado para Xigubo, é a primeira obra poética de Craveirinha onde o discurso de revolta se faz realmente portador de uma mensagem nacionalista. Segundo Ana Mafalda Leite, Xigubo usa uma “linguagem manifestatária” que se mostra como “acto de legitimação e de conquista de poder simbólico, estético-linguístico, na medida em que entra em desacordo com os valores literários dominantes e consagrados da sociedade colonial em que se insere”1.
        Com esta proposta de comunicação, interessa-nos ver de que forma este tipo de linguagem, no dizer de Ana Mafalda Leite, “manifestatária”, deixa entrever, ao mesmo tempo, uma componente erótica que será plenamente manifesta somente aquando da publicação póstuma de Poemas eróticos, em 2004 (em texto organizado e fixado por Fátima Mendonça).
        É sabido que nos poemas que constam de Xigubo existe uma mensagem de incitamento à revolta, metatexto que muito provavelmente terá contribuído para a colocação do autor na lista negra da PIDE/DGS, porém, em alguns deles, essa mensagem se reveste também de uma linguagem simbolicamente erótica que mantém inalterado o objetivo primário da obra. O objetivo desta proposta de comunicação é estabelecer uma ponte de ligação entre a linguagem de eros e da guerra em alguns poemas de José Craveirinha, mostrando como de um eu lírico se chega a um nós socialmente ativo.

        Speaker: Maria da Graça Gomes de Pina (Università degli Studi di Napoli "L'Orientale")
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        Entre locus e memória - espaço simbólico e ressignificação do Si-Mesmo em Menino do mato de Manoel de Barros 15m

        Os livros de Manoel de Barros publicados desde 2000 apresentam uma nova perspetiva na obra barrosiana, de quem olha para o passado com renovada serenidade. No entanto, ainda emerge a sensação de transitoriedade e incerteza da vida, sinais duma crise surgida em outras fases e que é retrabalhada pelo poeta em contínuo diálogo com as obras anteriores. A esfera pessoal é explorada sistematicamente por uma presença cada vez maior da memória, dimensão em que a vida e a poesia passam a coincidir.

        Menino do mato, publicado em 2010, mais de setenta anos depois do primeiro livro Poemas concebidos sem pecado, se insere no rastro das Memórias inventadas. O livro testemunha de forma emblemática as tensões do último período de atividade do poeta, caracterizado por um sentimento de aceitação e consciência da proximidade da morte mas também perturbado pela angústia do esquecimento. O poder da memória e a concepção da arte como caminho para a imortalidade confortam o poeta para finalmente se dissolver na contemplação comovente da natureza e da própria existência.

        O fulcro de Menino do mato é o tema do locus da infância, ancestral e mítico, solitário, em abandono, entidade que habita os versos do poeta com a mesma circularidade do ciclo da vida. No crepúsculo da própria existência, o poeta visita os lugares do seu universo poético em contemplação absorta e comovida, voltando ao início com a consciência de quem terminou o caminho e, olhando para trás, captura com emoção a plenitude da existência vivida.

        Speaker: Francesca Degli Atti (Università del Salento)
      • 16:15
        Haroldo de Campos no campo minado telqueliano: uma história dos anos 1960 em diante 15m

        A entrada de Haroldo de Campos no sistema literário brasileiro foi bombástica: a criação do concretismo junto com Augusto e Décio Pignatari; a concepção de um paideuma literário; o questionamento dos valores na moda no Brasil durante os anos 1940 e 1950; e a proposta de uma literatura mais visual que sintática. Porém, nem Haroldo de Campos nem o concretismo brasileiro tiveram a mesma postura ou programa ao tentarem entrar no círculo europeu e estadunidense. No caso específico de Haroldo, fala-se aqui em “entrar” pois, por mais que houvesse ligações entre poetas concretos brasileiros e estrangeiros, Haroldo não teve o mesmo impacto nos EUA, na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra ou na França. Isso se deve mormente a três motivos: as traduções dos concretos brasileiros para o português contribuíram enormemente para a legitimação da poesia visual no meio literário brasileiro pós-Segunda Guerra mundial; a postura belicosa, marcada por uma retórica provocativa, sempre pronta para a polêmica, aliada a um arcabouço teórico alinhado com o que havia de mais atualizado na Europa e nos EUA; o ineditismo da proposta poética concreta em si, alinhada à publicidade e aos novos meios de comunicação, por isso mesmo distante do marasmo neoclassicista quase omnipresente da cena literária do período. No exterior, esses três pontos fundamentais (sem contar os outros veículos de difusão e legitimação apresentados por Gonzalo Aguilar em Poesia concreta brasileira, de 2005) não causavam os mesmos efeitos, uma vez que o arsenal teórico e a capacidade tradutória multilíngues do concretismo não tinham o mesmo efeito em línguas de países autonomeados desenvolvidos, que a verborragia combativa tornava-se inócua diante dos grandes revolucionários da linguagem serem estrangeiros e que havia outras experiências literárias visuais importantes nesses países, sobretudo na Europa, desde os primórdios do século XX. Mesmo assim, fato é que os poetas concretos, capitaneados por Haroldo de Campos, ergueram pontes de conexão com poetas europeus, europeias e estadunidenses para marcarem o seu ineditismo na história da poesia mundial. Tais conexões, por sua vez, legitimaram sua presença na cena literária brasileira. Foi nesse sentido que foram estabelecidos os contatos, na metade dos anos 1950 e no início dos 1960, com o boliviano-suíço Eugen Gomringer e o sueco Öyvind Fahlström, entre tantos outros nomes. Todavia, mais para o final dos anos 1960, a postura dos poetas concretas vis-à-vis a entrada no meio literário estrangeiro, especialmente europeu, parece ter se modificado. Levando-se em conta que muito da diplomacia concreta era liderada por Haroldo e que essa mudança de postura também tem a ver com a reformulação do seu projeto estético enquanto poeta e a renovação de seu horizonte de leitura, o presente trabalho tem por objetivo tratar das estratégias e mecanismos de inserção de Haroldo no campo literário francês entre o final dos anos 1960 e a publicação de Galaxies, em 1998, a partir do livro de cartas deste com a principal tradutora da sua obra para o idioma de Rimbaud e Verlaine, Inês Oseki-Dépré. Para compreender essa nova estratégia de divulgação da obra teórica e crítica de Haroldo, serão imprescindíveis o estudo já citado de Gonzalo Aguilar, mas também os de Vincent Kaufmann e Pierre Bourdienu sobre campo literário e vanguardas, os da própria Inês Oseki-Dépré sobre tradução, e os dos jovens Max Hidalgo e Jasmin Wröbel sobre a poesia concreta na Europa.

        Speaker: Prof. Vinicius Carneiro (Universidade de Lille)
      • 16:30
        Percursos da Crítica e Historiografia Literária Brasileiras no Século XIX: Gilberto Freyre Crítico de Literatura e Arte 15m

        No ano de 1960 o crítico literário Renato Carneiro Campos organizou o volume Vida, forma e cor (1962), livro publicado na coleção Obras Reunidas de Gilberto Freyre, da editora José Olympio. O trabalho executado por Campos foi considerado por Freyre como "[...] uma reação de crítico [...] à intransigência com que mestres já antigos---um deles, Tristão de Ataíde---vinham excluindo, da Literatura propriamente literária, os mesmos ensaios" publicados em Vida, forma e cor. Nos anos 1960, Freyre percebeu uma grande divergência entre críticos brasileiros em relação ao seu trabalho, ao mesmo tempo em que recebia o reconhecimento nacional e internacional dos seus pares de suas qualidades literárias. O volume organizado por Campos reuniu diversos trabalhos de Freyre dedicados à crítica estética e à crítica literária. No seu prefácio à Vida, forma e cor,Freyre, externando uma visão comparatista da crítica e da literatura, reclamava para autores como Euclides da Cunha, Raul Pompeia entre outros criadores literários brasileiros o reconhecimento do verdadeiro lugar desses escritores na cultura nacional, devido às qualidades estéticas e literárias de suas produções. Freyre identificou haver, na criação produzida por esses autores, "[...]mais poesia, mais literatura, mais verdade, mais beleza, E também mais Brasil. Mais forma e mais cor do Brasil".

        Em nossa comunicação, apresentaremos como a crítica estética e literária produzidas por Gilberto Freyre, pouco exploradas nos cursos de letras brasileiros, se situam nesse período.

        Speaker: Rogério Lima (Universidade de Brasília - UnB)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        Chamas reveladoras: O fogo de Santelmo e outros fenômenos naturais na literatura portuguesa de viagens 15m

        Na literatura de viagens e descobertas europeias, às vezes aparece menção do “fogo de Santelmo”, um fenômeno natural visto muitas vezes como manifestação divina. Este trabalho enfoca as representações divergentes deste e de outros fenômenos naturais que aparecem na literatura portuguesa de viagens dos séculos XVI a XVIII. Um dos textos em que mais abundam referências a fenômenos naturais é o Roteiro de Lisboa a Goa, publicado por D. João de Castro no final dos anos 1530 e relançado com notas e observações adicionais antes de sua morte em 1548. Este trabalho emprega o texto de Castro como arcabouço para discutir a representação do fogo de Santelmo, da tromba marítima e de outros fenômenos naturais vistos nas viagens. Esses eventos naturais aparecem n’Os Lusíadas (1572), obra clássica de Camões; na História Trágico-Marítima (1735), organizado por Bernardo Gomes de Brito; em The First Voyage Round the World, escrito por Antonio Pigafetta nos anos 1550; e em Ethiopia Oriental (1609), escrito por Frei João dos Santos.
        No caso de D. João de Castro, a descrição nítida dos fenômenos naturais evidencia sua dedicação a contar as coisas como realmente são (ou parecem ser). No caso de Camões, a descrição dos fenômenos naturais o ajuda a estabelecer sua autoridade como conhecedor do mar e de seus mistérios, graças a sua experiência no mar e às coisas que viu “claramente visto” (V, 18). No caso dos autores incluídos na História Trágico-Marítima (e até certo ponto no caso de Pigafetta), seu propósito de descrever os perigos do mar e de expressar fé em Deus é fortalecido pelo aparecimento de fenômenos que carregam simbolismo cristão nos olhos dos marinheiros. Seguindo essa mesma linha, para João dos Santos (Ethiopia Oriental)—padre católico com a meta de ensinar e inspirar as pessoas ao seu redor—o fogo de Santelmo representa uma oportunidade de mostrar sua superioridade espiritual e sua capacidade de corrigir e ensinar as pessoas mesmo nas condições mais extremas, fortalecendo sua imagem de servo fiel de Deus.
        Na maioria dos relatos analisados, elemento constante na descrição do fogo de Santelmo é a atitude dos marinheiros, que creem no poder de S. Frey Gonçalves (o santo padroeiro dos marinheiros) e na interpretação positiva do fogo de Santelmo. Onde esses relatos divergem é na atitude do autor quanto aos marinheiros—uns se juntam aos marinheiros na crença firme de que estão sendo protegidos e outros distanciam-se do grupo. Ao analisar essas fontes históricas e literárias, pretendo demonstrar que a descrição dos fenômenos naturais pode ser uma indicação clara do propósito do autor em cada texto—um microcosmo da abordagem adotada e dos argumentos criados pelo autor, revelando indícios de seus projetos literários.

        Speaker: Jordan Jones (Brown University)
      • 16:15
        O olhar multifacetado de Gaspar Frutuoso e a geografia físico-humana açoriana em *Saudades da Terra* 15m

        Reconhece-se o açoriano Gaspar Frutuoso pela sua obra Saudades da Terra, escrita entre 1586 e 1590 e dividida em seis livros, três dos quais tratam pelas ilhas dos Açores. Neste estudo sobre a história geográfica, geológica e genealógica das ilhas e a vida no século XVI no arquipélago, Frutuoso liga a geografia física com a humana para conseguir entender melhor as relações entre as populações e as próprias ilhas–um trabalho “em perfeita consonância com os interesses intelectuais do naturalismo humano do Renascimento”, segundo o filósofo José Luís Brandão da Luz (1996: 476). Escrevendo durante a época das viagens da expansão marítima portuguesa, Frutuoso valoriza a observação e a própria experiência, sejam as suas ou as de outras pessoas que ele pode relatar, servindo como uma forma de olhar no momento em que ele escreve e também uma forma de olhar orientada ao passado que continua a lhe informar na suas observações, tentando alcançar a um entendimento melhor, a uma construção melhor de verdade que pode resultar destas observações e experiências contadas. Pela predominância do olhar e das observações da experiência, então, Saudades da Terra se enquadra bem no âmbito da literatura de viagens da época.

        Nesta apresentação eu analisarei as funções da observação em relação à exploração e à descrição da geografia físico-humana açoriana. Em primeiro lugar, a riqueza da fertilidade das ilhas, tanto na natureza quanto na sustentação de vida, serve como foco das interações entre a geografia física e a humana nos Açores no momento em que Frutuoso escreve. No Livro VI, por exemplo, as observações de Frutuoso sobre a ilha da Terceira liga mudanças socioeconômicas à fertilidade e à cultivação das terras da ilha, o que Avelino de Freitas de Meneses descreve como o início de uma sociedade diferente do que a no continente no século XVI (2012: 77-78). Além disto, as descrições de tremores e terremotos históricos na ilha de São Miguel no Livro IV resultam de um olhar histórico–ou seja, uma narração de desastres já acontecidos–, entrelaçado no meio das observações da vida humana atual na ilha. A descrição e a explicação do terremoto do 22 de outubro de 1522 na ilha de São Miguel, cujos efeitos humanos ainda se sentem mais de 60 anos depois na repovoação e na reconstrução contínuas da ilha, sublinham o entendimento preciso das interações físico-humanas na ilha que vêm de o olhar histórico e o atual se complementarem na narrativa de Frutuoso.

        Porém, embora a experiência e a observação cheguem a uma alta importância ao longo da obra, Frutuoso não desconsidera a religião ou a filosofia nas suas explicações, referindo-se frequentemente a Deus ou à Natureza personificada, especialmente em referência às formações geológicas que capturam o seu olhar. Por seu olhar e seu próprio entendimento multifacetados, Frutuoso fica como exemplo do intelectualismo crescente nesta época renascentista portuguesa da expansão marítima, segundo Rodrigo Rodrigues (1991: 42). As observações e experiências relatadas por Frutuoso sobre as interações entre a geografia física e a vida humana açorianas constituem uma narrativa de viagem dentro das ilhas das quais ele é natural, e a predominância do olhar ao longo de Saudades da Terra enfatiza a tentativa de chegar a uma verdade melhor informada sobre a vida nos Açores, através destas observações e experiências na geografia físico-humana açoriana.

        Speaker: Kevin Ennis (Brown University)
      • 16:30
        Os pastores e a República das Letras: Francisco Rodrigues Lobo e as (re)configurações do cânone bucólico nos séculos XVII e XVIII 15m

        Aproveitando a circunstância da celebração em 2021 do 4.º centenário da morte de Francisco Rodrigues Lobo, esta comunicação procura dar conta dos resultados obtidos no âmbito de um exercício de cartografia que visa identificar e analisar a fortuna crítica, as leituras e apropriações da obra bucólica do autor. Para tal, partiremos de uma conceção abrangente de «modo pastoril», para usar uma fórmula de R. Lobo, capaz de cobrir em simultâneo os campos da novelística, da écloga e de outras formas literárias que derivam dessa tradição cultural multissecular (idílios; drama pastoril...). No período temporal considerado (sécs. XVII e XVIII), é possível verificar a coexistência de versões do mundo pastoril que oscilam entre a matriz idealizante do bucolismo clássico e uma modalidade que se apoia na descrição de hábitos mais rústicos e numa formulação discursiva que pretende reproduzir (pese embora também a sua convencionalidade) um falar próprio do campo. Pretende-se, assim, abordar esta problemática a partir de dois eixos distintos: i) a reflexão de ordem teórica que vai ganhando corpo a partir de enunciados como o “Discurso sobre a vida e estilo dos pastores” com que abre a edição das Églogas (1605), de R. Lobo; as dissertações sobre o estilo das éclogas apresentadas por António Dinis da Cruz e Silva nas sessões da Arcádia Lusitana (1757); ou “Memórias sobre a Poesia Bucólica dos Poetas Portugueses”, de Joaquim de Foios (1792); ii) a prática literária de autores que, usando a máscara e as convenções pastoris, entraram em diálogo com a obra de R. Lobo ou para reforçar o sentido de emulação, ou para vincar o antagonismo (Elói de Sá Sotomaior; Francisco Manuel de Melo; Manuel de Faria e Sousa; Diogo Ferreira de Figueiroa; Domingos dos Reis Quita; Domingos Caldas Barbosa; José da Costa e Silva...). Tudo isto permite reconhecer um fenómeno de canonização que arranca no tempo histórico do autor e que ganhou um lastro considerável ao longo do séc. XVII, mas com a emergência da teorização e da produção bucólica dos Árcades torna-se mais visível o desejo de renovação, a partir de uma revisitação de matrizes fundamentais do bucolismo (Teócrito, Virgílio, Sannazaro, Garcilaso, Camões...) e da influência de novos modelos (Muratori, Boileau, Fontenelle, Pope...) que gerou tensões no interior do sistema literário e práticas de diferenciação. Apesar da existência de reflexão crítica (v.g. T. Braga; H. Cidade; J. Prado Coelho; M. L. Belchior; A. Pinto de Castro; R. Marnoto; V. Anastácio; M. L. Malato Borralho; I. Teixeira...), não se pode dizer que as questões aqui levantadas tenham merecido ainda a devida atenção crítica. Em causa estão a ontologia pastoril, a problemática acerca da imitação, o alcance moral e a utilidade cívica do bucolismo, o debate em torno da diversidade de estilos (do pastoralismo rústico à tradição requintada e culta) e os mecanismos de canonização. Em suma, que lugar cabe a Rodrigues Lobo no âmbito da constituição do cânone bucólico antes e depois da refundação setecentista da Arcádia mítica?

        Speaker: Paulo Silva Pereira (Universidade de Coimbra - Faculdade de Letras)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        A literatura angolana entre histórias verdadeiras e inverossímeis, um estudo acerca da obra de José Eduardo Agualusa 15m

        O presente artigo pretende desenvolver uma análise do conjunto de obras ficcionais do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Tomando por base tal conjunto como um único universo ficcional, premissa que nos tem motivado em nossas investigações, pretendemos verificar quais estratégias são utilizadas para composição de seu universo narrativo e como este pode ser interpretado como uma possível modulação da história factual angolana ― permitindo-nos um jogo de palavras entre os sentidos comumente atribuídos ao termo modulação: o de construção por módulos ou peças de encaixe; ou passagem de um modo a outro, neste caso especifico, do factual ao ficcional; ou ainda, a variação sistemática da informação que se pretende transmitir. A leitura das narrativas produzidas por Agualusa leva-nos a um espaço confortável de reconhecimento e familiaridade, dada a recorrência de personagens e enredos. Constatamos que essa repetição, embora com alguma variação, gera uma intertextualidade interna ao próprio conjunto, exigindo que seu leitor “ative” sua memória literária para (re)organizar a narrativa, afinando-a de acordo com as novas inserções dadas a cada publicação. Além de elucidar as estratégias narrativas utilizadas pelo autor em sua construção ficcional, interessa-nos, também, como tal projeto literário transpõe o discurso histórico para o ficcional, como “[u]m ato criativo e interpretativo de apropriação/recuperação” (HUTCHEON, 2013: 30) da história nacional angolana, “ajustando-a”, num processo de adaptação, à nova natureza ontológica do discurso veiculado, alterando, muitas das vezes, sua valência política. Desde A Conjura (1989) até A sociedade dos sonhadores involuntários (2017), diversos momentos da história factual angolana são (re)visitados, ficcionalmente, em suas obras. Valendo-nos dos conceitos de narrativa narcisista, metaficção historiográfica e de adaptação (HUTCHEON, 1980, 1991 e 2011, respectivamente), defendidos pela teórica canadense Linda Hutcheon, podemos estabelecer uma leitura mais detalhada acerca da presença do discurso histórico no universo ficcional de Agualusa. A adaptação do discurso histórico factual pelo discurso ficcional, enquanto processo criativo descrito por Hutcheon, é dotada de um alto potencial subversivo, em virtude das alterações de sentido possíveis dada a passagem transcultural, geracional, ou epistêmica de seu conteúdo. Agualusa ao compor seu universo ficcional opta por um permanente exercício de desestabilização de categorias como autoridade ou legitimidade discursiva, identidades culturais, ou relações de poder. Os processos de recuperação dos eventos factuais e de construção de tais narrativas históricas interessa-nos, aqui, como exercícios capazes de problematizar tanto a apreensão do passado angolano quanto a leitura crítica do presente através do discurso literário e seus significados relacionais. O corpus selecionado para esta análise, composto por romances e contos, será considerado a partir de estudos que privilegiam uma base transdisciplinar, relacionando literatura, história, memória e política, e que darão destaque aos estudos pós-coloniais e às interseções entre os diferentes registros ontológicos: ficcional e factual.

        Speaker: Renata Flavia da Silva (Universidade Federal Fluminense / UFF)
      • 16:15
        O passado-presente na obra de Pepetela: fragmento, adaptação e uso de fontes documentais na leitura a contrapelo da nação angolana 15m

        Este trabalho é parte dos resultados finais do projeto “Poder e silêncio(s): a pós-colonialidade entre o discurso oficial e a criação ficcional”, financiado pela FAPEMIG, no qual desenvolvemos pesquisa em torno das produções contemporâneas das literaturas portuguesa, angolana e moçambicana a partir da teoria pós-colonial para analisar como as obras literárias se configuram como um significativo elemento de construção de uma memória coletiva que entra em confronto com os discursos oficiais. O recorte que aqui será apresentado pretende pensar o universo literário de Pepetela a partir das suas obras que colocam em cena o período colonial angolano, com a utilização de fontes documentais majoritariamente portuguesas, como forma de indagar o presente da nação. Nesse sentido, entendemos o diálogo entre o presente, marcado pela contemporaneidade das obras, e o passado, reencenado de forma ficcional, como uma mostra de um conjunto de estratégias narrativas que inserem a obra de Pepetela em um plano mais amplo da escrita literária, e não apenas em um diálogo específico entre literatura e história como elemento evidente nas literaturas africanas de língua portuguesa. Para tanto, utilizaremos três romances do escritor angolano que, curiosamente, se distanciam por um período de tempo de aproximadamente 14 anos - Yaka (1985); A gloriosa família - o tempo dos flamengos (1997); Ao sul. O sombreiro (2011) –, além das suas escritas serem intercaladas por outras obras que são voltadas para episódios mais recentes da história de Angola, como aqueles ligados à guerra de independência, ou ao longo período de guerra civil e ainda a situações menos identificáveis com determinados personagens políticos, mas não menos evidentes sobre a perspectiva crítica do autor sobre a sociedade angolana atual. Assim, entre obras como Mayombe (1979), A geração da utopia (1992), O desejo de Kianda (1995), Jaime Bunda, o agente secreto (2001), Predadores (2005) e o mais recente Se o passado não tivesse asas (2016), Pepetela se dedicou a pensar a nação a partir de um mergulho profundo no seu passado colonial mais antigo, propondo uma outra leitura sobre a construção de Angola que não apresenta uma mera culpabilização dos colonizadores, mas repensa os agentes de movimentos e ações que parecem bastante presentes na classe dirigente atual. Para refletir sobre esse universo específico da produção pepeteliana, em que o uso de fontes documentais se apresenta como uma das estratégias da criação ficcional, trabalharemos com conceitos como metaficção historiográfica, fragmento, parodia e adaptação, sobretudo para pensa-los como processo e produto de uma escrita descentrada.

        Speaker: Roberta Guimarães Franco (Universidade Federal de Lavras (UFLA))
      • 16:30
        O campo de concentração como paradigma biopolítico em Os Transparentes, de Ondjaki 15m

        Giorgio Agambem, no primeiro livro da série Homo Sacer, propõe que o campo de concentração deve ser entendido como o paradigma biopolítico da contemporaneidade. Esse paradigma se aplicaria não apenas aos estados abertamente autoritários, mas também a sociedades democráticas baseadas no hedonismo e na espetacularização da política. Entretanto, se o campo anteriormente funcionava como um espaço isolado, com suas regras e dinâmicas próprias, este paradigma biopolítico atualmente está plenamente integrado na paisagem física e humana das cidades. O poder de decidir quem vive e quem deve ser abandonado à própria sorte visa produzir corpos e modos de vida específicos. A essa estrutura de conformação das existências se opõem potências de vida que buscam estabelecer redes de valorização e circulação das formas de subsistir frente a um sistema que estabelece indivíduos como descartáveis. O objetivo da presente proposta de comunicação é pensar o romance Os Transparentes, do autor angolano Ondjaki como representação de um espaço periférico no capitalismo contemporâneo, a cidade de Luanda, assinalado como um espaço de constante crise, caracterizado pela dinâmica de estado de exceção, onde a manutenção da norma e seu desrespeito traduzem-se nos mesmos gestos. Esse ambiente apresenta-se como um conjunto fragmentado, onde zonas pobres e ricas se intercalam e modos de habitar o mundo se contrapõem. Vidas precarizadas precisam inventar e reinventar formas de resistência, de autovalorização e valorização de redes de solidariedade para tentar com isso viabilizar suas maneiras de existir que não se moldam às políticas públicas e às estratégias do capital transnacional, que seleciona e descarta os corpos e intelectos que interessam e não interessam, respectivamente. Enquanto isso, indivíduos privilegiados por condições econômicas e sociais se aproveitam de conchavos e aparelhamentos das estruturas estatais para concentrar renda e poder a fim de estender mais ainda seu domínio sobre os recursos públicos, produzindo, assim, ainda mais desigualdade e exclusão social. Nesse sentido, a proposta de comunicação busca pensar a relação entre a instituição do poder sobre os corpos e as potências de vida que se criam como formas de sobrevivência, como maneira de produção de valor a partir de um espaço de precariedade quase absoluta. Com isso, torna-se possível pensar não apenas as condições de vida na capital de Angola, mas a forma como essas se irmanam a outros espaços periféricos espalhados pelo mundo, onde subjetividades provenientes de um sistema econômico e social predatório produzem a institucionalização da violência e a política de morte.

        Speaker: Daniel Marinho Laks (Universidade Federal de São Carlos/UFSCar)
    • 17:00 18:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 17:00
        A excentricidade da personagem trabalhadora: o caso Molero 15m

        Todos sabemos que Dinis Machado (1930-2008) foi jornalista desportivo, tradutor, guionista para cinema e televisão, redator de revistas de banda desenhada e escritor; que com o pseudónimo de Dennis McShade assinou afortunados livros policiais (Mão direita do Diabo (1967), Requiem para D.Quixote (1967) e Mulher e arma com guitarra espanhola (1968) cujo protagonista era um assassino chamado Peter Maynard (apud Pierre Menard de Borges). Sabemos ainda que com o seu próprio nome propôs ao público leitor Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez (1984) e Reduto quase final (1989). Mas, acima de tudo, sabemos que Dinis Machado ficou na história das literaturas de língua portuguesa por causa de O que diz Molero, romance que, publicado em 1977, foi imediatamente um sucesso estrondoso, gozando de bem cinco reedições logo no mesmo ano da sua publicação.
        A despeito da sua notoriedade, todavia, o romance de Dinis Machado não gozou da devida atenção por parte da crítica, que lhe tem dedicado apenas algumas rápidas palavras no âmbito da mais geral reflexão sobre o desenvolvimento diacrónico do romance pós-revolucionário português (Seixo, Eminescu, Real, Reis, Lourenço). Todavia, como demonstrou um trabalho proposto por ocasião do projeto de investigação Para uma nova antropologia da personagem literária. Sobrevivência do modernismo e do realismo (1945-hoje), Dinis Machado consegue construir, na dialética entre as categorias de narrador e de personagem, um original jogo diegético em que todas as personagens são ao mesmo tempo protagonistas e narradores, participando na construção do plot (mas existirá um verdadeiro plot no romance?) e, ao mesmo tempo, assistindo como espetadores aos mesmos acontecimentos narrados.
        De entre a pletora de personagens que habitam as páginas de Dinis Machado, o título do romance induz a pensar que Molero seja o protagonista. Mas quem é, de facto, Molero? O que sabemos dele para além do seu nome? O que ficamos a conhecer da sua vida, relações familiares, estudos, idade, profissão, da sua relação com a sociedade, com o espaço, com os lugares que percorre? É alto e magro ou baixo e gordo? Tem cabelo castanho ou loiro? De que maneira ouvimos a sua voz e através de quais recursos entramos em contato com a sua vida psíquica? Como interage Molero na narração? Quais são as suas relações com os restantes personagens da narração?
        Esta intervenção visa, pois, partindo das considerações solicitadas pela “ficha da personagem” elaborada durante o projeto acima referido (que remete para as teorizações de, entre outros, Debenedetti, Forster, Genette, Woloch), discutir especialmente o “espaço-personagem” (Woloch) dedicado por Dinis Machado a Molero ao longo da narração no “sistema-personagem” do romance, isto é na sua interação com as outras personae da narração; e paralelamente averiguar e descrever a função estrutural de Molero na construção narrativa do romance inteiro.

        Speaker: Valeria Tocco (Universidade de Pisa)
      • 17:15
        O espaço de Sem Medo no sistema-personagem de Mayombe. 15m

        No âmbito da literatura pós-colonial, frequentemente encontramos personagens que, por se inserirem numa dinâmica sociopolítica ainda em formação, procuram refletir realidades nas quais a definição de uma nova identidade nacional e, por conseguinte, também individual, é urgente e necessária. Assim sendo, estas personagens são bem delineadas, profundas do ponto de vista psicológico e sobretudo determinadas no que toca a alcançar os seus objetivos. Podem ser inseridas, em suma, na categoria forsteriana de “personagens redondas”. Ao mesmo tempo, estas são também personagens que Woloch definiria como “trabalhadoras”, pois o seu papel é determinante na organização da diegese.
        Um campo de observação privilegiado da “oficina da personagem” desde uma perspetiva pós-colonial é, sem dúvida, Mayombe de Pepetela. Este romance, catalogável como war novel, foi escrito em 1971, durante a guerra colonial, mas foi publicado só em 1980, durante a guerra civil. Em Mayombe o sistema-personagem é rico e complexo. Cada uma das 15 personagens é simultaneamente narrador e ator, e cada uma quer afirmar o seu “espaço” em relação à figura central em volta da qual se constrói o discurso da narração, isto é, o Comandante Sem Medo. O aspeto mais interessante desta dinâmica é a modalidade através da qual a voz do narrador omnisciente se entrelaça com a voz das outras personagens-narradoras, as quais desejam ganhar o próprio espaço, apresentando monólogos e afirmando, assim, a própria centralidade. Cada uma, pois, concorre ou quer corroer a centralidade do Comandante Sem Medo. De facto, a figura de Sem Medo, única personagem que não se exprime através dessa modalidade, pois é ele o protagonista, encarnando metaforicamente o papel do herói Ogum, o Prometeu africano. O espaço-personagem de Sem Medo resulta construído, pois, de modo indireto, através dos monólogos das outras personagens ou mediante as descrições do narrador omnisciente. Esta estratégia permite que a personagem transcenda o texto e se dote de uma carga mítica, representando o homem novo (e utópico) angolano, ao qual a sociedade deveria aspirar, mas que ainda – e talvez para sempre – é incapaz de compreender.
        Partindo das considerações solicitadas pela “ficha da personagem” elaborada durante o projeto ao qual o painel remete, este contributo visa analisar o modo como Pepetela constrói o “espaço-personagem” do protagonista Sem Medo dentro do romance e cria, em simultâneo, uma dimensão mítica para o personagem no meta-romance.

        Speaker: Sofia Morabito (Università di Pisa)
      • 17:30
        O direito ao grito: a rebelião de Macabéa na hora da morte 15m

        É mais do que sabido que Clarice Lispector (1920-1977) é umas das maiores vozes narrativa do século
        XX e que a sua escrita, ao mesmo tempo introspetiva e explosiva, marca a perceção literária dos
        leitores e dos autores que a seguem. Ao longo dos anos, assistimos a uma maturação significativa da
        própria autora, considerando que as obras de juventude, como Perto do coração selvagem, estão
        quase exclusivamente voltadas para a interioridade do indivíduo, ao passo que os romances mais
        tardios manifestam uma poética mais centrífuga. Textos como Uma Aprendizagem ou O Livro dos
        Prazeres, de facto, examinam o desenvolvimento da personagem ao entrar em contato com o outro,
        que lhe permite descobrir-se a si própria e ao mundo de que faz parte. Ficando sempre central o
        mundo interior do sujeito e a dificuldade, se não a impossibilidade, de traduzi-lo para o exterior
        através da linguagem humana, a autora dá mais um passo em frente no último romance que publica
        em vida, A hora da estrela, onde explora a dramática situação do pobre humilhado e aniquilado dentro
        da sociedade hipócrita e enganadora.
        A protagonista desta ficção é Macabéa, nordestina mal alfabetizada que não se define pelo que é, mas
        pelo que lhe falta: a família, o amor, a instrução, a comida, o dinheiro, a consciência de si própria e
        do mundo, a astúcia. Neste sentido, podemos dizer que ela é uma personagem completamente
        esvaziada, cujo «espaço» se define somente por um corpo mísero a proteger o nada absoluto. Faz-se
        evidente o esforço criador do narrador Rodrigo S. M., atrás do qual se desvela a própria autora Clarice,
        para sair da sua posição privilegiada e conseguir dar forma e vida a uma entidade tão minimizada,
        quer do ponto de vista da sobrevivência concreta, quer do ponto de vista da interioridade.
        Ver-se-á, neste estudo de caso, que Macabéa, na sua tragicidade, é uma personagem construída de
        maneira altamente irónica: não está consciente nem se opõe às injustiças que o mundo comete contra
        ela, e aceita o papel ao qual a obrigam as outras personagens e o narrador. Até o final do romance é
        sarcástico, apesar de representar o momento em que, finalmente, Macabéa deixa de ser uma
        personagem «trabalhadora», se desliga da sua própria infimidade e brilha de luz plena na hora da
        morte. Trata-se de uma explosão de «excentricidade» da figura que a vida na sociedade não permitiria
        e, de facto, acaba por matar tanto ela como o narrador. É um destino que reenvia para o fado dos
        irmãos macabeus da tradição judaica, os quais conseguiram rebelar-se contra a tentativa do rei da
        Síria de subjugá-los e até venceram, mas ao preço da vida.
        Esta intervenção visa a discutir mais aprofundadamente os conceitos referidos, com referência aos
        estudos teóricos (de Woloch, Forster e Stara) nos quais se baseia a ficha de análise da personagem e
        para os quais remete o presente painel.

        Speaker: Serena Cianciotto (Università di Siena)
    • 17:00 18:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:00
        “Engolir o Atlântico”? Fronteiras imaginadas em três literaturas de língua portuguesa do início do século XXI 15m

        Esta comunicação discute a temática fronteiras imaginadas em três literaturas de língua portuguesa (angolana, brasileira e portuguesa) a partir da antologia de contos publicados no primeiro número da Granta em Língua Portuguesa (2018), revista literária com publicação simultânea no Brasil e em Portugal, fato inédito na história editorial dos países de língua oficial portuguesa.

        Nessa amostragem que o periódico Granta oferece como “vitrine” da produção literária no mundo lusófono, focalizam-se as narrativas “Vissolela” (José Eduardo Agualusa), “Dia de Iemanjá” (Adriana Lisboa), “A ocupação” (Julián Fuks) e “Le cose belle” (Teresa Veiga), examinando-se o modo de pensar e de escrever as fronteiras (visíveis e invisíveis, territoriais e textuais, dos corpos e das identidades) desde os trópicos, lendo-se essas escritas em contraponto à escrita empreendida a partir desse “pseudocentro” que é Portugal, a um só tempo centro (em relação às províncias ultramarinas) e periferia (face à porção hegemônica europeia contemporânea).

        O estudo que aqui se propõe dessas três literaturas de língua portuguesa a partir de um periódico como o Granta em Língua Portuguesa justifica-se pela rara – e talvez inédita – oportunidade de (i) examinar-se essas literaturas reunidas em uma publicação editorial que, desde o seu projeto, concebe-as como “constatação de uma distância e de um desejo de aproximação” (MARQUES, Granta em Língua Portuguesa, p. 8), tomando-as em sua condição fronteiriça de demarcação, separação e simultânea contiguidade e aproximação cultural, possibilitando, assim, (ii) um estudo dessas literaturas como um mesmo objeto de investigação, a partir do comparativismo literário e cultural, oportunidade de ser ler a própria identidade pelo contraponto com nações-irmãs-de-língua.

        Tomando-se esse periódico de reconhecimento internacional como espaço literário e discursivo transcontinental, apresenta-se uma leitura dessas narrativas nele reunidas a partir de perspectivas teóricas do transnacional, das margens e do local (BHABHA, DissemiNação: tempo, narrativa e as margens da nação moderna), metodologicamente embasada na desconstrução da ideia de tradição e sua consequente decomposição em tradições (ELIOT, Tradição e talento individual; BORGES, Kafka e seus precursores), bem como na desconstrução da ideia de dependência cultural (SANTIAGO, Eça, autor de Madame Bovary, O entre-lugar do discurso latino-americano). A análise do corpus indica que as fronteiras imaginadas assumem diferentes configurações simbólicas e distintas conformações discursivas nessas três literaturas, agenciando (DELEUZE; GUATTARI, Rizoma) geografias, culturas e identidades em exílio, mas também sexualidades e subjetividades igualmente exiladas.

        Speaker: Denis Leandro Francisco (Universidade Federal de Goiás (UFG/PNPD/CAPES))
      • 17:15
        Sombras do império: mestiçagem e negritude no Atlântico lusófono pré-independência 15m

        Partindo da asserção de que a genealogia trata da “arqueologia” dos vínculos entre indivíduos, famílias e gerações, proponho nesta comunicação refletir sobre a produção poética da Casa dos Estudantes do Império em torno de questões de filiação e de origem, mas também de diferença ou distância na origem. Na senda de Nietzsche, Foucault enfatizou a ideia de que o genealogista não procura necessariamente a essência ou identidade original de algo, mas preocupa-se com os eventos e os meandros particulares em que esses eventos iniciais ocorreram. Genealogia surge, desde modo, como uma forma de crítica, de busca hermenêutica reveladora das condições históricas de evento específico. Podemos então dizer que as preocupações genealógicas dos poetas constituem um modo de questionamento, uma forma de empoderamento e de afirmação identitária. Não tanto uma preocupação em encontrar algo de pristino e puro, mas um reconhecimento da mistura, do espaço híbrido sem celebrar mas sem condenar. Por outras palavras, procura-se a origem sem se pressupor a existência de um substrato bem definido. Com efeito, um número significativo de poemas publicados nas Antologias da Casa manifesta um desejo de pertença identitária e cultural tanto ao mundo africano quanto ao europeu. O imperativo de entender o espaço colonial marcado pela violência, a afirmação da negritude e o desejo de re-africanização dos estudantes-poetas são temáticas incontornáveis nas suas poesias, revelando profundos dilemas identitários e não respostas unívocas. A interrogação sobre as origens e a consciência racial destes autores constituíram uma forma de resistência cultural e política ímpar na oposição ao colonialismo e à ditadura salazarista e, porventura, podem emergir hoje como um contributo indispensável à construção das identidades pós-coloniais. Como se materializa a reflexão sobre a dimensão entre-mundos nesta produção poética? Que imagens veiculam as perdas e os ganhos nas construções identitárias dos sujeitos da enunciação? Quais as implicações de afirmar “ser africano”, “ser europeu”, “ser mestiço/mulato”, “ser afro-europeu” no Atlântico Lusófono pré-independência? Estas são algumas das perguntas-chaves a que esta comunicação em torno do “Black-Atlantic” em língua portuguesa procurará responder.

        Speaker: Patrícia Martinho Ferreira (University of Massachusetts Amherst)
      • 17:30
        A violência na literatura gauchesca – uma variável problemática dentro do gênero 15m

        A violência parece desempenhar um papel fundamental na literatura gauchesca. No romance O gaúcho (1870) de José de Alencar, por exemplo, o protagonista luta contra o assassino de seu pai e, finalmente, o mata: “Com uma calma feroz, espetou o ferro da lança no corpo do assassino de seu pai, atravessando-lhe o coração como faria com uma fôlha sêca.” Em outro trabalho, O vaqueano (1872), do rio-grandense Apolinário Porto Alegre, o personagem José de Avençal é adorado por suas habilidades ligadas à violência: “Nos combates era o delírio personificado.” Na literatura gauchesca, elaborada por autores rio-pratenses, a violência também desempenha um papel fundamental. Exemplos podem ser encontrados nas mais conhecidas obras dessa literatura: Martín Fierro (1872) de José Hernández ou Santos Vega (1880), da autoria do escritor Eduardo Gutiérrez.
        Ainda que em todas essas obras a violência desempenhe um papel relevante, ao analisarmos o gênero com maior profundidade, constatamos que a violência exerce funções variáveis e, em alguns casos, seu apelo dispersa-se no conjunto da trama: Por um lado, existem exemplos nos quais a violência não ocupa lugar central nas obras. Em outras palavras, o gaúcho não é representado como um facínora ou um criminoso em decorrência de suas ações violentas; pelo contrário, ele é valorizado tanto na diegese como pelo leitor e narrador. Assim, a presença da violência tem a finalidade de criar, ao mesmo tempo, um suspense narrativo e uma percepção estética desse acontecimento. Por outro lado, em outras obras, a violência aparece como tema central. Dependendo do ponto de vista, por seus feitos violentos, a figura do “gaúcho” pode ser associada às ideias de “mau” e “bárbaro”. Assim pode-se dizer que uma das finalidades é difamar a figura do “gaucho”.
        Além do mais, a violência nas obras não se limita apenas a forma física e pessoal; violência é um conceito mais amplo. Nas obras constata-se reflexões sobre a violência na construção da civilização (por exemplo: estruturas criadas para marginalizar certos grupos na sociedade; cf. Johan Galtung e o conceito da violência estrutural). Por exemplo, na obra O vaqueano, dentro da diegese, os autores procuram distanciar a realidade social dessa forma da violência – ou melhor, atribuem aos colonizadores à pecha de “violentos e ruins”, já que marginalizavam índios, negros e mulatos – e se reserva aos brasileiros, como povo, o direito de não se identificar com essa mentalidade. Além disso, o gaúcho é retratado como parte da sociedade que não se estrutura por meio da violência. Em outro exemplo, na obra Martín Fierro, o gaúcho e o índio são identificados como os outros: aqueles que não tem espaço na sociedade.
        O objetivo da comunicação será expor o complexo da violência dentro do gênero gauchesco. Com isso, pretende-se mostrar o tratamento diferenciado da temática da violência nas obras gauchescas brasileiras. Ao mesmo tempo, debate-se a percepção literária acerca da figura do gaúcho e da sociedade em comparação às obras rio-pratenses.

        Speaker: Deniz Özcan (Ruhr-Universität Bochum)
    • 17:00 18:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:00
        Por um pensamento Afropolitano: poesia e filosofia em Edimilson de Almeida Pereira 15m

        O intuito da presente comunicação é o de propor um diálogo entre a obra teórico/poética do professor, pesquisador e escritor mineiro Edimilson de almeida Pereira e o pensamento de alguns autores fundamentais da diáspora Africana, tais como os martiniquenhos Édouard Glissant (1928 – 2011) e Frantz Fanon (1925 – 1961), além do camaronês Achille Mbembe (1957–). Autor de uma vasta e importante obra crítico/literária, Edimilson de Almeida Pereira apresenta ao leitor uma poética singular e múltipla, que atravessa diversas temáticas como aquelas advindas da diáspora africana, da identidade, dos processos de socialibilização, do ser no mundo, e do diálogo intertextual e interartístico. Assim, compreendendo a poesia como uma forma de pensamento sensível, consideraremos as diversas intersecções e cruzamentos entre literatura e filosofia, ou seja, entre aquilo que o filósofo francês Gilles Deleuze nomeara de “plano de imanência” da filosofia, e “plano de composição da arte”. Neste sentido, o foco da nossa apresentação será o de ler a poesia do autor mineiro à luz dos pensadores citados anteriormente. Por fim, procuraremos investigar como a obra de Edimilson de Almeida Pereira também pode ser lida considerando o conceito de “Afropolitanismo” de Achille Mbembe. Segundo o pensador camaronês, o Afropolitanismo é uma maneira de ser no mundo que recusa toda forma de identidade vitimizadora, sendo igualmente uma tomada de posição política e cultural em relação à nação, à raça e à questão da diversidade em geral. Enquanto cultura transnacional, o Afropolitanismo nos auxilia a refletir sobre a poética de Edimilson de Almeida Pereira em sua abertura a uma visão mais global e planetária das questões concernentes à identidade e à Diáspora Africana no Novo Mundo. Para realizar tal leitura, consideraremos alguns poemas esparsos do autor, de épocas e estilos diferentes, como o longo poema intitulado “Caderno de retorno”, em que o autor propõe um diálogo com o Diário de um retorno ao país natal , livro seminal do poeta Aimé Cesaire, e os poemas do volume Qvasi, lançado em 2017

        Speaker: Michel Mingote Ferreira de Azara (USP)
      • 17:15
        Tópicos em Educação Antirracista: um projeto educacional na rede de ensino federal brasileira 15m

        O projeto educacional Tópicos em Educação Antirracista apresentou-se como ação de extensão com o objetivo de dar formação a professores, funcionários e alunos tanto da comunidade externa quanto do Campus Alvorada do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), para a prática de uma educação antirracista. Ancorados na Lei 10.639, discutimos temas e questões relativas ao racismo e à educação antirracista, tendo como ponto de partida textos de literatura brasileira de escritoras negras. Por conta da pandemia do Coronavírus e a necessidade de distanciamento social, o projeto foi realizado em dez encontros online semanais de duas horas de duração, mediados por tecnologias de rede, como os aplicativos Google Classroom e Google Meet. A ação de extensão justifica-se pelo fato de a cidade de Alvorada, na qual se localiza o câmpus, possuir a segunda maior taxa em homicídios de jovens negros do Rio Grande do Sul, violência que muitas vezes começa na escola, quando a mesma expressa em sala de aula o racismo institucional. Uma educação antirracista é aquela que permite que todos tenham sua identidade e história acolhidas no espaço escolar. Para isso, é necessário que todos os profissionais da educação compreendam como o racismo se manifesta afim de criar coletivamente um plano de ação para superá-lo. O projeto de extensão Tópicos em Educação Antirracista surgiu como uma ferramenta para a aplicação desse plano de ação. Os tópicos abordados foram diáspora negra no Atlântico Sul, racismo estrutural, racismo institucional, racismo aversivo, racismo recreativo, colorismo, apropriação cultural, amor afrocentrado, empoderamento negro, intolerância religiosa, feminismo negro e interseccionalidade. O projeto contou com 80 participantes assíduos, sendo 62% formado por pessoas negras, 63% com ensino superior e 71,3 % professores das redes municipal e estadual brasileiras. Em relação às regiões abarcadas pelo projeto, 36% dos participantes foram das regiões de Porto Alegre e Grande Porto Alegre (Alvorada, Viamão, Canoas, Guaíba, Gravataí e Cachoeirinha). Mas tivemos também participantes do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraíba, Bahia e Pernambuco, e também participante internacional, da Cidade do México. Os participantes se envolveram ativamente na construção do diálogo para a compreensão tanto das questões relativas ao racismo e às questões étnicos-raciais quanto das práticas educativas antirracistas que foram geradas a partir dos debates, debates alicerçados em textos teóricos e literários. Vários profissionais relataram mudanças em práticas didáticas a partir do conhecimento obtido no projeto. Dessa forma, o projeto contribuiu para uma prática educativa antirracista.

        Speaker: Giselle Maria Araujo
    • 17:00 18:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:00
        Lídia Jorge e as literaturas hispano-americanas: apontamentos a partir de discursos públicos 15m

        A escritora portuguesa Lídia Jorge é uma leitora atenta das literaturas hispânicas e uma verdadeira conhecedora da história e das culturas dos universos espanhol e hispano-americano. Por exemplo, em Agosto de 2019, escrevia no Jornal de Letras, num artigo intitulado «A vizinha amada»: «Não sei se a Galiza me chama, se sou eu que invento o seu chamamento. A verdade é que sempre que posso rumo a essas terras modernas que mantêm a antiguidade à vista, como se não quisessem desprender-se de um tempo distante, que os seus filhos invocam com morrinha e sentimento.» Nos ensaios e nas entrevistas que foi concedendo ao longo dos anos, são frequentes as alusões a figuras hispânicas como, os mexicanos Elena Poniatowska e José Emilio Pacheco, os argentinos César Aira e Julio Cortázar, o colombiano Gabriel García Márquez e o cubano José Lezama Lima, entre outros. Por outro lado, Notícia da Cidade Silvestre (1984) inicia-se com uma epígrafe do cubano José Martí e O Belo Adormecido (2004) com uma frase de Carlos Fuentes traduzida para português. Por sua vez, o conto «A prova dos pássaros» (incluído em O Marido e Outros Contos, 1997) tem como ponto de partida uma citação do argentino Jorge Luis Borges.
        Nesta comunicação pretendemos seguir pistas de diálogos e recepção dadas por Lídia Jorge em discursos públicos de aceitação de prémios literários, em particular o recente Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas 2020 (Feira do Livro de Guadalajara, México). Na cerimónia de entrega do galardão, em Novembro de 2020 (em versão online devido à pandemia de covid-19), a autora conta como, na sua infância numa aldeia do interior do Algarve, conheceu o «seu» Homero, Maria da Encarnação, uma idosa analfabeta. Afirma, então, que esta mulher «merecia, aos 17 anos, ter lido o romance Nada, da catalã Carmen Laforet, imaginando-se a jovem Andrea, a que deambulava pelas ruas de Barcelona na ressaca da Guerra Civil de Espanha, e ter podido ela mesma a escrever alguma páginas para lhe responder.» Trata-se da primeira referência às literaturas hispânicas neste discurso. Existem várias outras, especificamente hispano-americanas, esboçando as leituras que Maria da Encarnação deveria ter feito, como uma espécie de «leitora ideal» de livros como Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Cien años de soledad, de Gabriel García Márquez.
        Lídia Jorge recebeu o Prémio de Ficção do P.E.N. Clube Português (1998), o Prémio Jean Monet de Literatura Europeia (2000), o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (2002), o Prémio Correntes d’Escritas (2002), o Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores (2007), o Prémio da Latinidade da União Latina (2011), o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura (2014), o Prémio Vergílio Ferreira (2015), o Prémio Rosalía de Castro do Centro PEN Galiza (2020) e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de Guadalajara (2020), entre outros.

        Speaker: Isabel Araújo Branco (CHAM-Centro de Humanidades (FCSH, Universidade NOVA de Lisboa))
      • 17:15
        Aspetos Temáticos e Formais em Estuário, de Lídia Jorge 15m

        O percurso literário de Lídia Jorge, uma das grandes revelações no período pós 25 de Abril de 1974, época de democratização de Portugal, caracteriza-se por uma permanente procura de renovação, tanto no plano axiológico, como nos modos de narração e expressão. A par disso, a sua obra manifesta uma inquietação associada ao comprometimento social do escritor, no seu papel de testemunha da História mais recente. Esta faceta é particularmente visível na sua prosa, composta por romances e livros de contos, nos quais são questionados diversos aspectos da realidade contemporânea.
        É o que acontece na sua mais recente narrativa romanceada, intitulada Estuário, cujo enredo se centra no declínio de uma família que atravessa uma profunda crise financeira, o que obriga os cinco irmãos a regressarem à casa paterna no Largo do Corpo Santo, em Lisboa. O desmoronar da família é provocada por um negócio ruinoso, o que leva a desavenças entre os seus membros, culminando com o suicídio do patriarca, Manuel Galeano. O romance tem como personagem principal Edmundo Galeano, o filho mais novo, regressado de uma missão humanitária em campos de refugiados em África, com a mão direita decepada, mas decidido a escrever um livro, que denuncie o que será do mundo depois do apocalipse, prenunciando, assim, uma realidade futura.
        Do ponto de vista axiológico, para além das disputas diárias entre os irmãos Galeano, que têm a ver com a ocupação dos espaços da casa familiar, outros temas surgem explorados ao longo da diegese, com destaque para: a emigração, a fome e o desespero no continente africano; a ineficácia da ajuda humanitária nos campos de refugiados; as transformações climáticas e a poluição das águas de mares e oceanos devido a derrame de petróleo e a resíduos plásticos; a inoperância do Estado português relacionada com o negócio dos navios do clã Galeano. Merece atenção também a dimensão metatextual do relato, relacionada com a escrita do livro por Edmundo Galeano, com reflexões sobre o próprio processo literário e acerca da importância do livro na conjuntura cultural recente. Mais ainda, a intertextualidade está igualmente presente, uma vez que Edmundo recita e copia vários trechos da “Ode Marítima”, de Álvaro de Campos, e se inspira na obra de Homero, Ilíada.
        Se tematicamente é patente uma tentativa de diferenciação axiológica, o mesmo se pode afirmar relativamente ao modo de estruturação que Lídia Jorge adotou na sua narrativa. Em primeiro lugar, é subvertido o paradigma do género do romance clássico: alguns capítulos são construídos em forma de cenas, facto que evidencia influência de técnicas teatrais e cinematográficas. Em segundo lugar, cada capítulo tem por protagonista um dos irmãos Galeano e a exploração dos seus estados de espírito é feita mediante a mistura do discurso de um narrador externo com os pensamentos das personagens em forma de monólogos interiores. Deste modo, demonstra-se que o distanciamento, conseguido mediante a adoção de uma perspetiva neutra, é uma manobra falível, assumindo-se que a subjetividade é incontornável na arte de contar. Quanto à linguagem, assiste-se a uma versatilidade baseada na exploração de diversos registos discursivos, em especial do figurado e do judicativo, o que aponta para um seguro domínio de técnicas narrativas e para um estilo próprio, caracterizado pela originalidade e pela eficácia.

        Speaker: Prof. Petar Petrov (Universidade do Algarve - CLEPUL)
      • 17:30
        Reflexões sobre o processo da escrita: Lídia Jorge, José Luís Peixoto e João Tordo 15m

        Nos anos de 2018, 2019 e 2020, três autores portugueses de primeiro nível, Lídia Jorge, José Luís Peixoto e João Tordo, publicam umas obras cujo tema se centra numa reflexão profunda sobre o processo de escrita, os seus antecedentes e as suas consequências. São três textos, uns ficcionais, outros híbridos, nos quais os seus autores questionam o processo criativo e convidam os leitores destas páginas a acompanhá-los numa viagem por esse mesmo processo, as suas variantes, os seus jogos e os seus recursos mais pessoais.
        A reflexão proposta neste trabalho gira em torno de três eixos fundamentais, todos eles presentes nas obras Estuário (Lídia Jorge, 2018), Autobiografia (José Luís Peixoto, 2019) e Manual de sobrevivência de um escritor (João Tordo, 2020): 1) Qual é a função da literatura? Existe a inspiração? 2) Qual é a relação entre literatura e arte? Que jogos literários e intertextuais são mais frequentes nos últimos anos na literatura portuguesa? e 3) Qual é o papel do leitor? E do crítico literário?
        Por meio de narradores híbridos, cujos monólogos revelam em parte as bases estéticas e hermenêuticas necessárias à compreensão dos textos analisados, o leitor mergulha nas profundezas do solitário mundo do escritor. As observações metaliterárias que permeiam estas páginas conduzem ao terreno incerto e escorregadio da linha que separa a ficção do ensaio, e estes dois da autobiografia, e incidem na possibilidade de que o próprio escritor se torne uma entidade puramente textual, desconectada da realidade.
        Num diálogo permanente consigo próprios, com os seus leitores e com poetas e escritores de épocas anteriores, Lídia Jorge, José Luís Peixoto e João Tordo vão tecendo uma densa rede de significados em que a literatura se configura como um work in progress capaz de explicar a essência mais íntima e a trajetória vital do ser humano, por meio de textos que constituem um notável avanço na consciência da complexidade do processo de criação artística, qualquer que seja a sua linguagem.

        Speaker: Barbara Fraticelli (Universidad Complutense de Madrid)
    • 17:00 18:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:00
        A página sete: imagem e texto no Artes e Letras (1955) 15m

        Há uma tradição da presença da literatura na imprensa periódica, mas o tratamento da imagem tem uma história mais recente quando, em 1955, o Diário de Notícias inicia a publicação do seu suplemento Artes e Letras. Passara mais de meio século de experiências do tratamento de desenho e fotografia, tanto na imprensa generalista, como nas publicações ilustradas, em particular as revistas, mas não era ainda comum a presença da arte nos jornais de informação geral. O Artes e Letras correspondia às opções gráficas do jornal onde se inseria e devia ser um elemento de continuidade na leitura do jornal. Mas tinha, também, características diferentes, por força da sua temática. Este trabalho visa 1) mostrar o espaço que o suplemento construiu, em Portugal, para reflexão das artes e 2) apontar o lugar da imagem nesta página. Além da reflexão sobre as artes, interrogamos toda a relação entre o modo como a página apresenta o texto e os seus recursos visuais, desde logo os gráficos, mas também o desenho e a fotografia, que aqui ocupam um lugar diferente do que é ocupado no resto do jornal. Como corpus utilizaremos os suplementos publicados no ano de 1955.

        Speaker: Elizabeth Silva (Universidade Nova de Lisboa)
      • 17:15
        “por isso escrevo rescrevo cravo no vazio os grifos desse texto... e volto e revolto pois na volta recomeço”. Considerações sobre as formas do Barroco em Haroldo de Campos 15m

        Proponho uma reflexão acerca do projeto estético de Haroldo de Campos como uma singular prática barroca cuja leitura e uso dos códigos rebuscados surgem, em particular, em dois livros distintos entre si, i.e., a monografia sobre o poeta do século XVII Gregório de Matos e o livro-ensaio Galáxias (1984), mas também em muitas de suas transcriações. O poeta-crítico paulistano, sempre “recomeçando e rescrevendo”, ao apropriar-se da historicidade de textos fontes e longe das definições e paradigmas europeus que distinguem original e cópia, significante e significado, subscreve e subscrava, em Galáxias, os signos das tradições literárias, repensados e relidos como uma espécie de “arte da contraconquista”, enquanto transcriações assentadas na compreensão de uma escritura criativa brasileira e na convergência de vozes díspares e ex-cêntricas, compostas de signos em constante reelaboração e ressignificação, que admitem, paradoxalmente, pelo viés “Da razão antropofágica”, a vinculação à intencional falta de originalidade, de modo que o “escrito se expõe como excrito”. Trata-se ainda de interrogar como esse jogo astuto e rebuscado da re-criação de estruturas formais (barrocas) é capaz de proporcionar um pensamento crítico que amplia a possibilidade de indagar sobre o passado e suas relações com o presente.

        Speaker: Maria Aparecida Fontes (Università degli Studi di Padova)
    • 18:00 19:00
      Abertura Assembleia Geral 1h

      Atividade AIL - Abertura Assembleia Geral

    • 14:00 15:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 14:00
        Vozes femininas negras: resistência e luta em “Esse Cabelo” de Djaimilia Pereira de Almeida e “Olhos d’Água” de Conceição Evaristo. 15m

        No seu Ted Talk de 2014, “The danger of a single story”, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie lembra-nos o quão urgente é a criação de referências que dignifiquem as vidas e fortaleçam as identidades das meninas e futuras mulheres negras. De facto, nas sociedades pós-coloniais contemporâneas, as mulheres negras ainda sofrem múltiplas formas de opressão: s Em Portugal e no Brasil, as mulheres negras respondem a esta urgência através da escrita, que se torna numa fundamental ferramenta de luta e resistência, mas também num espaço de criação e renovação. E as obras Esse Cabelo e Olhos d’Água de Djaimilia Pereira de Almeida e Conceição Evaristo, respetivamente, inserem-se neste caminho criativo. Através da criação de vozes literárias claramente femininas e negras, não apenas contribuem para o seu empoderamento, mas também respondem à urgência de criar novos espaços de resistência e libertação dos padrões dominantes. Nas mãos destas duas mulheres negras, a escrita toma a forma duma voz rebelde e desafiadora que narra às vivências, olhares, perspetivas, mudanças de mulheres negras contemporâneas. Escritas e protagonizadas por mulheres, quer o romance de estreia de Djaimilia Pereira de Almeida, quer a coletânea de contos de Conceição Evaristo, focam o seu olhar no feminino negro como força, poder, ancestralidade, história e resistência.

        Speaker: Federica Lupati (CHAM, FCSH-NOVA Lisboa)
      • 14:15
        História e escrita de Angola: Eugénia Neto e Deolinda Rodrigues. 15m

        Abordando o tema da luta de libertação de Angola, as obras As nossas mãos constroem liberdade de Eugénia Neto e Langindila, Diário de um exílio sem regresso, de Deolinda Rodrigues, são ambas obras de autoria feminina escritas durante a Guerra Colonial. Respetivamente mulher e prima de Agostinho Neto, primeiro presidente de Angola, as duas jovens escrevem, entre os anos 60 e o início da década de 70, relatos na forma de contos ou de diário que testemunham uma reflexão profunda sobre o regime salazarista, a vigilância da PIDE, o exílio que ambas viveram, a resistência e a guerra. O objetivo da presente comunicação é, assim, o de levar a cabo uma reflexão sobre o papel da mulher, intelectual e guerrilheira, nas lutas de libertação, assim como no atual esforço de valorização das mulheres militantes do MPLA no contexto da Angola contemporânea, contrastando com a hegemonia masculina que dominou, durante várias décadas, a reconstrução histórica da luta anticolonial em Angola. Tanto Deolinda Rodrigues como Eugénia Neto recorrem a um género híbrido em que a escrita literária está indissociavelmente ligada à narração histórica das convulsas vicissitudes de Angola e de África na década de 60.

        Speaker: Noemi Alfieri (CHAM, FCSH-NOVA Lisboa)
      • 14:30
        Vidas Vividas no Feminino na Escrita de Alexandra Lucas Coelho. 15m

        Autora de literatura ficcional e de viagens, a escrita de Alexandra Lucas Coelho centra-se frequentemente em espaços em mudança durante tempos de crise em que os conflitos emergentes revelam que a história é um fluxo contínuo. Tudo está ligado e o presente sucede sempre a escolhas e erros do passado – seja eles governos autoritários que se prolongaram no tempo, a incompreensão face ao espaço não ocidental, a exploração do homem sobre o homem e a estruturação de sociedades poscoloniais - que devemos enfrentar para que o porvir seja um tempo de esperança. Quer seja as narrativas que resultaram das suas viagens enquanto jornalista correspondente quer sejam as de ficção revelam a complexidade de uma escrita que resulta das leituras acumuladas e de saberes de experiência vividos. A escrita de ficção sedimenta-se sobre o muito que viu e viveu enquanto jornalista e a escrita de viagens não se dissocia das leituras da autora sobre os lugares e as pessoas que ajudam a descodificar as complexidades culturais. Na obra de Lucas Coelho, as mulheres com quem a jornalista se cruzou são mulheres fortes, dispostas a desafiar estruturas patriarcais e posições sociais periféricas, e como personagens, protagonistas do seu próprio destino, são construções literárias que dialogam com outras personagens da literatura. Esta comunicação discute a centralidade da figura da mulher na obra desta autora e o seu papel combativo em momentos de crise ao mesmo tempo que contraria a persistente visão masculina hegemónica sobre a história.

        Speaker: Margarida Rendeiro (CHAM, FCSH NOVA Lisboa)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Para um arquivo da cidade de Luanda e dos seus habitantes: Uanga- Feitiço de Oscar Ribas. 15m

        Abstract- A partir do final dos anos 40, no cenário literário angolano surge a necessidade de expressar nos textos e nas obras aquele sentimento “que falava de um mundo que ia para além do mundo colonial” (Vecchi R., Ribeiro M.C., 2015).
        As diferentes vozes reunidas em jornais e movimentos, como o exemplo de «Vamos Descobrir Angola» de vários intelectuais, irão manifestar a consciência de ser angolano e o sentimento anti-colonial.
        Se por um lado o papel da poesia na literatura angolana é a que predomina nessa fase de transformação total, o presente trabalho tem por objetivo aprofundar a obra do escritor Oscar Ribas e o seu papel na formação do romance em Angola.
        Figura central na ficção literária moderna angolana, caracterizado pela ambivalência do seu pensamento dividido entre o discurso da civilização ocidental cristã e a proposta da nocão da angolanidade (Hamilton, 1975), Ribas representa também um intelectual à procura de um papel de mediação entre as vozes empenhadas na missão de Descobrir Angola e as perspectivas coloniais da metrópole (Chaves 1999, 2015). A análise concentrar-se-á na obra Uanga- Feitiço (1951) cujas temáticas são o folclore, a vida dos indígenas, a cidade de Luanda como possibilidade de reflectir sobre literatura, romance e etnografia.
        Se a escrita colonial tem reivindicações etnográficas na tentativa de moldar e arquivar as visões dos habitantes nativos em sujeitos que pertencem as culturas monolíticas e atemporais (Tomás, 2005:124) - em que a centralidade total é dada ao habitante branco da colônia e aos topos das viajens e das campanhas de ocupação- interessa-nos situar o trabalho de Ribas, a quem “se deve a recolha mais valiosa da literatura oral africana da região de Luanda” (Ervedosa, 1979:11). Nesse cenário, Uanga-Feitiço permite-nos ir à procura das marcas das literaturas nacionais emergentes através de um retrato pormenorizado da sociedade africana (Ervedosa, 2015:29) e ver os novos imaginários no “documentário da sociedade negra inculta”(Ribas,1951:19)
        Definido por Laranjeira como um memorialista colectivo e guardador de memórias, e por Hamilton como documentador de tradições minguantes (Hamilton,1975), Ribas apresenta as vidas, os costumes e as tradições dos luandenses em finais do século XIX e ajuda-nos a imaginar a relação entre arquivo, literatura e auto-etnografia (Chaves 1999, 2015; Pratt 1992). Dentro das contradições das sociedades coloniais, o trabalho de Ribas, enquanto intérprete da cultura e da valorização angolana, pode-nos ajudar em repensar a complexidade da relação entre história, identidade nacional e cultura.

        Speaker: Francesca De Rosa (Unior Napoli)
      • 14:15
        ‘meu musseque, as mil cores de gentes, mil vozes’: O musseque cosmopolita de José Luandino Vieira 15m

        ‘Porque no nosso musseque tinha assim esses cangundos e brancos-de-famorosa; tinha mulatos-sem-santo, sungaribengos e ‘verdianos até,’ conta-nos o narrador epônimo de João Vêncio: os seus amores, novela escrita pelo angolano José Luandino Vieira (1935–) em 1968, enquanto estava preso no Campo de Concentração do Tarrafal. O musseque descrito por João Vêncio é um espaço heterogêneo, habitado por personagens de diversas nacionalidades e etnias, e que falam diversas línguas. De acordo com Patrick Chabal, ‘the musseques are an urban milieu, an area of great social, cultural and linguistic mix’ [os musseques são um milieu urbano, uma área de grande mistura social, cultural e linguística], e que, por consequência, constituem ‘a modern and, in its own way, cosmopolitan environment’ [um ambiente moderno e, à sua maneira, cosmopolita]. Este ambiente é central na obra de José Luandino Vieira em termos de sua importância temática e política, como é possível ver em obras como Luuanda (1963). Porém, este ambiente é, sobretudo, central para Luandino Vieira em termos de suas potencialidades linguísticas.

        Pretende-se, na comunicação proposta, desenvolver uma análise da forma através da qual o musseque luandense – campo de investimento político e estético da obra luandina – é retratado como um local de caráter cosmopolita pelo escritor angolano. Tomando como principais estudos de caso a novela João Vêncio: os seus amores e a coletânea de contos escritos entre 1970 e 1971, Macandumba, esta análise terá três objetivos principais.

        Em primeiro lugar, demonstrará como o elenco de personagens de cada uma destas obras – compostos de angolanos das províncias de Luanda, Kwanza Norte, Huambo e Benguela; imigrantes cabo-verdianos e são-tomenses; bem como colonos portugueses – reflete a diversidade demográfica da capital angolana nas décadas de 1950 e 1960, com base nos estudos urbanísticos de Ilídio do Amaral.

        Em segundo lugar, demonstrará, através de close-readings, a forma através da qual a diversidade demográfica da capital angolana é registrada textualmente em ambas as obras por meio da incorporação das múltiplas línguas e registros – ‘as mil cores de gentes, mil vozes’ – dos elencos transnacionais de José Luandino Vieira.

        E, em terceiro lugar, ao colocar em primeiro plano o caráter cosmopolita do musseque, esta comunicação irá fornecer uma recalibração das abordagens críticas ao multilinguismo na obra de José Luandino Vieira – abordagens críticas estas que tendem a enfatizar a relação entre o português e o kimbundu, em detrimento da pluralidade linguística do musseque.

        Speaker: Georgia Nasseh (University of Oxford)
      • 14:30
        Exu mediador. Circuitos transnacionais de comunicação simbólica das religiões afro-brasileiras 15m

        Orixá da comunicação, mediador entre as duas dimensões da existência – o Orun, o céu, e o Aiyé, a terra –, Exu é sempre o primeiro que recebe os sacrifícios nos terreiros de candomblé para que esteja favorável à comunidade dos praticantes, levando aos deuses as rezas e suas oferendas, e do momento que, sendo um trickster imprevisível, sempre está pronto para escarnecerem-se dos homens.
        Diante dos processos de transnacionalização das religiões afro-brasileiras que, desde a década dos ’70, difundem-se na Europa abrindo aqui novas casas de culto e obtendo novos iniciados, Exu dinamiza as trocas e a ressemantização. Durante uma festa de umbanda que lhe foi dedicada em um terreiro de candomblé às portas de Lisboa, na frente de um participante estrangeiro que não entendia o português dele, demasiado e irreverente, foi Exu mesmo a declarar rindo, sem parar de beber o whisky do copo que tinha entre as mãos: “Vou ter que virar internacional!”. Portanto Exu encarrega-se pessoalmente da mediação entre os participantes do Atlântico negro, no espaço supranacional de circulação que liga três continentes: a África das origens, o Brasil onde estes sistemas religiosos se estruturaram, e enfim os territórios europeus de relocalização. Exu activa assim os circuitos de comunicação e as dinâmicas de mobilidade entre os países que, mesmo tendo idiomas diferentes, são implicados nestes fluxos transnacionais do capital simbólico do candomblé e da umbanda. Em Paris por exemplo, os Exus e as Pombagiras, entidades que se manifestam nos corpos dos seus médiuns em um terreiro estabelecido na década dos ’90, consultam os participantes da gira em francês; com estes últimos, eles estabelecem um diálogo produtivo: não somente as entidades ajudam os praticantes respeito aos problemas pessoais – financeiros, profissionais e sentimentais –, mas contribuem também a explicar o sistema de senso que as religiões afro-brasileiras oferecem aos seus aderentes para orientar a vida deles.
        Minha comunicação quer então discutir sobre a importância da mediação linguística e cultural de Exu que, brincalhão e festoso, capaz de envolver e divertir o público que participa às festas e às giras de umbanda, de distrair-los e lhes rasgar uma gargalhada, usa formas de comunicação que suportam os processos de transnacionalização religiosa: ele é o tradutor que permite a troca de informações e a importação de significados provenientes de outros contextos. Em seguida vou refletir sobre a geral eleição da umbanda no momento da relocalização religiosa nos países europeus. Isso acontece, em particular, por duas ordens de razões que abrangem os problemas de comunicação abordados pelos pratiquantes fora das fronteiras do Brasil. De um lado, uma grande importância assume, na prática religiosa, o diálogo oral direto que é possível com as entidades da umbanda, enquanto não acontece com os orixás do candomblé os quais, mesmo durante os episódios de possessão religiosa, não falam com os homens; do outro, a acessibilidade do culto em português — se não, graças a flexibilidade da umbanda, nas línguas nacionais dos países implicados — é central, do momento que, contrariamente, no candomblé utiliza-se o yoruba ou o kimbundu.
        O português portanto, nos circuitos de comunicação abertos por Exu que os rege, torna-se a língua ritual internacional de uma religião que vai se inscrever nas dinâmicas do mundo globalizado.

        Speaker: Sara Clamor (EHESS)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Letras Simbólicas e Sibilinas: a obra do Frei Rafael da Purificação nas Minas Gerais 15m

        O tema das sibilas – as profetisas pagãs que sobreviveram no mundo cristão – tão frequentemente representado na Europa e especialmente na Itália, foi extremamente raro na colônia portuguesa da América. Nas Minas Gerais, único local onde as sibilas foram representadas no período colonial, elas aparecem no teto de uma igreja e maciçamente em véus quaresmais usados na liturgia da Semana Santa. Cada Igreja colonial possuía ao menos dois véus adornados com sibilas. Na busca do caminho percorrido por essas figurações, entre Portugal e a colônia, está um livro raro mesmo em terras lusitanas: Letras Simbólicas e Sibilinas, Obra de toda erudição Sagrada e Profana, de 1747, impresso em Lisboa por Francisco da Silva, de autoria de Frei Rafael da Purificação. Um volume desse livro se encontra na Biblioteca do Seminário Sagrado Coração de Jesus em Diamantina e foi restaurado em 2013. Franciscano da Província de Santo António do Brasil, Frei Rafael nasceu em Matosinhos no ano de 1691, e faleceu no convento da Bahia em 1744. Foi mestre em Teologia e Artes e Comissário da Província de Pernambuco. Associando as letras simbólicas ou hieroglíficas àquelas que solitariamente têm equivalência a palavras ou mesmo sentenças inteiras, as trata também por sibilinas porque aquelas profetisas usaram de letras isoladas no seu mister. O livro trata longamente das sibilas e dos seus vaticínios. Apresentando tanto autores que absolutamente afirmam a existência das sibilas e a validade das suas predições; quanto aqueles céticos que duvidam; e também os que as negam com veemência, o autor se isenta de apresentar sua posição e deixa ao leitor a escolha. As sibilas foram incorporadas pelo cristianismo desde os primórdios, com os padres apologistas. Definitivamente legitimadas por Santo Agostinho, tiveram um sobrevivência profícua e imperturbada na Igreja Católica até à era moderna. O século da ciência moderna traria muitas críticas quanto às profecias sibilinas. Diversos eruditos não hesitaram em tentar demonstrar que se tratava de pura invenção. A partir do final do século XVII os oráculos sibilinos foram sendo desmistificados e por volta de 1694 tornaram-se a base de um jogo para a sociedade nos Países Baixos. A profecia se tornou um gênero literário de divertissement própria dos almanaques. Não foi, no entanto, sem reação que os ataques sofridos às profecias sibilinas circularam. Exemplo disso, em 1678, Jean Crasset, pregador jesuíta, em sua Dissertation sur les Oracles des Sybilles fez a apologia dos oráculos sibilinos, atacando diretamente as críticas feitas por autores como Blondel. Não se sabe o ano exato em que o Frei Rafael da Purificação escrevera as Letras Simbólicas e Sibilinas, pois foram editadas postumamente. No entanto, o século XVIII havia já passado pelo crivo da ciência moderna e pela difusão da descrença nas sibilas relegando-as ao status de superstição. Foi, entretanto, naquele século que as sibilas foram representadas na colônia portuguesa da América, ainda que sua presença em Portugal se mostrasse escassa. A presença ali do raro livro do Frei Rafael aponta para uma consistência do tema escolhido, ainda que não lhe faça apologia. Pretendendo ser isento e sendo muito consistente na abordagem dos autores céticos e negativos, ao mesmo tempo, o livro legitima fortemente a presença das sibilas, na medida em que se dedica àquelas profetisas em mais de 500 páginas.

        Speaker: Maria Magnani (Universidade Federal dos Vales do Jequtinhonha e Mucuri, Brasil)
      • 14:15
        Modulações e dissonâncias no projeto romântico abolicionista de Maria Firmina dos Reis 15m

        O presente trabalho propõe uma reflexão sobre o contexto em que o romance Úrsula foi publicado, em 1859, embora já estivesse pronto desde 1857, situando-o na tradição romanesca brasileira e concebendo-o como um precursor da literatura afro-brasileira. A obra se notabiliza entre as primeiras do gênero romance, no Brasil, e coincide com a popularização da imprensa, através da disseminação de periódicos pelo país. Esse aspecto conduz a uma discussão sobre a obra Úrsula e a sua autora, Maria Firmina dos Reis, considerando a formação do romance brasileiro e a influência determinante recebida dos romances de folhetim estrangeiros. Como, no século XIX, o romance caminhou junto com a imprensa periódica, problematiza-se a recepção crítica da obra em questão nos jornais maranhenses e busca-se entender o que o romance revela acerca do contexto romântico e dos problemas sociais daquela época. Nesse sentido, o trabalho analisa a obra em relação aos modelos e aos projetos estéticos do Romantismo. Assim, pretende-se evidenciar que o romance se constrói em diálogo com os modelos e os gostos do seu tempo, ao mesmo tempo que promove modulações e dissonâncias que rasuram os projetos românticos. Destaca-se, ainda, que o fato de Maria Firmina dos Reis levar ao prelo a publicação de um romance em uma província distante do Rio de Janeiro, ambientando-o em um contexto pastoril, é algo sui generis em relação às publicações de romances brasileiros de até então. Considerando-se o projeto estético e ideológico desse romance, verifica-se uma postura abolicionista, tecida na obra por uma consciência autoral, a partir das vozes enunciativas. Nessa perspectiva, a obra se constrói em estreita conexão com o momento histórico, apresentando a problemática do negro e da escravidão de uma maneira diversa e, até, inédita. O projeto de nação, caro ao Romantismo e encenado em Úrsula, é a própria representação da nação das margens: uma história da escravidão que se constrói nas bordas e no interior da narrativa. Trata-se de uma nação vista a partir das margens, espaço no qual a autora se coloca para construir a história, e a partir de onde ela encena e delineia a sua perspectiva. Além disso, essa é uma nação de ruídos e de murmúrios, que se levantam contra a harmonia idealizada. Acerca do modo como a autora desenvolve a sua forma narrativa, procura-se destacar o aspecto dissonante, configurado pela inclusão do testemunho do escravizado na diáspora, que é elaborado sob o ponto de vista do “mártyr”, no sentido pleno dado pela origem dessa palavra, em grego. Entende-se que o conteúdo do romance e a escrita feminina resultam em um duplo atrevimento, evidenciando a postura audaz de uma autora que rompe com os paradigmas daquela sociedade, especialmente ao romper com o espaço reservado à mulher. Esta análise parte, portanto, da hipótese de que Maria Firmina dos Reis, ainda que utilize modelos e estruturas canônicas em voga no Romantismo, a exemplo do elemento folhetinesco, promove modulações para criar uma obra original, dissonante, com marca própria na literatura brasileira. A pesquisa lança mão de um aporte teórico ancorado em Duarte (2017), Bory (1966), Meyer (1996), Bakhtin (2015), Candido (2002), Sommer (2004) e Bhabha (2013).
        Palavras-chave: Maria Firmina dos Reis. Romantismo. Abolicionismo. Autoria feminina.Dissonância.

        Speaker: Karina Calado (SEE/PE)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Medievalismo e Imagologia: Imagens do eremita na ficção de Aquilino Ribeiro 15m

        O medievalismo, tal como Tom Shippey (2009), uma das figueiras cimeiras do seu estudo, o concebe, diz respeito a “Any post-medieval attempt to re-imagine the Middle Ages, or some aspect of the Middle Ages, for the modern world, in any of many different media; especially in academic usage, in the study of the development and significance of such attempts”, e incorpora, sob a mesma designação, obras artísticas e disciplina académica. A discussão conceptual da disciplina tem-se centrado, com variações, em torno destas componentes. Os quatro modelos de receção da Idade Média propostos por Gentry e Müller (1991), isolam a receção criativa da Idade Média, separando-a do estudo académico, por exemplo. Ancorada neste recorte epistemológico, pretendo estudar as imagens do eremita em São Banaboião, um romance hagiográfico* que Aquilino Ribeiro escreveu em 1937 e, com base nos estudos de medievalismo, identificar as necessárias diferenças entre os dois períodos históricos, a saber, a reflexão sobre a alteridade – como um Outro espacial, cultural e linguístico –, e as permanências de cada mundo, condições sine qua non deste enfoque. Tal proposta, aproxima naturalmente os estudos de medievalismo da abordagem teórica da literatura comparada (Nichols et al., 2006; Gally et al., 2014). Usada para desvelar ou sublinhar a imagem do Eu que observa (o auto-imagotipo, segundo Siebenmann (2003)), desocultada sob o Outro observado, ou seja, o hetero-imagotipo, a imagologia, enquanto ramo dos estudos comparatistas (Beller, 2007), oferece uma forma especial de questionar o texto ou de o olhar, descobrindo imagens literárias improváveis ou problemas ainda por resolver. Por seu turno, a comparação com o passado, visto como um alhures ou um país estrangeiro, pode revelar, simultaneamente, tanto o medieval como o Outro contemporâneo, pelo que cumpre identificar o que pertence a esse passado e o que descobre a alma, as preocupações, os valores do tempo presente.E São Banaboião surpreende o misto de ironia e de ternura com que o narrador modela tanto o protagonista quanto Paphnuce, ambos numa luta tensional entre o modelo dos padres do Egito e as pulsões da carne, replicando em esgares de sofrimento extremo ou em intenso gozo erótico as tentações que assolaram eremitas orientais como Panúncio e Taís, Jerónimo e Paula e Egipcíaca e Zózimas. As imagens de humanidade e caricatura com que o autor desenha os seus rústicos eremitas são subsidiárias da sua leitura apaixonada de Anatole France, nomeadamente, do romance Thaïs, que, juntamente com a hagiografia eremítica, constitui um importante hipertexto da ficção aquiliniana.
        Com estes pressupostos, procurar-se-á perceber o potencial de atração que o monaquismo egípcio exerceu num Aquilino sempre fiel à legenda sagrada, o modo como a composição dos eremitas refletem o presente do autor e o seu pessimismo.

        Speaker: Ana Maria Machado (Universidade de Coimbra)
      • 14:15
        Às margens do Douro: espaço literário e personagens femininas nos romances de Agustina Bessa-Luís 15m

        Aqueles que se dedicaram à leitura dos romances de Agustina Bessa-Luís certamente sabem que o espaço ficcional, mais precisamente o espaço duriense, serviu-lhe de fecunda fonte de inspiração e de trabalho. As páginas da escritora conduziram os olhares de seus leitores a Entre-Douro-e-Minho, em A Sibila (1954), a Viseu em Eugénia e Silvina (1989) e ao Nordeste Transmontano em Vale Abraão (1991), para citar apenas alguns de seus volumes nos quais as margens do Douro constituíram espaço ficcional oportuno para a revelação de personagens femininas esfíngicas, transgressoras e desestabilizadoras da fábula romanesca.
        Escreveu a pluma de Agustina sobre um espaço literário recheado de enigmas, inseparáveis do contexto a que pertencem: o das figuras rurais nortenhas, do ambiente rústico, da ideia de propriedade, da colheita, das superstições, das genealogias e das relações de subalternidades. Se, numa ponta, tais motivos mostram-se alicerces cruciais para a expressiva materialidade pictórica que a narrativa da escritora apresenta, noutra revelam-se fortalecedores das personalidades femininas de sua ficção.
        Abundantes são as relações entre as mulheres e o espaço da natureza, dentro da narrativa agustiniana. A presença de flores e de jardins é exemplar desse fenômeno, não como a construção de uma panóplia floral no texto, mas pelo vigor das interações femininas com o universo paisagístico criado por Agustina. Entretanto, o elemento de maior potência, quando se considera a obra literária da autora, é a água. O Douro exerce, sobre as habitantes de suas margens, força particular, sobrenatural, trágica ou até mesmo demoníaca. Defendemos aqui que, à semelhança do líquido amniótico intra-uterino, as águas do Douro alimentam a potência das mulheres ficcionais e contribuem para a unidade da obra de Agustina. Por isso, constatando uma inseparabilidade entre as características sibilinas de Quina, os trágicos desfechos de Fanny Owen (1979) e de Ema Cardeano Paiva, ou o parricídio cometido por Silvina, e a caracterização do Douro enquanto espaço habitado dessas personagens, o que propomos nesta comunicação é uma reflexão panorâmica da literatura agustiniana, na qual correlacionaremos a construção do espaço nortenho, privilegiado pela presença do rio, e a elaboração das personagens femininas.
        Como objetos de análise, serão utilizados os romances A Sibila, Fanny Owen e Vale Abraão, pela significativa influência do Douro e porque as suas protagonistas reverberaram em outros textos da autora, tais como As Metamorfoses (2007) e o diálogo dramático Três mulheres com máscara de ferro (1998). Por fim, o repertório que orientará a nossa leitura pertence ao cosmorama crítico da autora, a exemplo de Álvaro Manuel Machado, Catherine Dumas e Maria do Carmo Mendes, além de amparar-se em referências teóricas fundamentais, como As formas do tempo e do cronotopo, de Mikhail Bakhtin e os estudos magistrais de Gaston Bachelard acerca das possibilidades interpretativas do espaço e da água na literatura.

        Speaker: Prof. Fernanda Barini Camargo (Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Campus de Araraquara).)
      • 14:30
        As sombras do grotesco fado: a distorção em Fado de José Régio 15m

        Dentre a miríade de estudos e perspectivas sobre a obra poética de José Régio gostaríamos de destacar a leitura de Antonio Manuel Ferreira que em um breve e rico ensaio intitulado “Traços da distorção na poesia de José Régio” aponta para “um estética do claro-escuro, havendo, em certas obras, uma nítida tendência para privilegiar as matizes menos luminosas” (FERREIRA, 2002, p. 26). Estética essa anteriormente destacada por Eugénio Lisboa, mas que em Ferreira (2002) é entendida como desdobramento da tendência à distorção presente na obra do autor de Cântico Negro.
        O livro “Fado” de 1941 parece pertencer a essas obras em que Ferreira (2002) encontra um privilégio das matizes menos luminosas, basta indicarmos que para além de textos como Fado das ruas sem sol encontramos diversos versos cuja referência é a ausência da luz no espaço físico ou mesmo emocional dos seres mencionados ao longo dos textos. Concomitantemente com essa estética da sombra, encontramos um destaque ao silêncio ( Fado do silêncio ou ainda Fado-canção) e à própria animalidade do divino-humano (Fado dos pobres ou mesmo Fado dos ferros). Desta forma, procura-se elucidar de que maneira a articulação entre o jogo de sombras e os contrastes indissolúveis presentes nos poemas constroem a distorção do mundo, desdobrando-se em um efeito de sentido grotesco presente nos textos.
        Importante ressaltar que em seu estudo sobre a obra de Régio Ferreira (2002) discorre sobre a possibilidade de filiação da obra reginiana à correntes estéticas como o expressionismo, para-expressionismo ou maneirismo graças à distorção aí presentes e também encontradas nessas mesmas correntes, vindo pois a articular a perspectiva da distorção a um conceito mais abrangente que correntes estéticas-literárias: o grotesco. Segundo o estudioso, a distorção “é igualmente um elemento essencial do grotesco” (FERREIRA, 2002, p. 28)
        Wolfgang Kayser em seu estudo “O Grotesco” (1957) discorre sobre a história e a plasticidade do conceito em sua aplicação na pintura e na literatura. Segundo o crítico um dos elementos centrais definidores do grotesco na modernidade será sua indissolução, ou em suas palavras: “Nenhum elemento sublime em si, ou grotesco em si, é unido num todo ‘belo’ e ‘dramático’, pois o grotesco é justamente contraste indissolúvel, sinistro, o que-não-devia-existir” (KAYSER, 2013, p.61).
        Por sua vez, a estética da sombra foi brilhantemente elucidada por Junichiro Tanizaki em seu ensaio “Em louvor da sombra” (1933) onde ele afirma que a cultura oriental, diferentemente do ocidente, desenvolveu “a capacidade de (...) compreender o mistério das sombras e usar o claro-escuro com propriedade e engenho” (TANIZAKI, 2017, p. 39). Destaca-se, segundo o autor, a capacidade dos japoneses em utilizar as sombras e o espaço vazio para criar “profundeza e sutilidade”; que por sua vez causavam no escritor um “indizível, enregelante pavor” (TANIZAKI, 2017, p.40). Ambos os estudiosos mencionados, fazem-se importantes para a leitura da obra do poeta português uma vez que definem e articulam elementos centrais para melhor entendermos a estrutura e o funcionamento da distorção indicada por Ferreira (2002).

        Speaker: Rafael Rigoni (Universidade Federal do Paraná)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Os rascunhos dramáticos inéditos de Xohán Casal: pensamento, estética e desígnios 15m

        No contexto da repressão franquista e fora do âmbito dos círculos galeguistas compostelanos, o corunhês Xohán Casal (1935-1960) escreveu em galego vários delineamentos de peças teatrais que se conservam no seu espólio documental, guardado pela Real Academia Galega. Nesta comunicação são apresentadas as transcrições desses trechos e analisadas as linhas estéticas e as influências de outros autores presentes nos textos, bem como a reflexão do autor sobre as formas que a literatura galega deveria adoptar naquele momento. Por fim, são contextualizados os fragmentos preservados no quadro geral do seu projeto «Teatro do 36».

        Speaker: Carlos-Caetano Biscainho-Fernandes (Universidade da Coruña)
      • 14:15
        A arte portuguesa pelo mundo: Robert C. Smith e o estudo e divulgação da vocação artística lusitana dos séculos XVII e XVIII 15m

        Robert C. Smith (1912-1975), historiador de arte norte-americano, construiu grande parte da sua carreira de académico e investigador alicerçada nos estudos da arte de expressão portuguesa, que empreendeu no nosso território e no Brasil, desde 1937. Formado na Universidade de Harvard, em Boston, pertenceu ao grupo de estudiosos da cultura latino-americana dessa universidade e de outras instituições dedicadas ao tema, chegando a ser presidente da Hispanic Division, sediada na Biblioteca do Congresso, em Washington. As suas teses de licenciatura e de doutoramento foram dedicadas, respetivamente, à Capela de São João Baptista da Igreja de S. Roque, de Lisboa (foi ele que descobriu na Biblioteca da Regia di Caserta, em Nápoles, os desenhos do arquitecto Luigi Vanvitelli destinados à Capela) e ao Palácio-Convento de Mafra. A sua vinda a Portugal em 1940, como representante dos EUA nas conferências integradas na “Exposição do Mundo Português”, abriu-lhe as portas para os contatos com as elites intelectuais do tempo, nomeadamente historiadores de arte, diretores de museus e bibliotecas e mecenas endinheirados. O seu reconhecido amor a Portugal e à arte portuguesa, confirmado, em primeiro lugar, pelo domínio da língua falada e escrita, fomentou também os alicerces da boa convivência com as populações dos locais onde levava a cabo as suas pesquisas, sendo sempre bem recebido e sendo-lhe sempre facultados todos os acessos a monumentos, arquivos, bibliotecas, etc.
        A construção da sua obra dedicada à arte portuguesa foi, em grande parte, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), através de bolsas de estudo, publicação de obras suas e outras ajudas de custo. Não é por isso de admirar, que no seu testamento tenha legado à FCG todo o seu espólio de trabalho, bem como as condecorações que recebeu, tanto em Portugal, como no Brasil. Este acervo, que cobre cerca de 40 anos da vida profissional de Chester Smith, está neste momento a ser alvo de estudo, integrado no meu projeto de investigação, que decorre no Instituto de História da Arte da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, intitulado “O legado de Robert C. Smith: novas perspetivas para a História da Arte em Portugal”.
        Nesta comunicação pretendo analisar e problematizar o papel que Robert C. Smith desempenhou no estudo e divulgação da arte portuguesa de seiscentos e setecentos e como as suas obras pioneiras deram a conhecer a Portugal, ao Brasil e ao mundo uma área de pesquisa, a da arte barroca, que estava praticamente virgem de investigação e ignorada no seu valor nacional e internacional. Ao publicar em Portugal e no estrangeiro em vários suportes, desde os jornais locais, às revistas científicas e aos livros, abriu um campo de estudos, que tantos investigadores têm prosseguido, desde o seu desaparecimento em 1975.
        Dentro da mesma linha de abordagem será considerado e analisado o grau de relevância que o legado do seu espólio representa para o estudo e divulgação da sua obra e para o avanço científico desta área de estudos. É de salientar, que Smith deixou inéditas várias obras, que se pretendem publicar no âmbito do projeto acima referido. Por fim, o impacto das suas disposições testamentárias, que pretendemos apresentar em primeira mão, confirmam o espírito do homem e a sua visão sobre o seu legado.

        Speaker: Prof. Sílvia Ferreira (Instituto de História da Arte/FCSH/NOVA)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 15:00
        Europa Pós-Imperial 15m

        A comunicação aborda o tema conceitualmente denso do “pós império” numa perspetiva europeia em particular referida ao tema da memória disputada do passado colonial. Neste sentido, ao lado da literatura, as artes estão a desempenhar um papel fundamental para traçar o arco da memória contemporânea e estão a articular uma memória continental, cujo rasto se encontra permanentemente em risco. Na reconstrução filológica deste quadro emerge a relevância do cinema que contribui, pelo seu potencial de penetração no imaginário, para rever algumas imagens estereotipadas do passado imperial europeu ao introduzir elementos críticos que influenciam a coagulação de uma outra memória pós-imperial. Um outro campo essencial para a refundação crítica de imagens sobre um passado imperial frequentemente recalcado, tem vindo a ser representado pelo papel das redes de intelectuais pós-coloniais europeus.

        Speaker: Prof. Paulo De Medeiros (University of Warwick)
      • 15:15
        Fantasmagorias do não retorno: Portugal e a nostalgia colonial 15m

        A nostalgia colonial representa um dos legados macroscópicos da experiência histórica da Europa e de Portugal, em particular no último império africano. A possibilidade de citar o passado colonial introduz a questão da possibilidade de só se poder citar um passado fechado ou aberto. A nostalgia colonial pelas suas tangências com outros sentimentos da perda, como a melancolia, mas sobretudo, no caso de Portugal, a saudade, proporciona materiais fundamentais ao imaginário português contemporâneo, não apenas no universo literário mas também no cinema, nas artes visuais, na música.

        Portugal configura-se hoje como um grande museu ou arquivo de passados coloniais dispersos. A memória pública, ainda pouco elaborada, continua a alimentar um fantasma do retorno ao passado africano. Esta fantasmagoria tem-se tornado o poderoso combustível de uma produção cultural de amplo consumo, ao mesmo tempo que encontra, sobretudo na internet 2.0, um repertório infinito de lugares (virtuais) de contemplação e revisão. São estes re-usos e citações falaciosas que são hoje responsáveis pela formação das memórias e das pós-memória coloniais no Portugal contemporâneo

        Speaker: Roberto Vecchi (Universidade de Bolonha)
      • 15:30
        Europa e a imaginação do centro: as heranças ocultas 15m

        A história colonial europeia não é assumida como algo que faça parte da nossa identidade de europeus. O estudo das heranças do colonialismo, das guerras coloniais e das descolonizações mostram essa inscrição complexa, velada ou até ausente, resultado mais de uma pressão social e política, do que da efetiva construção de uma história comum e compartilhável. Como é que esta herança é transmitida para as gerações seguintes? E como é por elas reelaborada? No presente trabalho abordo o conceito de filhos e de gerações seguintes a partir da ideia de “cultura de descendentes”. Neste contexto, o “fim da história de regressos” e a Europa em trânsito e em processo de descolonização de si própria, permitem-nos olhar os processos de descolonização como o primeiro ato de restituição. A restituição como descolonização manifesta-se através da pós-memória. Os géneros da pós-memória serão analisados no estudo de três casos literários (Portugal, França e Bélgica).

        Speaker: Margarida Calafate Ribeiro (CES UC)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Reflexos do presente europeu no Shakespeare africano de Kiluanji Kia Henda 15m

        A obra do artista angolano Kiluanji Kia Henda vem carregada desde o começo por uma intertextualidade que, se por um lado pode ser interpretada no mais amplo contexto da prática da arte contemporânea – a qual tem na investigação conceptual, no uso de diferentes linguagens expressivas numa mesma obra e na estratificação de significados as suas marcas mais caraterísticas –, por outro lado é meio para transmitir o complexo enredo de tensões quer simbólicas quer históricas que as relações entre a África e a Europa sempre levaram consigo, nos longos séculos de colonização primeiro mas também no presente pós-colonial. Não parece secundária, no desenvolvimento dessas reflexões, a própria experiência do artista – aliás salientada pelo curador Bruno Leitão o qual, numa senda traçada já por Picasso (Brassaï 1964) acerca duma «ciência do homem» que se alimente do conhecimento global das circunstâncias e das razões por trás das criações artísticas, considera «quase impossível falar de Kiluanji Kia Henda sem conetar o artista com o indivíduo» (Leitão 2018, 39). De facto, logo nos primeiros anos da sua carreira, o artista angolano foi selecionado para participar em várias residências artísticas no continente europeu e foi na primeira destas, que teve lugar na cidade de Veneza em 2010, que começou a criar peças que chamam em causa diretamente a relação da Europa, no seu próprio solo, com quem durante séculos tem considerado o seu Outro. Emblemático, neste sentido, é o referencial literário escolhido para tematizar tal relação: The merchant of Venice, o célebre drama de William Shakespeare, é o título da principal obra criada e exposta durante a permanência de Kia Henda na cidade italiana. O que a presente comunicação visa é analizar de que forma o texto teatral da primeira idade moderna inglesa foi alvo, em pleno terceiro milénio, desta peculiar adaptação (ou apropriação) transcultural e transmedial (Hutcheon e O’Flynn 2006; Young 2010; Desmete e Iyengar 2015) – uma abordagem que não ficou isolada na produção do artista angolano mas que se repropôs anos mais tarde com outra obra shakespeariana na série fotográfica Othello’s Fate, realizada em 2013 em Lisboa e reexposta na capital portuguesa em tempos recentes. A análise tomará como ponto de partida a crítica de área anglosaxónica sobre a receção das duas peças “venezianas” de Shakespeare no contexto africano (Bartels 1997; Thompson 2006, 2016), em particular a reflexão seminal dum escritor do calibre do nigeriano Ben Okri (1989), para entender como, na nossa contemporaneidade pós-imperial, a universalização dos referentes culturais europeus, e dentro destes do cânone literário, proporciona uma «inversão do olhar» (Kandjimbo 2010) que faz com que seja o histórico Outro, hoje em dia, a contribuir imprescindivelmente à interpretação e definição do que é o presente da Europa.

        Speaker: Alice Girotto (Università Ca' Foscari Venezia)
      • 15:30
        Bertina Lopes: para uma cartografia de uma artista transnacional 15m

        Nesta comunicação proponho-me abordar a produção artística de Bertina Lopes (1924-2012), artista moçambicana e transnacional, já que também trabalhou e viveu em Portugal e Itália, vindo a falecer em Roma.
        Assim, primeiramente traçarei um breve enquadramento das artes plásticas em Moçambique na transição de colónia portuguesa para país independente, realçando a parca documentação relativa à atividade de mulheres artistas neste período, bem como a inexistência de uma reflexão de género nos contributos críticos existentes. De seguida, procurarei realçar a singularidade do percurso de Bertina, num contexto em que, segundo a curadora e crítica de arte N’Goné Fall, ser mulher artista era entendido como uma distração a tempo parcial, pelo menos até meados da década de 80. Finalmente, debruçar-me-ei sobre a obra de Bertina, servindo-me para tal da metodologia crítica apresentada por Marsha Meskimmon em relação à arte produzida por mulheres e da proposta de Chika Okeke-Agulu para uma discussão da arte africana; em ambos os casos, defende-se uma análise assente em cartografias mais do que em cronologias. Essa será também a proposta da minha comunicação, que pretende realçar como a obra de Bertina reflete uma identidade em grande parte definida pelo encontro entre a África e a Europa, num reconhecimento e numa fusão das tradições artísticas herdadas e adquiridas. Parece-me, pois, que tal abordagem é essencial para refletir não só sobre a identidade racial e cultural de Bertina, mas também sobre a sua condição de mulher artista.

        Speaker: Maria Luísa Coelho (Universidade de Oxford)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Mário Pedrosa e o Museu das Origens: Para Pensar a Arte Brasileira 15m

        Do final da década de 20 aos últimos anos da década de 70, Mário Pedrosa (1900 - 1981) foi protagonista e testemunha das grandes mudanças ocorridas na vida brasileira, principalmente as de âmbito cultural. O crítico esteve comprometido com o projeto de construção da arte no Brasil, afastando-se do nacionalismo asfixiante, mas se comprometendo com a busca de singularidades que marcassem a nossa diferença em meio a pluralidade das diversas culturas aqui existentes. Assim, sob muitos aspectos, Pedrosa é de fundamental importância para a história da crítica brasileira. Por todo seu percurso, o teórico se manteve aberto aos desafios do presente, repensando as possibilidades e expectativas da arte, valorizando-a por sua propensão de disseminar um exercício experimental da liberdade, articulando o que existe de universal na experiência poética às especificidades de cada contexto cultural e momento histórico implicados no cenário brasileiro. O Brasil é dotado por ricas manifestações culturais propagadas pela oralidade de uma geração a outra. É o lugar da mistura imanente e da formação desenraizada, composto pelo caldeamento de raças e pelo sincretismo religioso. Sendo assim, o nosso objetivo é revisitar uma demanda crítica inerente às raízes da arte brasileira a partir do pensamento de Mário Pedrosa, com foco no Museu das Origens. Um projeto, surgido como solução para o incêndio do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, em 1978; que estava configurado em cinco módulos independentes, mas orgânicos entre si: Museu do Índio, Museu de Arte Virgem (Museu do Inconsciente); Museu de Arte Moderna; Museu do Negro e Museu de Artes Populares. É importante ressaltar tal episódio como uma ação decolonizadora rumo ao desenvolvimento de uma reflexão crítica sobre a arte local. Sem ter sido contemplado em seu todo, o Museu das Origens serve como objeto de apoio a nossa hipótese sobre o que Pedrosa considerava como as raízes fundadoras da cultura brasileira. Além de abrir a possibilidade de reconstrução de narrativas, até, então, silenciadas e reprimidas; de linguagens e conhecimentos subalternizados pela ideia de totalidade definida pela racionalidade moderna europeia. Isso nos ajuda a conhecer as contribuições dos grupos sociais que se movem nas margens das estruturas de poder. Pedrosa sempre buscou fornecer diversos subsídios para a elaboração de novas formas de se fazer e de se pensar a arte brasileira, levando em conta a reivindicação de uma realidade latino-americana e subdesenvolvida, mas, ao mesmo tempo, aberta e heterogênea como era seu projeto museológico idealizado. Revisitar essa história é uma tarefa do presente. E, embora, essa pesquisa esteja iniciando, ela nos serve como um meio para construir perspectivas ainda não concebidas, ampliar as formas de relação entre temporalidades culturais distintas e transformar incessantemente os modos de ser da arte brasileira, deslocando e reposicionando referências. Pois, dessa forma, acreditamos que a história possa ser reescrita como um conjunto de convergências culturais em vez de uma estrutura universal localizada no interior de um só espaço e de uma só narrativa.

        Speaker: Prof. Ana Cecília Araújo Soares de Souza (Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) / Brasil)
      • 15:15
        O fantasma de Glauber Rocha no delírio de “Bacurau” de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho 15m

        “São muitas horas da noite / São horas do bacurau (...) / Festa do medo e do espanto / De assombrações num sarau (...)” – dizem as palavras da música que ressoa no filme Bacurau (2019) de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho e que é da autoria de Sérgio Ricardo, o mesmo que compus a banda sonora de O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969) de Glauber Rocha, premiado pela melhor direção no Festival de Cannes. A figura do renomado músico é apenas uma das múltiplas reminiscências da obra e da figura de Glauber – o líder indiscutível do movimento dos cineastas brasileiros nos anos 60 chamado de Cinema Novo - que os diretores pernambucanos, ganhadores do Grande prémio de Júri no Festival de Cannes de 2019, parecem fazer questão de incluir no seu filme. Bacurau retoma a estética da miséria e a épica do cangaço, exploradas por Glauber, numa fábula delirante, na qual reverbera uma injustiça e uma violência extremas e uma moral dúbia na hora de encará-la. A obra atenta contra a mímica política e social que é um traço indissociável da cultura contemporânea, não só brasileira, visando aliviar a dor de existir de uma sociedade doente. De fato os moradores do Bacurau – um povoado, que curiosamente sumiu do mapa, tomam pílulas para sobreviver numa realidade atroz que poderíamos chamar de disreal, ou seja que não é mais uma realidade: é uma distopia feita realidade. Bacurau não é um filme político, nem fala specificamente sobre a política. É um filme ético, na medida em que acessa uma realidade confidencial, íntima, não só de uma sociedade, mas do ser humano confrontado com a sua insuficiência, e a coloca na mesa de debate com a mesma ousadia de Glauber Rocha. É um filme real, que se contrapõe ao mito forjado durante séculos de uma sociedade cordial, carnavalesca, na qual estaria em vigor uma democracia racial. No Bacurau o Brasil está no limiar de si mesmo, tentando se comunicar com a sua essência constituída por vários elementos: a sublime sabedoria popular, a criatividade dos indivíduos em encarar a sua própria sobrevivência, a união dos membros de diversos coletivos, e, por outro lado, a injustiça, o preconceito, o ódio e violência. Uma obra que espanta, mas que precisa ser vista.

        Com base nas contribuições de Byung-Chul Han, Christian Salmon e Glauber Rocha esta comunicação contempla Bacurau como uma obra relevante na história do cinema brasileiro, na medida em que remete ao Cinema Novo, possibilitando que aquele fenômeno cultural se complete cinquenta anos depois, num contexto sócio-cultural, que Glauber Rocha tal vez nunca teria previsto. Bacurau canta a infâmia na noite para expurgá-la e enterrá-la como uma experiência social vivida no tempo das trevas. E, ato seguido, cria a oportunidade para o público que o assiste de se reerguer à luz do dia, de se recuperar como uma sociedade saudável, dialogante, solidária, capaz de se organizar de uma forma mais justa, se pautando pelo respeito à alteridade intrínseca à sua essência.

        Speaker: Jolanta Rekawek (Universidade Estadual de Feira de Santana)
      • 15:30
        O estranho e o desconcertante em Kleber Mendonça Filho 15m

        A presente comunicação visa explorar de que modo as noções de "weird" (estranho) e "eerie" (desconcertante), discutidas por Mark Fisher em 2016, permitem uma renovada leitura dos filmes de Kleber Mendonça Filho, Recife frio (2009) e O som ao redor (2012) em particular. Nomeadamente, procurar-se-á discutir os significados e a abrangência dos elementos que Kleber Mendonça Filho pede emprestado aos géneros do thriller, ou às categorias do insólito e do horror. Ainda que comummente associadas ao horror (enquanto género ou categoria), "weird" e "eerie" permitem reapreciar os elementos cinematográficos que perturbam a realidade "normal", reenviando a discussão para além de questões de género ou de conceitos (como unheimlich) que, segundo Fisher, acabam por enquadrar o estranho dentro do familiar. Nos filmes de Mendonça Filho, os elementos estranhos ou desconcertantes não se enquadram num género determinado nem representam um sintoma, funcionam antes como catalisadores de uma crítica do imaginário e do discurso freyreanos cuja resiliência, face à demonstração das falácias, ocultações ou erros metodológicos e preconceitos (ideológicos, classistas, raciais) que inquinam a obra de Freyre, é notada nos filmes. Ainda que, como sabido, Freyre não tenha inventado o mito de "democracia racial", a sua é a mais influente narrativa que, de forma calculada, desculpabilizou as elites políticas e socioeconómicas (no fundo, os leitores a quem Freyre, de forma muito consciente, se dirigia; Dávila 2019) de qualquer dívida histórica, responsabilidade no presente, e futuros compromissos em relação às injustiças e desigualdades estruturais que marcaram e continuam a marcar a sociedade brasileira. O uso de elementos estranhos e desconcertantes, desde a cachoeira de sangue e a banda-sonora extradiegética retirada de filmes de horror em O som ao redor ao estranho fenómeno meteorológico causado pela queda de um meteorito em Recife frio, entre muitos outros, fazem mais do que notar que o passado histórico (incluindo a forma como este é modelado por Freyre) assombra o presente representado nos filmes. Como anteriormente notado (Gonçalves 2020), O som ao redor apresenta uma leitura crítica de Casa-grande & senzala (1993), mas esta comunicação defende que os filmes de Kleber Mendonça Filho apresentam mais do que uma simples contra-narrativa que desmonta o mito freyreano. O celebrado reordenamento espacial e sensorial do filme (Marsh 2015; Nagib 2017; Brás 2017) articula-se com uma redistribuição do sensível partilhado (Rancière) à medida que inclusivamente o binário casa-grande e senzala, operacionalizado de forma crítica nos filmes, é desconstruído. Esta comunicação procurará discutir como o recurso a elementos estranhos e desconcertantes, convoca fissuras e tensões que subjazem e, em alguns casos, chegam mesmo a estruturar, as convenções e a convivência entre diferentes indivíduos, grupos e classes, sob um manto diáfano de uma ficcionada harmonia social. Ainda que o espírito de Freyre, ele próprio interessado em assombramentos de tipo marcadamente (e reveladoramente) diferente em Assombrações de Recife velho (1955), acabe por ser, discretamente, mas de forma inequívoca, invocado nos supracitados filmes, os elementos estranhos e desconcertantes – pela incisividade crítica com que desconstroem narrativas sobre o passado e, crucialmente, o presente – fazem com que os filmes de Mendonça Filho se demarquem de outras tentativas que, conscientemente ou não, se revelam incapazes de representar a sociedade brasileira, ou mesmo questionar os seus fundamentos, fora dos familiares parâmetros ditados pela obra de Freyre e sucessivas (re)interpretações desta, seja na política, na academia ou no cinema.

        Speaker: Rui Miranda (University of Nottingham)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Os livros do arrependimento: “a biblioteca”, de Dulce Maria Cardoso 15m

        Dulce Maria Cardoso, autora significativa no panorama português contemporâneo, afirma-se pela diferença, sendo uma mulher que transforma o sentimento de mal-estar em ficção, sensível e comprometida com as causas sociais que envolvem a sociedade da qual faz parte.
        Inserido na obra Tudo são histórias de amor (2014), o conto “A Biblioteca”, constituído somente por treze páginas, é marcado pelo “afastamento” estereotipado da temática do conto, e com o subtítulo, “livremente inspirado em factos reais”, enquanto elemento paratextual, antecipa o carácter inesperado desta breve narrativa e nele emergem algumas das obsessões temáticas de Dulce Maria Cardoso: o universo masculino, marcado pelo apelo da redenção e os respetivos fantasmas; o esmagamento de um universo rural, desfasado do seu tempo; a pobreza do país, a escrita e o sagrado, a vida pecaminosa, a tentativa da cura da ruindade, a religião como voz da razão e remissão dos pecados; a biblioteca como símbolo de ligação entre a experiência vivida e a assinalada , mas também da ascensão espiritual; do ponto de vista da religião católica, as obras simbolizam a consciência do erro, permitindo a aceitação da morte. A desmesura do quotidiano impõe-se como um dos temas usados para a exploração da natureza do ser humano, no que ele tem de mais construtivo e corrupto, mas também de mais obsessivo e desorientador.
        Deparamo-nos, nesta história, com uma fórmula de abertura que localiza a ação num tempo longínquo e num espaço vago e impreciso: “Há muito, muito tempo, os livros salvaram-me” (Cardoso, 2014: 44). De forma surpreendente, descobrimos que a biblioteca é um lugar solitário, desprovido, evidentemente, de “calor humano”. O lugar, a biblioteca, neste conto, é mais do que um simples suporte da narrativa, pois tem tendência a funcionar como seu princípio estruturador, permitindo captar o imaginário de Dulce Maria Cardoso. Este espaço está diretamente relacionado com a morte e a interiorização da redenção, encontrando-se no centro da narrativa, sendo que a personagem está confinada ao mesmo. O enfraquecimento instala-se, a crença aumenta e lança as suas ramificações “para o que lh[e] está reservado.” (Cardoso, 2014: 39)
        O narrador-personagem, pertencendo, formalmente ao grupo de narradores que organizam o texto a partir da memória, tem uma vantagem adicional: rememora acontecimentos fundamentais de uma idade intimamente motivadora de uma visão lírica do mundo num claro autorreconhecimento da sua vida de assassino, interroga-se sobre tudo o que o circunda, lançando-se na aventura errante da vida, rememorando o passado, sentindo que Deus o escolhe, amparando, numa mão os livros e, na outra, a morte, obrigando-nos, a nós leitores, a repensar a condição humana.

        Palavras-chave: livros, missa, Deus, Bíblia, Biblioteca, morte, Dulce Cardoso.

        Speaker: Anabela Coutinho (Universidade de Aveiro - Portugal)
      • 15:15
        Uma obsessão (des)harmónica em Os Perseguidores, de Ana Teresa Pereira 15m

        Publicado em dezembro de 2020 pela Editora Relógio d’Água, Os Perseguidores de Ana Teresa Pereira desdobra-se em três narrativas distintas, subordinadas, contudo, a denominadores comuns que atravessam a escrita da autora. De facto, o leitor deparar-se-á com os universos labirínticos do imaginário da escritora e com um rico intertexto que perpassa nos três textos que compõem a coletânea. A leitura dinâmica e transemiótica da narrativa pereiriana permite estabelecer o diálogo entre múltiplas linguagens e sublinha os fenómenos composicionais do livro. Para acentuar a vertente nebulosa e o efeito de estranhamento que percorre a sua escrita, a autora recorre, por exemplo, ao cinema, à música e à pintura.
        Neste livro, o dispositivo textual projeta três cenários diferentes, todos relacionados com o universo anglófono que, regra geral, atravessa a obra da escritora. Ora em jeito mais insólito, ora em jeito a roçar o fantástico, os textos de Ana Teresa Pereira exploram os meandros de vidas incompletas, duplas ou em metamorfose constante. Recorrendo à técnica cinematográfica para descrever três realidades, a autora funde espaços e personagens para assim sublinhar a vertente disfórica e obscura dos seus universos. Ao dialogar com a pintura, em particular com a técnica de William Turner ou com os motivos da pintura dos pré-rafaelitas, ao convocar a música, em particular o Jazz e os Blues, ao trazer, também, outras escritas para o interior da diegese, como, por exemplo, os livros de Lewis Carroll, a escritora evidencia uma obsessão por universos paralelos, por tonalidades algo dissonantes e por vidas incompletas revertidas num interessante jogo de espelhos. O verso do poeta norte americano Dean Youg, que serve de epígrafe ao livro de Ana Teresa Pereira, “we had no choice but to live//in a time of abrupt flowers”, marca, de igual modo, a obsessiva recorrência de mundos onde o real e o irreal se fundem para enclausurar as vozes dos textos.
        Procurar-se-á revelar o modo com o universo da autora dialoga com o fantástico, o surrealizante e o fragmentário. Através das três narrativas distintas, é nosso propósito sublinhar, também, a (des)harmonia muito própria do universo pereiriano. Ao revelarmos o insólito e o bizarro que marcam os protagonistas e ao sublinharmos os efeitos de intertextualidade que pontua cada narrativa, destacaremos os leitmotive (des)harmónicos do livro. Na encruzilhada de vidas estilhaçadas e no dialogo multimodal, a escrita de Ana Teresa Pereira conclui com o bizarro e o enigma, expõe a persistência de condutas insólitas e inquietantes, revela que a morte e a perda estão sempre à espreita.
        Palavras-chave: contos, obsessão, intertexto, dissonância, fantástico, enigma
        emphasized text

        Speaker: Leonor Coelho (Universidade da Madeira e Centro Comparatistas da Universidade de Lisboa)
      • 15:30
        (Re)Escrita e criação de mundos paralelos na obra de Ana Teresa Pereira 15m

        Ana Teresa Pereira, autora de romances, contos e crónicas, nascida na Ilha da Madeira, Portugal, em 1958, e a primeira mulher a ser galardoada com o prémio Oceanos, em 2017, tem vindo a publicar, desde 1989, com uma certa regularidade, livros que desde o género policial ao fantástico se dissolvem num mesmo universo de escrita só seu, garantindo, nesse mesmo ano, o Prémio Caminho de Literatura Policial com o romance Matar a Imagem. Apesar da simplicidade da sua escrita, a sua capacidade de construção literária leva-a a criar os seus livros segundo um esquema que cada vez mais se parece assemelhar ao mesmo livro, às mesmas imagens, aos mesmos arquétipos, às mesmas pulsões, que emergem, insistentemente, nos seus romances, mas sem nunca se desenvolver. Personagens que transitam de um para outro livro, com os mesmos nomes, as mesmas características e percursos semelhantes, os mesmos tempos e os mesmos espaços particulares, numa constante busca de algo que galvanize a sua existência e lhes permita aceder a um outro mundo, a uma outra realidade. Trata-se de um mecanismo que permite a Ana Teresa Pereira dar a entender o porquê das suas fixações temáticas, fazendo emergir as experiências da vida resultantes da relação do indivíduo com o mundo, no seu diálogo com outras artes e da sua confrontação com o real decalcadas pela sua escrita.
        Para a construção dos seus universos ficcionais, a autora convoca múltiplas vozes que se vêm cruzar no discurso do texto, e que, desde a pintura, à música, ao cinema e à literatura, configuram a sua escrita. Para a sua criação, (re)cria esquemas significativos do seu imaginário, através de inúmeros cenários e imagens que se repetem de uma história para outra ou de um livro para outro como mecanismo da amplificação do sentido. Uma estratégia que parece contribuir para a consolidação de uma unidade textual que assegura a referência e assim a ligação a outros textos. Nesse processo de construção, Ana Teresa Pereira dá a ver uma herança de leituras e de experiências acumuladas que se impõem à sua produção, para ela contribuindo e apelando, assim, à memória intertextual.
        Neste sentido, proponho-me reflectir sobre o processo de escrita da obra de Ana Teresa Pereira, bem como perspectivar a abordagem do diálogo de vozes preferenciais e o modo como o texto adquire marcas de trabalho poético, não apenas pela tonalidade lírica que por vezes assume, mas também pelo tratamento, em geral, da sua formulação discursiva.

        Speaker: Prof. Ana Isabel Moniz (Universidade da Madeira e Centro de Estudos Comparatistas (FLUL))
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        "e se fosse connosco? a construção de coligações anti-racistas na música portuguesa contemporânea" 15m

        portugal não é racista? apesar da negação veemente de líderes políticos da direita e da esquerda (“não há racismo em portugal” [rui rio]; “o povo português na sua esmagadora maioria não é racista” [jerónimo de sousa]), os actos e comportamentos racistas têm-se intensificado na sociedade portuguesa ao longo dos últimos trinta anos (cf. gorjão henriques 2016, 2018). entre os anos 90 e 2021, o estatuto das minorias étnicas em portugal passou de uma “presença silenciosa” (tinhorão 1988) para um alvo explícito de violência, como se verifica nos assassinatos dos afro-portugueses alcindo monteiro (1995) e bruno candé (2020) por motivos raciais. paralelamente, vários movimentos da extrema-direita (particulamente o partido chega e a organização nova ordem de avis – resistência nacional) têm demonizado, cada vez mais, as comunidades afro-descendentes e ciganas. o facto de o candidato (e líder do chega) andré ventura ter conseguido 12% dos votos nas eleições presidenciais de 2021 é um aviso preocupante; exemplifica a pujança crescente das ideologias racistas e xenófobas no portugal contemporâneo.

        não obstante este êxito recente da extrema-direita, a sociedade portuguesa das últimas décadas tem testemunhado uma consciencialização notável no que diz respeito à luta anti-racista, sobretudo desde a fundação da organização não governamental sos racismo em 1990. de facto, nos momentos mais acesos de tensão e injustiça racial, o anti-racismo tem sido presente em manifestações e ações de solidariedade: pode-se considerar, por exemplo, os protestos decorrentes de actos de violência policial contra a população negra, no bairro da cova da moura (2015), no bairro da jamaica (2019), e no país inteiro (protestos de black lives matter, 2020).

        relativamente às respostas culturais a esta ‘guerra identitária’, existe uma plêiade de iniciativas anti-racistas: vários filmes portugueses dos últimos dez anos (de tais cineastas como mário monteiro e ana tica) lidam com a discriminação racial, sendo a micar [mostra internacional de cinema anti-racista] um evento importante no calendário cultural lisboeta. no âmbito literário também há autores relevantes no que se refere à luta anti-racista do século xxi, tais como isabela figueiredo e djaimilia pereira de almeida (cf. mendes/corrêa/feitosa 2020; lima 2020).

        dito isto, tem-se prestado pouca atenção à música portuguesa contemporânea a respeito da sua capacidade de informar um público (predominantemente jovem) sobre o combate anti-racista. especificamente, os artistas de rap chullage, boss ac e carlão, assim como o grupo lgbt fado bicha (cf. da silva 2019) já produziram música de sucesso notável no mercado português, com letras acessíveis que ligam o racismo a outros problemas socio-económicos urgentes em portugal (a pobreza, a apatia, o sexismo e a homofobia). consequentemente, esta comunicação fará uma comparação de três músicas recentes dos artistas acima indicados: “sef – suplício de estrangeiros e fronteiras” (2012) de chullage, “e se fosse contigo” (2016) de carlão/boss ac, e “lisboa, não sejas racista” (2019) de fado bicha. examinar-se-á a medida em que estas músicas contribuem para a construção de uma ‘coligação anti-racista’ abrangente e inter-secional.

        Speaker: Peter Haysom (University of Nottingham)
      • 15:15
        Antifestivais Literários e a Máquina Perfomática: o caso FreePorto 15m

        A proposta em tela deriva de atividades que venho realizando, tanto no âmbito de curadorias como também de pesquisas acadêmicas, voltadas para a promoção e de debate sobre arte, cultura e, mais especificamente, sobre a literatura contemporânea. A experiência de trabalho, que reúne público e escritores, tem motivado a questionar em que medida um festival literário impacta a produção literária existente e como suas atividades são responsáveis por moldar os trânsitos literários na contemporaneidade. Os festivais literários desempenham um papel de fomentar uma política cultural, cujos desdobramentos podem recair na significação do texto literário, quer seja por meio dos dispositivos de afeto, quer seja pelas performances dos autores. Ao longo da pesquisa de campo, cuja investigação se debruçou sobre festivais no Brasil e na Itália, pude me deparar com uma modalidade chamada antifestival. O antifestival, conforme é denominado por seus organizadores, caracteriza-se, em linhas gerais, como um evento de protesto cultural, no qual busca-se questionar os mecanismos de produção literária, contrapondo ideias e opiniões divergentes sobre o fazer artístico-cultural. A pesquisa está baseada em autores que discutem diretamente o papel dos festivais literários e culturais no cenário atual, como Guido Guerzoni (2008, 2013), Millicent Weber (2018), entre outros. Mas também o campo de debate encontra uma conexão com o conceito de "máquina performática", desenvolvido pelos argentinos, estudiosos da Literatura Brasileira, Gonzalo Aguilar e Mario Cámara (2017, p.11). Para eles, a máquina performática é um dispositivo de aplanamento, isto é, visa a neutralizar a hierarquia e a superioridade entre gêneros literários e suas historicidades, fundamentando-se na ideia de que nenhum signo é mais importante do que outro. Nesse sentido, os textos e debates feitos no antifestival situam o fazer literário num campo experimental, pois abrem o texto literário (em seus trânsitos do signo escrito para o oral) a uma multiplicidade de conexões. Entre essas conexões deve-se levar em conta o contato com o público e outras linguagens artísticas (como música e pintura). A reflexão sobre a máquina performática nos antifestivais foca a análise do texto em performances, declamações, além da formação de coletivos, índices de oralidade encontrados na escrita literária, formas de ocupação do espaço público por meio de intervenções, saraus e outras práticas de organização de eventos literários. Alguns antifestivais são notórios no cenário brasileiro como a FLIPEI (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes), que ocorre em paralelo com a FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), e a FreePorto - Festa Literária do Recife, cujo ponto de questionamento é a Fliporto (Festa Literária Internacional de Pernambuco). No cenário italiano, destaca-se o Staggione Topolò, realizado num vilarejo próximo à Cividale. A apresentação da comunicação divide-se em dois momentos: num primeiro, tem como objetivo tratar, de modo geral, das características do antifestival e discutir como se dão as relações de produção literária, a partir das tensões de campo, conforme assinala Bourdieu (1996). Num segundo momento, serão analisados alguns textos oriundos de performances realizadas no FreePorto.

        Speaker: Frederico Fernandes (Universidade Estadual de Londrina)
      • 15:30
        A agitação política dos emigrantes portugueses na Alemanha Ocidental entre 1969 e 1974: O Jornal: “A Batalha” 15m

        Neste ano há o aniversário dos 57 anos do “Anwerbeabkommen”, um acordo de recrutamento entre o Estado Novo e a República Federal de Alemanha (RFA) em Março 1964 para recrutar emigrantes trabalhadores, “os Gastarbeiter”, que foram para a Alemanha para trabalhar. A RFA fez também estes contratos com a Itália, França, Grécia, Jugoslávia, Espanha, Turquia, Tunísia e Marrocos desde 1955 até 1973. A imagem mais conhecida destes “Gastarbeiter” mostra Armando Rodrigues de Sá, um emigrante português, homenageado como “Gastarbeiter” número 1 milhão. A sua fotografia é na Alemanha o símbolo da migração no contexto dos recrutamentos de trabalhadores durante as anos 1955-1973, da primeira onda de migração não alemã depois da II guerra-mundial para a RFA durante o período do Wirtschaftswunder (milagre económico). Quando, em 1973, com os problemas económicos, a Alemanha parou os acordos de recrutamento, cerca de 2,3 milhões de trabalhadores estrangeiros viviam na RFA. A vida diária dos “Gastarbeiter” era influenciada pelas más condições de habitação, pelas condições das fábricas onde trabalhavam e pelo comportamento da sociedade alemã. Além da possibilidade de ganhar mais dinheiro para ajudar as famílias que os esperaram nas suas terras de origem, o tempo na Alemanha oferecia também um espaço sem censura. Enquanto a importância da França entre os exilados portugueses como um lugar da oposição contra o Estado Novo é conhecida, não há muitos informações sobre a atividade política contra o Estado Novo entre os emigrantes portugueses na RFA, que era estado com um espaço público para exprimir a crítica. Por que razão não existem informações sobre a agitação política contra o Estado Novo? A ideia mais imediata é que não houve agitação política contra o Estado Novo.

        Na comunicação vou apresentar a agitação política até 1974 de um grupo de exilados políticos portugueses com emigrantes económicos de Portugal, “Gastarbeiter” na Alemanha, localizado no Sul de Alemanha, em Estugarda, e quer abrir a discussão para uma nova observação das migrações portuguesas para a Alemanha. Vou falar do caso micro-histórico de seis jovens, dos quais quatro estudantes do Instituto Superior Técnico que fugiram do país no seguimento da sua atividade durante a segunda onda do movimento estudantil em Lisboa, em 1968. Com uma bolsa para a RFA oferecida pela fundação Friedrich Ebert, que trabalhava com o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), os estudantes perseguidos tiveram a possibilidade de continuar a estudar em Estugarda, onde iniciaram a sua atividade junto dos emigrantes económicos de Portugal, “Gastarbeiter”, em três áreas: no apoio ao associativismo autónomo, na ajuda direta e na formação, e na publicação de um jornal de informação para os emigrantes portugueses na Alemanha, intitulado “A Batalha”.

        Por que suportou a Fundação Friedrich Ebert da Alemanha estes estudantes da oposição portuguesa? Que atividades e experiências tiveram estes exilados políticos com os emigrantes económicos na RFA? Como pode ser avaliado o papel deste grupo e dos emigrantes na Alemanha dentro das redes de exilados portugueses durante o Estado Novo? As respostas a estas questões vão ocupar a parte central da comunicação. Seguindo a ideia de que a migração está sempre embebida em ligações transnacionais e reflete reconhecimentos vários do país de imigração (Bade 2002: 62), esta análise abre neste caso novas noções sobre processos e circunstâncias sociais, assim como transferências interculturais.

        Speaker: Svenja Laender
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 16:00
        Da literatura, do amor e das sínteses tanatológicas 15m

        A partir de Jorge Luís Borges, procuraremos desenvolver uma reflexão sobre a presença da “morte” na literatura ocidental e, mais especificamente, na literatura portuguesa moderna e contemporânea (com especial incidência nos Modernistas e em José Saramago), signo esse assumido como noção implica na habilidade de entender, polifonicamente, a “morte do Homem” e a “morte de Deus” como noções comprometidas, entre outras, com: a inquietação existencial e metafísica da finitude; a relação com a ideia de absoluto; a sensação de concretização de uma liberdade (im)perfeita; a desmitologização e a falência das grandes narrativas humanistas; a despossessão linguística e literária do sujeito a que, paradoxalmente, conduz uma profunda consciência que o sujeito tem de si; a relação entre o sujeito individual e a coletividade; a consciência neófita da “imortalidade cósmica” que decorre da mais profunda intuição tanatológica.

        Speaker: Prof. Dionísio Vila Maior (Universidade Aberta)
      • 16:15
        “Trágico e humor na peça Doutor Feelgood de Armando Nascimento Rosa” 15m

        Doutor Feelgood – Em viagem para Belle Reve (2012), peça que valeu a Armando Nascimento Rosa o prémio Bernardo Santareno em 2011, encena o encontro histórico entre Tennessee Williams e o neuropsiquiatra português Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina em 1949 que inventou a lobotomia. Rose Williams, a irmã do escritor, fora lobotomizada em 1943 e é bem conhecido o impacto profundo que a condição mental de Rose exerceu sobre obra de Williams. Mas a peça é bem mais do que o diálogo imaginário entre o dramaturgo norte-americano e o médico português. Numa espécie de teatro alucinatório que tem lugar na mente de Tom num momento biográfico em que ele se encontra hospitalizado, numa tentativa de se libertar da dependência de drogas e de álcool - com ecos a Os três últimos dias de Fernando Pessoa, de Tabucchi -, várias são as figuras que o visitam, num processo de desdobramento fantasmático que é também um mergulho na linguagem sugestiva da dor e do sofrimento físico e mental. Proponho no âmbito desta comunicação deter-me em particular na personagem afroamericana Henrietta espécie de figuração fantasmática de Henrietta Lack, personagem que involuntariamente protagonizou um importante caso de subversão ética entre a investigação científica e a indústria farmacêutica. Veremos sobretudo como, carregado de ironia e de humor negro, o confronto de Henrietta, doente oncológica, com o Doutor Feelgood a quem suplica por um paliativo para o seu sofrimento intérmino, ganha contornos de denúncia contra o saber/poder do médico com ressonâncias até à actualidade.

        Speaker: Prof. Maria de Jesus Cabral (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
      • 16:30
        “‘Ela anda muito esquecida:’ Cair para dentro de Valério Romão” 15m

        Publicado em 2018, Cair para dentro é o terceiro romance do escritor Valério Romão que aborda situações extremas ligadas ao tema da doença e das aflições do corpo. Depois de ter narrado autismo e aborto em obras anteriores, Romão apresenta em Cair para dentro o conflito entre duas mulheres (mãe e filha em posições antagónicas)complicado por uma diagnose de Alzheimer. Influenciado pela narrativa fragmentária de António Lobo Antunes (uma referência declarada por Romão), o autor alterna pontos de vistas, contrapõe racionalidade e disgregação memorial, linguagem académica e fluxo desordenado – porém poético – de palavras (cabe sublinhar que o exergo do livro é uma frase de Charles Bukwoski: “Poetry is what happens when nothing else can”). A representação da doença é o meu ponto de partida para levantar temas cardinais em “humanidades médicas:” a reflexão sobre a finitude, a centralidade da memória para a permanência uma identidade, a ambivalência da relação com o doente por parte dos familiares, a figura do cuidador. Ofereço uma análise do registro humorístico como estratégia antifrástica anunciada pelo exergo tirado de uma gag do irreverente grupo británico dos Monty Python. Embasada em teorias dos Critical Disability Studies e Memory Studies (em particular no influente livro Lete de Harald Weinrich), esta comunicação propõe uma leitura do(s) possíveis significado(s) da doença de Alzheimer neste romance.

        Speaker: Nicola Gavioli (Florida International University)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        A literatura de Odete Semedo: das memórias e dos Irans 15m

        A escritora guineense Odete Semedo produziu, até hoje, quatro obras literárias, a saber Entre o ser e o amar (1996), No fundo do canto (2007), ambas de poesia; Sonéá – histórias e passadas que ouvir contar I (2000) e Djênia – histórias e passadas que ouvi contar II (2000), ambas de prosa. Sua quinta publicação, intitulada Guiné-Bissau – história, culturas, sociedade e literatura (2010), trata do contexto sob o qual se elabora a produção literária em seu país.
        Desde sua primeira obra literária, Semedo se declara como tendo uma “dupla pertença” cultural, o que, em Entre o ser e o amar, a leva a escrever em português e em crioulo guineense. A ideia de entre-lugar, materializada no bilinguismo, atinge outros espaços, uma vez que a escritora também transita entre a produção literária e a sua crítica. Neste papel, em tese de doutoramento, Semedo defende que a cultura guineense é uma chave de leitura para a obra literária produzida no país.
        O entrecruzamento de produção literária e discussão crítica tecida por Odete Semedo levanta uma suspeita, que inferimos ser acertada, no que diz respeito à leitura da beletrística semediana. Nesta comunicação, levantamos a hipótese de que há uma intencional tentativa de preservação da memória ancestral oral na produção literária de Odete Semedo, por meio do resgate dos elementos de crença, costumes, hábitos e cultura, em especial os Irans. Inferimos que a memória é fixada de modo a englobar a dupla pertença da escritora, tanto no âmbito do significante, quanto no nível do significado, seja pela forma que se recria a contação ou pelo uso vocabular, seja pela carga da cosmovisão guineense existente no texto.
        Tanto na prosa quanto na poesia, nota-se a preocupação por fixar pela escrita o rito do casamento tradicional, bem como o toka tchur ou choro (ritual fúnebre), elementos presentes no conto “Sonéá”, inserindo-os na exegese como elemento da vida cotidiana, tal qual ocorre (ou ocorria) no contexto cultural guineense. Outra constante é a importância do mais velho para a vida em sociedade, em especial a obediência e a deferência aos pais.
        O fio condutor de nossa análise se pautará no mergulho memorialístico, sob as concepções delineadas por Ecléa Bosi e Marcio Seligmann-Silva. A fim de verificar a cosmovisão guineense que, na nossa visão, é fixada na literatura, investigaremos a relação intrínseca entre homem e natureza, bem como a interferência dos Irans na vida cotidiana. Para tanto, nos valeremos das reflexões de Hampaté Bâ, Honorat Aguessy, Nsang Kabwasa, acerca das culturas tradicionais africanas, bem como os valores intrínsecos à oralidade. Para investigar as peculiaridades da Guiné-Bissau, quanto às crenças e visão de mundo, nos basearemos nos escritos de Carlos Vaz, Odete Semedo, Moema Augel e Teresa Montenegro.

        Speaker: Erica Bispo (IFRJ)
      • 16:15
        Apropriações de figuras canônicas portuguesas por escritores angolanos 15m

        A prática de adaptação e revisão de histórias e figuras canônicas tornou-se uma tendência global nas últimas décadas, em parte graças ao desenvolvimento de teorias pós-coloniais e pós-modernas que requerem uma recontextualização da tradição literária na realidade contemporânea. No caso das literaturas de países recém-independentes, nas suas tentativas de ter e consolidar uma voz própria, parece obrigatório seguirem o rumo de Édipo como define Harold Bloom, ou seja, por sentirem uma “ansiedade de influência” perante o cânone, os posteriores têm de fazer uma alteração ou interpretação conscientemente errada para inserir-se na tradição. O peso histórico que ensombra as ex-colónias aumenta ainda mais o apelo da reescrita antitética. Nas palavras de Leyla Perrone-Moisés, a sensação duma “dívida externa cultural tendem a gerar, mais do que a veneração, o rancor e a ânsia de independência”.
        Devido ao valor tanto prático quanto simbólico deste antiteísmo na produção na era dos “pós”, os críticos literários têm dado maior ênfase nos textos que procuram problematizar os clássicos que manifestam mais claramente a ideologia colonialista e imperial, como as obras de Daniel Defoe, Rudyard Kipling, Joseph Conrad e Luís de Camões. No entanto, a ficção africana em português nas últimas duas décadas alargou o objeto de intertextualidade para textos portugueses não tradicionalmente associados à mentalidade colonial, e mudou as figuras canônicas suficientemente para torna-los pós-coloniais.
        Este estudo explora três adaptações angolanas de textos portugueses, nomeadamente a expansão da trajetória do dandy aristocrata Fradique Mendes (criado por Eça de Queirós e amigos) por José Agualusa em Nação Crioula, a reinterpretação do gatuno Faustino (retratado por Miguel Torga) por Pepetela num dos seus Contos de morte, e a recente revisita dum antigo pirata descrito por Raul Brandão na novela A visão das plantas de Djaimilia Pereira de Almeida. Nenhum destes caracteres originalmente continham qualidades ostensivamente opressores: o Fradique de Eça preocupa-se sobretudo do futuro de Portugal na época do auge do imperialismo, o Faustino de Torga é nada mais do que um infeliz com imensa dificuldade financeira na zona rural nas montanhas, e o antigo pirata de Brandão parece ter-se transformado num jardineiro inofensivo nos seus últimos dias. Todavia, quando mudados para um outro contexto e vistos por outra perspetiva, eles submetem-se ao processo de transplantação ou mesmo antropofagia, tornando-se carregadores de novos valores e crenças. Fradique o patriota agora é defensor de direitos dos escravos e porta-voz da comunidade transatlântica, enquanto o Faustino que era marginalizado em Portugal revela-se um etnocêntrico teimoso no seu encontro com costumes angolanos. Por outro lado, a relação complicada entre o pirata/jardineiro e as plantas também sugere uma leitura pós-colonial, na qual é impossível discernir onde está o poder na relação aparentemente assimétrica. Não obstante a diferença ideológica e geracional entre os autores citados, esta tentativa espontânea mas conjunta de escritores angolanos para apropriar criações portuguesa manifestam uma mentalidade mais confidente e englobante em relação à cultura da antiga metrópole, permitindo os países africanos a declarar-se não só herdeiros mas também cocriadores dum património cultural coletivo.

        Speaker: Yuan Wang (Peking University)
      • 16:30
        Crítica acadêmica das literaturas africanas de língua portuguesa no Brasil: um estudo de teses produzidas no período de 2013 a 2017, disponibilizadas no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES 15m

        Será apresentado o resultado da investigação sobre as práticas de leitura acadêmica expostas em teses produzidas, no Brasil, sobre as literaturas africanas de língua portuguesa, defendidas nos anos de 2013 a 2017. Partindo de uma seleção de teses apresentadas em vários programas de pós-graduação brasileiros, serão identificados os pressupostos críticos que orientaram os estudos das literaturas africanas de língua portuguesa, com a intenção de avaliar o impacto de tais estudos na construção de pontos de vista sobre as concepções literárias abordadas nesses estudos. Poderá ser visto também quais nações dos PALOP têm suas obras literárias mais estudadas nessas teses, quais autores e autoras são mais contemplados, nessas produções cientificas, bem como quais temas são abordados nessa produção acadêmica. Considera-se, assim, que os modos de leituras, as investigações e as discussões acadêmicas, nas teses brasileiras sobre literaturas africanas de língua portuguesa, no período mencionado, indicam pressupostos e estratégias críticas da teoria literária em geral e de outros campos de conhecimento que dialogam com a literatura. Embora se saiba que, mesmo quando diferentes estudos críticos discutem um mesmo tema, a abordagem será sempre única. Pensa-se, ainda, que muitos pressupostos teóricos semelhantes podem estar presentes nas teses, pois, além das relações que os textos literários estabelecem com diferentes campos reflexivos, estes se entrelaçam com outras áreas do conhecimento, sobretudo com a História, a Sociologia, a Antropologia. Ver-se-ão também quais os suportes teóricos mostram-se predominantes nas teses a serem avaliadas. Na análise das teses, depreendem os temas relacionados com a colonização portuguesa, em África, com as guerras de independência e civil e sobre os rumos tomados por cada um dos países, no pós-independência, vistos por agenciamentos literários destinados a diferentes leitores. Especificamente apresentar-se-á na comunicação no Congresso AIL-Roma 2020: as indagações sobre a literatura dos países africanos de língua portuguesa que foram abordadas pelas teses selecionadas no período de 2013 a 2017, no Brasil; os sistemas literários dos PALOP que foram contemplados nas teses, bem como suas obras e autores; as temáticas abordadas nos estudos, as mais frequentes e os teóricos mais solicitados pelas teses sobre os temas abordados por elas; as principais concepções literárias emergem nas teses investigadas. Enfim, será apresentado um estudo contingencial e cronológico dos temas, autores, obras e teóricos mais frequentes nas teses sobre literaturas africanas de língua portuguesa produzidas no período.

        Speaker: Eni Alves Rodrigues (PUC-MINAS)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        O Teatro do Oprimido e Kyogen: um diálogo intercultural na adaptação de textos literários 15m

        Este artigo aborda alguns resultados de uma pesquisa pós-doutoral ainda em andamento. A investigação tem como objetivo o estudo do kyogen (peças populares e satíricas japonesas) a partir do seu potencial de integração com o Teatro do Oprimido (TO, método desenvolvido por Augusto Boal) na adaptação de textos literários.
        Assim, um novo prisma na adaptação de textos literários para o palco é apresentado, ao considerar uma possível combinação de princípios específicos de parte do drama japonês e do drama brasileiro à luz de alguns estudos de caso, que estão ocorrendo em Quioto, Japão, desde meado de julho de 2019 e que serão finalizados no início de junho de 2020 – período em que a pesquisa conta com o apoio institucional e financeiro da Fundação Japão.
        A análise comparativa dos dois tipos de teatro salienta suas várias coincidências. Seus espetáculos têm estrutura simples, sem muitos objetos cênicos ou iluminação e nem necessidade de cenário ou maquiagem (no caso do kyogen nunca há maquiagem; às vezes, máscaras podem ser utilizadas por um personagem em cena). Quando há música em cena, normalmente é executada de forma acústica e com poucos instrumentos e vozes. No TO e no kyogen, as funções dramáticas dos personagens são facilmente reconhecidas porque a divisão é clara: o Protagonista e Antagonista são Oprimido e Opressor no TO e Shite e Ado no kyogen. A simplicidade da narrativa de ambos é reiterada pela repetição, que possui uma função claramente didática. Em uma das vertentes mais conhecidas do TO, o Teatro Fórum, a peça é encenada e depois reencenada. Nesse segundo momento, conta com a participação de voluntários da plateia que fazem alterações ao vivo nas interpretações que acabaram de ver. No kyogen, os inícios de muitas peças são similares, com o personagem dizendo quem é e onde vive e narrando o início da situação que gerará o conflito, o que rapidamente situa o espectador. O TO e kyogen utilizam-se de inúmeros elementos de cultura popular e de comédia que, se associados, podem aumentar as possibilidades interpretativas e de adaptação do texto, tornando sua comunicabilidade mais eficaz.

        REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

        Barba, Eugenio. The Moon Rises from the Ganges: My Journey through Asian Acting Techniques. Holstebro: Routledge, 2015.
        Boal, Augusto. Theater of the Oppressed. Trad. Charles A. e Maria-Odilia Leal McBride. New York: Theater Communications Group, 1985.
        Fischer-Lichte, Erika. The Show and the Gaze of Theater: a European Perspective.
        Iowa City: University of Iowa Press, 1997.
        Fujii, Takeo. Humor and Satire in Early English Comedy and Japanese Kyôgen Drama: a Cross-cultural Study in Dramatic Arts. Quioto: KFUS, 1983.
        Kawasarat, Katherine. “Kyogen with a Twist”. (Disponível em:
        https://www.japantimes.co.jp/culture/2001/12/12/stage/kyogen-with-a-twist-2/#
        Acesso em abril de 2019.
        Kazume, Narabe. “Artistic Interview: From New Kyogen to Stand-Up Comedy and Opera, the Creative Power of Doji Shigeyama”.
        http://www.performingarts.jp/E/art_interview/1603/1.html. Acesso em abril de
        2019.
        Salz, Jonah (ed.). A History of Japanese Theater. Cambridge: CUP, 2016.
        ---. “Kyôgen comedies’ embedded dramaturgy: 13 lessons for theater practitioners”.
        (Available at https://thetheatretimes.com/author/j-salz/). Acesso em abril de
        2019.

        Speaker: Erica Rodrigues Fontes (UFPI)
      • 16:30
        O voo curto da ficção: o passado como enigma 15m

        A partir da década de 1990 do século passado, o reconhecimento das possibilidades subversivas da ficção foi cada vez mais restringido ao fato de permear os discursos tidos como documentais, abalando o regime de verdade que estes pressupõem. Na esteira da recusa dos fechamentos teleológicos e dos ilusionismos da cultura de mercado, o culto do inacabado, do imprevisto, colocou sob suspeita o potencial subversivo das narrativas de ficção como criadoras de mundos imaginários que distendem os limites do possível. É notório, então, o protagonismo que vêm assumindo, na cena cultural contemporânea, os relatos identificados como não ficção, as diversas formas de documentalismo, que, no entanto, não deixam de lançar mão de procedimentos característicos das narrativas ficcionais.
        A ficção que, nas narrativas latino-americanas do chamado realismo maravilhoso, por exemplo, assumia o protagonismo na proposta de uma desobediência epistêmica, voltada para a descolonização do pensamento, tornou-se, nesse contexto, em que se fala, inclusive, de romance sem ficção, coadjuvante dos discursos de base documental. Não se aposta nem na transparência dos testemunhos nem no voo livre da ficção, mas no efeito desconstrutor das contaminações de um campo pelo outro, minando os lugares fixos – aposta-se no que se pode entrever por essas fissuras que comprometem as continuidades aparentes. A mediação dos dados de arquivo, muitas vezes, serve a este propósito: o trabalho criativo nas montagens tensiona a base documental e esta, por sua vez, legitima a ficção.
        Nesse contexto, os laços entre passado, presente e futuro são reconfigurados numa leitura convergente da temporalidade. Surgem, então, nas duas primeiras décadas do século XXI, narrativas nas quais se privilegia o olhar dos filhos daqueles indivíduos que, de uma forma ou de outra, se opuseram à truculência das ditaduras latino-americanas da segunda metade do século XX. São obras em que o passado é evocado na ótica de personagens nascidos durante as ditaduras: personagens que, relendo os acontecimentos históricos a partir dos valores do presente, na chave do individualismo contemporâneo, não conseguem, pelo menos de imediato, atribuir sentido às ações movidas pelas aspirações utópicas dos antepassados.
        O texto a ser apresentado no 13º Congresso da AIL propõe a leitura de algumas dessas narrativas, tendo em vista a questão da privatização da memória e, enfatizando, dentre outros aspectos, o viés metalinguístico desses romances em que os narradores se indagam, a todo instante, como narrar o passado à luz do presente, à luz do cotidiano sem esperança em que estão mergulhados, Trata-se de pensar também até que ponto tais narrativas sinalizariam uma tendência atual para a repolitização da ficção literária. Serão discutidas obras como O inventário das coisas ausentes, de Carola Saavedra, A Resistência, de Julián Fuks e O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, do argentino Marcelo Pron.

        Speaker: Vera Lucia Follain de Figueiredo (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        A representação de Lisboa nos romances O ano da morte de Ricardo Reis e Requiem, uma alucinação: a cidade como espaço de encontro consigo mesmo 15m

        Este trabalho se propõe a discutir a representação da cidade de Lisboa a partir do romance O ano da morte de Ricardo Reis (1984), de José Saramago, em comparação com o livro Requiem, uma alucinação (1991), de Antonio Tabucchi. As obras apresentam narrativas existencialistas, uma vez que as deambulações dos desassossegados protagonistas, Ricardo Reis e “Eu”, proporcionam a reflexão sobre a vida e a tomada de consciência sobre si mesmo diante do mundo. Ambos encontram no espaço citadino uma forma de percorrer o seu próprio labirinto interno, comprovando o que diz Benjamin (1989, p. 203): “A cidade é a antiga realização do antigo sonho humano do labirinto. O flâneur, sem o saber, persegue essa realidade”. Enquanto Reis perambula por uma Lisboa chuvosa e percorre o labirinto de seu ser, numa tentativa de reafirmar a sua própria identidade, “Eu” deambula por uma Lisboa tórrida e caminha pelo labirinto de suas memórias, numa tentativa de compreender o seu presente. Para ambos, Lisboa configura-se como o cais de chegada, mas de onde partem para as deambulações em busca da compreensão da sua existência no mundo e o(s) encontro(s) com o poeta Fernando Pessoa provoca(m) a reflexão que permite sossegar a alma. Nessa perspectiva, o estudo parte da ideia de que o desassossego interno dos personagens é refletido na maneira com que eles contemplam a cidade e tentam viver. Nos romances, os personagens percorrem Lisboa, como quem procura uma saída do labirinto de si mesmo. O olhar angustiado e perdido de cada um deles revela as nuances da cidade, que se apresenta como caótica e sombria numa das obras e escaldante e onírica na outra. Desta forma, a cidade de Lisboa não só é cenário no qual se passa a trama, nela cruzam-se os caminhos que levarão os protagonistas para a consciência de sua própria existência. Conforme Onfray (2019, p. 73), “Os trajetos dos viajantes coincidem sempre, secretamente, com as procuras iniciáticas que colocam a identidade em jogo.” Em consonância com tal ideia, nos dois romances, os protagonistas desassossegados fazem uma dupla viagem. Por um lado, viajam por dentro de Lisboa, quando percorrem a Baixa lisboeta, as ruas do Chiado, praças, largos e monumentos, reconstruindo os lugares. Por outro, os personagens fazem uma viagem para dentro de si, uma vez que buscam, de alguma forma, compreender e sossegar a sua própria alma, revelando o eu interior e a cidade que habita o ser de cada um deles. Desta forma, pretende-se estudar a representação literária da capital portuguesa, marcada geograficamente, com referências a bairros, ruas e monumentos, relacionando-a com os dramas vivenciados pelos personagens principais dos romances, cujas deambulações pelas labirínticas ruas lisboetas são ao mesmo tempo uma forma de reconhecimento da cidade e um encontro consigo mesmo.

        Speaker: Juliana Menezes (Universidade Nova de Lisboa (Portugal)/ Instituto Federal da Bahia (Brasil))
      • 16:15
        Os cadernos alentejanos de José Saramago: notas sobre o surgimento de um livro "Levantado do Chão" 15m

        Embora os personagens de "Levantado do chão" estejam atrelados ao campo da ficção, não se pode desprezar o fato de que José Saramago, a partir de uma experiência local, tenha trazido, para o romance, a realidade das famílias camponesas do Alentejo de várias gerações. Por meio de diários, entrevistas e colunas jornalísticas, exploraremos os registros consultados e realizados por Saramago durante o período em que vivenciou o cotidiano rural do Alentejo. Segundo o próprio escritor,o acesso aos manuscritos biográficos do lavrador João Domingos Serra, por exemplo, o fez contemplar os costumes, os imaginários e as necessidades mais peculiares desse campesinato. Logo, o escritor se propôs a fazer uma investigação sobre a história e a vida do trabalhador agrícola do Alentejo a partir da vivência com diversas famílias da região, reunindo com elas memórias que tornaram possível a construção de um romance que conta o passado desses trabalhadores que permaneceram no país para lutar por melhores condições de vida e trabalho. Para a apreensão dessa vivência, são de suma importância as marcas da oralidade da cultura campesina local, tendendo o autor, com essa marca, criar uma permeabilidade entre a história e a ficção paralelamente aos costumes e às narrativas da realidade camponesa. No romance, tais aspetos encontram-se de igual forma vinculados à narrativa de Saramago, que se caracteriza por distintas temporalidades discursivas articuladas às tradições populares do Alentejo, tradição essa que, além dos provérbios, tem sua representação variada de acordo com as narrativas de caça, as narrativas da prole, as narrativas de acidentes e assaltos na estrada, e ainda as histórias correntes durante os períodos de seara. António Mau-Tempo,representante da terceira geração da família Mau-Tempo, de modo bastante simbólico, assume, com Sigismundo Canastro, o papel de narrador ou de contador de causos, simbolizando toda critica social ascendente entre os camponeses. Entre a leitura do passado e do presente realizada pelo autor da obra, abre-se uma nova narrativa desdobrada das tradições e das experiências de vida. Em "História e memória", por exemplo, Jacques Le Goff afirma que “Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens” (LE GOFF, 2003, p. 477). Essa parece ser uma das chaves possíveis de leitura do romance "Levantado do chão", que visa “reler a história através da literatura, resgatar a memória coletiva dos massacrados da terra metonimicamente representados pela família Mau-Tempo – na luta por libertação" (FERREIRA, 2016, p. 43). Com todo o trabalho de campo realizado por Saramago para registrar a vida dos camponeses alentejanos, em nossa hipótese de leitura, o romance "Levantado do chão" não promove uma mimesis passiva da realidade agrícola. Ao contrário, pretendemos demonstrar aqui que Saramago subverte as ideologias que legitimam a manutenção da atual e histórica ordem social, econômica e política no campo. Por fim, concluímos que José Saramago subverte a história oficial confrontando os documentos governamentais com seus registros locais escritos e orais. Essa estratégia proporciona ao romance "Levantado do chão" um fazer histórico, pois, ao mostrar que a história dos lavradores e do latifúndio pode ser narrada de outro modo, o autor nos remete ao fato de que existem diversas formas de se narrar o passado e o presente, reavivando as ações e os traumas individuais e coletivos dos camponeses.

        Speaker: Daniel Vecchio (Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ))
      • 16:30
        Olhares cruzados e Imagologia: imagens e figuras da cultura portuguesa na obra de Antonio Tabucchi 15m

        A vontade de conhecer outras culturas marca, de forma indelével, as obras de Antonio Tabucchi, sendo reconhecida a sua alofilia pela cultura portuguesa. O escritor é bem consciente da subjetividade do seu olhar, pleno de abertura ao Outro e à sua cultura. Nas obras Mulher de Porto Pim, Viagens e Outras Viagens e Racconti com figure, os narradores, que o autor coloca em cena, vão construindo interpretações ficcionalizadas de ambientes, costumes e figuras da cultura portuguesa, representando, intersecções, choques ou diferenças culturais. Com base nos estudos sobre Imagologia de Joep Leerssen, na teorização sobre o transnacionalismo literário de Paul Jay, em Global Matters, nas reflexões sobre sobre a interculturalidade e o cosmopolitismo (nomeadamente na obra Whose Cosmopolitism coordenada por Nina G. Schiler e Andrew Irving), mas também na teorização sobre alofilia de Todd L. Pittinsky, observar-se-á o modo como Tabucchi ficcionaliza as imagens e as figuras que capta com o seu olhar. A Imagologia e o transnacionalismo literário investigam como se intersetam, ou como se conciliam, ou ainda como entram em conflito, os múltiplos e diferentes imaginários culturais. Como afirma Paul Jay (2010) a viragem transnacional na crítica literária, ao assumir que toda a perspectiva crítica é uma construção a partir de um lugar, abre-se a uma investigação não só dos fenómenos e situações transnacionais, mais ainda dos processos e agenciamentos aplicados (e implicados) na representação artística.
        É importante realçar que o próprio ponto de vista adoptado por Tabucchi, através dos seus narradores, é marcado pelo que Nina G. Schiller designa por “pertenças simultâneas sobrepostas”. O seu olhar é já um olhar de adesão e pertencimento relativamente à lusofilia; porém, este olhar já mesclado só pode ganhar esta feição na medida em que a sua curiosidade pelo Outro o faz o cidadão do mundo — como o comprovam os mapas que decide apresentar nas suas obras, marcando os seu passos por diversos espaços e países do mundo.
        Numa análise mais detalhada, atentar-se-á no agenciamento da sua “cartografia íntima” e interpretativa e estudar-se-á o modo como se refigura ou se transfigura o Outro, mas também como se representam o próprio encontro, a interiorização do contacto, o espanto, a dúvida e outras interseções culturais.
        Um sentido peculiar que toma o olhar de Tabucchi é aquele que se evidencia quando interpreta e recria as visões de pintores ou escritores portugueses. A écfrase é uma estratégia utilizada pelo autor de Requiem com o intuito de chegar mais perto, de acompanhar e dialogar com o olhar de outros artistas. Na abordagem a realizar, indagar-se-á como o narrador nos conduz a olhar para obras de artistas e observar-se-ão as estratégias estilísticas utilizadas para esse efeito. Segundo Murray Krieger (1992), “the ekphrastic principle may operate not only on those occasions on which the verbal seeks in its own more limited way to represent the visual but also when the verbal object would emulate the spatial character of the painting or sculpture by trying to force its words (…) to take on a substantive configuration”. De acordo com esta ideia, analisar-se-ão também os recursos escolhidos pelo autor para transmitir ao leitor os cruzamentos imagéticos que sentiu, almejando distinguir as suas variantes e matizes.

        Speaker: Maria João Simões (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
    • 16:00 17:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 16:00
        O labirinto da saudade é um passeio turístico pela Lisboa moderna. 15m

        Sabemos que, nas suas peregrinações urbanas, o turista visa fazer a experiência da diferença, do “outro”, num mundo globalizado e homologado que o próprio turismo contribuiu a produzir. Carlos Fortuna defende que “é na minúcia do exemplar histórico e monumental da cidade, nas suas ruínas e edifícios decadentes, [...] que se vislumbram hoje os traços da sua “singularidade” (FORTUNA, 1995). Após Paris, Veneza e Barcelona, Lisboa apresenta-se como a última fronteira do aparentemente autêntico, lugar de sobrevivência de um passado popular e aliciantemente decadente (retratado nos postais em cortiça, apinhado nas caixas de sardinha vintage) que resistiu à estandardização do moderno. Portugal, que pela sua condição semiperiférica (SOUSA SANTOS, 1994, 2016) ficou à margem dos grandes processos de modernização, ainda é capaz de encarnar esta aparente veracidade que foi evanescendo na Europa capitalista e globalizada: mais uma vez a “excepção” tornou-se “excepcionalidade” (VECCHI, 2010). Já no final do sec XIX os escritores fizeram questão de manusear o imaginário para restituir-nos um novo Portugal romanticamente moldado nos alicerces do que já não existia (neo-romantismo), concretizando a conversão da carência (que a Decadência apontava) em potencial. Transpostas as fronteiras temporais, registe-se que foi no precipitar de outra crise, desta vez preponderantemente económica, em 2012, que o país, com a cumplicidade das políticas governamentais, começou a ganhar uma crescente popularidade entre os estrangeiros, cujas divisas se têm demonstrado fundamentais na medida em que permitiram a saída de Portugal da própria crise. Se nas palavras de Antero de Quental o inimigo e responsável pela Decadência, no século XIX, era o “passado que se ergue dentro de nós” (QUENTAL, 1871), é este mesmo passado que agora, transformado em mercadoria, pode fazer a fortuna da nação e, para tanto, precisa ser realçado. A estetização quotidiana do factor tempo (FEATHERSTONE, 1992) parece ser uma constante do branding com que o país disputa o seu lugar no mercado turístico internacional. Mas não se trata (exclusivamente) de reativar a canonizada narrativa de povo conquistador, antes, é o passado diminuto, popular, das tradições que parece interessar à industria do design e do turismo. Já nos meados do século passado o Estado Novo tinha realizado um notável investimento simbólico no enobrecimento do substrato folklórico e na permanência do passado no presente a fins propagandísticos, como também tinha individuado no turismo um elemento estratégico do ponto de vista sociopolítico (CADAVEZ, 2017) ao pintar um idealizado país “para inglês ver”, longe dos estridores da vida de uma Europa vítima das tensões modernas. Agora, vale a pena analizar os mecanismos que regem o merchandising da saudade no contexto contemporâneo onde coexistem um Portugal de sabor local e tradicional e outro que, pela efervescência cultural e as dinâmicas do mercado, nos mostra a sua cara eminentemente moderna e cosmopolita. Qual a relação entre as duas temporalidades encenadas pela cidade turística? Uma análise dos processos de patrimonialização e turistificação permitir-nos-á destacar as narrativas e as tensões inerentes à negociação das identidades no Portugal contemporâneo.

        Speaker: Agnese Soffritti (Universidade de Bolonha)
      • 16:15
        (Dis)funcionalidade ecológica da cidade 15m

        A cidade tornou-se o espaço não somente para a proteção, mas também para as trocas, atividades sociais, artísticas e religiosas, e compete a ela os trabalhos de organização política, econômica, cultural e militar (GOUVÊA, 2008). As cidades são “fruto e reflexo das relações sociais que nelas se manifestam” (FIORI, 2009, p. 19), sendo espaços sociais antes mesmo de serem espaços físicos (GARCIAS; BERNARDI, 2008), bem como espaços políticos. Assim, enquanto a cidade “é um objeto espacial que ocupa um lugar e uma situação” (LÉFÈBVRE, 1976, p. 65), infere-se também que ela “é compreendida como produto coletivo” (RODRIGUES, 2004, p. 12), fruto da “projeção da sociedade sobre um local” (LÉFÈBVRE, 2001, p. 56), e de seus constantes ajustes e adequações às necessidades humanas, pautada na busca por melhores condições de vida para seus habitantes, e em contraposição aos inerentes conflitos urbanos relacionados às disfunções da cidade, que ocorrem “quando a cidade cumpre deficientemente suas funções, não as cumpre ou as implemente de forma negativa” (FIORI, 2009, p. 31).
        No Brasil, os municípios têm apresentado uma intensa urbanização, tornando-se em um processo caracterizado por desigualdades e pela proliferação de problemas urbanos, uma disfunção. É nesse cenário que a presente pesquisa se desenvolve porque os municípios são fundamentais para a criação e sedimentação de políticas públicas que contemplem o tripé social, ambiental e econômico da sustentabilidade (ONU, 2017), sendo assim, a sustentabilidade implica em repensar o modelo desenvolvimentista, as relações sociais, ambientais e econômicas (ARAUJO; CARVALHO, 2011; SILVA, 2003).
        As normas jurídicas ambientais devem prever obrigações positivas e negativas no sentido de alcançar o direito ao ambiente ecologicamente equilibrado, em todas suas interfaces, absolutamente essencial à sadia qualidade de vida da presente e futuras gerações. Assim, a presente pesquisa debruça-se sobre a necessária funcionalidade ecológica dos municípios, tendo eleito São Carlos-SP para estudo. Recorte de uma pesquisa mais ampla, o presente estudo tem por objetivos: identificar se a função social dos municípios ecológicos conta com previsão legal no Brasil; e demonstrar se o município estudado cumpre a funcionalidade ecológica.
        A metodologia utilizada foi análise documental por meio do levantamento de obras publicadas sobre o tema, em livros, revistas especializadas, e trabalhos científicos publicados e disponíveis em bibliotecas ou na internet, além da busca de informações e dados estatísticos oficiais que tratem de municípios ecológicos. Ainda, houve a descrição (por assunto e tipologia legal) dos conflitos institucionalizados no município eleito, e por meio da pesquisa e análise de normas jurídicas referentes à funcionalidade ecológica.
        Chegou-se aos resultados: a) que o fenômeno da ocupação massiva dos perímetros urbanos nos municípios brasileiros tem apresentado sérios impactos para o ambiente, com consequência para a vida das pessoas. Mesmo diante dessa situação, os municípios precisam ser ecológicos para que possam proporcionar a seus habitantes uma sadia qualidade de vida, assim como previsto em normas jurídicas; b) que o respeito ao princípio do desenvolvimento sustentável é essencial para que os municípios possam ser chamados de ecológicos; c) em existindo descumprimento desse acervo normativo ambiental em um município, este estará em disfunção ecológica, como no caso dos conflitos identificados no município estudado, que apresentou infração legal em uma miríade de assuntos, mas com predominância de infrações contra a flora, fauna e poluição (esses assuntos estão interligados, propiciando sérios impactos para as pessoas).

        Speaker: Celso Maran de Oliveira
      • 16:30
        My sweet Fayal”:J. Pierpont Morgan nos Açores (1852-1853): o diário da viagem 15m

        J. Pierpont Morgan (1837 -1913), o famoso banqueiro e mecenas das artes que, à data do seu falecimento, era considerado o “homem mais rico do mundo”, na sua adolescência, permaneceu na cidade da Horta (Ilha do Faial, Açores) por um período de quase meio ano. Sendo uma viagem motivada por motivos de saúde, é um marco importante na vida do então jovem Pierpont por ser a primeira vez que se ausenta sozinho, sem nenhum familiar ou amigo, num país estrangeiro.
        O seu diário, escrupulosamente escrito dia-a-dia, e as cartas que envia a seus pais, cuja edição inédita publico em língua portuguesa, revelam as descobertas do jovem americano na ilha atlântica e seu olhar sobre a sociedade, os costumes e afazeres marítimos,- que o fascinam – dos açorianos. Estando sob a “tutela” do cônsul americano, Charles Dabney, com quem, mais tarde, vem a estabelecer sociedade na primeira firma que funda na maioridade, é mais um testemunho do prestígio social, económico e política da família americana nos Açores que deu título aos tempos conhecidos como “século Dabney”.
        O relato de viagens de Pierpnt Morgan dá eco das infraestruturas turísticas na Horta, como o Hotel Silva, o primeiro hotel no Faial, criado sob o incentivo da família Dabney cujas despesas são descritas ao pormenor pelo adolescente. Do mesmo modo, na sua correspondência assistimos à descrição e valoração do artesanato local, variado, e que vai enviando em oferta para os seus familiares. No retorno, sabemos da apreciação dos mesmos e dos pedidos que, da América, vão surgindo para este ou aquele ítem.
        Da economia local, destaca a produção da laranja que começava do Faial a competir com a laranja de S. Miguel na exportação para o mercado inglês.
        Da sociedade, costumes, como é particularmente sensível nos testemunhos dos turistas de credo Protestante, as questões religiosas têm um papel de destaque: das procissões e festas católicas que pontuam a agenda no período em que permanece na ilha à dificuldade de praticar os rituais religiosos protestantes. Não tendo uma templo para a congregação, sabemos, pelo seu testemunho, que na casa dos Dabney um elemento fazia a leitura da Homilia em cada domingo, recurso para o cumprimento das obrigações religiosas . Do mesmo modo, no tempo que permanece nos Açores assiste a dois funerais de protestantes que o ferem pela falta de solenidade e pela exiguidade do cemitério, chamado, “dos ingleses”.
        Na perspectiva que os estudos actuais progridem na associação entre Turismo e Literatura, destacaremos, nesta comunicação o olhar do turista Pierpont Morgan no Faial do sec XIX.

        Speaker: Prof. Elisa Gomes da Torre (UTAD)
    • 17:00 17:20
      Pausa 20m
    • 17:20 18:20
      Brasil - Homenagem a Murilo Mendes e Sérgio Buarque de Holanda 1h

      Brasil - Homenagem a Murilo Mendes e Sérgio Buarque de Holanda, por Maria Betânia Amoroso e Pedro Meira Monteiro

    • 18:20 19:20
      Início Processo eleitoral 1h

      Início do processo eleitoral - apresentação de chapas

    • 13:00 14:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 13:00
        Cinemas menores. Aproximação ao trabalho poético e ensaístico de Fernando Guerreiro 15m

        No artigo “Criticism, Inc.”, John Crowe Ransom delegava no professor universitário a função da crítica de poesia, atribuindo-lhe vantagens em relação às figuras tanto do poeta como do filósofo. Contudo, acrescenta, a expectativa no que toca a esse “profissional” das letras é habitualmente frustrada. Ransom esperaría mais de um universitário como crítico professionalizado, ao abster-se normalmente do juízo literário. Seja como for, “it is from the professors of literature, in this country the professors of English for the most part, that I should hope eventually for the erection of intelligent standards of criticism. It is their business” (1937). Crítica, assim, refere prioritariamente um juízo estético, a sua morada deveria ser a universidade, e como função deveria ser cooptada pela instituição. Sobrevirá ao cumprimento incerto deste programa de divisão do trabalho a institucionalização não tanto da academia como lugar da “crítica”, mas como sede da “teoria”: “Today’s poets are, very often, also professors of poetry who teach alongside their scholarly colleagues. For more tan any other reason, perhaps, the shrinking market for poetry forced its practitioners into the university” (Eisemann, “Theory, Inc.”, 312). Na declinação portuguesa, trata-se de um processo que vincularemos aos anos 60 e 70, em simultâneo com o devir de desvalorização quer da figura do poeta-crítico – deslocado pelo crítico “teórico” (da literatura, da teoria crítica, dos modelos culturalistas) – como do crítico jornalista, admitindo, muito embora, excepções honrosas em quaisquer das figurações. Enfim, a dispensação do crítico e a marginalização do teórico vêm a ter um inverso proporcional no abuso da poesia como capital cultural.
        A obra publicada de Fernando Guerreiro – professor universitário, ensaísta, poeta, e também tradutor – desdramatiza e trabalha no ‘desfuncionamento’ – ergo: da crítica – dos termos da divisão do trabalho que dinamizam os processos sumariamente descritos: não demanda a estética (forma), mas a estesia (afecção sensível), o que lhe permite circulação horizontal entre objectos eyebrow e pop; não se circunscreve à ortopedia de uma gramática teórica, mas avança – como poeta e como ensaísta – em função de enunciados teóricos; valoriza o trabalho académico, mas não é academicista; comuta a hegemonia semiótica pelo pensamento da imagem, mas não rasura, antes assume e radicaliza, a “confusão” entre diferentes dispositivos verbovisuais (filosofia, música, cinema, fotografia encontram igual acomodação). Muito concretamente, numa recente entrevista, Fernando Guerreiro dispunha não tanto a prioridade do cinema sobre a literatura na sua trajectória crítica e poética, como a sua simultaneidade: “De alguma forma, venho mais do cinema para a literatura do que o contrário. Embora, na verdade, também seja enganador dizer isto, porque as duas coisas dão-se em simultâneo, mas digamos que em certo momento aquilo que me interessava mesmo era fazer cinema. E é o não tê-lo feito, não ter conseguido fazê-lo, não ter feito o esforço suficiente para o fazer, que me fez deslocar para uma forma menor de cinema, que é a literatura.” (Entrevista a Fernando Guerreiro, À Pala de Walsh, 2018). Menoridade da literatura – da poesia –, com a qual não mantém um vínculo saturniano; mas também, decerto, menoridade do próprio ensaísmo em relação às máquinas alucinatórias do(s) cinema(s). Ensaísmo e poesia inscrevem-se de modo conspícuo, mas também diverso, em livros como O Caminho da Montanha (2000), Teoria do Fantasma (2011), Imagens Roubadas (2017).

        Speaker: Pedro Serra (Universidade de Salamanca)
      • 13:15
        O silenciamento crítico da Poesia Experimental 15m

        É talvez altura de interrogar as razões do silenciamento da Poesia Experimental na história da poesia portuguesa e, mais latamente, na História da Literatura Portuguesa, na qual continua a funcionar "em negativo" e num peculiar regime espectral. Pois a verdade é que, apesar das sugestões em contrário, não faltaram poetas experimentais (em número pelo menos equivalente aos do Brasil, no que toca aos realmente relevantes), não faltou uma dinâmica performativa sintonizada com um tempo de performances e instalações (os anos 60 e 70, sobretudo), não faltou uma reinvenção da tradição, nem faltaram poetas críticos ou poesia em estado de teoria. Ou seja, não faltou tudo aquilo que a uma ótica posterior como a da literatura eletrónica fez com que a PoEx se configurasse como um dos precursores históricos das possibilidades abertas pelo digital no domínio da literatura.

        A comunicação tentará, pois, interrogar a razão do silenciamento histórico da poesia experimental enquanto "cadáver que procria", demorando-se em três tópicos: o perfil dos seus poetas-críticos mais relevantes; o trabalho de reinvenção da tradição, em particular a barroca; as "relações perigosas" com o concretismo brasileiro, que em muito contribuíram para a imagem (em rigor, falsa) da PoEx como um mero apêndice local da omnipotente teoria da poesia concreta.

        Speaker: Osvaldo Silvestre (Universidade de Coimbra)
      • 13:30
        «Não frequento os críticos»: o poeta, os críticos, os poetas-críticos no cânone poético novecentista (década de 60) 15m

        A minha comunicação poderia relatar a parcialíssima historia de uma dupla irritabilidade: a dos críticos para com os poestas, e dos poetas para com os críticos. Também a história da poesia portuguesa do século XX encena a moderna querelle com antigas retóricas como a disputa entre quem afirma que só sabe quem faz (o poeta) e quem acha que só pode interpretar poesia o assim chamado philosopus artifici additus figura a privilegiar em relação ao artifex artifici additus. Rene Wellek repara num ensaio já clássico “O poeta como crítico, o crítico como poeta, o poeta-crítico” incluído em Discriminations (1970) que a invasão e a subserviência da crítica por parte de metodos poéticos ou puramente fantásticos não advantajou em nada a crítica tal como o imperialismo oposto, isto é, a invasão da poesia por parte dos críticos teve efeitos ruins na poesia. Dialogando com as posições de Eliot (nomeadamente o Eliot do Sacred Wood) acerca da utilidade da crítica e descontruindo as tipologias eliotianas e também os discursos acera a importância que a crítica tem no processo criativo (posição retomada por Ruy Belo quando diz que a critica fará dessa maneira parte da poesia), Wellek pergunta retoricamente se o poeta pode ser um bom crítico, ou se o facto de ele ser também crítico foi um bem para a crítica ou invertendo a pergunta o facto de ele ser crítico favoreceu o poeta? Teve êxito a união do crítico-poeta ou do poeta-crítico? Foi ele uma «casa divida contra si própria» ou foi ou pode ser o homem onde se integram sensibilidade e inteligência? O poeta-crítico favorece a poesia? O século de Ouro português talvez responda. Se é verdade como diz Eduardo Lourenço que «a partir dos anos 60 todos os poetas de algum relevo serão experts em arte poética, em virtuosidade poética, às vezes em excesso», a nossa comunicação tentará analisar as dinâmicas discursivas e retóricas através das quais poetas-críticos como Gastão Cruz, Ruy Belo e António Ramos Rosa dialogam teoricamente entre eles e canonizam a década poética de 60 do Século XX português.

        Speaker: Vincenzo Russo (Universidade de Milão)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:00
        Autoria no Moçambique Pós-colonial e na África do Sul Pós-apartheid: os Casos de João Pedro Grabato Dias e de J. M. Coetzee 15m

        Em Pressaga — ode didática, publicada em junho de 1974, da autoria de João Pedro Grabato Dias, nome sob o qual o poeta e pintor português António Quadros (1933-1994) publicou a grande maioria dos seus textos literários —, o poeta pergunta-se: como será o mundo após o fim do colonialismo? E qual será o meu lugar dentro da nova ordem política e social? As meditações de Grabato Dias a propósito dessas questões oscilam entre entusiasmo pelo nascimento da nova nação de Moçambique — Quadros, na altura, residia em Maputo — e desassossego para com a dramática mudança política e as eventuais consequências que aquela poderia ter para o seu caso específico, enquanto indivíduo de ascendência portuguesa nascido em Moçambique — identidade assumida por Quadros para o seu nom de plume em um texto publicado em 1971 na coletânea Laurentinas.

        Em Disgrace (1999), o autor sul-africano J. M. Coetzee (1940-) explora questões semelhantes àquelas levantadas por Grabato Dias em Pressaga. A narrativa do romance decorre no período imediatamente após o fim do apartheid na África do Sul e evoca as tensões violentas entre a minoria branca e a população maioritariamente negra. No romance, acompanha-se o ponto de vista de um professor universitário de literatura inglesa, David Laurie, que tem dificuldades em se habituar às novas condições sociais e políticas da África do Sul. Após ter passado por uma série de desventuras, Laurie acaba por cair no estado de desgraça referida no título: no fim do romance, ele é voluntário em um abrigo de animais, onde ele participa da eutanásia de cães abandonados.

        Nos dois casos, os autores abordam as questões levantadas pela mudança das situações políticas em Moçambique e na África do Sul através da temática da autoria literária: enquanto David Laurie é apontado como autor fracassado incapaz de escrever a obra-prima de seus sonhos — uma ópera sobre o caso de Byron e sua amante Teresa Guiccioli —, Grabato Dias faz uma ligação entre a possibilidade da sua exclusão do Moçambique pós-colonial e o seu status de ‘poetazinho’ com poucas hipóteses, segundo ele, de alcançar um público no futuro. Pretende-se, na comunicação proposta, analisar as intervenções respetivas de Quadros e de Coetzee através duma análise contextualizada das obras referidas dentro de um quadro comparativo. Por que esses escritores recorrem à temática da autoria para discutir a questão do lugar da população branca em países africanos pós-coloniais? Quais as implicações do discurso de vitimização adotado tanto por Grabato Dias como por David Laurie para evocar a situação enfrentada por pessoas brancas em sociedades africanas? Como Grabato Dias e Laurie enquadram os seus lugares enquanto indivíduos, no plano histórico e político? Em que medida Desgraça e Pressaga podem-nos ajudar a repensar o papel e o lugar da figura do autor (branco) dentro das tensas situações políticas do Moçambique pós-1974 e da África do Sul pós- apartheid?

        Speaker: Thomas Stennett (Universidade de Oxford)
      • 13:15
        Clichés Identitários em Mindelo: Estudo antropológico sobre a fotografia em Cabo Verde a partir da Foto Melo (1890-1975) 15m

        Esta comunicação pretende ser um contributo para o estudo da representação visual de Cabo Verde a partir da análise antropológica do acervo da Foto Melo em Mindelo, São Vicente, entre 1890 e 1975.
        Lembrando que o termo cliché advém de um processo técnico que, pela primeira vez, vem permitir a impressão duma fotografia até à exaustão (o mesmo acontecendo com o termo estereótipo, que advém da designação inglesa stereotype para o mesmo processo), pretende-se analisar os registos fotográficos da Foto Melo, a fim de indagar sobre as repetições e os lugares-comuns que permeiam (ou não) as representações desta sociedade, tecendo uma reflexão sobre a identidade cabo-verdiana, a partir da cidade de Mindelo e daquela que é considerada a mais importante casa de fotografia de Cabo Verde.
        Objetiva-se, neste contexto, contribuir para uma história ilustrada do colonialismo português e sobretudo de Cabo Verde, tendo em vista as particularidades históricas e sociopolíticas do arquipélago.
        A história da fotografia desenvolve-se em paralelo com a da antropologia. Inventada numa época em que os antropólogos estavam preocupados em estudar a evolução humana sob o ponto de vista das variações rácicas, a fotografia serviu para coadjuvar os governos nas suas políticas coloniais e legitimar “cientificamente” diferenças e estereótipos.
        É neste contexto, sob a alçada do imperialismo, que se constituem, desde o século XIX, numerosas coleções fotográficas. No entanto, a fotografia colonial não é um campo monolítico e se é verdade que a sua investigação, nomeadamente em África, é hoje uma área de estudos dinâmica, convém não esquecer que a “agência indígena” parece ter ficado muitas vezes de fora do arquivo etnográfico, tanto na análise do processo de criação de imagens, quanto no da produção de significado.
        Indagando sobre os cruzamentos entre fotografia e colonialismo, percebe-se, deste modo, que, se por um lado nem todas as fotografias produzidas em contexto colonial são colonialistas, por outro, Cabo Verde ocupa um lugar especial no quadro do “imperialismo”, chegando a ser bandeira do “excecionalismo” da política colonial portuguesa e da suposta convivência harmoniosa entre colonizadores e colonizados que daria lugar à fundação de sociedades “multirraciais”.
        Neste âmbito, a presente comunicação pretende pôr em confronto as representações "metropolitanas" de Cabo Verde, como os retratos produzidos numa das casas fotográficas mais antigas e conhecidas de Cabo Verde, a Foto Melo.
        Fundada em 1890 por João Henriques de Melo, nascido em S. Filipe, Fogo, e continuada pelo seu filho Eduardo Ernesto de Melo, apesar de todos os oito irmãos lá terem trabalhado, a Foto Melo passou pelas mãos de duas gerações de fotógrafos, retratando durante mais de um século as paisagens das ilhas e as vidas dos seus habitantes. Na última década do século XX, em 1992, porém, esta antiga casa de fotografia vê-se obrigada a fechar as suas portas, deixando no seu interior mais de 150.000 negativos (de 6x9 e 4x5 cm, em vidro e em películas de nitrato e acetato de celulose, distribuídos por mais de 1 500 antigas caixas) e milhares de provas em papel que ali permanecem, ainda hoje, esquecidos.

        Speaker: Liliana Oliveira da Rocha (Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa)
      • 13:30
        Missões antropológicas de São Tomé (1954) e Angola (1955): Caminhos para descolonização da fotografia colonial 15m

        Neste trabalho são analisados dois conjuntos com fotografias inéditas produzidos durante as Missões Antropológicas portuguesas em São Tomé e Príncipe (1954) e Angola (1955), período do Estado Novo salazarista. A investigação, realizada no âmbito do projeto Photo Impulse (FCT, Portugal), pretende analisar o discurso presente em diários e documentos oficiais a par da fotografia e sua materialidade que agrega sentidos ao discurso ao propor modos de exibição (Edwards, 2002). Com a análise, reflete-se sobre os caminhos possíveis para a descolonização da fotografia colonial através do poder investido ao arquivo e das relações de género e raça que permeiam essas imagens.
        Dessa forma, este trabalho conta com três partes interconectadas para propor caminhos para a descolonização da fotografia colonial: i) A primeira parte expõe as ideologias e objetivos das missões científicas portuguesas e dos cientistas em Portugal no século XX, com o surgimento da “Escola do Porto” e utilização da antropologia física; ii) A segunda parte apresenta uma análise descritiva dos dois conjuntos fotográficos que foram produzidos na Missão Antropobiológica de Angola (1955) e a Missão Científica de São Tomé e Príncipe – Secção Etnográfica (1954); iii) Após a análise das imagens produzidas nas missões, são lançados caminhos possíveis para a descolonização das fotografias analisadas que fazem parte de arquivos coloniais: a discussão sobre arquivos, poder colonial e a “colonialidade do ver” (Barriendos, 2018); como também a discussão de género que foi “esquecida” pelos estudos do paradigma modernidade-colonialidade.
        Compreende-se, portanto, que as fotografias coloniais, presentes em arquivos, têm conexão com o caráter político que as atravessa: reproduzem a violência do colonialismo e da escravidão por meio da sua circulação, propriedade e formas de exibição. Por isso, segundo Azoulay (2019), desaprender o imperialismo significa desnaturalizar os documentos e práticas de documentação. Seguindo esse preceito, para que a fotografia dos arquivos coloniais desempenhem um papel de reparação, por ter sido extraída contra a vontade dos fotografados, o arquivo deve ter acesso livre para que sejam catalogados e arquivados com a participação dos familiares ou comunidade daqueles que foram fotografados. Só assim, a academia, instituição que propagou a Antropologia Física e construiu arquivos coloniais durante o neocolonialismo português, poderia participar ativamente da reparação dos povos africanos. Além do mais, o género surge quando o discurso colonial promove a dicotomia fundadora de classificação de indivíduos em humanos e não humanos. Nesse contexto, a mulher negra não se encaixava nem em negro (não humano) nem em mulher (humano): surge como uma intersecção desses dois caminhos e que sofre dupla subjugação (Lugones, 2014: 936). Tendo como base esses pensamentos inovadores e importantes para o pensamento anti-imperialista do arquivo colonial e do género decolonial, a presente reflexão sobre fotografias coloniais portuguesas surge como uma tentativa de descolonizar arquivos coloniais que ainda constroem as memórias dos povos com passado colonial ainda recente.

        Speaker: Lorena Travassos (FCSH/ICNOVA)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:00
        A gramática das saudades: a língua e as emoções na definição da identidade nacional portuguesa no século XVI 15m

        Os seres humanos se constituem no interior da linguagem. Através da aquisição da linguagem, do aprendizado de uma dada língua encarnam, subjetivam, introjetam os conceitos que estruturam a ordem social e a cultura de que farão parte. Tornam-se humanos ao se comunicarem e se relacionarem mediante distintas formas de linguagem, entre elas a linguagem oral e escrita. Somente através da língua podemos nomear, dizer, expressar dadas percepções que temos do mundo e dadas emoções que as afeções que nos trazem a vida fazem emergir. Essa comunicação tratará dessa relação necessária entre a língua e a expressão dos sentimentos. É da língua que depende a nomeação e o conjunto de sentidos e significações que uma dada sociedade, em dado tempo e condições históricas, confere a um dado sentimento. Essa comunicação se debruçara sobre a abordagem dada ao sentimento da saudade nas gramáticas, que trataram de estabelecer as regras que deviam presidir a escrita e a fala da língua portuguesa, ao longo do século XVI. Na Península Ibérica, província romana desde o século III a. C, a língua latina trazida pelas tropas de invasão, foi profundamente modificada pelo contato com as línguas dos povos ditos bárbaros (século V) e pela invasão árabe (século VII). No século XII, já encontramos nos chamados Cancioneiros o registro do que seria uma língua romance, surgida do chamado latim vulgar, aquele utilizado no cotidiano: o galaico-português, do qual se tem notícias desde o século X. Com o surgimento do reino de Portugal, no ano de 1139, o galaico-português se tornará a língua da Corte. Em 1290, D. Dinis I oficializará o galaico-português como língua oficial do Reino de Portugal. A partir daí a Corte passará a ser o local institucional onde a língua portuguesa será normatizada, codificada e regulamentada. É nesse sentido que no século XVI, notadamente diante da ameaça de desaparecimento da nação portuguesa, trazida pela chamada União Ibérica, se enfatiza a codificação da língua portuguesa, a partir da busca de sua diferenciação da língua castelhana e sua aproximação das regras do latim culto. Se a língua portuguesa é uma língua moderna e se, como costumeiramente se afirma, a palavra saudade somente dela faz parte, embora também se faça presente no galego, podemos dizer que a saudade é um sentimento que também emergiu historicamente na modernidade. Nas gramáticas escritas por João de Barros, Fernão de Oliveira e Pero de Magalhães Gândavo, que abarcam dois momentos históricos distintos: o período da União Ibérica e o período da Restauração do trono português, se fará uso do sentimento da saudade como um marcador, inclusive no âmbito linguístico, da singularidade da alma ou do espírito português e da maneira dos portugueses pensar e lidar com o tempo. A saudade seria um elemento identitário que legitimaria as reivindicações de particularidade do ser nacional português. Ao contrário do que afirma uma vasta bibliografia, não foi apenas com o romantismo novecentista que a relação entre o sentimento da saudade e a identidade nacional portuguesa foi estabelecida, essa relação já está presente nessas gramáticas do século XVI, relação que será objeto da comunicação. A comunicação explorará, portanto, a relação entre língua, emoções, temporalidades e identidade nacional.

        Speaker: Durval Muniz de Albuquerque Jr (UFRN)
      • 13:15
        Discurso corânico: possibilidades de novas construções do ethos da mulher brasileira 15m

        Esta pesquisa propõe articular os Versículos do Alcorão Sagrado e as reformulações e ressignificações do ethos da mulher brasileira revertida ao contexto religioso islâmico, percebendo assim, a relação entre a materialidade textual corânica nas ações e nos novos valores culturais das brasileiras muçulmanas e na elaboração de um outro modo de vida. Logo, modelando-se pelos Versículos do Alcorão, as brasileiras revertidas passam a viver de acordo com as regras advindas da religião, significando a construção de uma nova identidade.
        Desse modo, esta pesquisa apresenta uma reflexão teórico-metodológica sobre a apresentação do ethos da mulher brasileira muçulmana: em primeiro lugar, procura-se compreender os novos significados culturais e existenciais constituídos por diálogos com o Islam; em um segundo lugar, interrelaciona-se considerações do campo linguístico da Análise do Discurso sobre a construção dessas identidades coletivas com o intuído de reconhecer a linguagem e todo o seu poder de persuadir para, depois, entender as atitudes, as posições das brasileiras no que se refere à consciência de mulher muçulmana. Esta correlação entre a retórica dos Versículos corânicos e os novos valores culturais das mulheres brasileiras possibilita um possível diálogo interdisciplinar entre o multiculturalismo, a linguística e a religião.
        Para compreender o contexto religioso islâmico, no qual as mulheres estão inseridas e como a linguagem corânica move a brasileira a construir sua identidade e sua ideologia dentro de um grupo religioso, necessita-se de uma aproximação com as muçulmanas que se deu em cinco Mesquitas nas cidades de São Paulo (SP) e de Foz do Iguaçu (PR) entre os anos de 2015 e 2018. Contribuiu com as entrevistas um total de cinquenta e oito mulheres entre 25 e 59 anos. Essa observação de campo leva-se a ampliar o contato com as tradições islâmicas e a pensar questões relacionadas ao multiculturalismo, por exemplo, a aceitação de outra cultura que não a sua e a experiência de tornar-se muçulmano.
        Para abordar tais depoimentos requeri uma complexa reflexão sobre as narrativas das brasileiras muçulmanas no que se refere a importância da linguagem corânica para o tornar-se muçulmano. No que concerne particularmente a esse estudo do material verbal, a leitura do texto Marxismo e Filosofia da Linguagem (2009), do filósofo Mikhail Bakhtin, contribui ao tratar o nexo existente entre a autoconsciência individualizada e coletiva e o curso de suas interações sociais. A construção da identidade pessoal constitui-se como processo das interações do sujeito com outros povos detentores de cultura rodeados de outros povos.
        E pensar na noção de ethos da brasileira muçulmana – seu estilo, sua linguagem, suas crenças, seus valores culturais – Ruth Amossy, em Imagens de Si no Discurso (2005), busca estabelecer a relação entre a construção de uma imagem de si e a retórica. A base da teoria de Amossy reside na ideia de que o locutor efetua, em seu discurso, uma apresentação de si e estabelece a imagem que o outro faz dele. Logo, um texto necessário no que se refere ao valor dos modos de vida. Por fim, Charles Taylor (1994) é fundamental para se compreender o ideal de autenticidade e originalidade das brasileiras muçulmanas.
        Essas referências, abrem novas possibilidades de leitura do texto corânico e de reconhecimento das especificidades culturais que se manifestam nas atuais sociedades democráticas, constituídas por diálogos coletivos.

        Speaker: Mônica Broti (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
      • 13:30
        Os Cânticos da Festa da Santa Cruz. Uma recolha realizada no concelho de Reguengos de Monsaraz 15m

        No dia 3 de maio, de acordo com a tradição popular, celebrava-se o “dia da Invenção Santa da Cruz”. Nesse dia, no concelho de Reguengos de Monsaraz, era costume realizar-se a “Festa da Santa Cruz”, uma celebração paralitúrgica de dimensão religiosa e teatral que evoca os últimos momentos da vida de Jesus Cristo. Durante o decorrer da Festa, assumem particular interesse os cânticos entoados de forma lenta e monódica, por marcarem o desenrolar do ritual da própria festa, com a delineação dos principais momentos.
        Com a duração de dois dias, a cerimónia envolvia um conjunto de dez ou doze mulheres jovens. No primeiro dia, as mulheres estavam organizadas em dois grupos: o grupo da Mordoma, acompanhada de quatro ou cinco cantadeiras, e o grupo de Madalena, acompanhada do mesmo número de cantadeiras. Cada grupo formava um cortejo que percorria itinerários diferentes até ao local do Encontro, ao som dos cânticos entoados pelas cantadeiras.
        Durante o percurso, a Mordoma, vestida de branco, transportava a Santa Cruz, toda enfeitada de ouro e, por sua vez, a Madalena, trajada de preto, levava o Santo Sudário. Quando acontecia o seu Encontro, normalmente, num cruzamento, junto de um pequeno altar. De seguida, com Madalena à frente, os dois grupos dirigiam-se à casa da Cruz, devidamente ornamentada para o efeito, para que aí ficasse guardada a Cruz. Apenas a Mordoma e as cantadeiras entravam na casa da Cruz, fechando a porta. Cá fora, Madalena e as cantadeiras entoavam cânticos que solicitavam a abertura da porta. Entretanto, dois ou três homens jovens disparavam tiros e, depois, cantava-se os «Martírios do Senhor».
        No dia seguinte, realizava-se o cortejo de entrega da Santa Cruz à Mordoma, o qual seguia desde a casa da Santa Cruz até à casa da Mordoma, onde ficaria até ao ano seguinte.
        Trata-se de uma tradição associada ao ciclo das festas da Primavera, com uma estrutura assente na iniciação dos jovens participantes, isto é, um rito de passagem da adolescência à vida adulta.
        No concelho de Reguengos de Monsaraz, esta tradição remonta, pelo menos, à segunda metade do século XIX e realizou-se apenas em algumas localidades do concelho de Reguengos de Monsaraz, com periodicidade irregular. Ao longo da segunda metade do século XX, a Festa da Santa Cruz começou a perder expressão no concelho, de forma acentuada, e, no último quartel, poucas vezes se realizou. Contudo, perdurou até ao século XXI, com algumas interrupções, em apenas uma pequena aldeia do concelho, a aldeia de Barrada. Entretanto, deixou de se realizar aí, sobretudo, devido ao envelhecimento da reduzida população.
        Consideramos a Festa da Santa Cruz como parte integrante do Património Cultural Imaterial do concelho de Reguengos de Monsaraz, cuja memória desejamos preservar, através de um trabalho de recolha, de estudo e de divulgação de testemunhos diversos. Assim, na nossa comunicação, pretendemos dar a conhecer a recolha dos cânticos próprios desta celebração e a respetiva análise. A recolha, feita em diversas localidades, através de entrevistas, mostra que os cânticos apresentam diferenças, consoante a aldeia em que se realizava a Festa, e que circulam quer numa tradição escrita (ou manuscrita) quer na tradição oral, no repertório dos informantes (misturados com composições líricas tradicionais de temáticas distintas).

        Speaker: Lina Mendonça (CLEPUL - Faculdade de Letras - Universidade de Lisboa)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:15
        Lisboa Afro-atlântica: literatura e experiência urbana 15m

        Com a presente comunicação, através de uma abordagem metodológica de tipo comparatista, propõe-se uma reflexão analítica sobre a construção do espaço urbano da cidade de Lisboa em duas obras contemporâneas, produzidas por africanos e afro-descendentes, que encenam os conflitos, as violências e os encontros subjacentes ao multiculturalismo da capital portuguesa: Luanda, Lisboa, Paraíso, romance de Djaimilia Pereira de Almeida, publicado em 2018 e vencedor do prémio literário Oceanos, e Também os brancos sabem dançar, de Kalaf Epalanga, texto hibrido que articula as referências musicais à escrita literária, publicado em 2017 e definido pelo próprio autor um “ensaio musical”.
        A partir da leitura e dos possíveis desdobramentos do modelo do Atlântico negro proposto por Paul Gilroy em seu célebre ensaio The Black Atlantic: Modernity and Double Consciousness (1993), com a presente reflexão pretende-se destacar o papel dos trânsitos de corpos geopolíticos e de suas culturas pelo espaço fluido do atlântico, seja no que diz respeito às formas do literário – como tais movimentos moldam a escrita ficcional e a própria experiência literária – seja em relação às “visões da cidade” de Lisboa, retomando uma expressão de Beatriz Sarlo em A cidade vista: mercadoria e cultura urbana (2009), produzidas por esses olhares atlânticos.
        Desta forma, como ponto de partida para pensar tais escritas e tais autores serão então considerados processos históricos transnacionais quais o colonialismo e a escravidão, assim como a persistência na contemporaneidade global das narrativas e dos paradigmas excludentes que moldaram a expansão colonial do ocidente. A violência intrínseca nesses processos permeia, ainda hoje, tanto os enormes fluxos migratórios que acompanham as dinâmicas hegemónicas da globalização, tanto as estratégias biopolíticas – retomando o conceito de Michel Foucault em Il faut défendre la Société (1976) –, ou necropolíticas, nas palavras de Achille Mbembe em “Necropolitics” (2003), do poder no Norte e no Sul global.
        Interrogar essas escritas permitiria, portanto, levantar outras possibilidades de percepção da realidade urbana da antiga metrópole portuguesa enquanto, ao mesmo tempo, a intrínseca denúncia da violência ordinária e das micropolíticas de exclusão cotidiana presentes nas obras de Djaimilia Pereira de Almeida e Kalaf Epalanga em análise conserva uma forte carga política de subversão das narrativas dominantes. Narrativas sustentadas não apenas pela literatura, mas por todo um conjunto de dispositivos e práticas urbanas que envolvem, entre outros, as políticas públicas, a ação do mercado e a própria produção cultural.

        Speaker: Luca Fazzini (Universidade de São Paulo (USP))
      • 13:30
        A condição diaspórica na literatura portuguesa de autoria afrodescendente 15m

        Na literatura portuguesa é possível acompanhar em consolidação um percurso literário construído por mulheres de autoria afrodescendente. Inicialmente formado por escritoras que nasceram em África, mas para as quais a identidade africana não foi uma questão relacionada à pertença ou à integração nos seus retornos à cena lusitana e, por consequência, no texto literário. Restrinjo-me à prosa, para exemplificar, e cito Antónia Pusich (1805-1883), Wanda Ramos (1948-1998), Isabela Figueiredo (1963-), três autoras nascidas no continente africano, Cabo Verde, Angola e Moçambique, respectivamente, que são por Portugal acolhidas como retornadas ou como descendentes diretas de europeus (croata e portugueses, nos dois últimos casos). Suas obras, em alguma medida, tratam sobre a África ou o coração deixado no continente africano (MARTINS, 2011), no entanto, não refletem as sequelas deixadas pelo império ou pela colonização nas suas contemporaneidades. Por outro lado, acompanhamos recentemente a insurgência de uma literatura em Portugal que se propõe a (re)pensar a relação de Portugal com antigas colônias pelo viés da construção identitária dos sujeitos da diáspora (GILROY, 2003), quer pela experiência em território português, quer pelo retorno ao lugar de origem, num trânsito por diferentes geografias que revelam a necessidade do alargamento do espaço Europeu para lugares onde a história da Europa também se desenvolveu (CALAFATE, 2019). Essa literatura vai reclamar um reconhecimento de que esse mesmo espaço, ainda hoje, é forjado com o contributo dos afrodescendentes que por aqui foram impelidos ou escolheram ficar. As três obras publicadas em 2018 de autoria de Djaimilia Pereira de Almeida, Luanda, Lisboa, Paraíso; Yara Monteiro, Essa dama bate bué! e Telma Tvon, Um preto muito português trarão para a centralidade do debate literário, afrodescendentes da diáspora cuja condição afro-diaspórica determinará suas formas de existência em Portugal. Vale ressaltar que as autoras em questão são elas mesmas escritoras da diáspora angolana que transformam a geografia de origem no elemento primordial de composição da identidade na ficção, passando a integrar, desse modo, essa grande conversa que estamos nomeando de literatura portuguesa de autoria afrodescendente. Sendo assim, o objetivo deste trabalho consiste, a partir dessas três últimas obras, em compreender a dimensão diaspórica da literatura de autoria afrodescendente produzida hoje em Portugal. Para tanto, ser-nos-ão faróis os autores Paul Gilroy (2012), Stuart Hall (2003) e Avtar Brah (2011).

        Speaker: Liz Teles de Sá Almeida (Universidade de Évora)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:00
        Mestastásio desmetastasiado, ou a transformação de “Artaserse” em “O mais heroico segredo” 15m

        A dramaturgia portuguesa, após a morte de Gil Vicente e a tentativa malsucedida de construção de uma escola vicentina, ficou à mercê, no século XVII, do poder cultural castelhano, que não apenas governou Portugal politicamente, mas interveio com muita força na produção cultural lusitana do período – como se pode ler nos textos de Francisco Manuel de Melo, por exemplo. No teatro, como se pode ver nos escritos de Lope de Vega e outros preceptores do Século de Ouro espanhol, há uma valorização do público popular em detrimento de critérios mais eruditos da elaboração dramatúrgica. Interessa a este trabalho compreender como esse pensamento, hegemônico no século XVII ibérico, chega até a dramaturgia portuguesa da segunda metade do século XVIII e quais as tensões entre esse pensamento e um Iluminismo emergente em um Portugal pombalino. Para tanto, será tomada em análise um clássico da literatura dramática europeia do período: a peça "Artaserse", de Pietro Metastasio, mas em uma tradução portuguesa anônima, intitulada "O mais heroico segredo ou Artaxerxe". A edição utilizada será aquela publicada em 1773 na Oficina de Manoel Antonio Monteiro, mas, ainda no período, a peça também foi publicada em outras quatro edições (1758, 1764 e duas sem datação) e representada (1779), além de também ter sido objeto de censura inquisitorial em 1770. A partir desses documentos, verificar-se-á adaptações que geram um descompasso entre a tradução portuguesa e o texto original metastasiano e o pensamento estético prevalente no período. Assim, chegaremos à conclusão de que, diferentemente do que defendem a Inquisição e a historiografia teatral, na segunda metade do século XVIII, o teatro aurissecular ou derivado deste ainda carrega um grande apelo em relação ao público dos espetáculos. Tal constatação se dará, na tradução da peça metastasiana, pela inserção de personagens e situações que alteram a narrativa concebida pelo autor italiano. Para tanto, daremos ênfase ao acréscimo de três personagens à trama: Paquete, Ranheta e Pipia. Os dois primeiros, identificados entre as “pessoas que se representam” na publicação de 1773 como “1. gracioso” e “2. gracioso”, respectivamente, trazem já em sua caracterização inicial uma relação direta com a personagem (ou função dramática) mais emblemática da dramaturgia do passado Século de Ouro. Já Pipia, designada “lacaya” na dramatis personae, desempenha a função da “criada”, personagem-tipo cujas relações diretas estão ligadas às personagens-tipo do gracioso ou criado e da dama. Embora apenas as duas personagens masculinas acrescidas ao texto tenham sido motivo de crítica ao censor inquisitorial que avaliou a peça, em 1770, acreditamos que as três personagens conferem uma cor local ao texto, de forma que ele seja “traduzido” não apenas para a língua portuguesa, mas para contemplar o entendimento e o gosto do público teatral lisboeta do século XVIII.

        Speaker: Carlos Gontijo Rosa (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)
      • 13:15
        Representações da mulher nos entremezes dos séculos XVII e XVIII 15m

        O teatro em Portugal na época moderna utiliza frequentemente personagens-tipo como instrumento de crítica social, através de traços específicos que a tradição foi cimentando, com o intuito de suscitar o riso. De entre os géneros teatrais que recorrem às personagens-tipo, destacam-se os entremezes (pequenas peças populares e satíricas), que aproveitam estereótipos para protagonizar breves enredos de equívocos, enganos, mentiras e traições. Este género de teatro era muito apreciado, como atesta o seu significativo corpus, constituído por dezenas de textos impressos e manuscritos. O projecto Entremezes ibéricos: inventário, edição e estudo, actualmente em curso no Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa (coordenado por José Camões) tem vindo a consolidar a importância dos entremezes no teatro português através da identificação, recolha e estudo deste género teatral no século XVII, que foi fortemente influenciado pelos entremezes castelhanos. A sua investigação chamou novamente a atenção para a relevância das personagens-tipo como instrumento fundamental na criação dos entremezes.
        A figura da mulher é uma presença constante no teatro, mas a sua predominância nos entremezes é inegável, constituindo-se como personagens principais de enredos mais ou menos previsíveis. Sobressai, na leitura destas peças, a existência de estereótipos muito marcados sobre a mulher: a dama (representação de uma classe nobre ou da alta burguesia), a mulher casada e adúltera, as mulheres do povo (onde se incluem personagens como a Regateira, a Padeira e a Feiticeira), as freiras ou as filhas que enganam os pais são algumas das figuras mais recorrentes que se encontram em entremezes anónimos, nomeadamente O Amante Despedido, O Soldado Enganado, O Freirático, A Doente Fingida, o Entremez das Regateiras e o Entremez das Feiticeiras. Não obstante a sua forte presença, a investigação no âmbito dos estudos teatrais carece, ainda, de uma análise destas figuras e dos traços que determinam os respectivos estereótipos. Importa salientar, também, que, apesar de ser possível identificar as características destas personagens-tipo, surgem, em certos casos, esporádicas tentativas de fugir aos estereótipos, procurando-se, pelo contrário, desenvolver individualidades que revelam aspectos menos negativos da figura feminina. Alguns casos desta alteração do paradigma podem ser nomeadamente encontrados em textos que apresentam a mulher como vítima de um marido ciumento ou alcoólico (no anónimo Entremez do divórcio), como a filha vítima de um pai prepotente e sovina (Entremez do Velho impertinente e alucinado), ou, ainda, como a mulher enganada pelos amantes (Entremez dos dous filhos). Outro caso interessante no modo como a figura da mulher se apresenta sob vários prismas é a de entremezes, menos comuns, em que está em jogo a presença de uma mulher violenta que vitimiza o marido (Entremez das Almas). A multiplicidade de imagens que se pode encontrar permite, por conseguinte, estabelecer uma espécie de mapa representativo da(s) figura(s) da(s) mulher(es) nos séculos XVII e XVIII. Neste sentido, a presente comunicação procurará identificar, por um lado, os vários estereótipos da personagem feminina nos entremezes escritos em português e, por outro, os traços que caracterizam cada um deles. Esta análise terá em conta, ainda, o que poderíamos chamar o desvio do estereótipo, englobando, desse modo, os casos flagrantes de distanciamento dos núcleos mencionados.

        Speaker: Filipa Freitas (Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
      • 13:30
        Motivos da Tradição Ibérica no Género do Entremez: Los Golosos, de Portugal a Mallorca 15m

        O entremês é um género breve mas não é um género menor. É parte importante do espetáculo teatral no Século de Ouro, ocupando um espaço próprio entre os atos da Comedia Nueva e demandado por um público que gosta de rir com argumentos, personagens e desenlaces tipificados. O seu caráter cómico não impediu ser cultivado por destacados escritores e dramaturgos da época: Cervantes, Quevedo, Calderón de la Barca, Vélez de Guevara, Quiñones de Benavente, Jerónimo de Cáncer... Mas só em Espanha, porque em Portugal a maior parte de entremeses – sem contar os de Manuel Coelho Rebelo, que escreve em português e em espanhol – são anónimos. Assim sendo, a crítica não lhes dedicou especial atenção, ao contrário do que aconteceu em Espanha. Mas a abundância destes entremeses em língua vernácula evidencia a popularidade ou o sucesso do género entre o público lusitano. No entanto, o facto de serem anónimos leva a pensar que pudessem ter sido contemplados como parte de uma tradição dramática arraigada mas, de certa forma, considerada de menor categoria que o teatro importado, dado que os autores não mostram interesse por assinar as suas peças e estas, supomos, dificilmente poderiam ser representadas pelas companhias espanholas, pois além de um idioma alheio aos comediantes, empregavam uma linguagem coloquial consoante os assuntos tratados que, como nos entremeses do outro lado da fronteira, giravam em torno da burla, da manipulação e do engano. A riqueza de testemunhos sublinha a sua aceitação e leva-nos a pensar que deveriam ter tido circulação manuscrita ou impressa, e que provavelmente foram representados por atores portugueses. O curioso é que existe uma tradição ibérica de temas comuns que podemos encontrar em entremeses escritos em espanhol e em português, como é o caso da “campainha encantada” ou do “dia de compadres”. Se o teatro foi um firme ponto de união entre as culturas ibéricas, o género cómico não deixou de contribuir para a convergência de padrões dramáticos: há motivos e argumentos que unem ambos os lados da Península, passando de Portugal a Mallorca provavelmente através de Castela, e isso é o que acontece com o entremês de Os golosos, do qual existem versões em espanhol – mesmo no Novo Mundo –, em português e em catalão. A nossa proposta é dar conta das edições espanholas estudadas pela crítica especializada para poder depois aprofundar no estudo dos textos menos conhecidos, isto é, do entremês de Os golozos em português e do entremês de Los golosos, escrito na variante maiorquina do catalão, e comprovar a sua inserção numa tradição cómica comum.

        Speaker: María Rosa Álvarez Sellers (Universitat de València)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 14:00
        Brasil. Palavras-chave 15m

        No âmbito de um projeto mais amplo, que pretende refletir sobre as culturas de língua portuguesa e a sua divulgação em Itália, a comunicação propõe-se encarar o contexto brasileiro. Perante a dificuldade de lidar com um objeto de ensino extremamente complexo e escorregadio, caraterizado desde a sua formação colonial por um constante “processo de equilíbrio de antagonismos” (Freyre 2011: 116) e, no que diz respeito à sua prática de ensino no estrangeiro, pela necessidade de lidar com “uma cadeia de deslocamentos e estranhamentos” (Monteiro 2014: 19) e pela dificuldade de dar conta da complexidade problemática própria dos “muitos Brasis que estão inscritos naquele Brasil composito” (Vecchi 2014: 236), uma opção viável poderá ser a construção de um repositório mínimo de termos e conceitos capazes de abrir percursos interpretativos eficazes dum ponto de vista didático e sólidos em termos teórico-críticos. Um arquivo essencial que vai procurar na sua inevitável incompletude as pegadas daquela constante procura duma definitiva e inatingível definição de si mesma que caraterizará talvez a cultura brasileira. Ao mesmo tempo, num projeto que ambiciosamente pretende revelar aos alunos universitários italianos do primeiro ciclo de formação a complexidade do sistema cultural em língua portuguesa, imprescindível será manter esse arquivo mínimo aberto a solicitações, cruzamentos e olhares externos, lembrando, como escreve o angolano Ruy Duarte de Carvalho, que, no quadro da expansão ocidental, “o que se sabe e o que pode vir a saber-se de Angola e do Brasil – enquanto territórios que emergem como terra incógnita para a parte do mundo que consigna por escrito e mede, avalia e tenta decifrar aquilo com que depara, e até virem a alcançar, com o tempo, um estatuto de entidades nacionais e políticas modernas – terá muito necessariamente que decorrer daquilo que Portugal foi sabendo e do que se souber de Portugal.” (Carvalho 2006: 222-223)

        Referências bibliográficas
        Carvalho, Ruy Duarte de, Desmedida. Luanda – São Paulo – São Francisco e volta. Crónicas do Brasil, Lisboa, Cotovia, 2006;
        Freyre, Gilberto, Casa Grande & Sanzala. Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal, São Paulo, Global, 2011 (1933);
        Monteiro, Pedro Meira, A primeira aula: o vazio e a literatura, in A Primeira Aula. Trânsitos da literatura brasileira no estrangeiro, São Paulo, Itaú Cultural, 2011, pp. 14-25;
        Vecchi, Roberto, Rastros inapagáveis das diversidades brasileiras e os arquivos literários, in A Primeira Aula. Trânsitos da literatura brasileira no estrangeiro, São Paulo, Itaú Cultural, 2011, pp. 228-237.

        Speaker: Giorgio de Marchis (Università Roma Tre)
      • 14:15
        Portugal. Palavras-chave 15m

        No âmbito de um projeto mais amplo, que pretende refletir sobre as culturas de língua portuguesa e a sua divulgação em Itália, a comunicação propõe-se abordar o contexto português, procurando elementos de síntese que possam oferecer a um amplo público mediamente erudito, mas não especializado, ou aos alunos de primeiro ciclo do ensino universitário, um primeiro contacto com a cultura portuguesa. Tudo isso, porém, numa perspetiva profundamente histórica, porque é necessário “considerar a cultura dum povo (neste caso, o português) na sua historicidade, com pluralidade de elementos solidários num constante devir, num permanente refazer” (Prado Coelho 1992: 7). O ponto de partida será o da profunda ligação entre história e mito e da criação de uma (auto-)ficção das origens da nação, que marcará todo o seu percurso. Os mitos, “nada que é tudo” (Pessoa 2018: 135), “forma de consciência fantasmagórica com que um povo define a sua posição e a sua vontade na história do mundo” (Saraiva 1991: 112), “metalinguagem onde todos os nossos discursos se inscrevem” (Lourenço 2013: 53), são o invólucro que envolve todos os grandes núcleos da cultura portuguesa. Núcleos que são representados por uma série de palavras-chave que descrevem e caraterizam, numa primeira aproximação, as etapas da sua história; entre elas, por exemplo, “marginalidade”, “cruzada”, “império”, “viagem”, “expansão”, “saudade”, “sebastianismo”, “decadência”, “colonização”, “ditadura”, “revolução”. Estas palavras criam um mapa, uma série de coordenadas básicas que podem providenciar uma primeira orientação no interior da estratificação do imaginário e da auto-representação da identidade portuguesa. Um mapa, ou melhor, uma série de mapas diacronicamente mutáveis, porque “a identidade nacional foi revestindo formas sucessivamente diferentes ao longo dos tempos” (Mattoso 1998: 5). É através destes mapas e deste núcleos que será possível tentar uma abordagem introdutória, mas já crítica e problematizante, à cultura portuguesa, sem esquecer a contribuição que Portugal deu à formação das outras culturas de língua portuguesa e a contribuição que as outras culturas deram à identidade de Portugal (incluindo, na época contemporânea, a própria cultura dos outros países de língua portuguesa). Tudo isso em direção da definição de uma nova identidade (ou não-identidade) em que Portugal, que sempre, de forma irrealista, criou mitos para ser maior do que era, se transforme num espaço cultural e linguístico de cruzamentos, que poderá ser, realmente, maior do que é. Criando com isso, porém, um novo mito contemporâneo, chamado “lusofonia”.

        Referências bibliográficas
        Lourenço, Eduardo, O labirinto da saudade: psicoanálise mítica do destino português, Gradiva, Lisboa, 2013.
        Mattoso, José, A identidade nacional, Gradiva, Lisboa, 1998.
        Pessoa, Fernando, Mensagem e poemas publicados em vida, edição de Luiz Fagundes Duarte, INCM, Lisboa, 2018.
        Prado Coelho, Jacinto, A originalidade da literatura portuguesa, ICALP, Lisboa, 1992.
        Saraiva, António José, A cultura em Portugal, Gradiva, Lisboa, 1991.

        Speaker: Simone Celani (Universidade de Roma - Sapienza)
      • 14:30
        África e Ásia. Palavras-chave 15m

        No âmbito de um projeto mais amplo, que pretende refletir sobre as culturas de língua portuguesa e a sua divulgação em Itália, a comunicação propõe-se encarar o contexto africano e o asiático, nomeadamente as áreas menos familiares para os leitores italiano. Utilizando textos não apenas em português, os capítulos entendem oferecer uma primeira bússola para orientar-se no mapa cultural da herança portuguesa nos dois continentes.
        No caso africano, a comunicação desenrola-se a partir da palavra-chave “espaço” para dilatar o complexo legado português - arquitetônico, linguístico, social - fora das fronteiras oficiais dos países do PALOP ou dos limites coloniais da conferência de Berlim. Das triangulações luso-marroquino-brasileiras das aldeias de Magazão (Newitt 2015, 35) ou da costa do Benin (Chatwin 1980), até os legados na África oriental em países não lusófonos, como ou Zimbabwe (Barbosa 1846, 19-20) ou a Tanzania (Gurnah 2001, 15), a herança da passagem portuguesa atravessa o inteiro continente na sua diversificação.
        No caso asiático, é o termo “vestígio” a chave interpretativa para revelar uma arqueologia material e humana - lexical, religiosa, culinária - que testemunha a secular história de encontros/confrontos que moldou os perfis dos seus lugares. Através do rumo indo-asiático, que ainda hoje conecta o legado português do Oceano Indico as costas da Australia, da goesa Vimala Devi e a sua “comunhão de mosteiros e pagodes” (Devi 1962, 27) até à recente independência do estado timorense, o projeto pretende apresentar, não uma mera lista de enclaves longínquos, mas um heterogêneo arquipélago intimamente interligado.
        O objectivo final dos capítulos é ajudar o leitor italiano não especialista a estabelecer as primeiras conexões no mundo das culturas de língua portuguesa e, ao mesmo tempo, reflectir sobre o primeiro encontro sistemático do ocidente com o continente africano e o asiático. Um encontro que não se limita à história portuguesa, mas que envolve a inteira reflexão da Europa contemporânea e do mundo globalizado, como descrito pelo filosofo anglo-ganês Kwame Appiah: “Creed. Colour. Country. Culture. All these things can become forms of confinement, conceptual mistakes underwriting moral ones. But that’s not to deny that they can also give contours to our freedom. Social identities connect the small scale where we live our lives alongside our kith and kin with larger movements, causes, and concerns. They can make a wider world intelligible, alive, and urgent” (Appiah 2018, 287).

        Referências bibliográficas
        Appiah, Kwame Antony, The Lies That Bind: Rethinking Identity, Liveright, New York, 2018.
        Barbosa, Duarte, Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente Duarte Barbosa, introdução e notas de Augusto Reis Machado, Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1846.
        Chatwin, Bruce, The Viceroy of Ouidah, Summit Books, New York, 1980.
        Devi, Vimala. Súria. Poemas, Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1962.
        Gurnah, Abdulrazak, By the Sea, Bloomsbury, Londres 2001.
        Newitt, Maylin, Emigration and the Sea, University Press, Oxford, 2015.

        Speaker: Francesco Genovesi (Sapienza, Universidade de Roma)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Variabilidade intraindividual do português uruguaio 15m

        Em uma grande área do norte do Uruguai, o espanhol e o português coexistem, cada um ocupando seu próprio espaço social particular. Esta coexistência também se manifesta a nível individual em fenômenos como a alternância de códigos e processos de mistura e empréstimos em todos os níveis linguísticos. A nossa comunicação se concentra em uma análise quantitativa dos elementos em espanhol e português no discurso espontâneo de falantes de diferentes perfis sociolingüísticos a fim de diferenciar o grau de entrelaçamento linguístico em diferentes grupos sócio-econômicos e constelações comunicativas. Será demonstrado que às vezes pode ser difícil classificar uma determinada palavra ou enunciação como espanhol ou português devido à tendência dos falantes de combinar elementos morfológicos de uma língua com hábitos de pronúncia da outra, resultando em novas formas de palavras. Estas observações exigem uma abordagem qualitativa para complementar a análise estatística. Os resultados dessas duas perspectivas são examinados à luz da questão de se os dialetos de fronteira constituem de fato um "equilíbrio flutuante" (Rona 1965) das duas línguas envolvidas, cujos elementos falantes selecionam e combinam de forma mais ou menos arbitrária.
        Argumentaremos que a resposta a esta pergunta pode depender dos perfis lingüísticos individuais. Em alguns de nossos informantes (principalmente da classe alta) parece justificado falar de uma língua matriz (matrix language, Meyers-Scotton 1999) e outra língua insertada (embedded language), dada a distribuição de elementos do português e do espanhol e a quantidade relativamente pequena de elementos gramaticais do espanhol. Nestes casos, os falantes têm à sua disposição códigos separados que eles alternam mais ou menos conscientemente quando estão em conversa com outro bilíngue. Esta impressão também é confirmada pela observação de que a variabilidade intra-individual nesses falantes é baixa e a maioria das alternâncias pode ser explicada como causada pelo contexto conversacional imediato e pelo significado que os idiomas têm em diferentes domínios sociais (Matras 2009; Auer 1984).
        Para outros tipos de falantes (principalmente da classe baixa), a aplicação de modelos de alternância de código para explicar o comportamento lingüístico é menos satisfatória. A grande proporção de variabilidade em termos de itens gramaticais, bem como o uso geral misturado de elementos do português e do espanhol, sugere uma separação limitada dos dois idiomas na representação pessoal de léxico e gramática. Estes casos sugerem uma explicação além dos modelos usuais de alternância de código e uma abordagem mais próxima a uma macrogramática única (single macro-gramar, Lipski 2006) ou um discurso fundido (fused lect, Auer 1999). Entre outros objetivos, tal análise pode ajudar a esclarecer uma possível relação entre a classe sociolingüística e a capacidade cognitiva de selecionar e suprimir as formas da L1 (ou L2 em outros casos) (Kroll e Sunderman 2003) e também a esclarecer o status das variedades fronteiriças como códigos mistos, mas essencialmente estáveis. Esta pergunta não pode ser respondida sem antes levar em conta o repertório de informantes individuais e sua variabilidade.

        Speaker: Joachim Steffen (University of Augsburg)
      • 14:15
        Róticos em Ataque Silábico nas Capitais das Regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil: um Estudo com Dados do Atlas Linguístico do Brasil 15m

        Este estudo, pautado nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Quantitativa (Labov, 1972) e da Geolinguística Pluridimensional(Thun, 1998), analisa o uso dos róticos em ataque silábico inicial e medial com dados coletados pela equipe do Atlas Linguístico do Brasil(ALiB) em seis capitais, três da região Sul e três da região Centro-Oeste do Brasil, no falar de 48 informantes estratificados quanto à idade (18 a 30 anos e de 50 a 65 anos), ao sexo (feminino e masculino) e à localidade (Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre (Região Sul) e Goiás, Campo Grande e Cuiabá (Região Centro-Oeste).Temos como objetivo principal: a) averiguar quais são as variantes róticas que predominam nessas localidades em ataque silábico inicial e medial; b) verificar a influência dos contextos linguísticos e extralinguísticos no uso de uma ou outra variante rótica nos referidos contextos silábicos. Neste sentido, o corpus constitui-se das ocorrências do /R/ em ataque silábico inicial (rosa, remando, real, rasgar, entre outras) e medial (terreno, arroz, varrer, correio, entre outras). As lexias foram recortadas do Questionário Fonético-Fonológico – QFF-, do Discurso Semi-dirigido e da Leitura de um texto (COMITÊ NACIONAL DO ALiB, 2001). Investigamos esses três estilos de monitoramento da fala, no intuito de averiguar se os contextos: monitorado (Questionário fonético-fonológico); mais monitorado (leitura) e menos monitorado (relato) exercem papel importante na escolha de uma ou outra variante, como acontece com o apagamento dos róticos em coda silábica (AGUILERA e KAILER,2012 e ALMEIDA e KAILER, 2015 entre outros). Conforme os principais resultados apontam, as variantes posteriores são as predominantes nas localidades investigadas.
        Palavras-chave: Róticos em ataque silábico. ALiB. Geossociolinguística.

        Speaker: Dircel Aparecida Kailer (Universidade Estadual de Londrina)
      • 14:30
        (In)stabilidade diacrónica na expressão do plural dos nomes terminados em “-ão” 15m

        A morfologia de uma língua não é simplesmente uma coleção de padrões de construção de palavras canónicos, mas um sistema que envolve diferentes graus de adesão e desvio a esses padrões. É, pois, natural que a flexão, nomeadamente a flexão nominal, embora prototipicamente marcada, entre outras características, pela predizibilidade, coesão de paradigmas e estabilidade de contrastes (cf. Bonani e Paperno, 2018; Rio-Torto, 2002; Veloso, 2005), também integre alguns casos excecionais ou anómalos. Para além de nem todos os nomes apresentarem contrastes de número, nomeadamente os nomes próprios (e.g. Ana, Bernardo), os massivos (e.g. água, madeira) e os pluralia tanta (e.g. exéquias, núpcias), afastam-se igualmente do conceito prototípico de flexão os casos de nomes que apresentam, na mesma sincronia, não uma, mas duas ou três formas opcionais de plural (e.g. corrimão: pl. corrimãos ou corrimões; vilão: pl. vilãos ou vilões; aldeão: pl. aldeãos, aldeões, aldeães).
        Esta situação, bem documentada nas gramáticas normativas de um e do outro lado do Atlântico (cf. Cunha & Cintra, 1994; Bechara, 1999), afeta um pequeno conjunto de nomes terminados em -ão. Se a causa primeira da instabilidade que afeta este subconjunto de nomes é conhecida, radicando na uniformização ou “sobrerregularização” em -ão das terminações -ão, -ã/-an/-am e õ/-on/-om de singular, que se verificou na passagem do português antigo para o português moderno, não o são tanto as causas da opcionalidade de diferentes formas de plural numa mesma sincronia quando está em causa a mesma unidade lexical. Por exemplo, no caso do nome vilão, são as formas de plural previstas (vilãos e vilões) totalmente sinónimas e opcionais? Se ocupam o mesmo espaço funcional, por que motivo subsistem as duas formas de plural na sincronia atual?
        A consciência da existência de instabilidade na flexão e, consequentemente, de dúvida no ato de cunhar o plural dos nomes em -ão não é recente. Em fases pretéritas da língua portuguesa, gramáticos e lexicógrafos dão conta desse facto. Por exemplo, na entrada da palavra aldeão, Domingos Vieira (1871, tomo I: 286) refere o seguinte: “As duas formas do plural, aldeões e aldeães, encontram-se em Frei Luiz de Granada, e Diogo de Couto. A última é a preferível.”.
        É nosso objetivo, nesta comunicação, analisar o percurso diacrónico das palavras em -ão de modo a perceber as causas da existência de realizações opcionais na expressão do plural e determinar os motivos/as condições da sua pervivência na sincronia atual. Este estudo leva-nos a equacionar a relação sincronia-diacronia e a mostrar como as dimensões diacrónica e sincrónica da análise linguística muitas vezes se complementam.

        Referências
        Bechara, E. (1999): Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
        Bonami, Olivier; Paperno, Denis (2018): Inflection vs. derivation in a distributional vector space. Lingue e linguaggio, XVII (2): 173-196.
        Cunha, C.; Cintra, L. (1994): Nova Gramática do Português Contemporâneo (10.ª ed.). Lisboa: João Sá da Costa.
        Rio-Torto, Graça (2002): Flexão e derivação: simetrias e assimetrias. Revista Portuguesa de Filologia, XXIV: 253-289.
        Vieira, Frei Domingos (1871-1874): Grande Diccionario Portuguez / Thesouro da Lingua Portugueza, 5 vols. Porto: Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes.
        Veloso, João (2005). Estrutura interna e flexão de número dos nomes terminados em "-ão": onde reside a «irregularidade»? In Graça Rio-Torto et al. (orgs.), Estudos em homenagem ao Professor Doutor Mário Vilela (pp. 325-338). Porto: Universidade do Porto. Faculdade de Letras

        Speaker: Prof. Rui Pereira
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Girls in the House: A machinima e as estratégias discursivas em narrativa digital 15m

        Observando que uma parcela significativa das narrativas produzidas na contemporaneidade, sobretudo na área do entretenimento, apresentam novas configurações, tanto do ponto de vista de sua produção, quanto de sua divulgação e de suas interações, o presente trabalho propõe analisar a relação entre texto sincrético e texto híbrido, constituído a partir de uma narrativa audiovisual criada em plataforma de jogo digital, e a construção de sentido, levando em consideração, desde a criação da narrativa pelo processo da machinima, até a sua circulação inscrita em um objeto-suporte digital.
        O trabalho justifica-se na medida em que, atualmente, vivemos em um contexto de transformação digital e midiático em que suportes tecnológicos possibilitam a criação de histórias e de personagens que podem representar o real como um simulacro do comportamento humano.
        Partindo do pressuposto semiótico de que o próprio texto determina suas formas de interação, este trabalho procura identificar quais os efeitos de sentidos produzidos pelo texto da machimina. Também investiga como os efeitos de sentido do processo de interação e de interferência do enunciador jogador/autor se estabelecem no desenvolvimento da narrativa e quais as estratégias discursivas se configuram no percurso gerativo da expressão, proposto por Fontanille, por meio dos níveis de pertinência semiótico.
        Por meio de pressupostos da semiótica discursiva, oriunda dos trabalhos do grupo de Greimas, e de pesquisas na área da comunicação e do entretenimento audiovisual, estudamos as estratégias discursivas utilizadas na construção de uma narrativa audiovisual, que foi feita por um enunciador-jogador a partir de um jogo digital: o The Sims 4.
        A narrativa é editada e divulgada no formato de websérie no portal YouTube. Para entender sua construção e essa relação híbrida entre o jogo digital, a produção, a divulgação e consumo da narrativa audiovisual, o trabalho pauta-se em um estudo de caso da websérie Girls in The House, com que busca examinar a proposta do trabalho anteriormente apontada.
        A websérie Girls in the House é uma animação brasileira produzida por meio de um jogo digital de simulação da vida real e foi criada por Raony Phillips para ser veiculada em seu canal no YouTube. A série estreou em 2014 e, até o momento, conta com três temporadas completas e uma quarta temporada em andamento. Os episódios têm em média de 10 a 20 minutos
        Por apresentar flexibilidade e liberdade narrativa, os jogos se tornam uma ferramenta ideal para produzir produtos midiáticos e novas histórias, por meio de uma prática da machinima. Não se trata de uma nova prática, porém ela se apresenta de forma ressignificada em plataformas digitais. Nosso estudo concentra seus esforços em compreender o funcionamento da machinima e sua importância para a construção de narrativas digitais, inclusive em um contexto educacional.
        O trabalho também investiga como é possível que essa nova forma de criação narrativa com suporte de ferramentas digitais pode auxiliar no processo de ensino-aprendizagem e como o professor pode usar a plataforma de jogo digital para ensinar como construir uma narrativa.

        Speaker: Jéssica Barbosa
      • 14:15
        A EXTREMA-DIREITA EM PORTUGAL E NO BRASIL: proximidades e diferenças 15m

        O crescimento eleitoral dos partidos de extrema-direita na cena política, em muitos países de continentes diferentes, despertou o interesse dos pesquisadores e acendeu o sinal amarelo para as ameaças que a prática política desses partidos impõe à democracia e aos direitos sociais e políticos conquistados. Esses partidos, embora com características próprias, de acordo com as especificidades históricas, políticas e culturais de cada formação social, apresentam o nacionalismo, a xenofobia, o racismo, o fundamentalismo religioso, a misoginia e a LGBTfobia como pontos semelhantes. Direcionam o ódio contra a emancipação das mulheres, bem como dos grupos LGBT, das minorias religiosas e étnicas, dos direitos humanos e das instituições democráticas, conquistando, apesar do retrocesso civilizatório presente em suas práticas, um numero significatvo de eleitores, com um discurso em que reivindicam a representação do ideário de uma comunidade nacional homogênea nascida de um passado (supostamente) glorioso e com um futuro de glórias. Portugal e Brasil não estão fora deste movimento emergente apesar das diferenças nos processos de formação e crescimento da extrema-direita. Portugal é um país que até meados do século XX era essencialmente agrário, com um longo período de autoritarismo desde 1926 até à revolução de 25 de abril de 1974, com um regime frequentemente alinhado com a ideologia fascista e mantendo uma estrutura social com fortes desigualdades. Esse quadro começou a mudar a partir da revolução democrática quando o país ousou sepultar o salazarismo e o colonialismo, acertar o compasso com a democracia, se aventurar no socialismo e dar dignidade e melhores condições de vida aos portugueses. Após o 25 de abril o pluripartidarismo é retomado sendo dezenas as organizações políticas emergentes, dentre elas, o Partido Comunista Português (PCP), que saiu da clandestinidade, o Partido Socialista (PS), o Centro Democrático Social/Partido Popular (CDS/PP) e Partido Social-Democrata (PPD/PSD). A extrema-direita passa a ter visibilidade institucuional em 2019, na sequência da organização do partido CHEGA e da eleição de um deputado para a Assembleia da República. O Brasil também tem uma longa história de autoritarismo, agravada por golpes de Estado e governos ditatoriais, a exemplo da ditadura militar no período de 1964 a 1985. A democratização foi retomada em 1985 com o retorno ao pluripartidarismo e a eleição direta do presidente da república, sem, no entanto, desmantelar as estruturas autoritárias herdadas da ditadura militar. Os partidos da direita tradicional se mantiveram com forte apoio popular e eleitoral e com ampla participação nos governos federais eleitos desde então. O processo de democratização é interrompido em 2016 com o golpe que destituiu a presidente Dilma Rousseff e o autoritarismo volta a ter expressão máxima com a eleição de Jair Bolsonaro, de extrema-direita, para a presidência da República. Face ao exposto, o nosso interesse é problematizar essas duas expressões de prática política de extrema-direita em países diferentes, mas com partidos com projetos e programas semelhantes, no sentido de identificar as especificidades de cada experiência.
        Palavras chaves: autoritarismo, extrema-direita, prática política

        Speaker: Ilse Gomes Silva (Universidade Federal do Maranhão)
      • 14:30
        (Entre)tons intolerantes no discurso midiático: constituição, circulação e efeitos de sentidos 15m

        A recente história política brasileira tem nos desafiado a entender diferentes discursos em circulação, dentre eles os midiáticos, que, de um modo ou de outro, têm afetado as relações sociais e influenciado a opinião pública. Nesse cenário, temos observado, desde as eleições para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, em 2014, um grande número de manifestações de intolerância, que se agravaram a partir do processo de sua destituição, em 2016, o que nos levou a interrogar sobre o papel da grande mídia (mídia tradicional) na cena política brasileira. Teria a grande mídia potencializado a intolerância contra Rousseff? A veiculação de discursos intolerantes pela grande mídia nas redes sociais teria potencializado a discriminação e interferido nas escolhas políticas?
        Para responder a essas questões, partimos do entendimento de que o discurso intolerante é aquele adverso à diferença, que busca desqualificar ou até excluir o outro, visando silenciar a pluralidade, o debate, o contraditório. Conforme Barros (2015, p. 63-64), o discurso intolerante possui uma organização fundamentada, sobretudo, em “um discurso de sanção aos sujeitos considerados maus cumpridores de certos contratos sociais”, que são julgados como maus atores sociais, maus cidadãos e, por isso, devem ser “punidos com a perda de direitos, de empregos ou até mesmo com a morte”. Duas etapas são importantes no entendimento desses discursos: a etapa do preconceito em que o sujeito se torna malevolente em relação ao diferente e benevolente em relação aos pares e a etapa da intolerância propriamente dita, que é a “fase em que o sujeito preconceituoso passa à ação, ou seja, age contra o outro”.
        Considerando essas reflexões e o fato de o discurso midiático ser instaurado como uma espécie de consumo, a ser comentado, repetido e compartilhado, faz-se necessário problematizar discursos com tons intolerantes publicados em reportagens de capa pela grande mídia, que circulam em diferentes contextos, em diferentes épocas, com ênfase nas redes sociais, como efeito de verdade histórica. Com o objetivo de analisar discursos intolerantes em relação à presidente Dilma Rousseff, observando (a) a constituição dos sentidos em capas de revistas semanais e (b) aspectos referentes à circulação e efeitos desses sentidos, selecionamos três capas com tons intolerantes de diferentes revistas (Época, Veja e IstoÉ), representativas de três momentos-chave, que tiveram repercussão nas redes sociais: a primeira eleição de Rousseff, em 2010; a segunda eleição, em 2014; e o processo de “impeachment”, entre dezembro de 2015 e agosto de 2016.
        Respaldam teoricamente a pesquisa os estudos desenvolvidos pelo Círculo de Bakhtin (BAKHTIN, 2010, 2016; VOLÓCHINOV, 2017) e pela análise do discurso (MAINGUENEAU, 2014, 2018) a partir de três dimensões principais: ato ético responsável e responsivo; cenografia e ethos; e construção dialógica do discurso intolerante, via reflexos e refrações dos signos ideológicos e multiplicidade de vozes inter-relacionadas. Resultados parciais têm revelado diferentes níveis de intolerância, desde a mais velada, que necessita de uma reflexão mais crítica para ser observada, até a mais explícita, com enunciados verbais e não verbais com tons altamente apelativos. Com esta abordagem, esperamos contribuir para uma maior criticidade frente à disseminação de discursos intolerantes que, ao potencializarem um rumor destrutivo com aparência de liberdade de expressão, incitam o preconceito e a discriminação, fomentando uma polarização perniciosa, pautada numa “lógica de ódios e afetos” (SCHWARCZ, 2019, p. 212), que interfere nas relações sociais e nas avaliações de figuras públicas.

        Speaker: Maria da Glória Corrêa di Fanti
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        A misteriosa primeira edição d’Os Lusíadas: alguns apontamentos 15m

        Os Lusíadas, de Luís de Camões, foi publicado pela primeira vez em 1572. Já em 1685, em obra póstuma, o humanista português Manuel de Faria e Sousa registrou a existência do que lhe pareciam ser duas edições quase idênticas, ambas com o mesmo ano e, ostensivamente, impressas pelo mesmo impressor, António Gonçalves. Segundo Faria e Sousa, a primeira edição d’ Os Lusíadas teria se esgotado já em 1572 e a obra teria sido reeditada no mesmo ano. Faria e Sousa interpretava isso como sintoma de sucesso fulgurante e imediato da obra-prima camoniana.
        Desde o século XIX, as edições datadas de 1572 têm sido objeto de interesse de diversos estudiosos das letras portuguesas ao redor do mundo. Tal interesse é facilmente explicável: presume-se que a primeira edição da obra transmitiria a versão mais fidedigna do épico. Ademais, Os Lusíadas é uma das poucas obras publicadas em vida pelo poeta. Soma-se a isso o próprio valor simbólico atribuído por estudiosos e bibliófilos às primeiras edições em geral. Assim, identificar a primeira edição d’ Os Lusíadas tornou-se uma das maiores tarefas da crítica especializada.
        Desde que o Morgado de Mateus examinou a questão em obra pioneira de 1817, estabeleceu-se uma longa polêmica. Desde então foi proposto que haveria uma, duas, três e até quatro edições datadas de 1572. Debateu-se com igual intensidade qual das edições seria verdadeiramente a primeira. A solução que tem predominado no campo foi desenvolvida ao longo dos anos com contribuições de diversos estudiosos, recebendo formulação cabal na obra de Tito de Noronha de 1880. Segundo esta hipótese, haveria duas edições datadas de 1572: uma, genuína, impressa por António Gonçalves; outra, pirata e de data incerta, mas impressa ainda no século XVI. Longe de encerrar o debate, no entanto, o assunto continuou a ser revisitado por diversos estudiosos no século XX até os dias atuais. Hoje, a crítica especializada encontra-se dividida entre os que ainda sustentam a hipótese de Noronha e os que defendem ter havido uma única edição que sofreu mutações graduais.
        A hipótese de uma edição fraudulenta parece persuasiva quando se foca nas semelhanças. Há, de fato, inúmeros erros tipográficos banais que ocorrem aparentemente em todos os exemplares conhecidos. Esta mesma hipótese, no entanto, afigura-se insuficiente quando se atenta às diferenças: variantes textuais e erros tipográficos específicos a uma ou outra edição. Esta comunicação busca discutir o que faz das impressões de 1572 objetos tão misteriosos e complexos. Apresenta ainda os últimos desdobramentos de um projeto de pesquisa sobre a impressão e a transmissão d’Os Lusíadas nos séculos XVI e XVII.

        Speaker: Andre Penafiel (University of Oxford)
      • 14:15
        “Destarte se esclarece o sentimento / de quem é de pagodes apartado”: casos da receção parodística d´Os Lusíadas nos séculos XVII e XVIII em Portugal 15m

        Como seria a Literatura Portuguesa se Camões não tivesse existido? Sem dúvida, muito diferente. São incontáveis os textos que estabelecem um diálogo com Os Lusíadas, quer por uma via tradicional, quer por uma via paródica. Este caminho não é frequentemente percorrido nos estudos camonianos, sempre prontos a pintar um Camões coroado de louro, grande poeta, digno apenas de uma minoria de bem-fadados. Camões, porém, é um “poeta torto” (diz-nos a Fénix Renascida) e felizmente escapa aos nossos esquemas retos. Na verdade, é o próprio texto d´Os Lusíadas que autoriza releituras paródicas. Apenas um exemplo clássico: como esquecer o valente Fernão Veloso que às palavras de um companheiro que lhe diz “Oulá, Veloso amigo! Aquele outeiro / É milhor de decer que de subir!” (V, 35) responde “Si, é (responde o ousado aventureiro) / Mas, quando eu pera cá vi tantos vir / Daqueles cães, depressa um pouco vim, / Por me lembrar que estáveis cá sem mim.” (V, 35)? Hélder Macedo (2013) defendeu já que o estudo do humor na obra de Camões ainda não foi feito (pelo menos, sistematicamente). Ora, haverá poeta na Literatura Portuguesa mais cúmplice daqueles que ousam a paródia do que Camões? Como bom mestre, só podia ter bons discípulos. Aliás, se ampliarmos o nosso olhar até às matrizes clássicas da cultura europeia, vemos que as obras de Homero e de Virgílio têm uma história de receção paródica. Logo, a obra do “Homero das línguas vivas” (assim lhe chama Almeida Garrett no seu Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa) também a teria inevitavelmente.
        Orientados pelo verbete de Cândido de Oliveira Martins publicado no Dicionário de Camões (2011) sobre as paródias d´Os Lusíadas, a nossa comunicação abordará brevemente textos dos séculos XVII e XVIII nos quais se escuta a voz metamorfoseada de Camões. Passaremos, entre outros, por António de Magalhães e Meneses, do qual herdamos os Lusíadas de Camões, Imitação ao Burlesco por Um Autor Incógnito (suposto manuscrito seiscentista publicado no século XIX); por Frei Lucas de Santa Catarina, que parodia oitavas do poema épico no seu Anatómico Jocoso (1753-1755); por Frei Cristóvão Osório, autor de uma Imitação, paródia e centonização de dez estrofes d´Os Lusíadas de Camões (1628). Passaremos também, e especialmente, por poemas herói-cómicos portugueses, cujo inventário se encontra no já clássico Alberto Pimentel (1922), e que mais tarde Henrique de Campos Ferreira Lima (1930) integrou no seu volume As Paródias na Literatura Portuguesa. Recentemente, Gilberto Mendonça Teles compilou muitos destes textos na sua obra Camões e a Poesia Brasileira e o mito camoniano na língua portuguesa (2000, INCM), pois é verdade que muitos dos poemas deste género possuem um modelo camoniano, mais ou menos velado.
        Tendo aprendido com Cândido de Oliveira Martins (2011) que “A epopeia Os Lusíadas não chega a ser objeto de crítica direta ou de paródia ridicularizadora; funciona antes como modelo genológico para exercícios de imitação paródica e satírica, sendo Camões reconhecido como autoridade estética e moral.”, pretenderemos dar a ver nos diferentes textos trabalhados os diferentes fins servidos pelo texto camoniano. O estudo deste modo de receção produtiva pode sublinhar a intemporalidade d´Os Lusíadas e descolar Camões da imagem nada sedutora, mas infelizmente ainda corrente, de um novo Adamastor com os cabelos crespos, boca negra e dentes amarelos.

        Speaker: Gil Clemente Teixeira (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
      • 14:30
        Pedro II entre a intelectualidade portuguesa 15m

        Das vezes que esteve em Portugal, Pedro II recebeu demonstrações de afeto. Estas partiram da família real portuguesa, à qual pertencia por laços de parentesco, mas não só: também lhe prestaram homenagem figuras ligadas à literatura e às artes; professores e alunos da Universidade de Coimbra; portugueses torna-viagem, isto é, portugueses que já haviam morado no Brasil, conhecidos como “brasileiros”; brasileiros natos, então moradores em Portugal; e o povo português de maneira geral, para quem o Brasil era um filho bem-sucedido. O Imperador do Brasil visitou e foi visitado por homens que admirava, como Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, José Maria da Silva Leal Júnior, Inocêncio Francisco da Silva, Brito Aranha, Mendes Leal e Francisco Gomes de Amorim. Mas, por parte daqueles que dele não receberam atenções, iniciantes que eram em suas atividades literárias, tais como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão e Rafael Bordalo Pinheiro recebeu críticas que vão da sátira à ironia, e desta ao sarcasmo, em textos escritos e em desenhos.
        As caricaturas e palavras, de que Pedro II foi alvo serão analisadas nesta comunicação, em que se procurará mostrar, entre os porquês das “farpas” que lhe foram dirigidas, o seu desejo de parecer incógnito (onde, para além do jaquetão e do chapéu desabado, a mala e o guarda-chuva adquirem o valor de insígnias), o seu interesse por línguas como o hebraico, a sua avidez de conhecimento, a sua permanente curiosidade, o seu hábito de, para mostrar que conhecia, dizer “Já sei, já sei”, a prodigalidade com que distribuiu a Ordem da Rosa, a pouca importância que deu às contrafações de obras portuguesas feitas no Brasil. Mas, sobretudo, mostrar-se-á que as críticas ao brasileiro, ao Português do Brasil e ao próprio Imperador tiveram motivos bem mais fundos. O primeiro deles são as ideias políticas seus autores. Esses criticavam o atraso de Portugal, país que, naquele momento, festejava Pedro II. (Veja-se que o desejo de Sua Majestade Imperial em conhecer os literatos e escritores célebres na soirée do palácio da Ajuda merece de Ramalho Ortigão o comentário irônico de que esta foi "ociosa", porque os intelectuais lá deviam estar como frequentadores habituais, mas, se Sua Majestade não os encontrou, é porque não os havia no país). Em segundo lugar, os que farpeavam Pedro II, como adeptos do Realismo, se opunham ao Romantismo, que o monarca brasileiro apreciava e estimulava.
        Mas também é verdade que, passado o tempo, Eça de Queirós, ao publicar seus textos em Uma Campanha Alegre, suprimiu algumas de suas farpas relativas ao Imperador e alterou outras de tal forma, como o caso de “O brasileiro”, que se fica sem saber se o escritor fala do português torna-viagem ou do brasileiro “brasílico”, isto é, do brasileiro nascido no Brasil.

        Speaker: Maria Aparecida Ribeiro (Universidade de Coimbra – Centro de Literatura Portuguesa (CLP))
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Com engenho e interartes: a receção dos Emblemata de Alciato na cultura portuguesa do século XVI 15m

        No universo lusófono, os estudos de emblemática continuam a ser uma área pouco explorada, pese embora o crescente interesse que a comunidade académica internacional direciona para este campo de investigação interdisciplinar. Procurando questionar a ideia de que a produção emblemática lusitana foi tardia e pouco expressiva, parece-nos pertinente traçar uma visão geral sobre os diferentes testemunhos que confirmam a precoce receção em Portugal da nova tipologia literária criada pelo Emblematum liber (1531) do jurista milanês Andrea Alciato (1492-1550).
        A obra conheceu centenas de edições, traduções e adaptações em diversos países e originou um impressionante fenómeno de receção dinâmica por toda a Europa Moderna. A disseminação desse paradigma contribuiu para que se tornasse convencional a ideia de que o emblema devia obedecer a uma estrutura tripartida, composta por mote (inscriptio), imagem (pictura) e texto (subscriptio). A prática veio demonstrar, porém, que nem todos os emblematistas seguiram o mesmo modelo, acelerando o processo de evolução do género. Esta abordagem pretende avaliar o impacto dos Emblemata na cultura portuguesa do século XVI, aplicando os pressupostos metodológicos definidos pelos estudos comparatistas. Em primeiro lugar, apresenta-se uma síntese dos dados relativos à circulação da obra de Alciato em território lusitano, salientando a existência de traduções parcelares e de um comentário escrito em Coimbra e publicado em Lyon no ano de 1556. Procurar-se-á, depois, demonstrar a receção dos emblemas do jurista milanês em diferentes áreas do engenho quinhentista, discutindo o seu reflexo na teorização das artes poéticas, mas também identificando ecos de formas e motivos alciatianos nos autores portugueses, nomeadamente Frei Heitor Pinto, Camões e Vasco Mousinho Quevedo de Castelo Branco. Seguidamente, será analisado o aproveitamento da tradição emblemática numa perspetiva interartes. Neste âmbito, serão apontados exemplos de diálogo com os tratados de Francisco de Holanda sobre a pintura, com a escultura atribuída a João de Ruão e com as artes decorativas. Além disso, será destacada a presença de composições logo-icónicas nas descrições de festividades religiosas e políticas, bem como no contexto das affixiones organizadas nos Colégio Jesuíta de Coimbra, discutindo o papel destes compostos ao serviço da legitimação simbólica e da propaganda ideológica promovidas pelo poder instituído através da arte efémera. Relativamente à utilização dos emblemas no contexto da pedagogia jesuíta, serão ainda escrutinadas as referências aos Emblemata de Alciato nos volumes do Curso Filosófico Conimbricense, que tornou mundialmente famosos os Comentários à obra de Aristóteles.
        Através desta panorâmica, pretende-se trazer para a ribalta diferentes manifestações artísticas e culturais da receção de uma obra que se revela fundamental para compreendermos o imaginário do século XVI português e seu enquadramento no contexto da República das Letras.

        Speaker: Filipa Araújo (Universidade de Coimbra)
      • 14:15
        Constança Manuel: personagem nem tão coadjuvante assim 15m

        Um dos temas mais tratados ao longos destes últimos 666 anos, quando o assunto enfoca Literatura, História ou Cultura portuguesas, é a relação entre Pedro, infante, depois Rei de Portugal * Coimbra, 8 de abril de 1320/+ Estremoz, 18 de janeiro de 1367), e Inês de Castro (Reino da Galiza, 1325/+ Coimbra, 7 de janeiro de 1355), uma aia, que acompanhava a esposa de Pedro, Constança Manuel de Villena, em espanhol, Constanza Manuel de Villena (Castillo de Garcimuñoz, Espanha 1316/+ Santarém ou Lisboa, 1345 ou 1349) , em sua viagem a Portugal. Este tema, como sabemos, transformou-se inclusive em mito ao longo dos séculos que se seguiram. Esta intervenção não pretende tratar essencialmente da relação Pedro e Inês, cujo assunto, com certeza, ainda é objeto de resmas de papel ou, num universo pandêmico, de muitos bytes na rede. Intenta-se aqui examinar a figura de Constança Manuel, personagem que vem sendo relegada a plano subalterno ao longo da história e mitologia portuguesas. Para tanto, pretendemos considerar as informações historiográficas reunidas nas Crónicas de Fernão Lopes (nascido entre 1380 e 1390, foi guarda-mor da Torre do Tombo entre 1418 e 1459; teria falecido pouco depois de deixar o cargo), notadamente naquelas que tratam dos reis Pedro I e Fernando, e na Crónica Geral de Espanha de 1344, relato histórico compilado por Pedro Afonso, conde de Barcelos e filho natural do rei D. Dinis de Portugal. A referida narrativa foi redigida em 1344 e reelaborada à volta de 1400. O texto original de 1344 em português se perdeu, mas a refundição de 1400 e as traduções para o castelhano das duas versões ainda existem. Para além de tais relatos, esta intervenção pretende examinar textos literários que privilegiam a figura de D. Constança Manuel com o objetivo de examinar como tal personagem histórica foi relida ao longo do tempo de modo a revelar seu papel na história de Espanha e de Portugal, além de revelar como a ficção ressignificou tão intrigante figura. Para tanto, intentamos tratar das narrativas Agnes de Castro, or, the Force of Generous Love (1688), de Aphra Behn (Canterbury, UK, 1640/+ London, UK, 1689), Constança Manuel in Infantas de Portugal (1998), de Júlia Nery ( Lisboa, 1939) e Constança, a princesa traída (2015), de Isabel Machado (Lisboa), bem como das peças de teatro Ignez de Castro (1894), de Maximiliano de Azevedo ( Funchal, 1850/+ Lisboa, 1911) e O eunuco de Inês de Castro: teatro no País dos Mortos (2011), de Armando Nascimento Rosa (*Évora, 1966). Tais textos, dentre muitos outros, são objeto de um projeto que vimos desenvolvendo há algum tempo na Universidade de São Paulo, que visa a examinar o mito inesiano sob a óptica da intertextualidade. No entanto, a obscura figura de D. Constança tem-nos chamado especial atenção. Motivada e intrigada pela infeliz princesa, dedicamos esta comunicação a tentar elucidar , por meio da historiografia e da literatura aspectos que envolvem aquela que sendo a esposa legítima, sempre foi vista como a outra na relação Pedro e Inês. Ainda que tenhamos tentado buscar textos literários espanhóis que privilegiem D. Constança, nossos esforços, até o momento, não encontraram êxito. Continuamos, no entanto, incansavelmente a busca neste sentido.

        Speaker: Prof. FLAVIA MARIA CORRADIN (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO)
      • 14:30
        Comunidades e redes de proteção de cristãos-novos de origem portuguesa em espaços de diáspora durante a Modernidade 15m

        Em fins de 1496, o monarca português, D. Manuel I, publicou decreto de expulsão dos judeus e mouros do reino, dando prazo de dez meses para que pudessem partir livremente. Oferecia, aos que desejassem permanecer, a obrigatoriedade de conversão ao catolicismo, mas acabariam diferenciados dos cristãos de origem com a denominação de "cristãos-novos", "neoconversos" ou "batizados em pé". Portugal tornava-se um reino de monopólio religioso. Passados cerca de quatro décadas, as desconfianças sobre o comportamento destes cristãos-novos, vistos como suspeitos de continuar a praticar o judaísmo, e entendidos como a principal ameaça à pureza católica funcionaram como o motivo primeiro para as tratativas junto ao papado com o objetivo de implementação da Inquisição, que inicia seus trabalhos em 1536, extendendo-se por duzentos e oitenta e cinco anos, até ser finalmente abolida em 1821. Com o início os trabalhos inquisitoriais, as vitimas preferenciais seriam os cristãos-novos, suspeitos de manutenção dos valores, crenças e práticas judaizantes e, por isso, apontados como a maior ameaça à pureza católica. O aumento das desconfianças sociais e da perseguição inquisitorial aos neoconversos fez com que houvesse uma leva migratória destes cristãos-novos para outros espaços dos domínios portugueses (Brasil, Angola, Cabo Verde, Madeira, Goa, Macau...) ou fora dele, espalhados um pouco por todo o mundo, como o Norte da África, Caribe, Espanha, Itália, França, Inglaterra, Países Baixos, Orientes Próximo ou Distante... Em vários destes locais, fixaram-se e desenvolveram-se comunidades neoconversas, interligadas por redes intercontinentais de comércio, que faziam circular produtos e mercadorias numa dimensão nunca antes conhecida, numa espécie de processo de protoglobalização. Mas estas redes iam além, e também faziam circular capitais, ideias, técnicas, contatos, informações sobre pessoas e perseguições sofridas, notícias variadas, pedidos de proteção, socorro e de auxílio. Foram fundamentais para permitir que, mesmo à distância, os antigos judeus e seus descendentes continuassem a manter ligações e a preservarem os valores da religião que foram obrigados a abandonar ou sequer puderam, nascidos já em tempos de monopólio religioso em Portugal, conhecer e vivenciar livremente. Esta comunicação é fruto de uma pesquisa atualmente desenvolvida por mim na França em treinamento de pós-doutoramento junto à Sorbonne Letres Université, sob a orientação da Professora Laura de Mello e Souza. Pretendemos apresentar alguns resultados parciais desta investigação, como os espaços que viram surgir comunidades de cristãos-novos de origem portuguesa, como Brasil, Angola, Holanda e França, apresentando estudos de caso que permitem vislumbrar o funcionamento destas redes de proteção e os contatos entre as comunidades de neoconversos pelo mundo, procurando entender como estes eram inseridos nestas grupos e quais as estratégias de proteção e defesa que desenvolviam para sobreviverem e se defenderem das perseguições movidas pelo Santo Ofício da Inquisição.

        Speaker: Angelo Assis (Universidade Federal Fluminense; Sorbonne Lettres Université)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        O uso pedagógico das tecnologias digitais no processo educacional: uma análise discursiva da posição sujeito professor 15m

        O Grupo de Pesquisa Educação Científico-Tecnológica e Cidadania ancora suas reflexões nos pressupostos teóricos da Análise de Discurso materialista histórica. Certificado pelo CNPQ, encontra-se constituído desde 2010 e desenvolve, atualmente, o Projeto de Pesquisa e Extensão 'Laboratórios de Informática das Escolas Públicas Estaduais Mato-Grossenses: análise discursiva da realidade educacional" (LABIN) com financiamento da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) que apoia programas de amparo a grupos de pesquisa em áreas estratégicas para o desenvolvimento sócio-econômico-ambiental do Estado de Mato Grosso, região da Amazônia legal brasileira. Desta forma, o Projeto LABIN por meio das parcerias estabelecidas entre as instituições UNEMAT, UFMT, IFMT, SEDUC (Professores da Educação Básica e Professores Formadores do CEFAPRO) e SECITEC, com uma abrangência de aproximadamente 130 municípios, propõe estabelecer um gesto de leitura da realidade educacional em relação à Informática na Educação nas escolas mato-grossenses em mapeamento das condições da infraestrutura física e logística e uso pedagógico dos laboratórios de informática nos processos educacionais de escolas da rede pública estadual, com vistas à compreensão das políticas públicas no que se refere às ações de implantação, manutenção, utilização nas práticas pedagógicas e curriculares, nos processos de formação continuada, bem como na organização do processo ensino e aprendizagem. E, para este artigo, a presente reflexão organiza, traça um paralelo e elabora uma discussão da posição sujeito professor e o uso dos laboratórios de informática nas escolas estaduais em que as práticas discursivas analisadas apontam caminhos para reflexões sobre políticas a serem desenvolvidas pelo Estado de Mato Grosso na proposta de planejamento estratégico. A investigação inscreve-se nos pressupostos do método de pesquisa qualitativa, visto que o mapeamento dos recortes de pesquisa envolve coleta de dados por meio de questionários, com perguntas abertas e fechadas, elaborados com suporte da ferramenta Google Form, o que facilita a coleta online e alcance de um número maior de pessoas. Realiza-se, em algumas situações, visitas in loco, com a elaboração de entrevistas semiestruturadas com a equipe de professores da escola sobre o uso do laboratório de informática nas instituições de ensino na educação básica, para mapeamento das necessidades formativas na área de apropriação e uso pedagógico das tecnologias digitais da informação e comunicação nos processos e práticas educativas relacionando frequência de utilização dos laboratórios, planejamento das atividades desenvolvidas pelos alunos, formação docente, apoio institucional, uso de softwares, receptividade discente, relação ensino e aprendizagem. O grupo de pesquisa do Projeto LABIN ancora suas reflexões e procura afirmar que o uso pedagógico das tecnologias digitais no processo educacional, como práticas inovadoras, estabelece-se na contemporaneidade como ponto forte de discussão para uma educação mais dinâmica e atualizada, principalmente em estados brasileiros considerados periféricos.

        Palavras-chave: análise de discurso, tecnologia digital, laboratórios de informática, posição sujeito professor.

        Speaker: Tânia Pitombo Oliveira (Universidade do Estado de Mato grosso - UNEMAT)
      • 15:15
        Considerações sobre o plano de texto em textos de opinião elaborados por alunos hispanofalantes de Português Língua Estrangeira de nível B2 15m

        Tendo em conta que é impossível comunicar sem recorrer a géneros textuais, estes não podem deixar de ser alvo de atenção privilegiada na escola, espaço de preparação para o exercício de uma cidadania ativa e consciente. O conhecimento e domínio de textos diversificados, a realização empírica dos géneros é, na verdade, uma condição decisiva não só para o sucesso escolar, mas também para a inclusão social.
        De entre a infinidade de géneros textuais existentes (Bronckart, 2010), o género texto de opinião constitui, pela sua complexidade estrutural (Coutinho & Jorge, 2019; Cunha, 2012), um género que apresenta bastantes dificuldades para os alunos. Pese embora estas dificuldades, constatadas em investigações realizadas, sobretudo, no contexto do ensino da língua materna (Marques, 2019; Rodrigues, 2015), e apesar de existir evidência de que a competência argumentativa aumenta quando é alvo de aprendizagem formal (Dolz, 1995), esta continua, de modo geral, a ser pouco trabalhada nas escolas (Travaglia, 2018). Carecem, de igual modo, mais estudos quanto às dificuldades manifestadas na elaboração de textos de opinião no contexto de aprendizagem de línguas estrangeiras. É fruto desta necessidade que nasce esta investigação de carácter exploratório, a qual analisa o plano de texto (Adam 2002) evidenciado em 19 textos de opinião elaborados por alunos hispanofalantes de Português como Língua Estrangeira (PLE) de nível B2. Este parâmetro de análise parece-nos de enorme pertinência e produtividade no ensino dos géneros textuais, porquanto é determinante tanto a nível da forma como do conteúdo de um texto (Adam, 2002). O conhecimento do plano de texto associado a um género textual oferece, assim sendo, um modelo que orienta a produção do aluno e que pode contribuir para reduzir a ansiedade que este sente quando tem que empreender a complexa tarefa de escrever um texto, ansiedade esta que aumenta quando os alunos têm que escrever numa língua estrangeira.
        Para a concretização deste objetivo de estudo, definimos, com base, principalmente, nas propostas de Adam (1992) e de Bronckart (1996) relativas à organização da sequência argumentativa, um plano de texto prototípico de texto de opinião composto por três fases e verificámos até que ponto o mesmo se (re)atualizava nos textos do corpus estudado. Para o tratamento dos dados, optámos por uma metodologia qualitativa, tendo criado uma grelha de observação, na qual valorámos o (in)cumprimento do plano de texto prototípico por nós definido.
        Como defendem De Pietro & Schneuwly (2003), as intervenções pedagógicas que incidem no estudo dos géneros de texto (e, pensamos, qualquer intervenção pedagógica), devem partir das necessidades reais evidenciadas pelos alunos. Os resultados obtidos permitem, pois, apreciar, nos textos analisados, as dificuldades constatadas em estudos desenvolvidos previamente, realizados, não obstante, em contexto do ensino de língua materna. Assim, comprovamos que estes alunos de PLE têm, de forma geral, problemas em estruturar os seus textos de opinião. Evidenciam, em concreto, dificuldades em tomar uma posição claramente definida, em formular contra-argumentos, em conceber o seu texto como dialógico e em formular uma conclusão adequada, o que reforça, portanto, a necessidade, também por parte dos professores de línguas estrangeiras, de delinear uma estratégia didática para trabalhar o género texto de opinião.

        Speaker: Telma Elisabete de Oliveira Duarte
      • 15:30
        Formas lexicais desviantes por aprendentes de português língua não-materna: estudo de caso 15m

        Esta comunicação apresenta os resultados de um estudo de natureza quantitativa que teve como tema as formas lexicais desviantes de falantes de italiano aprendentes de português como L2 em um contexto de imersão. De modo mais específico, foram avaliados três tipos de desvios relacionados à categoria “vocabulário indisponível” proposta por Leiria (2001). O primeiro tipo constitui-se de desvios por empréstimo; o segundo, de desvios por neologismos criados com base na L1 ou em uma língua estrangeira (LE) diversa da língua-alvo (L2); e, por fim, o terceiro tipo, de desvios por neologismos criados com base na L2. O objetivo principal foi verificar se haveria uma relação entre nível de proficiência dos aprendentes e tipologia de desvio, a partir do qual formulou-se a seguinte hipótese: os aprendentes menos proficientes apresentariam um número maior de desvios por empréstimo, dada a sua limitação referente ao conhecimento do léxico da L2, enquanto os aprendentes mais proficientes produziriam um número maior de formas lexicais desviantes por neologismos, considerando seu maior domínio das formas lexicais e gramaticais do português. O corpus do trabalho envolveu a totalidade das produções escritas de falantes de italiano aprendizes de português como L2 de níveis de proficiência A1, A2, B1 e B2 do corpus do Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada e Instituto de Linguística Teórica e Computacional da Universidade de Coimbra, os quais foram divididos em um grupo de aprendentes menos proficiente (níveis A1/A2) e um grupo mais proficiente (níveis B1/B2). Algumas produções foram desconsideradas por apresentarem somente desvios lexicais de natureza diversa do escopo deste estudo, o que resultou em um corpus composto por 25 produções textuais, treze pertencentes ao grupo A1/A2, e doze, ao grupo B1/B2 de proficiência. Por se tratar de textos curtos, com média de um parágrafo, foram encontrados somente 32 desvios, dezesseis em cada um dos grupos. A análise dos dados, alicerçada na teoria da morfologia das construções (Booij, 2010, 2015), revelou que 50% dos desvios do grupo A1/A2 consistiam em empréstimos, tanto da L1 como de uma língua estrangeira adicional, enquanto o percentual correspondente aos aprendentes de níveis B1/B2 foi de 62,5%. Consequentemente, o grupo mais proficiente apresentou um número menor de desvios por neologismos do que o grupo de níveis A1/A2. Apesar de a hipótese de trabalho não ter sido confirmada, os dados evidenciaram aspectos relativos à inteligibilidade e à complexidade dos desvios que sugerem que à medida que a interlíngua do aprendente avança em direção ao sistema linguístico da língua-alvo, a diferença mais significativa no que diz respeito aos desvios originados pelo léxico deficiente não reside na frequência da tipologia dos desvios, e sim no padrão de complexidade e/ou inteligibilidade dos mesmos. A partir desse achado, que será demonstrado por meio de exemplos do corpus, serão propostos novos estudos relacionados ao tema.
        Palavras-chave: português língua não-materna;aquisição lexical;morfologia.

        Speaker: Alessandra Baldo (Universidade de Coimbra)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        A mídia televisiva e os processos de formulação e circulação de sentidos na relação campo/cidade: discurso, imagem e memória 15m

        O mercado televisivo de transmissão aberta no Brasil está concentrado em quatro grandes redes comerciais, no que diz respeito à audiência: TV Globo, SBT, Record e Band. A TV Globo forma uma rede com mais de 120 exibidoras, cobrindo 98,6% dos municípios brasileiros, com alcance de 97 milhões de pessoas diariamente, perante uma população brasileira estimada em 210 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entendendo a inserção desse veículo de comunicação no cotidiano do país, essa pesquisa lança o olhar sobre a campanha publicitária AGRO: a indústria-riqueza do Brasil, um projeto institucional da TV Globo, lançado em 2016, ainda em funcionamento no ano de 2019. Trata-se de uma sequência de pequenos vídeos que apresentam a atividade agropecuária brasileira no que tange suas relações antes, dentro e depois da porteira das propriedades rurais. Perante esse corpus, busca-se compreender os processos de (re)formulação e circulação de sentidos na relação campo/cidade, em um movimento de afastamento/aproximação. O interesse pela temática deve-se ao fato de o agronegócio ser o setor responsável por 23% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e por a TV Globo justificar a produção dessa campanha publicitária no objetivo de desmistificar a relação entre o campo e a cidade, criando empatia e confiança. Um posicionamento que desvela a tensão entre os dois espaços, no Brasil. Um campo que está lá, em outro lugar, distante da cidade, mas de onde vem o que o urbano consome. A partir da área teórica-metodológica da Análise do Discurso materialista histórica, essa pesquisa é de um exercício de pensar sobre imagens distintas que parecem se encontrar na campanha da TV Globo, propondo-se a interferir na imagem construída pelo sujeito urbano sobre o campo e sobre aquele que trabalha no campo e, ainda, atualizar a imagem que o sujeito do campo tem de si mesmo. Observa-se o discurso da mídia sobre os espaços de significância - urbano/cidade, campo/rural, urbano/rural, cidade/campo, mobilizando-se, entre outras, as noções de discurso, condições de produção, formações imaginárias e memória, segundo os preceitos do filósofo francês Michel Pêcheux e da pesquisadora brasileira Eni Orlandi. A campanha da TV Globo é, assim, um gesto de produção de novos sentidos para um campo que ultrapassa limites, transborda e reflui em um Agro, que também está na cidade, no urbano, em tudo o que o Brasil faz e consome. Essa reflexão integra as atividades do Grupo de Pesquisa Educação Científico-Tecnológica e Cidadania, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Letras (PPGLetras), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), campus Sinop/MT.

        Speaker: Débora Pereira Lucas Costa
      • 15:15
        Comunicar nas redes sociais em tempo de pandemia – o caso das marcas portuguesas Super Bock e Licor Beirão 15m

        O atual contexto pandémico vivido em Portugal impulsionou mudanças na comunicação das marcas, que parecem evidenciar cada vez mais uma estratégia de proximidade com os consumidores. Um diálogo mais emotivo e centrado nas relações humanas, que, por vezes, chega mesmo a ter uma abordagem didática, tende a sobrepor-se a estratégias de comunicação focadas no produto. E mesmo quando este parece ser o elemento principal da comunicação, na verdade, o que se pretende realçar é a autenticidade da marca e a sua capacidade de responder às necessidades dos consumidores e de partilhar com estes as suas dores, as suas alegrias e também as suas derrotas e vitórias.
        O presente trabalho visa identificar e analisar os conteúdos partilhados no Facebook, por duas marcas portuguesas, a Super Bock e a Licor Beirão, e toma como referência as conclusões de um estudo realizado no Barómetro das Marcas, pelo Omnicom Media Group (OMG) em Portugal, em 2020, que considera essencial as marcas manterem uma relação próxima com o consumidor, numa altura em que se assiste à redução ou cancelamento dos eventos ou patrocínios. O objetivo central deste trabalho é compreender de que forma é que os conteúdos estabelecem um diálogo emotivo e de proximidade com os consumidores, especificamente durante os períodos mais críticos da pandemia em Portugal, que determinaram o Estado de Emergência, e que estabelecem o dever de confinamento obrigatório. Assente na metodologia de revisão de literatura e de análise de conteúdo, o presente estudo tem em consideração as publicações das marcas, assim como as reações e os comentários dos utilizadores e as respostas das marcas, no Facebook, nos períodos compreendidos entre 22 de março e 2 de maio de 2020 e entre 15 de janeiro e 17 de fevereiro de 2021, que correspondem a períodos decretados como Estados de Emergência e de confinamento com maiores restrições. Apesar de se perspetivar concluir a análise a 17 de fevereiro, caso o Estado de Emergência se mantenha, tenciona-se prolongar até março a análise dos dados, para, desta forma, se poder ter um maior volume de dados para exploração e codificação.
        A Super Bock é uma marca de cerveja portuguesa, que ocupa uma posição de referência no mercado nacional, por ser uma das marcas de cerveja preferidas dos Portugueses. Na sua estratégia de comunicação, assente quase exclusivamente nas redes sociais, a marca coloca sempre o produto no centro de uma narrativa que apela à amizade ao convívio; A Licor Beirão é uma marca que se orgulha de ser a bebida espirituosa mais consumida em Portugal, assumindo-se mesmo como o Licor de Portugal e de todos os Portugueses. A sua estratégia de comunicação assenta no humor e inspira-se nos temas da atualidade. O confronto da Super Bock e da Licor Beirão justifica-se pelo facto de serem das marcas com mais seguidores no Facebook, no setor da alimentação e de bebidas, de terem em comum o facto de comunicarem com humor e de forma irreverente e de celebrarem a amizade e a reunião entre amigos. Acresce também o facto de serem marcas portuguesas com tradição no digital, de comunicarem com uma regularidade similar e de terem protagonizado a primeira interação entre duas marcas online com verdadeira repercussão em Portugal.

        Speaker: Prof. Dina Baptista (CLLC, ESTGA, Universidade de Aveiro )
      • 15:30
        Corpos, necropolítica e solidariedade seletiva: uma análise sociossemiótica de imagens e como elas influenciam a luta democrática e a ação coletiva 15m

        Esta comunicação busca refletir sobre o impacto das imagens de cadáveres e como elas influenciam ativamente a ação coletiva, servindo como catalisadores de movimentos populares e influenciando ações em prol de um estado democrático (Hartley, 1992; Messaris, 1994; Mitchell, 1992) . Além disso, abordamos porque certas imagens causam empatia em alguns contextos, mas outras semelhantes não conseguem provocar a mesma reação. O trabalho analisa fotografias, divulgadas pela mídia, de corpos mártires vítimas de violência por parte de forças militares e como essas imagens tiveram um efeito comovente e serviram como símbolos de protestos em prol dos direitos civis ou democráticos. O conceito de solidariedade, de acordo com Pasini e Reichlin (2001), devemos ter em conta que este não é uma herança da tradição iluminista ou da ideologia liberal, podendo tais origens serem atribuídas à ideologia democrática católica-cristã e à tradição socialista. Assim, essas tradições foram fatores determinantes em alguns modelos do estado de bem-estar social, que foram criados em muitos países europeus após a Segunda Guerra Mundial. Nas últimas décadas, após a queda do muro de Berlim, o debate sobre a justiça social na teoria política e social, bem como a luta entre o liberalismo e o comunitarismo, teve grandes implicações em relação também à solidariedade.Desse modo, conforme Koning (2013),houve uma diferenciaçao maior entre solidariedade universal e solidariedade "seletiva". Esta ultima entendida por um determinado grupo social como destinada apenas a individuos com determinadas caracteristicas reconhecidas por determinada comunidade como "merecedores" de ajuda e compaixao.
        No contexto latinoamericano, a democracia brasileira de baixa intensidade (Santos, 1998) deu lugar a uma pós-democracia (Crouch, 2020; Casara, 2018) que visa não apenas eliminar o “indesejável”, mas “otimizar” mortes por meio de instrumentos da necropolítica (Mbembe), com base em uma racionalidade neoliberal. Em um estado autoritário desde sua origem até os dias atuais, em que “raça e classe” se confundem (Freyre, 1933; Hollanda, 1936; Souza, 2018; Casara, 2018; Schwarz, 2019), é relevante notar que 75 % das pessoas mortas pela polícia no Brasil são negras, segundo relatório da Rede de Observatórios da Segurança. Uma das hipóteses para a falta de empatia pelas imagens de violência moderno poderia ser explicada pela internalização da violência, principalmente a infligida a não brancos. Desde a época da colonização, a sociedade brasileira se acostumou a ver pessoas de origem africana ou indígena sendo frequentemente punidas e até mortas em praças públicas. Além disso, desde a década de 90, é comum as emissoras de TV veicularem programas voltados para a exibição de imagens de crimes. Esses programas de televisão também propagam a ideia de que "bandidos devem morrer" (Barnhurst & Nerone, 1995), agindo como "educadores" e incentivando o discurso de ódio, muitas vezes contra o direito de defesa ou mesmo contra os defensores dos direitos humanos.

        Speaker: Marcela Magalhães (CEB)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        A poesia Ana Luísa Amaral e a memória cultural: do humor à reescrita paródica 15m

        A poesia contemporânea portuguesa apresenta uma forte dimensão intertextual e interdiscursiva, dialogando frequentemente com a tradição literáriae cultural, portuguesa e ocidental. Essa relação dialógica assenta numa dinâmica interacção entre memória e contemporaneidade, optando por várias aproximações e tonalidades, oscilando entre opções modais e genológias diversas – entre o lirismo e o humor, a sátira e o pendor narrativo.

        Um caso exemplar é a escrita de Ana Luísa Amaral, cuja poesia estabelece assíduos diálogos com várias literaturas, incluindo a portuguesa, num processo de assídua revisitação e reinterpretação do cânone literário, em modalidades de reescrita dotadas de um marcadamente "ethos" ambíguo – ora de confessada homenagem, ora de registo irónico-paródico –, mas sempre num reiterado processo de reescrita, seja de textos, de figuras e de mitos.

        Speaker: Prof. Cândido Oliveira Martins (Universidade Católica Portuguesa)
      • 15:15
        Ecos de Manuel António Pina: Abdallah Zrika e seu mosaico de palavras 15m

        O destacado escritor e jornalista português Manuel António Pina (1943-2012) produziu uma vasta e diversificada obra literária em termos de géneros e de público (adulto e infanto-juvenil). Trata-se de um escritor de grande relevância no cenário da literatura de língua portuguesa contemporânea. Seu trabalho reveste-se da ideia de que o escritor de seu tempo vê-se frente a – ou em – um abismo/intervalo entre o silêncio por tudo já haver sido dito e a necessidade do poeta de não se calar, impasse criativo reportável também ao designado pós-modernismo. Sua obra assume, assim, como ressalta Inês Fonseca Santos, “um pendor eminentemente reflexivo e auto-reflexivo”.
        A comunicação proposta pretende, por início, tratar a poética de Manuel António Pina no confronto bifronte dos contextos modernista/pós-modernista. Ademais, relacionar-se-á seu pensamento criativo com as ideias de memória e polifonia para entender como este escritor pensava a escrita e a formação do poeta simultaneamente, conjugando os dilemas metapoéticos do escritor e o questionamento do sentido do “eu” poético na criação contemporânea.
        Já como objeto mais específico, esta comunicação tem a intenção de refletir a singularidade da poética de Manuel António Pina, “poeta tardio” e atemporal, mas, ao mesmo tempo, pensar seus ecos na poesia contemporânea. Aqui, poder-se-ia trabalhar, no contexto ibérico, a citar, Jaime Gil de Biedma, e seu também afastamento de uma perspectiva do eu, ou o jovem escritor brasileiro Tarso de Melo, e sua urbanidade múltipla, contrapondo, como Pina, realidade e palavra. Optou-se, no entanto, pelo destaque ao marroquino Abdallah Zrika que, com seu mosaico de palavras, tece relações relevantes e curiosas com a criação de Manuel António Pina.
        Em entrevista a Américo António Lindeza Diogo e Osvaldo Manuel Silvestre, Pina relata um convite que recebeu por parte do editor de L'Escampette, para uma sessão literária em Périgueux, em França, onde o poeta marroquino Abdallah Zrika lia poemas em árabe e francês, que para seu espanto, como Pina mesmo expressa, “[...] eram poemas, os de Zrika, meus que eu não tinha escrito! Até onde conheço a minha poesia, aquela poesia era, inquietantemente, a minha!” Diante de tão impressionante afirmação, coube-nos investigar as possíveis relações entre estes autores de origens e percursos tão distintos e almeja-se, durante a proposta intervenção, compartilhar impressões acerca dessas aproximações, observando, em principal, as obras Échelles de la métaphysique e Petites proses, de Zrika, em contraponto ao trabalho piniano, e suscitar reflexões e também angariar ideias de novos possíveis aprodundamentos sobre este trabalho comparativo.

        Speaker: Alexandre da Silva Rodrigues (Universidade de Évora)
      • 15:30
        A escrita INKZ de Efraín Huerta e os poemínimos de Boaventura de Sousa Santos: uma reviravolta analéptica a partir da tradução da poesia de Boaventura de Sousa Santos 15m

        O poeta argentino Juan Gelman, em referência a Fernando Pessoa, começo o poema “Yo también escribo cuentos”, assim:
        “Havia uma vez um poeta português / que tinha quatro poetas dentro...”.
        No percurso de tradução para o espanhol da poesia de Boaventura de Sousa Santos que realizei no ano de 2016, e que materializou-se no livro: En los límites de la palabra. Antología poética de Boaventura de Sousa Santos, publicado em 2017, no México, aqueles dois versos de Juan Gelman se fizeram presentes quase desde o início e ganharam cada vez mais força. Algo, eu não sabia determinar o quê, murmurava-me que na poesia de Boaventura (outro poeta português) batiam os versos de mais um poeta. Assim que reconheci a poesia em forma de títulos de Boaventura –aliás, títulos para ser preenchidos–, descobri que no fundo dos versos do grande sociólogo português, moravam, inesperadamente, os versos de um dos maiores poetas mexicanos do século XX: Efraín Huerta.
        A comunicação que apresentarei tem uma pretensão dupla. Por uma parte, retomarei a proposta incapaz de Boaventura, que apresenta no “Désfácio” do livro escritaINKZ, com o intuito de mostrar, por meio de um deslocamento analéptico ao passado, a potência incapaz que atravessa a poesia de Efraín Huerta. Mas, nesse mesmo deslocamento, proporei como é que a poesia de Boaventura de Sousa Santos encontra-se percorrida por uma forma poética intrínseca à poesia de Huerta; isto é, os chamados “poemínimos”.
        O ponto de partida – e também de chegada–, para a abordagem poiético-criativa que proponho, cria-se a partir do cruzamento entre dois versos de cada um dos poetas. Por uma parte, Boaventura de Sousa Santos escreve em um poema: “E um microcosmo cabe sempre dentro doutro microcosmo”. Mas, muitos anos antes, Efráin Huerta, escreveu: “Todo cabe en un poemínimo sabiéndolo acomodar”. Desse modo, as formas poéticas do poeta mexicano encontram-se vivas, sendo pre-existentes, na poesia do poeta português. A proximidade entre ambas formas poéticas é admirável. Por exemplo, Huerta escreve: “Yo no pienso, luego existo.” E Boaventura escreve: “Não penso, logo resisto.” Ou ainda, Huerta escreve: El hambre es la medida de todas las cosas”. E Boaventura: “A fome é sobretudo o que não tenho.” Claro, ao mesmo que se criam encontros insuspeitados, se criam desencontros altamente produtivos e recíprocos, entre ambas expressões.
        Na parte final da comunicação, por isso, tentando fazer da poesia de Boaventura de Sousa Santos uma “matéria-prima” para “provocar a imaginação artística”, lembrando que “Cada título o estrofe é o princípio ou o fim de uma narrativa pessoal que cada leitor deverá imaginar e construir artísticamente”, partilharei um conjunto de poemas criados por mim, a partir de deslocar alguns versos de poesia de Boaventura e fazer deles poemínimos.

        Speaker: Ramírez Mastache (UNAM)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        O olhar de um português sobre a gramática italiana: Luís Caetano de Lima e alguns documentos inéditos 15m

        Em 1734 sai em Lisboa a primeira gramática italiana publicada por D. Luís Caetano de Lima (1671-1757), um clérigo regular Teatino, membro da recém nascida Academia Real de História (da qual, em 1720, foi um dos 50 sócios fundadores), escritor, cronista da Casa de Bragança, académico de Liturgia Pontifícia em Coimbra. Ele já tinha publicado, em 1710, uma Gramatica franceza, ou arte para aprender o francez por meio da lingua portugueza, em Lisboa, pela Officina Real Deslandense que será aumentada e anotada em 1724, e novamente publicadaem 1732, 1733 e 1734. A casa editora que tomará o cargo de voltar a publicar esta gramática francesa será a lisboeta Congregação do Oratório, aquela mesma Congregação que em 1734, publica do mesmo Autor, com o título estruturado da mesma forma, um volume de 418 páginas de Gramatica italiana, e arte para aprender a lingua italiana por meio da lingua portuguesa da qual existe o autógrafo manuscrito na Biblioteca de Évora. Alguns documentos que pertencem ao Autor e que ficaram inéditos poderão ajudar a enriquecer a perspectiva contrária: ou seja o olhar de um português do século XVIII para a gramática italiana.

        Speaker: Prof. Mariagrazia Russo (UNINT)
      • 15:15
        As TIC nas aulas de PLE: uma grande (r)evolução lúdica e de gamificação 15m

        Em pleno século XXI, a tecnologia avançou tanto que é difícil ou impensável viver sem usá-la tanto para fins profissionais quanto para o lazer. Paralelamente ao uso constante das novas tecnologias apareceu a necessidade constante de usar o método comunicativo no ensino de línguas estrangeiras durante as últimas décadas e principalmente na atualidade, o que nos facilitou o desenvolvimento e aparecimento de um vasto elenco de ferramentas TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação) atrativas e motivadoras para serem aplicadas facilmente na aula de Português como língua estrangeira. Por este motivo, este artigo pretende mostrar e propor metodologias dirigidas ao enfoque comunicativo e centrado no alunado através do uso de ferramentas TIC para o/no ensino de Português como Língua Estrangeira. Para isso partimos da premissa que as TIC evolucionam constantemente e têm uma importância cada vez maior no ensino-aprendizagem de idiomas na sociedade atual, além de que podem estimular uma aprendizagem mais lúdica, flexible e autônoma (Zinan & Sai: 2017). Também vemos constantemente o interesse por parte dos professores de levar à sala de aula propostas didáticas que aumentem a motivação, não só extrínseca senão também intrínseca dos seus alunos. Por outro lado, o uso das TIC não supõem só ser uma ferramenta útil para o ensino e aprendizagem que nos proporciona um grande número de vantagens, mas também nos permite alfabetizar digitalmente os nossos educandos para se desenvolverem no mundo digital atual. Também nos ajuda a individualizar o ensino e colocar o aluno no centro da aprendizagem, sendo ele o protagonista do mesmo. A metodologia utilizada neste trabalho foi quantitativa: o primeiro passo foi fazer a coleta e revisão bibliográfica pertinente. O seguinte passo foi criar, selecionar e aplicar dinâmicas usando as TIC para analisar a incidência que o uso destas ferramentas teve/têm na aula de PLE a partir de uma experiência real na aula da disciplina “Iniciação à Língua e Cultura Portuguesas” nos cursos de Letras da Universidade de Sevilha-Espanha, tendo em conta a realidade multicultural dos alunos provenientes de diferentes países e continentes. Por último, mostrar e demonstrar que as tecnologias de informação e comunicação contribuem para alcançar um ensino-aprendizagem, afetivo-efetivo, lúdico, atrativo e motivador no ensino de Português como Língua Estrangeira e do componente cultural, além de que o seu uso é fundamental como apoio na aula e promove uma forma de aprender inovadora.
        Palavras- chave: TIC, PLE, metodologia, ensino-aprendizagem, lúdico.

        Speaker: Lilian Adriane Dos Santos Ribeiro (Universidade de Sevilla)
    • 16:00 16:15
      Pausa 15m
    • 16:15 16:45
      Angola - Homenagem a Agostinho Neto 30m

      Angola - Homenagem a Agostinho Neto, por Pires Laranjeira

    • 16:45 17:15
      Moçambique - Homenagem a Bertina Lopes 30m

      Moçambique - Homenagem a Bertina Lopes, por Paola Rolletta

    • 17:15 18:15
      Atividade AIL - Revista Veredas e Plataforma9 1h

      Atividade AIL - Veredas e lançamento da APP Plataforma9

    • 18:15 18:30
      Pausa 15m
    • 18:30 19:30
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 18:30
        Práticas de memoria feminina acerca da ditadura militar: entre invisibilização histórica e re-emersão literária 15m

        A condição específica de subalternidade da mulher emerge claramente dos depoimentos de mulheres que lutaram na época da ditadura militar brasileira: o corpo da mulher é duplamente culpado (e punido) por ter desafiado tanto a ordem política quanto – e sobretudo – o seu papel tradicional na ordem patriarcal. Se a consciência desse desafio produz o surgimento de um novo feminismo no Brasil (Pinto; Sarti), a marginalização e a subestimação das experiências das mulheres são a causa de uma longa invisibilização histórica das suas lutas e vivencias (Colling), bem como da difícil e lenta elaboração publica do trauma através da literatura (além dos textos pioneiros de Ana Maria Machado e Lygia Fagundes Telles, foram publicados poucos romances escritos por mulheres sobre os anos da ditadura). Uma recente re-emersão literária (os textos de mulheres que viveram nos anos de chumbo como M. Pilla, M. Leitão, M. V. Rezende entre outros), acompanhada pela publicação de relatórios, depoimentos e pelo trabalho da Comissão Nacional da Verdade, contribui para restituir a importância e a necessidade de práticas de memoria feminina (Perrot) e permite uma reflexão sobre as formas de transmissão social das suas experiências específicas.

        Speaker: Alessia Di Eugenio (Università di Bologna)
      • 18:45
        O que resta no testemunho de uma nação-corpo fraturado pelo mal de Alzheimer 15m

        No romance K. relato de uma busca (2011), de Bernardo Kucinski, o narrador nomeia a ausência de políticas de memória coletiva sobre a ditadura militar brasileira como o “mal de Alzheimer nacional”. As cartas que continuavam a chegar para a filha desaparecida, após anos de seu desaparecimento eram a materialidade desse corpo-nação doente. O escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado desaparecido pela ditadura, Rubens Paiva, escreve em 2015 um testemunho da luta pela memória empreendida por sua mãe. Eunice Paiva, que não permitiu aos filhos esboçar tristeza para regojizo dos algozes e que após o desaparecimento do marido torna-se advogada de Direitos Humanos a certa altura é acometida pelo mal de Alzheimer, neurologicamente diagnosticado e do qual ela nunca irá se envergonhar, como nos conta em Ainda estou aqui, Marcelo Rubens Paiva. O que resta, o que ainda está aqui, o que resiste nesse testemunho entre uma nação doente e a mulher que por uma vida lutou pela memória e de repente vê-se acometida por uma patologia que tentar tirar dela essa capacidade de memorizar?

        Speaker: Graziele Frederico (Università degli Studi di Milano)
      • 19:00
        Carnis facere. Separação humano-animal e corpos torturáveis na literatura de testemunho da ditadura militar brasileira 15m

        A separação humano-animal é uma separação pré-histórica, que, afirma Giorgio Agamben, tem uma função eminentemente política: a de produzir a ideia de humano. Em termos biopolíticos, esse é o conflito primário que determina e governa todo outro conflito. A máquina antropológica tem sido capaz de produzir a escala hierárquica cujo degrau mais baixo é ocupado pelo Animal, corpo sacrificável, não-sujeito, não-vida. Nos regimes totalitários, a violência do Estado atua sobre o humano replicando as condições de aniquilação que a humanidade reserva ao Animal. Nas páginas literárias de Renato Tapajós, Beatriz Bracher e Bernardo Kucinski, que reelaboram os traumas da tortura ¬e do desaparecimento vividos pela sociedade brasileira nos anos do regime militar, é possível detetar os rastos de uma “desumanização” que é resultado dessa separação primária. A redução do ser humano a “mera carne” – torturada, dissecada, dispersa – nos leva até às fronteiras do impolítico, onde a carne, como matéria selvagem e inorgânica (R. Esposito), é a substância na qual o ser humano é despolitizado.

        Speaker: Marianna Scaramucci (Università degli Studi di Milano)
    • 18:30 19:30
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:30
        O perigo do olhar viciado: uma reflexão sobre raça, agentes do campo literário e literatura afro-brasileira 15m

        Pairam sobre a literatura afro-brasileira constantes desconfianças: sobre qualidade e relevância da autoria, sobre a existência de um público leitor diversificado, sobre a necessidade de uma reivindicação da alteridade por parte de quem a defende enquanto um sistema à parte do sistema literário brasileiro tradicional, sobre a existência de uma estética diferenciada, dentre outras.
        Tais questionamentos ora se mostram uma preocupação com o status da literatura enquanto área de saber e sua respeitada reputação no campo das artes, ora se mostram apenas como a preocupação de uma classe racial e social privilegiada assombrada pela possível ascensão de seu outro, aquele que supostamente não é letrado suficientemente para produzir suas próprias estórias no campo da escrita artística e que se reconhecido pode, supostamente, macular o reconhecimento e diminuir o poder social da literatura.
        Na presente comunicação proponho uma análise conjunta entre dados sobre as universidades e dados sobre o campo literário – a partir de pesquisas realizadas por órgãos do governo brasileiro que relatam o insipiente número de professoras/es pesquisadoras/es negras/os nos programas de pós-graduação das universidades assim como o baixo número de estudantes negras/os na graduação e na pós-graduação dessas mesmas universidades, e de pesquisas literárias que apresentam dados tanto sobre personagens quanto sobre autoria negras na literatura brasileira contemporânea – com o objetivo de explicitar o olhar seletivo para questões a cerca da composição racial dos sujeitos que estudam e criticam, a partir de uma perspectiva especializada, a literatura brasileira.
        Com um número pífio de agentes negros no campo literário, sobretudo em posições de tomadas de decisão e com poder para interferir com maior eficácia no habitus do campo, defendo que uma de suas consequências é a decorrente limitação de interesse pelas produções afro-brasileiras e pelo seu impacto social. Defendo, ainda, que apesar desse contingenciamento ter grande impacto no silêncio da literatura sobre as questões raciais brasileiras, políticas públicas como a adoção de cotas raciais nas universidades federais e estaduais têm gerado importantes demandas, reflexões, circulação de debates, dossiês temáticos, monografias e pesquisas, bem como tem resultado em descobertas importantes que podem vir a modificar a própria historiografia literária, caso do romance Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, já reconhecido como o primeiro romance abolicionista, que foi encontrado a partir de estudos universitários revisionistas.

        Speaker: Adélia Mathias (Johannes Gutenberg-Universität Mainz)
      • 18:45
        Os Cânones Literários de Língua Portuguesa, a Literatura Mundo e os Mundos da Literatura 15m

        A presente intervenção pretende estabelecer um balanço acerca dos cânones literários nacionais de Língua Portuguesa, intentando entende-los desde o prisma, não da Lusofonia e, sim, daquele proposto pela “Literatura Mundo”, noção capaz de ensejar diálogos e constituir uma rede de leitores que mais se aproximam pelos interesses identitários e temáticos comuns que, necessariamente, por uma identificação estabelecida pelos viéses de uma herança linguística. A exemplo, a frequente presença de autores brasileiros ligados às questões marginais, negras e de gênero identitário e sexual em livrarias portuguesas abrigados pelo selo de “lusofonia” – rótulo oportuno à indústria editorial – aproxima negros, mulheres e pessoas LGBTQI+ mais pelas demandas culturais e estéticas que têm do que, necessariamente, pela língua que falam e escrevem. Pretende-se, ainda, a partir disso enfatizar o peso que estas manifestações literárias mais contemporâneas – em particular a literatura negrobrasileira e a emergente dicção/produção literária afroportuguesa –exercem sobre as identidades hegemônicas (?) veiculadas pelas literaturas portuguesa e brasileira e, por isso, tidas como “representativas” dos modos de ser, de se fazer e de representar essas nacionalidades.
        Pelo contrário, essa fortuna estética ainda está a ser amealhada, de forma a compreender novos e outros fenômenos vindos do sul, do leste, do oeste, bem como assinados pelos sujeitos da diferença, investindo, assim, num “comparatismo militante”, para usar aqui uma ideia de René Etiemble. A interação entre Literatura-Mundo e Literatura Comparada nos aponta, ainda, para a dimensão transitiva dos estudos literários que, ao superarem o paradigma da nacionalidade, podendo estabelecer outras relações que não aquelas esperadas pela lógica mais tradicional, demonstrando, com isso, que as fronteiras do conhecimento são permeáveis e interseccionais a ponto de conformarem novos conjuntos dialógicos, como o são de fato, as “letras não-hegemônicas”, em língua Portuguesa.
        Importante frisar o pormenor: tais manifestações, como fenômenos estéticos representáveis nos cânones de Língua Portuguesa, surgem dos desejos das margens e não apenas da imposição excludente dos centros hegemônicos. E de fato, não é apenas a Lusofonia – seja lá o que isso for – que une os cânones periféricos de LP, mas, sim, sua capacidade de renúncia aos processos de subalternização impostos, não pelo cânone - que aliás, nem existe sozinho - e, sim, por aquelas e aqueles que o conformam como instância de poder.

        Speaker: Prof. Emerson Inácio (Universidade de São Paulo - USP)
      • 19:00
        O México como destino? O Brasil vai à Feira internacional do livro de Guadalajara. 15m

        O Brasil, numa estratégia que partilha com outros países, tem participado com alguma regularidade nas principais feiras internacionais do livro (FIL) nas últimas três décadas (Muniz/Szpilbarg 2016, Villarino Pardo 2018, Stella 2020). Para além da presença -num plano particular- de editoras, agentes literários e autores/as, durante quase uma década do atual século o país adotou a estratégia de investir em políticas culturais para aproveitar a visibilidade que proporcionam estes eventos em termos de imagem país, de diplomacia cultural e de soft power. Aconteceu, fundamentalmente, quando acudiu como convidado de honra -entre outras- às feiras de Bogotá (2012), Frankfurt (2013), Bolonha (2014) e ao Salão do Livro de Paris (2015).
        Essas participações contribuíram contribuiu para a projeção internacional do país em termos políticos, culturais e literários num momento de especial visibilidade vinculada à organização de megaeventos no país e à sua posição geopolítica a nível global. No entanto, as mudanças dessa situação -basicamente no plano político e social- provocaram a não continuidade de alguns desses projetos, entre os quais a presença como convidado de honra em outras feiras internacionais (Londres ou Nova Iorque,) previstas no inicio da segunda década.

        No quadro dessas dinâmicas, este trabalho pretende analisar uma iniciativa que coincide com esse mesmo período de tempo mas que teve continuidade apesar de todas as mudanças acontecidas no país. Trata-se do projeto Destinação Brasil(/Destino Brasil) presente na FIL de Guadalajara (México), de modo ininterrompido desde 2012. Convém ter presente que, como lembra Alejandro Dujovne (2020:42), o evento mexicano ocupa uma posição de máxima centralidade no relativo à “formación e realización de negocios” para o mercado editorial em língua castelhana.

        Partimos da hipótese de que esta modalidade de participação constitui uma plataforma importante para a circulação de bens simbólicos do Brasil no exterior através da feira mexicana.

        Referências bibliográficas:

        Dujovne, Alejandro (2020). Políticas y estrategias de internacionalización editorial en América Latina. Bogotá: CERLALC.
        Muniz Jr., José; Szpilbarg, Daniela (2016). “Edição e tradução, entre a cultura e a política: Argentina e Brasil na Feira do Livro de Frankfurt”. Sociedade e Estado, Brasília, vol. 31 (3), 671-692.
        Stella, Marcello G. Pocai (2020). “A literatura brasileira foi a Frankfurt”. Mediações, Londrina, v. 25, n. 1, jan-abr., 161-187.
        Villarino Pardo, Carmen (2018). “Las ferias internacionales del libro y la condición de invitado de honor: ¿Un escaparate (también) para la promoción de la lectura en el exterior?”. Estudos de literatura brasileira contemporânea, 55, set.-dez. 151-176.

        *Este trabalho insere-se no Projeto de pesquisa Nuevas estrategias de promoción cultural. Las ferias internacionales del libro y la condición de invitado de honor (CULTURFIL); financiado pela Agencia Estatal de Investigación do Ministerio de Ciencia e Innovación e Fondos FEDER (FFI2017-85760-P). Vid. www.culturfil.org.

        Speaker: M. Carmen Villarino Pardo (Professora da Universidade de Santiago de Compostela)
    • 18:30 19:30
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:30
        Estudo histórico-contrastivo de combinações interjetivas com o núcleo Deus 15m

        Nos últimos anos, o estudo das unidades fraseológicas em espanhol e outras línguas românicas tem sido objeto de crescente interesse dentro da fraseologia sincrônica e diacrônica, especialmente enriquecido por modelos teóricos que serviram de base para o estudo particular de certas unidades. A partir das considerações de Mª Teresa Echenique a respeito das unidades fraseológicas de uma perspectiva diacrônica, foram publicados estudos particulares sobre a evolução das frases adverbiais e prepositivas, fato que contribuiu para o desenvolvimento desta disciplina, aplicando os princípios da gramaticalização, lexicalização e grau de codificação, institucionalização e rotinização de frases em espanhol ou em português em contraste com outras línguas da área românica. Nesse contexto, as frases interjetivas têm recebido muito pouca atenção do ponto de vista histórico, provavelmente devido às características dessas combinações (classe heterogênea que não desempenha função sintática, apresenta um valor pragmático que depende do contexto, são características de coloquialidade, etc.), que dificultam a pesquisa em períodos anteriores das línguas.
        Neste trabalho nos propomos a estudar a história de algumas frases que têm como núcleo a palavra Deus. Nosso interesse está voltado para as características do processo que leva à criação de frases interjetivas a partir de elementos dotados de significado lexical. Também enfocamos a relação entre esse processo e os processos de lexicalização, gramaticalização e pragmatização, bem como a criação e renovação dos elementos interjetivos na história do português em contraste com outras línguas românicas peninsulares.
        Em primeiro lugar, serão apresentados os traços que caracterizam esse tipo de combinação locucional, do ponto de vista cognitivo, para seguir listando as unidades fraseológicas que se formam a partir de palavras de natureza religiosa. Abordaremos, posteriormente, algumas das frases que têm Deus como núcleo -do tipo per amor de Deus, valha-me Deus, etc.-, apontando as variações diatópicas, diacrônicas e diafásicas, de um corpus extraído de uma seleção de textos e do seu registro em dicionários.
        Também será verificado se o duplo processo de gramaticalização e pragmatização a que essas construções passam em espanhol ou catalão se dá para o português. Este duplo processo transforma essas construções em elementos linguísticos com funções discursivas (operadores da fala para marcar o turno o vez da fala, responder ou introduzir um novo tópico) ou com funções expressivas ao se tornar interjeições apelativas (especialmente de carácter formulário que incluem os comportamentos regulados socialmente como saudações: adéus) ou interjeições expressivas (Deus me libre, per amor de Deus), até mesmo interjeições intensivas em construções enfáticas como acontece em espanhol ou catalão: ¡Por Dios que es lista esta chiquilla; ¡Per amor de Déu que és bonica!).

        Speaker: Amparo Ricós Vidal (Universitat de València)
      • 18:45
        Criancas e jovens de nacionalidade portuguesa dentro do espaco europeu -ligacao com o país de origem no plano linguístico, cultural e afetivo 15m

        As grandes ondas de emigração de cidadãos portugueses para países europeus como a Alemanha, Luxemburgo, Franca e Suíça, que atingiu o auge durante os anos sessenta, levou à fixação de muitas famílias nos denominados países de acolhimento, tendo as crianças e jovens pertencentes às mesmas iniciado ou continuado a frequência da escolaridade obrigatória dentro de um meio linguístico e cultural desconhecido para a maioria.
        Poucos anos após a vinda para os vários países europeus citados não só de portugueses mas também de italianos, espanhóis, gregos e , mais tarde, turcos, além de indivíduos de muitas outras nacionalidades que emigraram em menor número, começa a ser constatada, não só pelas famílias , mas também por vezes pelas entidades escolares locais, a necessidade de abertura de cursos de língua e cultura de origem, que, embora no início visassem a preparação para um eventual regresso e consequente integração nos sistemas escolares dos países de origem,têm vindo a modificar os seus objetivos, visto que atualmente o regresso já não se encontra tanto em causa,tendo agora prioridade o interesse em manter vivas, nos países estrangeiros, a língua, a cultura e a identidade nacionais.
        Quais foram as razoes sócio-culturais que levaram à formação desses cursos?Quem foram as primeiras entidades responsáveis? Como funcionam os cursos hoje em dia?
        E, o mais importante, o que sentem as crianças e jovens de origem portuguesa,muitos deles já nascidos no estrangeiro,por vezes filhos de casais mistos,pela língua e cultura de um país onde não vivem nem estudam, mas que conhecem através dos familiares e das visitas feitas ao mesmo?
        Qual a ligação afetiva destes luso-descendentes a um meio que não é o seu meio diário?
        O que sentem e pensam relativamente a Portugal, à língua portuguesa, aos usos e costumes tradicionais?
        Por meio de um inquérito feito a alunos entre os 8 e 16 anos dos cursos de Língua e Cultura Portuguesas na Alemanha, Suíça e Luxemburgo, intitulado "O Português para mim é.... ", será avaliada essa ligação e a profundidade da mesma.
        Não basta oferecer cursos de Língua e Cultura Portuguesas, é também necessário saber aquilo que os alunos desejam aprender e os seus interesses, pois só assim poderá ser ministrado um ensino de qualidade útil para o seu futuro de cidadãos portugueses no estrangeiro.

        Speaker: Maria Teresa Nóbrega Duarte Soares (Deutsche Lusitanisten Verband -Associacao alema de lusitanistas)
      • 19:00
        A linguagem da gastronomia como ferramenta linguística e cultural para a aprendizagem do PLE B2 15m

        Nesta proposta de apresentação pretende-se ilustrar a estratégia didática do PLE para estudantes que já possuem um nível alto de conhecimento da língua portuguesa. Após a tradução em 2009 para português da importante obra romanceada do grande gastrónomo italiano de Forlimpopoli, Pellegrino Artusi (1820-1911), “A ciência na cozinha e a arte de comer bem” que teve origem no desejo de levar ao conhecimento um texto no qual o tradutor assume o papel de agente polifuncional no processo informativo criando assim uma ponte entre duas línguas ‒ aquela italiana e aquela portuguesa -, seguiu-se um caminho de investigação que a língua “criada” pelo autor tinha percorrido, e foi realizado assim um manual para a didática para estrangeiros de nível B1-B2 usando mesmo algumas das 790 receitas que compõem esta obra, na sua última edição de 1911, escolhendo aquelas mais significativas e que, talvez, mais sintonia têm com a gastronomia portuguesa.
        Efetivamente, não se trata meramente um livro de receitas com numerosos conselhos gastronómicos, porque se trata, na verdade, de uma obra literária de alto valor linguístico, histórico e social e, acrescentaria, de enorme valor didático. Deparamo‒nos assim com um texto não convencional mas internacional, pois muitas são as receitas provenientes de outros países, e encontramos uma língua escrita, a sua, aquela de Artusi, que já não era o dialeto como até àquela altura se usava, mas sim um italiano culto, burguês e correto, ainda recheado de alguns idiomatismos e regionalismos, tal como se pode verificar através do glossário que foi criado de forma a facilitar a compreensão deste longo texto.
        Este manual de apoio ao ensino do português como língua estrangeira segunda ou terceira, e não materna, que não é meramente mais um livro de exercícios de português, destina-se a alunos estangeiros, e não só italófonos, que já têm bons conhecimentos da língua portuguesa, e que pretendem não só melhorá-la como também descobrir ou aprofundar através de alguns exercícios gramaticais, a gastronomia e o seu léxico específico numa ótica do intercâmbio linguístico. Intercâmbio este que foi o fator primordial que deu origem à redação deste volume escrito a quatro mãos, onde a troca de escolhas, opções e decisões foram determinantes para as autoras, uma portuguesa e uma italiana, que se reuniram para elaborarem uma ferramenta estratégica e útil para a aprendizagem da língua portuguesa.

        Speaker: Prof. Anabela Cristina Costa da Silva Ferreira (DIT - Dipartimento di Interpretazione e Traduzione dell'Universitá di Bologna)
    • 18:30 19:30
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:30
        Memória e metaficção nos romances Um deus passeando pela brisa da tarde, de Mário de Carvalho, e A casa eterna, de Hélia Correia 15m

        Ainda que sujeitos a percursos literários bastantes distintos, os romances Um deus passeando pela brisa da tarde e A casa eterna, de Mário de Carvalho e Hélia Correia, respetivamente, constituem modelos do paradigma da metaficção no romance português contemporâneo.
        No caso do romance de Mário de Carvalho, a obra inscreve-se essencialmente no domínio da recusa da imitação, orientada para a reinvenção da narrativa, mas que não deixa de partir de um projeto mimético; trata-se sobretudo de imitar para recriar. Tarcisis constitui o espaço da narrativa, cidade localizada, apesar de nunca ter existido, num contexto histórico-temporal muito preciso, como é o segundo século da era cristã, época do imperador César Augusto, surgimento dos primeiros movimentos cristãos e enfraquecimento e queda do politeísmo. O romance de Mário de Carvalho propõe uma orientação de leitura aparentemente cerrada num tempo e num espaço (ainda que ficcional) específicos, cumprindo, desse modo, desígnios básicos para o seu enquadramento no modelo de romance histórico, contudo, e, seguindo a abordagem à obra de Osvaldo Silvestre e Natália Constâncio, Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde adota um regime autorreflexivo, apresentando diferentes perspetivas de factos históricos, assentes numa base historiográfica variável, mas que se desenvolve a partir de uma “visão (pseudo)memorialística dos factos”, nas palavras de Constâncio.
        É precisamente para a linha narrativa de manipulação da linearidade histórica que se orienta A Casa Eterna, de Hélia Correia. O fragmento e a ruína refletem-se no modo como a vida do protagonista, Álvaro Roiz, é apreendida pela população da sua terra natal. Não há unidade e coesão nos relatos e histórias narradas sobre o passado do protagonista, por isso, o retrato do protagonista vai-se construindo por meio de incoerências, imprecisões e suposições. Neste caso, mais do que a manipulação de factos históricos, há, recorrendo à expressão de Maria de Fátima Marinho, a propósito do romance Lilias Fraser, uma “encenação do passado”, a partir dos gestos modelados das personagens, das vozes que operam dentro de um mesmo corpo. E essas vozes são também as vozes do passado helénico, matéria sempre convocada pela autora.
        É a partir do desprendimento histórico, não o ignorando, antes convocando-o livremente, que estas obras se encontram, a partir de uma processo que pretende usurpar factos históricos do passado, integrando-os num presente ficcional, convocando a imagem da ruína, que figura como um elemento simbólico do romance contemporâneo.

        Speaker: Sandra Sousa (Universidade do Minho)
      • 18:45
        Eros e Cronos na obra de Augusto Abelaira 15m

        A presente proposta pretende concentrar-se em alguns aspectos que interessam a inteira produção ficcional de Augusto Abelaira, para evidenciar como a reflexão orgânica sobre a realidade portuguesa desenvolvida pelo autor enfatiza e ao mesmo tempo transcende a sua especificidade contingencial. O arco temporal da produção narrativa de Abelaira abarca quase inteiramente a segunda metade do século XX português e enforma aquilo que o próprio autor define como um “único romance sujeito a múltiplas reedições modificadas”. Esta unidade dá-se através da constituição de um espaço próprio, um lugar literário desmaterializado e sem geografia, que tem na estrutura dialógica e na recorrência de temáticas constantes as suas principais referências. Desde a publicação de A Cidade das Flores (1959) até ao último romance, póstumo, Nem só mas também (2004) a História, declinada nas suas várias modalidades, desempenha um papel de destaque entrecruzando-se com os destinos individualizados de protagonistas que apresentam perfis muito parecidos e partilham as mesmas preocupações, apesar de atuarem em contextos diferenciados. O duplo plano, individual e coletivo, é a trama onde se inscreve uma reflexão em que os âmbitos político e existencial se ressentem de uma mútua implicação: as forças históricas não bastam para definir a ação do indivíduo, bem como o esforço individual por si não é suficiente para atingir uma compreensão que oriente de forma consequente a ação do sujeito. É neste quadro de inquietação que adquire centralidade a procura do personagem abelairiano pela alteridade, a tendência para uma empatia que se revela, porém, cada vez mais mediada, frágil e ilusória à medida que Abelaira vai testemunhando um percurso que conduz da repressão salazarista diretamente para o individualismo desenfreado e o vazio ideológico característicos da sociedade globalizada que irrompe no tempo português após o 25 de Abril. Os polos, sempre sujeitos a instabilidade, em torno dos quais se condensa o material narrativo abelairiano podem ser identificados na figuração do amor e na incumbência do tempo. O elemento erótico, se por um lado é veículo de libertação e aproximação total do outro, apresenta-se por outro lado sempre acompanhado pela ameaça da incompreensão e da incomunicabilidade; o elemento temporal, por sua vez, revela a obsessão impotente do personagem abelairiano de superar as prisões do presente, da contingência, e encarnar-se como sujeito histórico. A ancoragem no passado, a frustração, a inação, o traumatismo individual e coletivo são aspectos definidores de um radical sentimento de inadaptação à realidade que se concretiza ao transitar pela figuração alegórica da esterilidade, a impossibilidade de gerar o futuro veiculada pela representação dos fracassos conjugais. Na escrita abelairiana a tematização do amor e da pulsão erótica carrega-se então de significados que remetem para a procura individual de um lugar no mundo e na história, enquanto os eventos históricos e as vicissitudes individuais se iluminam mutuamente, na tentativa em constante tensão de atingir um horizontehistórico no qual se possam inscrever tanto o acontecimento pontual como o indivíduo. O alvo da apresentação, portanto, será mostrar como os dois princípios do Eros e da temporalidade concorrem dialeticamente através da imagem da fertilidade a delinear a visão histórica e existencial que subjaz à obra de Augusto Abelaira e à sua interpretação peculiar do século XX português.

        Speaker: Eugenio Lucotti (Università Ca' Foscari Venezia)
      • 19:00
        Contra uma escrita autoritária: o neorrealismo de José Cardoso Pires e a influência de Elio Vittorini na viragem ideológica cardoseana. 15m

        José Cardoso Pires – pelo seu O Delfim de 1968 – é um nome amplamente referido para sinalizar uma transição periodológica da literatura portuguesa: ícone de certo esgotamento do Neorrealismo, Pires inauguraria uma Literatura Pós-Moderna em Portugal (cf. Arnaut, 2002 : 80). Sua escrita literária, que se inicia ainda no contexto neorrealista, não se adequa às velhas fórmulas e buscará dialogar com autores que, de algum modo, problematizem e renovem o conceito de “literatura engajada”.
        Uma das influências mais patentes na obra cardoseana, diremos, é a de Elio Vittorini, presente naquilo que Pires denomina “caligrafia moral” (1997: 52). Nesta análise, pretendemos demonstrar conceitos descritos por Vittorini tornados prática por Cardoso Pires – e fundamentais na teorização daquilo que virá a ser lido como tal guinada pós-moderna. Para tanto, viremos confrontar duas versões de um mesmo texto: o artigo “Conversando com o homem a propósito dos outros”, publicado na Gazeta Musical e de todas as Artes em 1959, em que José Cardoso Pires discorre sobre seu encontro com Elio Vittorini em 1958; e a sua renovada versão, publicada sob o título “Conversações com o homem a propósito dos outros”, que é um dos ensaios que integram a obra E agora, José? de 1977.
        A atualização do texto não consiste, no entanto, na sua mera ampliação. As afirmações feitas por Cardoso Pires em 1959 são reescritas, reelaborando completamente as suas próprias teses sobre a função da literatura; sobre o conceito de “literatura de revolução”; sobre a forma literária; e sobre o ofício do escritor. Entre a reafirmação e a autocontestação, a comparação dos textos demonstra um percurso de pensamento em constante atualização, de modo que é possível verificar a consonância entre estas orientações teóricas e a produção literária do autor. Além disso, questões centrais da obra cardoseana – sobretudo a dos anos 60 – parecem responder a problemas que Vittorini aponta no Diario in Pubblico, texto que o autor italiano oferece-lhe no encontro de 1958.
        Assim, este trabalho busca apresentar pontos de viragem do pensamento ideológico subjacente à escrita literária de José Cardoso Pires entre 1958 e 1968; e correlacioná-los com as teorizações sobre literatura e política promovidas por Elio Vittorini no Diario in Pubblico em suas sucessivas edições. Articulação esta que, por sua vez, pode ser catalogada através da comparação entre os fragmentos textuais (compilados no ensaio de 1977) datados de diferentes anos e a versão original do artigo de 1959. Finalmente, visamos assinalar a relevância do pensamento do autor italiano para a renovação do sóciocódigo literário português da pós-modernidade.

        Speaker: Gabriella Mendes (Universidade de Coimbra)
    • 14:00 19:15
      Abertura das votações: Voto online certificado

      Abertura do voto online certificado

    • 14:00 15:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 14:00
        Devorando Capuchinho Vermelho: processos de diferenciação e digestão transcultural 15m

        O conto conhecido em português como Capuchinho Vermelho tem uma ampla história de difusão através da tradição oral, não só no contexto europeu, mas também transcontinental. No século XVII, o conto ganhou a primeira versão impressa conhecida no ocidente, publicado em francês na coletânea de Charles Perrault. Posteriormente, no século XIX, foi publicado junto com outros contos que representavam a tradição oral alemã; recolhidos e reescritos por Jacob e Wilhelm Grimm. Entre os temas descartados por Perrault e pelos irmãos Grimm a fim de agradar determinados públicos leitores estão passagens que retratam cenas de canibalismo – em que a menina come partes do corpo da sua avó e bebe seu sangue (Silva, 2011). O chamado “paradigma reconfortante” do conto, que dissimula tais temas trágicos, foi responsável por fixar Capuchinho Vermelho ao cânon da literatura infantil mundial (Reis da Silva, 2015).
        A comunicação proposta busca, primeiramente, apresentar a temática das diferenciações locais e temporais do conto fantástico que conhecemos como Capuchinho Vermelho através da perspectiva da antropologia cultural. Nesse sentido, recorre-se à ideia de que a transmissão de narrativas através de várias gerações e barreiras culturais pode oferecer fonte de evidência sobre os tipos de informação consideradas importantes para serem passadas adiante (Tehrani, 2013). Em um segundo momento, apresentam-se leituras críticas de dois textos que revertem em certa medida o paradigma reconfortante. O primeiro, A História do Capuchinho Vermelho contada a crianças e nem por isso (2005); uma reescrita do conto feita pelo escritor português Manuel António Pina a partir de pinturas da artista plástica Paula Rego. O segundo, uma versão do conto feita pelo escritor brasileiro Rubem Alves e publicada no jornal Correio Popular (2002).
        Dentre as bases teóricas que balizam a argumentação estão formulações sobre o conceito de cultura e estudos de intertextualidade. O canibalismo presente no conto de Capuchinho Vermelho representa, neste contexto, outro importante recurso temático para tratar a questão. Tendo como inspiração o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade e, como metáfora elucidativa, os relatos de canibalismo em tribos indígenas no Brasil colonial (que pareciam ter especial preferência pelos portugueses, segundo Hans Staden), a comunicação proposta termina por definir as paródias do conto de Capuchinho Vermelho nos contextos apresentados como processos de devoração da alteridade (do cânon) para a rearticulação da identidade (na reescrita contemporânea). Esta definição relaciona-se com a própria temática do conto, que trata da transformação da infância para a idade adulta pela consumação da cultura e tradições corporificadas na carne e no sangue da avó.

        Speaker: Thales Estefani (Centro de Literatura Portuguesa, Universidade de Coimbra)
      • 14:15
        Cazuzas: José e Agenor (re)ssignificando ideologias de Brasis 15m

        Em consonância com projeto em desenvolvimento cujo objetivo é “analisar obras teóricas, críticas e ficcionais, de escritores brasileiros”, pretendemos traçar pontos de aproximação e distanciamento entre a concepção de nação e identidade nacional de dois importantes “cazuzas” do cenário artístico brasileiro. Apelido carinhoso muito utilizado no nordeste brasileiro, cazuza é um nome predominantemente masculino, de origem africana, segundo Nei Lopes, mais especificamente banta. hipocorístico de José. De nga, abreviatura de ngana, “senhor” e Zuze, corruptela de “José”, “senhor José”. No nordeste brasileiro, no entanto, significa moleque alegre e sem vergonha. Cremos que a segunda explicação se encaixa mais nos autores por nós elencados. Nossa proposta é , mais especificamente, ler como o cantor Agenor de Miranda Araújo Neto – Cazuza (1958-1990) se apropria ou se alimenta da estética do escritor José Martiniano de Alencar, o Cazuza do século XIX (1829-1877) na composição de seus territórios multifacetados na canção “Brasil” do álbum Ideologia, de 1988, para estabelecer o seu próprio projeto de nação e de identidade nacional. Tomamos como operadores de leitura o conceito de antropofagia em uma revisitação da metáfora proposta por Oswald de Andrade; visto por ele como uma saída para o problema de identidade brasileira, um antídoto contra o imperialismo, ao lado do conceito de apropriação cultural e reciclagem à luz das reflexões de Klucinskas e Moser (2002) em sua proposição de rediscutir o conceito de estética. Trata-se, pois, de verificar como se dá o processo de metamorfoses no qual várias fases de um gesto comportam ao mesmo tempo repetição e transformação. Pode-se observar como se dá a transformação do conceito de nação no distanciamento temporal e no espaço do alargamento dos campos da arte: arte, cultura, cultura de massa, mídias, indústria e a arte canônica e da arte popular, tendo em vista instabilidade do objeto

        Palavras-Chave: Territórios. Antropofagia, Reciclagem, Nação. Identidade Nacional.

        Speaker: Roberta Maria Ferreira Alves (Universidade dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri)
      • 14:30
        Antropofagia e antropoemia: uma releitura da colonização brasileira por Adriana Varejão 15m

        Como parte do projeto acima descrito, o presente trabalho, associando a relação entre narrativa e imagem como base da construção do conhecimento humano e o conceito de metáfora como capacidade recursiva de estabelecer relações no tempo e no espaço, debruça-se sobre a obra da artista plástica brasileira (1964-), especialmente no livro Adriana Varejão: entre carnes e mares (2009), em sua releitura da história da arte, em uma perspectiva antropofágica, barroca e descentrada. Ressaltam-se as telas da série Ruína de charques, Azulejarias, Paredes com incisões, entre outras. No jogo aí encenado, criam-se várias cenas: as das telas de Adriana e as das telas e textos lidos pela pintora, as dos textos críticos – Silviano Santiago, Isabel Diegues, Lilian Schwarcz, Karl Erik Schollhammer, Luiz Camilo Osório – lendo a obra encenada no livro e a da minha leitura de partes de tudo isso. Não se trata, porém, simplesmente da intertextualidade vista como retomada de um texto em outro texto, mas como a encenação de cenas enunciativas concomitantes criadas no esforço de construir sentidos. Por isso mesmo, a figura da antropofagia é mais do que um tropo, mesmo que com a potência a ela conferida por Castro Rocha (2002), que preconiza a desoswaldianizaçaõ e desnacionalização do conceito; trata-se de um movimento metafórico constitutivo da criação humana. Assim, se tal traço é quase sempre associado a um ato de defesa dos grupos subjugados, é justamente porque estes assumem o ato antropofágico de alimentar-se do outro, de sua cultura, enquanto, na rede de poderes sempre constituída, só o “selvagem” é apresentado como aquele que devora o que não é seu. Por outro lado, o dominador apresenta-se como aquele que porta sempre outro tipo de alimento: a língua, a religião, a civilização, a educação, o desenvolvimento. Em nenhum momento, seu perfil antropófago é salientado, quando, de fato, ele também é “devorador” de corpos físicos e culturais. Seria preciso, pois, evocar o Manifesto Antropófago, no item, talvez pouco potencializado: “Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.” (Andrade, 1928).

        Speaker: Ivete Walty (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        «Do mar é que eu falei. Dele é que és filho.» As construções clivadas com é que em tradução: uma comparação entre português europeu e italiano 15m

        Nesta contribuição tenciono refletir sobre as chamadas construções clivadas com “é que” (ex. Do mar é que eu falei) do português europeu e os seus equivalentes pragmático-funcionais encontrados nas traduções para italiano. Na verdade, esta construção é atestada em todas as variedades de português (por exemplo, Casteleiro 1979, Vercauteren 2010 para o PE; Braga 1991, Aleixo 2015 para o PB), mas não faz parte do inventário linguístico das outras línguas românicas. No que concerne a sua definição, em literatura esta já tem sido muito discutida (por exemplo, Casteleiro 1979; Abreu 2001; Vercauteren 2016) por causa da sua complexidade intrínseca (Lambrecht 2001; Roggia 2009). As construções de clivagem têm sido muito estudadas em âmbito lusófono, particularmente a partir de uma abordagem generativa, (cito a título de exemplo, Kato et al. 1997; Ambar 2005; Costa & Duarte 2001; Brito & Duarte 2006; Reichmann 2004; Lobo 2006; Soares-Jesel 2006; Vercauteren 2016; Aleixo 2015; Lobo, Santos & Soares-Jesel 2016; Lobo, Santos, Soares-Jesel & Vaz 2019); no entanto, focar-me-ei na descrição da construção com “é que” numa perspetiva construcionista e considerarei exclusivamente o português europeu. Portanto, irei discutir e adotar uma definição de construção de clivagem parcialmente coincidente com a definição proposta por De Cesare (2014, 2017) para as línguas românicas, que permite incluir na “família clivada” também todas as frases menos prototípicas, inclusive a construção com “é que”.
        Tendo como base os meus estudos prévios, nesta contribuição, por um lado, pretendo analisar as construções com “é que” na perspetiva acima delineada e o seu uso na linguagem literária contemporânea em comparação com os resultados retirados do Corpus de Referência do Português Contemporâneo (CRPC – Portugal only); por outro, tenciono discutir quais são os possíveis equivalentes pragmático-funcionais em italiano, dada a ausência de um correspetivo formal nessa língua. Para minimizar as interferências estilístico-retóricas dos escritores e dos tradutores, o meu corpus será formado pelos seguintes oito romances de autores diferentes e as respetivas traduções por obra de outros tantos tradutores: Fazes-me falta (Pedrosa 2002), Jerusalém (Tavares 2004), Bastardia (Correia 2005), Enquanto Salazar dormia (Amaral 2006), Cemitério de pianos (Peixoto 2006), O retorno (Cardoso 2012), Jesus Cristo bebia cerveja (Cruz, 2012) e Os Memoráveis (Jorge 2014). O que me interessa verificar é se na linguagem literária o uso da construção com “é que” é ou não mais restrito do que na linguagem quotidiana, especialmente no que concerne os referentes focalizados, e quais são as estratégias linguísticas adotadas pelos tradutores, tendo em conta os diversos contextos discursivos em que a construção com “é que” ocorre.

        Speaker: Silvia Brambilla (Università degli Studi Roma Tre/ Sapienza Università di Roma)
      • 14:15
        Proposta de análise textual contrastiva de textos jurídicos: o caso do género ‘procuração’ sob a perspectiva da tradução português-italiano 15m

        A presente proposta visa mostrar os resultados de um estudo sobre a análise textual contrastiva dos textos jurídicos pertencentes ao género textual ‘procuração’ em língua portuguesa e italiana. Trata-se de um estudo permeado pela perspetiva da tradução ‘microlinguística’ (Balboni 2000) – ou para fins específicos (Cintra e Passarelli 2008) –, na combinação linguística português-italiano e apoiado pelos pressupostos da Retórica Intercultural (Connor 2005).
        O objetivo, com o suporte da metodologia da análise textual contrastiva (James 1980) baseada nos modelos propostos por Christiane Nord (1991) e Pilar Elena García (2007), é a análise multiníveis e multidimensional (Elena 2006, 2008; Holl 2011 - entre outros) dos textos que compõem o corpus em português (de 40 textos), e, posteriormente, o corpus em italiano (de 30 textos). Isto significa examinar os níveis funcional, situacional, temático e formal-gramatical de cada texto selecionado, com especial atenção à identificação da frequência de uso de expressões e unidades ‘próprias’ do género selecionado, comparando as ocorrências dessas unidades em italiano e português e observando padrões de uso, frequência e colocação.
        A abordagem usada é a teorizada por Paolo Balboni (2002) no campo da didática das línguas estrangeiras, nomeadamente, estruturando o processo de investigação em três fases: uma fase de globalidade, seguida de uma fase de análise e, enfim, uma fase de síntese. No presente estudo esta sequencialidade implica uma primeira abordagem à questão do género textual (globalidade): tomando como ponto de partida os estudos de Swales (1990) e Bhatia (1993), analisamos as peculiaridades do género textual escolhido. O género ‘procuração’ é um género normativo, muito vinculativo, que enquanto ação social apresenta regularidades, contudo, realizando-se em situações de interação, pode apresentar contrastes (Isabel García Izquierdo 2000).
        Na segunda fase, a de análise, realizamos uma observação intralinguística dos textos em português e em italiano, avançando conclusões provisórias nas quais são destacadas as características prototípicas estruturais, funcionais, linguísticas e gramaticais de cada corpus.
        Finalmente, na última fase, aplicamos a nossa análise ao campo de ação da tradução ‘microlinguística’, sublinhando os contrastes e as conformidades entre as duas línguas e entre os corpora (síntese). O propósito é também demonstrar que a tradução ‘microlinguística’ não é somente uma questão terminológica: a terminologia é fundamental, mas os elementos morfossintáticos e discursivos são também essenciais.
        Como referido, este estudo adota a perspetiva do processo de tradução como princípio orientador, portanto a principal finalidade é fazer um confronto entre modos de realização de tais géneros textuais nas duas línguas em questão, o português e o italiano, que se possa constituir como um apoio ao trabalho do tradutor ‘microlinguístico’. Este propósito não está livre de armadilhas e obstáculos pois as linguagens para fins específicos apresentam sempre regras e exceções, peculiaridades e preceitos, e a linguagem jurídica não é exceção; na verdade é talvez o caso mais emblemático, dado o seu caráter técnico e específico, mas, ao mesmo tempo, fortemente cultural.
        A necessidade de refletir sobre a tradução jurídica e as questões de ordem comparativa/ contrastiva decorre da consciência de que existem diferentes níveis de anisomorfismo cultural, linguístico e jurídico que podem gerar problemas de tradução e, simultaneamente, da constatação de que existe uma escassez de investigação sobre este aspeto na combinação linguística português-italiano, que este estudo pretende contribuir para colmatar.

        Speaker: Elisa Alberani (Universidade de Milão)
      • 14:30
        LextPT: um teste fiável e eficiente do tamanho de vocabulário de português L2 15m

        A diversidade de perfis de aprendentes tem tornado a avaliação de níveis de proficiência difícil nos estudos da aquisição e do processamento de L2. Dado que a competência lexical é fundamental para a competência comunicativa (Meara, 1996), o tamanho de vocabulário receptivo, que se mostrou sólido como um indicador confiável da competência lexical (Read, 2000) e de várias competências linguísticas L2 (e.g. Werff, 2016; Spinelli et al., 2020; García-Castro, 2020), tem sido utilizado como referência da proficiência global em L2 na literatura psicolinguística.

        Entre os testes desenvolvidos, o LexTALE (Lexical Test for Advanced Learners of English), criado por Lemhöfer e Broersma (2012) para avaliar o tamanho de vocabulário de falantes L2 de inglês, releva-se uma ferramenta rápida e acessível que se pode integrar a qualquer desenho experimental com facilidade, com a validade comprovada tanto em L1 como em L2 por trabalhos cognitivos (Diependaele et al., 2013; Khare et al., 2013). Nos últimos anos, têm-se elaborado várias extensões do LexTALE para diferentes línguas, como francês (Barysbaert, 2013), espanhol (Izura et al., 2014), chinês (Chan & Chang, 2018) e italiano (Amenta et al., 2020). A validação destas versões do LexTALE mostrou o potencial de uma padronização multi-linguística. Tendo em conta o facto de ainda não existir um teste homólogo para português, o presente trabalho pretende preencher a lacuna através de construir uma versão de língua portuguesa de LexTALE, um teste para avaliar o tamanho de vocabulário de português L2, seja da variedade europeia (PE) seja da variedade brasileira (PB), designada como LextPT.

        A construção do LextPT envolveu dois estudos. No primeiro, testaram-se 180 itens, consistindo em 90 palavras extraídas por frequências nos corpora SUBTLEX_PT (Soares et al., 2015) e SUBTLEX_pt_BR (Tang & Nelvins, 2012), e 90 pseudopalavras criadas por Justi et al. (2014) e por Venâncio (2018). Neste primeiro estudo participaram 130 falantes L1 (69 de PE e 61 de PB) e 120 falantes L2 (71 de PE e 49 de PB). Foi-lhes apresentado um questionário via Google Forms que consiste em perguntas sobre informações sociolinguísticas e em 180 itens numa ordem semi-aleatória, e foi-lhes pedido que indicassem as palavras que conheciam ou acreditavam ser uma palavra em português mesmo sem ter a certeza do significado exato. Posteriormente, foi conduzida uma análise empregando a correlação ponto-bisserial e a Teoria da Resposta ao Item (IRT), e foram deste modo seleicionadas 60 palavras e 30 pseudopalavras que se distribuem em diferentes graus de dificuldade e que, simultaneamente, manifestam o adequado poder discriminatório. Os 90 itens selecionados constituem a versão final do LextPT, que leva cerca de 5 minutos para completar.

        Para validar o LextPT, no segundo estudo, foi aplicado de forma idêntica ao anterior o teste dos 90 itens a um novo grupo de informantes, composto por 297 falantes L1 (134 de PE e 163 de PB) e 304 falantes L2 (144 de PE e 160 de PB). Os resultados passaram pelos testes de confiabilidade, revelando que o LextPT obtinha resultados fiáveis não apenas para aprendentes de ambas variedades do português (PE: α=0.93; PB: α=0.94), mas também para aprendentes que têm L1s tipologicamente distintas (chinesa: α=0.87; românica: α=0.95; germânica: α=0.94). Dada a eficácia, a acessibilidade e a confiabilidade, conclui-se que a elaboração do LextPT é satisfatória.

        Speaker: Xinyi Li (Universidade NOVA de Lisboa)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Carlos Drummond de Andrade e a técnica: uma experimentação filosófico-poética sob a perspectiva deleuze-guattariana 15m

        Ousamos dizer que a arte e, em seu universo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, cuja contemporaneidade é inequívoca, contribuem para, na atualidade, pensarmos, em um tempo estratigráfico, o fenômeno totalitário que se desenrola quando o novo se impõe àquilo que o antecedeu. Dessa forma, examinar, pela poesia de Drummond e à luz da filosofia deleuze-guattariana, a técnica como signo, em sua potência constitutiva e seus desdobramentos, considerando sua complexa multiplicidade, seus mecanismos de controle, de hegemonia e de apropriação é a proposta desta comunicação. A experimentação filosófico-poética que ora propomos faz-se voltada para um viés filosófico transcendental, a partir da análise dos poemas drummondianos que expressam um mundo de complexos aparatos tecnológicos, os quais codificam a linguagem, direcionando as singularidades para o universo estriado da técnica, sempre alinhada com o capitalismo. Carlos Drummond de Andrade vivenciou o século XX, movimentado, tecnológico, conflituoso, assinalado pelo uso de tecnologias continuamente aperfeiçoadas, e não se furtou à reflexão poética sobre esse tempo; observar, nos contornos literários traçados pelo poeta, a concepção ambígua da técnica, sua relação problemática e exploratória com o planeta, exprime uma rota de fuga da história de sempre, um caminho outro para que analisemos singularmente o par arte/técnica, sem mergulhar na tecnofobia ou na tecnofilia. Isso significa dizer que, para além da inevitabilidade do processo civilizatório e da profusão de inovações tecnológicas tão ovacionadas nos registros oficiais, a poesia de Drummond se relaciona com a técnica sob outra perspectiva, suscitando um interrogar-se, um inquietar-se, tão necessários para a compreensão de uma época. Demonstra-se, no estudo, como a escalada da técnica tange as constituições de poder, transformada, ela própria, em máquina despótica, que passa a utilizar os espaços para dar fluxo a si mesma e impor-se como alternativa única. A escuta atenta e o olhar apurado, traços constitutivos da figura estética drummondiana, forjam o trabalho poético como condições indeléveis e inescapáveis na enunciação e expressão literária; sua arte, assim, descortina um mundo em ebulição, com transformações da vida urbana, o desenvolvimento de uma imensa malha de informações e a mudança consequente dos valores sociais, culturais e econômicos fundamentais. Ao registrar um repertório de sensações, perfectos e afectos, Drummond pega-nos pelas letras e nos vai conduzindo pelo emaranhado de modernidades a que ele mesmo assiste; somos levados, pelas suas linhas, a adentrar nos aspectos e nas dimensões estabelecidas no mundo por intervenção da técnica. Da roda manhosa do Ford, cantada no início do século XX, passando pela cidade atulhada de automóveis, chegamos à sede de petróleo, transportado a todos os cantos do mundo por cabos submarinos, dutos e superpetroleiros, ao homem híbrido e ao pensamento computacional, que se vai expandindo e subjetivando comportamentos. Carlos Drummond de Andrade, na intensidade de seus versos, antecipa traços do devir, cuja configuração distópica testemunhamos agora.

        Palavras-chave: técnica; Carlos Drummond de Andrade; poesia brasileira; filosofia; técnica-arte.

        Speaker: Gláucia M. C. Cota (CEFET/MG)
      • 14:15
        A filosofia literária de V. Flusser nos 1960 paulistanos 15m

        Mais de um historiador paulistano da filosofia relata uma história gloriosa da institucionalização da filosofia paulistana. A principal meta da formação da tecnologia filosófica era se igualar com e ser consumido pelo mundo entendido, contudo, meramente como Europa de modo geral, e Paris de modo particular. A importação de tecnólogos franceses se deu, no entanto, no âmbito de uma renovação tecnológica e metodológica da filosofia institucional na França. Além disso, não foi a filosofia institucional paulistana, mas os restos do que havia de pensamento local no Brasil antes ou às margens da instauração de um aparato filosófico universitário que passaram a se tornar de interesse para o "mundo" a partir da reestruturação das universidades europeias e norte-americanas na década de 1980. É assim que Flusser assume papel decisivo na constituição da virada midialógica alemã, ao lado, entre outros e sobretudo, do movimento antropofágico e dos concretismos brasileiros em outras esferas do saber universitário, seguidos pouco depois pelo perspectivismo ameríndio. Outra aparição de restos com que a filosofia universitária não soube lidar, contudo, foi a que se tornou filosofia do poder do fascismo brasileiro contemporâneo na virada da década de 2010 para 2020. Nesse contexto, é tarefa do tempo romper os tabus institucionais e revisitar criticamente momentos traumáticos da institucionalização dos sistemas de inscrição paulistanos, especialmente a década de 1960, tendo como centro a atuação de Vilém Flusser entre filosofia, literatura e jornalismo, para retraçar linhas de fuga, reviver possibilidades abortadas e revisar alianças.
        Partindo da leitura dos textos de jornais e inéditos selecionados para o volume Ficções filosóficas (1998), trata-se de lançar nova luz interpretativa em Vilém Flusser, pensando-o como participante de uma rede menor de aliados que agiam mais ou menos de maneira autônoma, preparando e anunciando outras filosofias que não tivessem sua matriz na Europa ocidental. O que move o estudo é entender a posição complexa de Vilém Flusser no interior da cena filosófica paulistana e brasileira, se perguntando até que ponto a técnica filosófica-literária flusseriana consiste em operar como uma espécie de shifter de perspectivas ou programas que joga uns contra os outros os sistemas e constelações conceituais como otimismo e pessimismo, cibernética e fenomenologia, humanismo e pós-humanismo, no exercício de uma ética do exílio que perpassa todos seus escritos de maneira geral - contos, artigos, cartas, livros, cursos, vídeo-artes, experimentos de escrita cibernética e por hiperlinks - e que tem um de seus pontos culminantes nas diferentes versões da obra prima de antropologia reversa, Vampyrotheutis Infernalis.
        Intenta-se com isso reconstituir um momento determinante da história recente brasileira como um modo de lidar com impasses do contemporâneo e propor outros futuros, outros horizontes de expectativa, ou, se for preciso, indicar rotas de fuga.



        Speaker: Gabriel S. Philipson (Doutorando na Unicamp com estágio sanduíche na Freie Universität Berlin. Bolsista Fapesp e DAAD.)
      • 14:30
        Poesia e Intermidialidade: uma releitura de “O amor e o cosmo”, de Murilo Mendes 15m

        O presente trabalho tem como objetivo analisar o aspecto interartes ocorrido na mostra “Transmuriliana”, no ano de 2015, no Museu de Arte Murilo Mendes, em Juiz de Fora (MG), por ocasião do décimo aniversário do Museu. Ao todo vinte e um quadrinistas foram convidados a integrar a mostra que adaptava diversas poesias de Murilo Mendes para a linguagem dos quadrinhos, entendendo essa expressão artística como um processo que é extensão do texto, já que, “no caso do texto, o ato de ler envolve uma conversão de palavras e imagens” (EISNER, 2006). Possuindo a habilidade de forçar a atenção do espectador em determinada ideia, sendo essa uma das habilidades mais importantes desse meio, segundo Scott McLoud (1993). Dentre vários nomes de artistas convidados como Mario Cau, Gazy Andraus e Walter Pax entre outros talentos nacionais, esse estudo focará na tradução e nas relações interartes do poema para quadrinhos da obra “o amor e o cosmo”, de autoria de Murilo Mendes e transformado em quadrinhos pelo autor deste texto. Também foram convidados dez atores da cena teatral local para que a leitura dos poemas adaptados fosse realizada, os áudios ficaram disponibilizados através de um QR Code, abaixo dos quadros, e os visitantes da exposição podiam ouvir os poemas ao apontar o celular para o códigos (havia também um computador com fones de ouvido para que, aqueles visitantes que não pudessem ouvir os poemas pelos QR Codes, pudessem ter acesso ainda assim).
        Para este estudo, é importante entender que o trabalho trata da perspectiva interartes e os aspectos de intermidialidade que, mesmo estando em um campo à parte, permeiam os estudos interartes, entendendo que o termo carrega a “suposição de que não ‘existem’ mídias puras e de que as mídias integrariam estruturas, procedimentos, princípios, conceitos, questões de outras mídias desenvolvidas na história midiática (...)” (MÜLLER, 2012, p. 82 apud SOUZA, 2015, p. 16). O poema apresenta uma história de amor e ao traduzi-la para outra mídia, características da linguagem de outro suporte, o cinema, foi utilizado apresentando a união da linguagem Pulp –“publicações de literatura popular assim apelidadas pois, para manter os custos de produção baixos, tinham seu miolo impresso em papel de baixa qualidade, fabricado a partir de polpa de celulose” (PORTO, 2016, p. 02) - dos quadrinhos, para que a obra fosse elaborada. Utilizando como inspiração a estética de filmes de ficção científica da década de 1950 e os quadrinhos da mesma época, o poema foi pensado como uma ode de amor entre duas espécies, uma humana e um ser extraterreno, evocando signos que pudessem dar ao fruidor a sensação de contato com filmes e quadrinhos da época. Trazendo o espaço, tipologia e formas que fundamentassem através da linguagem visual e renovassem o olhar sobre a obra Muriliana.

        Speaker: Prof. Thiago Berzoini (Universidade Federal de Juiz de Fora)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        O modernismo “sem dureza” de Fernando Távora e Francisco Keil do Amaral. A resposta portuguesa a uma interpretação crítica da arquitetura moderna 15m

        A partir da década de 1930, a nível internacional, a relação contrastada entre a universalidade dos preceitos da arquitetura moderna e a identidade cultural e construtiva dos vários lugares de pertencimento dos diferentes países determinou profundas mudanças conceituais no seio do Movimento Moderno. A rebelião contra as teorias universais do International Style levou ao nascimento de muitas “sensibilidades modernas” diferentes umas das outras, embora unidas por semelhanças conceituais e tecno-estruturais universais. Nesta fase, o passado cultural de uma nação não se torna mais um obstáculo a ser enfrentado, mas uma “bacia cultural” de referências para inspirar uma nova interpretação do “moderno”.
        Como já havia acontecido em outros países, profundas mudanças teóricas também estavam ocorrendo dentro do Movimento Moderno Português, geradas principalmente por uma geração de arquitetos que, através de sua própria sensibilidade e de uma linguagem arquitetônica renovada, estavam criando um modelo “historicista” incluindo precisamente o conceito de lugar e contexto regional. As experiências arquitetônicas de Francisco Keil do Amaral e Fernando Távora tornam-se interpretativas de uma ambivalência arquitetônica que, de certa forma, sempre esteve presente na arquitetura moderna portuguesa; ou seja, essa tendência, nem sempre contraditória, segundo a qual muitos arquitetos modernos eram ao mesmo tempo: “progressistas”, segundo os princípios racionalistas dos pioneiros da arquitetura moderna (Mallet-Stevens, Gropius, Le Corbusier ...); e “culturalistas”, de acordo com a influência de uma arquitetura que está exatamente a meio caminho entre o movimento neoplásico de De Stijl, o racionalismo da pureza geométrica das formas e o regionalismo dos tipos construtivos tradicionais dos lugares de pertença (precisamente influência de autores como Dudok ou M. de Klerk), segundo essa idéia de “racionalismo não duro e autêntico” tão admirado por Keil do Amaral.
        A peculiaridade da arquitetura portuguesa dos anos 50 e 60 nas qualidades de projeto desses dois arquitetos tão divergentes e complementares entre si e a definição de uma arquitetura que por seus valores vernáculos e regionalistas difere claramente dos “preceitos dogmáticos” do Movimento Moderno, para traduzir-se em soluções de design com tons poéticos, adquirem valor na medida em que se tornam o volante através do qual enfatizar uma parte da arquitetura lusitana ainda não adequadamente valorizada. Por muito tempo à margem da arquitetura contemporânea internacional, a arquitetura portuguesa desses anos, no auge da sua maturidade “moderna”, mostra suas extraordinárias qualidades criativas, colocando-se como precursora de uma futura geração de arquitetos que verão no modelo português da Escola do Porto, um exemplo a seguir e imitar. Mediante esta comunicação, portanto, queremos destacar um período da arquitetura portuguesa que ainda tem muito a oferecer à Academia, tentando restaurar e colocar sua legítima importância no cenário internacional contemporâneo.

        Speaker: Mariangela Licordari (PhD Histoire de l’Art - Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne/Universidade Nova de Lisboa FCSH)
      • 14:15
        A poesia de José de Almada Negreiros como curadoria queer 15m

        Nesta proposta visamos interpretar a obra poética de Almada Negreiros (Almada Negreiros 1985; 2001) à luz da teoria queer, no tocante a aqueles aspetos que poderão ser índices de uma desidentidade que se liga, a um tempo, com as chamadas “teorias antissociais” (Caserio et al 2006) e com uma tentativa de fundação do que denominamos “futuridade fluída” (Muñoz 2020). O insulto, a desconformidade com a sociedade, a reapropriação e subversão linguísticas e o autorreconhecimento como mecanismo desconstrutivo permitem fazer uma leitura que aproxime Almada Negreiros doutros poetas modernistas já estudados sob esta ótica.

        Para além de poemas muito conhecidos como “A Cena do Ódio” ou “Mima Fataxa – Sinfonia cosmopolita e apologia do triângulo feminino”, analisados nesta direção por outros estudiosos (Magalhães 1987; Curopos 2018), centramos a nossa aproximação em textos que têm ficado num plano secundário, como “Homem transportando o cadáver de uma mulher!”, “As quatro manhãs”, “Cabaret” e “A torre de marfim não é de cristal”. Por um lado, é possível mapear índices poéticos de uma aceitação da perda de um modelo de sociabilidade e existência concreto ligado às ideias de bom gosto, tabu e hétero-centrismo (McNab 1979), num exercício subversivo tipicamente modernista. Pelo outro, produz-se na obra almadiana a fundação de novas ordens do discurso – também do discurso sexual e identitário – que questionam os padrões sexo-genéricos da época.

        Em última instância, o intuito desta aproximação é mapear os índices de uma cosmovisão e de uma aposta poético-política fluída e não heterossexual presentes na sua poesia. Estes aspetos, na nossa opinião, aproximá-la-iam das teorias antissociais da identidade e do pensamento queer, produto da passagem do século XX e da iminência do XXI (que, evidentemente, escapou a Almada Negreiros por motivos biográficos); e poderiam conformar uma linha de fuga na produção literária portuguesa da altura. A poesia de Almada quebra com o presente como certeza epistemológica e ontológica em favor da multiplicidade, da alteridade e da ironia.

        Referências

        Almada Negreiros, José de. Obras Completas. Vol. I – Poesia. Imprensa Nacional / Casa da Moeda, Lisboa, 1985.

        ___. Poemas. Assírio e Alvim, Lisboa, 2001.

        Caserio, Robert L., et al. "The Antisocial Thesis in Queer Theory." PMLA : Publications of the Modern Language Association of America, vol. 121, no. 3, 2006, pp. 819-828.

        Fernando Curopos. "José de Almada Negreiros: Mima-Fataxá em modo queer". 100 futurismo, editado por Annabela Rita e Dionísio Vila Maior, 2018, pp. 175-185. Viseu: Edições Esgotadas.

        Magalhães, Isabel Allegro de. "Almada: ‘Mima-Fataxa’ Em Dois Tempos." Colóquio/Letras, vol. 95, Jan. 1987, pp. 49–59.

        McNab, Gregory. "The Poet Strikes Back: Almada-Negreiros in the 'Cena Do Ódio'." Luso-Brazilian Review, vol. 16, no. 1, 1979, pp. 41–52.

        Muñoz, José Esteban. Utopía queer. El entonces y allí de la futuridad antinormativa. Caja Negra, Buenos Aires, 2020.

        Speaker: Daniel Amarelo (University of Colorado-Boulder)
      • 14:30
        A Crónica do Olhar no discurso narrativo do flâneur em Lisboa, Crónica Anedótica 15m

        Ao lado de Douro, Faina Fluvial, de Manoel de Oliveira, Lisboa, Crónica Anedótica é um dos filmes mais interessantes do cinema mudo em Portugal. O filme de Leitão de Barros apresenta-se, em primeiro lugar, como um olhar em forma de crónica visual sobre Lisboa, em linha com a tradição de um cinema marcado pelo visionamento subjetivo do flâneur, do viajante, do errante, do observador, que nos vai mostrando a realidade pelos seus olhos e pelos seus sentimentos. Contudo, o resultado final desta premissa soçobra e acabamos por encontrar um relato de natureza fragmentária, sem uma clara linha de rumo ou de sentido, marcadamente artificial e… anedótica. Inicialmente, pretendia-se mostrar a cidade de Lisboa, com uma alma viva, variada e heterogénea, através do já citado ponto de vista de um flâneur que vai sentindo a cidade, tornando-se ela própria uma dramatização ou, em síntese, mostrar “como se nasce, se vive e se morre em Lisboa”. É esta perspetiva em tom de crónica geográfica e social que não se consegue sustentar a ela própria, vacilando entre os registos que vão sendo adotados, ainda que mantenha a ilusão do seu objetivo principal quando começamos por percorrer a cidade durante a alvorada e assistimos aos nascimentos na Misericórdia, as crianças nas escolas, bem como ao final do dia, com sequências dedicadas a asilos e aos ciprestes do cemitério. Para além deste grande objetivo de crónica cronológica, verificamos que o âmago do sucesso do filme está focado nos episódios ficcionais, que mobilizam atores bem conhecidos do público, como Nascimento Fernandes (um polícia sinaleiro que instala o caos no trânsito), Vasco Santana (revisor de um elétrico) e Costinha (o condutor do elétrico), Chaby Pinheiro (que confunde o inglês de um turista na feira da Ladra), ou Erico Braga (que se passeia no seu automóvel, encantando as senhoras no Campo Grande). Ainda que apresente inúmeras facetas que revelam uma arquitetura pouco sólida, o filme constitui um valioso retrato documental para conhecermos Lisboa nesta época, com os seus espaços (físicos e sociais), em articulação com uma crónica de costumes (a Praça da Figueira e o seu mercado, com diversas personagens representativas em termos sociais, como as varinas, e os saloios). O humor, frequentemente falhado, também percorre esta crónica visual, marcando-o de forma indelével. Lisboa, Crónica Anedótica revela-se um documento social interessante sobre a Lisboa do cinema mudo, um retrato geográfico e social, instituindo-se como uma crónica de costumes, temperada com um humor de efeito artificial, mas que cativou o público, tornando-o um filme marcante na alvorada do cinema português. Em linha com o observador flâneur de Benjamin, do Homo Spectator, descrito por Mondzaim, que nos permitem descobrir a cidade, espaço de liberdade, de cultura, de mundividências sociais, um profundo espaço psicológico que afeta a narrativa e nos desperta para as histórias e dramas de todos os que constroem a rede coletiva de emoções que habita em Lisboa.

        Speaker: Luís Miguel Cardoso (Instituto Politécnico de Portalegre e Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Diálogos insuspeitados no século XXI 15m

        A ficção contemporânea do Brasil apresenta-se como um conjunto heterogêneo, refletindo inúmeras maneiras de viver oferecidas ou impostas aos seus habitantes. Se uma parte destas narrativas veicula a experiência urbana contemporânea em suas diversas camadas sociais, outras evidenciam uma tendência para o olhar retrospectivo, seja pessoal, seja coletivo, seja existencial. Exemplos destas últimas serão abordados nesta comunicação.

        As tendências atuais do pensamento da contemporaneidade não estão unicamente no questionamento de ícones do passado, incluindo a paródia, mas mostram por vezes, de maneira interessante, o movimento contrário com reaproveitamento profundo de lições esquecidas ou não aproveitadas.

        Autores como Bernardo Carvalho e Silviano Santiago, este de uma geração anterior, já se voltaram para figuras do passado através de personagens mais ou menos conhecidas (respectivamente, Graciliano Ramos, Machado de Assis e em Nove noites, de Carvalho, o antropólogo Buell Quain). Também obras contemporâneas que falam do período da ditadura se voltam para aquele período reconstruindo acontecimentos e clima sociopolítico e cultural, além da vivência pessoal e familiar.

        Um fenômeno que chama atenção é a adoção de estratégias de diálogo que escritores crescidos em regime democrático, que poderiam desconsiderar o passado e sua rasura, estabelecem com textos e figuras diversas e distantes, ao mesmo tempo em que privilegiam como cenário para a narração o quotidiano das metrópoles ou das megalópoles com todas suas peculiares dificuldades.

        Casos como Passageiro do fim do dia de Rubens Figueiredo (2010), Anatomia do Paraíso de Beatriz Bracher (2015) e Descobri que estava morto de João Paulo Cuenca (2016) mostram um uso muito sutil da tensão entre o contemporâneo - frequentemente retratado em todos os seus detalhes, num quase hiperrealismo - e textos/autores/mensagens pertencentes a culturas extremamente diferenciadas. Assim com o naturalista inglês Charles Darwin, o poeta inglês John Milton e, por fim, voltando a um Brasil recém-saído da escravidão, com todas as dramáticas contradições ligadas à época, Lima Barreto.

        No primeiro romance, os pensamentos, as lembranças e as preocupações do protagonista se alternam com a leitura de um livrinho de divulgação sobre Darwin, mas, ao invés de aplicar o determinismo naturalístico ao meio ambiente/microcosmo do mundo a seu redor, o autor questiona o olhar por vezes até sádico de Darwin e o substitui por um olhar empático do protagonista, que alcança verdades mais próximas da realidade do que o cru cientificismo do inglês.

        Já o estudo do Paraíso perdido de Milton provoca no personagem de Anatomia do Paraíso uma maneira alternativa, existencial, de enfrentar o quotidiano. A pergunta 'Quando e como nasceu o pecado?' se alterna com narrações de luta diária para o melhoramento de condições de vida; esperanças e desilusões miúdas se ampliam desta forma e ganham profundidades inesperadas.

        Em Descobri que estava morto, trechos de crônicas de Lima Barreto servem para traçar um paralelo crítico e dramático entre o Rio de Janeiro do século XXI e o Rio de Janeiro da virada do século XIX-XX. Em ambas as épocas, o crescimento se deu às custas de faixas da população que, ao invés de serem incluídas no projeto de modernização, foram determinadamente marginalizadas.

        Se o meio utilizado nestes três romances - o diálogo com textos do cânone - é o mesmo, o objetivo não podia ser mais diversificado, num leque amplíssimo que vai da crítica social para a existencial e epistemológica.

        Speaker: Maria Caterina Pincherle (Sapienza Università di Roma)
      • 14:15
        Questões do contemporâneo e a ficção brasileira do século XXI 15m

        A pesquisa que toma como objeto a ficção contemporânea produzida no Brasil nessas duas últimas décadas é interpelada, de forma inédita, pelas novas questões que se impõem na sociedade e levam a crítica à necessidade de estar sintonizada com esforços de inovação formal, política, ética e estética surgidos neste século a partir de uma visão crítica em busca de novas epistemologias.
        Essas narrativas ficcionais em muito diferem dos modelos modernos, apresentando novas dicções, novas formas de produção e veiculação, autorias com marcas diferenciadas e uso de novos suportes. Em grande multiplicidade, sem paradigmas definidos, a prosa de ficção contemporânea afirma, no entanto, diante do contexto social e político que vivemos, uma tendência que as entrelaça: a resistência.
        Identificamos esse processo que caracteriza grande parte da ficção de hoje como a construção de contra-narrativas, em movimentos que aparecem em exemplos da ficção que mais nos chama atenção: a literatura da periferia dos grandes centros urbanos, as narrativas que contrariam qualquer ideário nacionalista, preferindo o espaço mundializado, a literatura feminista e as interseccionais – reunindo questões de raça e gênero - as narrativas onde o autor expõe marcas bibliográficas, inclusive suas opções sexuais e, realmente inovador, o questionamento dos suportes tradicionais.
        A importância das performances e instalações nas artes visuais e cênicas provoca, na literatura, a necessidade de questionar formatos canônicos, aceitando o precário, o não durável, também em formas como o romance, a poesia e outras narrativas que mesclam ficção com reflexão teórica ou crítica.
        A ficção passa a ser possível em experiências na internet, com o uso do bloco de notas do telefone celular, no livro em pequenas edições perecíveis ou na ficção performática. Essa literatura contemporânea foca, predominantemente, no momento presente, com a preocupação com o aqui e agora que se manifesta desde o imaginário evocado até a própria materialidade do objeto livro.
        Na literatura da periferia surge um questionamento irreversível do que é a linguagem usada nas novas narrativas. Que língua/linguagem é essa de que o autor se serve ao produzir seus textos? A linguagem de sua territorialidade é também a usada em sua ficção, impondo-se sobre qualquer resquício canônico, aparecendo como opção e não limitação.
        O crescente debate sobre questões raciais, questões de gênero, a afirmação da voz negra e do feminismo sob formas diversas, ocupam a criação artística em diversas de suas manifestações e reivindicam novas perspectivas de investigação e crítica.
        Contribuindo para essa nova produção literária estão as novas formas de criação e estudo da ficção, como os coletivos e as experiências como as oficinas das periferias.
        Nossa comunicação pretende tratar de exemplos significativos que possam colocar essas hipóteses em discussão.

        Speaker: Beatriz Resende (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
      • 14:30
        Da representação à busca de expressão: visões do indígena na produção literária brasileira 15m

        Habitante das terras brasileiras à época de seu descobrimento pelos portugueses, o índio sempre esteve presente, enquanto tema, na produção literária do Brasil, tendo inclusive ocupado posto de relevo em alguns momentos, como nos períodos arcádico (citem-se aqui as obras de Basílio da Gama, Santa Rita Durão e Cláudio Manuel da Costa), e romântico (Gonçalves Dias e José de Alencar, para ficarmos apenas com os dois mais representativos), e em algumas expressões do século XX, como na obra de Antônio Callado e Darcy Ribeiro. No entanto, a despeito do papel que desempenhou nessas narrativas, e dos esforços dos últimos escritores de aproximar-se de sua cultura, ele nunca deixou de ser tratado por uma ótica externa a si mesmo, fato que foi observado também na América de língua espanhola pelo crítico José Carlos Mariátegui, ao referir-se sobretudo ao movimento indigenista que dominou nos países andinos na primeira metade do século XX. Em suas palavras, “uma literatura indígena, se deve vir, virá a seu tempo. Quando os próprios índios estiverem em condições de produzi-la”.
        Nas últimas décadas, contudo, graças em grande parte ao diálogo que vem sendo estabelecido entre os estudos literários e correntes do pensamento como os Estudos Culturais e Pós-Coloniais, que deram força para o surgimento de um movimento indígena, descendentes de índios, versados em português, estão buscando recuperar suas tradições ancestrais narrando as estórias de suas tribos e publicando-as em livros. Esta nova expressão, marcada por alto teor de resistência à dominação da cultura hegemônica, já tem dado frutos importantes tanto no que diz respeito à literatura e à cultura brasileira quanto no que se refere ao papel do indígena no quadro político e social do país. Exemplos são as obras de Eliane Potiguara, Daniel Manduruku, Graça Graúna e Olivio Jekupé, entre outros, em que o indígena, agora sujeito de seu próprio discurso, expressa um esforço extraordinário pela sobrevivência de sua cultura.
        O presente trabalho é uma reflexão sobre essa passagem da representação do indígena à sua busca de uma expressão própria, que vem sendo conhecida como “Literatura indígena contemporânea no Brasil” e uma tentativa de desconstrução da ideia de integração e assimilação dos povos indígenas ao padrão nacional, mostrando que suas manifestações literárias, mesmo quando produzidas através dos códigos de comunicação dominantes, contribuem para o fortalecimento de suas lendas e tradições. Estes textos trazem em si as marcas não só da violência vivida pelos indígenas, como a herança tradicional firmada espiritualmente pelos seus ancestrais e manifestada através da escrita por seus remanescentes.

        Speaker: Eduardo F. Coutinho (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 15:00
        Entre hibridação e antropofagia - produções cinematográficas queer do Brasil na percepção internacional 15m

        As produções cinematográficas brasileiras são percebidas internacionalmente e representam seu país de origem e produção em diversas formas. Isto se aplica tanto a grandes produções quanto a filmes queer. Mas quais filmes se destacam internacionalmente? Um olhar sobre os títulos que são distribuídos na Alemanha rapidamente mostra que são sobretudo aqueles filmes que reproduzem um cenário universal e protagonistas de classe médio-alta; características e problemas específicos do país muitas vezes permanecem subrepresentados. Assim, filmes como "Beira Mar", "Esteros", "Do Começo ao Fim", "Praia do futuro" ou "Hoje eu quero voltar sozinho" são ambientados em uma classe média alta branca cujo cotidiano parece pouco diferente do de uma família europeia. Os filmes são sinônimos de um cinema de bom gosto, onde o público pode se relaxar e o único elemento brasileiro parece ser um certo toque tropical. Eles também seguem a clássica narrativa de coming of age que é conhecida internacionalmente. Já filmes como "Corpo elétrico" ou "Do lado de fora" rapidamente levam o público europeu aos seus limites, pois estão muito menos sintonizados com os hábitos de exibição europeus e, consequentemente, menos comercializáveis. O mesmo se aplica a filmes que assumem contextos históricos do Brasil, como “Tatuagem” (disponível no Amazon Prime nos EUA) ou “Madame Satã” (lançado como DVD na França).

        Esta situação contrasta com produções extremamente políticas, sócio-críticas, que denunciam problemas sociais e apontam para as dificuldades da vida queer no Brasil, principalmente para pessoas num ambiente social marginalizado (seja por causa da classe, da raça ou do gênero). Em geral, esses filmes não são distribuídos através dos canais tradicionais na Alemanha e na Europa. Um papel central em sua distribuição é desempenhado por plataformas de streaming como o youtube (onde se encontra o documentário "Favela Gay", por exemplo), Netflix (onde se vê o filme "Laerte-se") e a oferta norte-americana de prime da Amazon (onde são oferecidos os filmes "Meu corpo é político" e "Bixa travesty"). Trata-se de uma constatação que parece basear-se na suposição de que não é possível atrair um público amplo (queer) para tais filmes "árduos". Esses filmes parecem ser destinados a um público com interesses especiais que está disposto a utilizar canais alternativos de aquisição. A contribuição segue a tese que as produções atuais de filmes queer são, portanto, presas entre a hibridação cultural (Canclini), levando em conta o gosto universal, e uma abordagem mais antropofágica, que, no entanto, parece dificultar consideravelmente a recepção internacional.

        Seleção da Bibliografia
        - Buarque de Lacerda Júnior, Luiz Francisco (2015): Cinema gay brasileiro. Políticas de representação e além. Recife: Universidade federal de Pernambuco. Tese de doutorado.
        - Canclini, Néstor García (2015): Culturas Híbridas. Estratégias Para Entrar e Sair da Modernidade. São Paulo: EDUSP.
        - Foster, David William (2003): Queer Issues in Contemporary Latin American Cinema. Austin: University of Texas Press.
        - hooks, bell (2000): Where We Stand: Class Matters. New York/London: Routledge.

        Speaker: Janek Scholz (Universität zu Köln)
      • 15:15
        Reconsiderando Os Condenados. Interpretações da modernidade brasileira na ficção menos canônica de Oswald de Andrade 15m

        Em seu conhecido ensaio "Digressão sobre Oswald de Andrade" (1970), Antonio Candido fala dos "desfalecimentos da ficção do autor" e qualifica a trilogia dos romances Os condenados (antes: Trilogia do exílio, 1922-1934) como fortemente marcada pelo "preciosismo", pela "écriture artiste", pelo decadentismo, e pela influência naturalista dos irmãos Goncourt. Em resumo, as primeiras (e as últimas: Marco Zero) obras ficcionais de Oswald de Andrade são consideradas "menores" por Candido, quando comparadas com suas obras mais tipicamente modernistas e mais conhecidas até hoje (Memórias sentimentais de João Miramar, 1924; Serafim Ponte Grande, 1933). Muitas histórias literárias rapidamente dispensam Os Condenados (L. Stegagno Picchio: "ancora dannunziani, falsi nel loro primitivismo piccolo­ borghese"). Num ensaio recente (2018), Sarah J. Townsend resumiu a reputação crítica dessas obras: "Subtle these novels are not, and their melodramatic style […] has not held up well against the test of time." Na minha contribuição quero traçar a fortuna crítica da trilogia desde os anos 20, as razões de sua exclusão do cânone modernista ou, na melhor das hipóteses, de sua apreciação parcial (H. de Campos). Os Condenados têm sido frequentemente vistos ou como o fim de um período literário ou como antecipação transitória do novo (S. Milliet), como expressão sintomática de um estilo cinematográfico ou jornalístico (F. Süssekind). Até que ponto estes textos podem ser lidos em seus próprios termos? Como explicar o fato de que a trilogia não foi escrita antes, mas ao lado dos textos altamente modernistas? Como sua forma e estilo se relacionam com a discussão sobre o estilo literário dentro do romance e com a noção da simultaneidade? E como isso complica nossa noção (retrospectiva) da autoria de Oswald e sua inserção nas correntes literárias da época? Sugiro que Oswald represente aqui elementos autobiográficos, sociais, psicológicos e referenciais (por exemplo, alusões a outros artistas), a fim de produzir um comentário crítico-realista sobre a mudança da cidade de São Paulo e da condição da arte e do artista na sociedade brasileira. Também quero abordar brevemente a questão de como e por que a última parte da trilogia (A escada vermelha, 1934) é diferenciada em termos formais e temáticos, pois aborda o confronto ideológico-político entre a burguesia e o socialismo. Com base no interesse recente na relação das vanguardas com o Realismo (Baßler et. al., Realisms of the Avant‐Garde, 2020) e teorias recentes sobre o Realismo (Jameson, 2013), quero discutir possíveis formas de como um Oswald “realista” menos conhecido pode ser compreendido como um intérprete da modernidade brasileira e de um momento crítico de mudança social no Brasil.

        Speaker: Jobst Welge (Universität Leipzig)
      • 15:30
        Herbert Daniel – lutador em múltiplas frentes 15m

        Herbert Eustáquio de Carvalho (1946 – 1992) – mais conhecido pelo seu pseudônimo Herbert “Bete” Daniel – é um autor e ativista até o dia de hoje pouco conhecido, fato que não surpreende muito considerando a sua vida agitada. Estudante de medicina em Belo Horizonte, junta-se à luta armada da esquerda contra o regime militar. Na clandestinidade devém pensador e estrategista de diversos agrupamentos guerrilheiros e participa dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço. Diante a situação cada vez mais ameaçadora e do perigo que representa o regime repressivo, decide fugir para a Europa em 1974, primeiro reside em Portugal, depois se muda para Paris onde trabalha como jornalista. Em 1981, como um dos últimos anistiados políticos, volta ao Brasil e como ativista pela ecologia, se torna um dos fundadores do Partido Verde e luta pelos direitos dos homossexuais durante a propagação da nova epidemia do VIH. Três anos mais tarde, se candidataria à presidência da república como primeiro candidato assumidamente homossexual e soropositivo. Em 1992 morreu no Rio aos 46 anos por causa da AIDS.
        Todas essas experiências são a base dos seus textos que têm muitas vezes fortes caraterísticas autobiográficas. Ao mesmo tempo, desenvolve um estilo próprio que pode ser caraterizado como neo-barroco – termo até hoje raramente utilizado para este tipo de literatura no Brasil, mas conhecido em outros países latino-americanos por autores como Severo Sarduy ou Néstor Perlongher. Desta maneira, as suas obras são um dos primeiros exemplos de literatura que hoje pode ser chamada de queer, sendo o neo-barroco uma expressão latino-americana original dessa teoria. Esta proposta quer, portanto, analisar alguns dos seus romances focalizando o potencial cultural e politicamente revolucionário da obra de Daniel em que os personagens transgridem as limitações das normas estabelecidas e, assim, devêm outro(s), um procedimento conhecido da teorização de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Transgressão e transformação são procedimentos destacados de uma escrita neo-barroca e queer que vê a literatura como um jogo, mas ao mesmo tempo, expressa, através dela, sua crítica aguda à sociedade heteronormativa, com o objetivo de abrir novos espaços para formas alternativas de ser, aparecer e viver.
        Assim, não apenas com seu compromisso como político e ativista em artigos jornalisticos, entrevistas de televisão e discussões públicas, mas também e sobretudo com seu compromisso literário e intelectual, Daniel contribui para transformar o sociedade e dar voz às pessoas marginalizadas, o que é ainda mais relevante tendo em vista a "peste gay", o terrível tratamento dado no Brasil naquela época e a estigmatização das pessoas com AIDS.

        Speaker: Philipp Seidel (Freie Universität Berlin)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Entre inovação lexical e estigmatização: «flirtar» e «o comer» – Conversão e hibridização lexical na interface entre semântica e morfossintaxe 15m

        No Português, bem como em diversas outras Línguas Românicas, a conversão e a hibridização lexical são processos formação de palavras bastante produtivos. O grau de aceitação destes varia bastante entre as diversas variedades do português, conforme iremos demonstrar mediante um estudo empírico. No caso das variedades emergentes em África ou no caso do Português do Brasil servem para consolidar e (re-)definir estas variedades vernáculas.

        Estes lexemas normalmente surgem no registo informal nas tradições discursivas da proximidade comunicativa, na terminologia de Koch/Oesterreicher (2013), tratando-se de formas fortemente marcadas do ponto de vista diastrático, pertencentes ao registo baixo, que por isso são fortemente estigmatizadas pelos falantes mais letrados, renitentes em aceitar o seu potencial inovador. Contudo, e num processo que geralmente é alvo de pouca atenção por parte dos estudiosos e da comunidade de falantes, acabam por integrar a norma prescritiva.

        O aparente desinteresse por estes processos de mudança linguística que decorrem diante dos nossos olhos é bastante surpreendente, pois estas novas formas são bastante conclusivas no que diz respeito às dimensões semântico-gramaticais e pragmáticas dos processos de formação morfológica. O objetivo da presente comunicação é, partindo de alguns exemplos e do estudo da sua evolução a partir de corpora, esclarecer as condições formais e semânticas da mudança de categoria lexical.

        Deste modo, no caso da conversão importa ter em conta o aspeto verbal dos verbos fonte para explicar o processo de conversão morfológica, na interface entre sintaxe e morfologia. Para uma explicação dos processos de hibridização lexical, em primeiro lugar, serão analisados e contextualizados os empréstimos das respetivas línguas de contato (p. ex. inglês) para depois explicar a formação dos neologismos derivados, que geralmente envolve uma mudança de classe de palavras (p. ex. N>V) na interface entre semântica e pragmática. Assim, o lexema flirtar não entrou diretamente para o português como calque do inglês to flirt, mas como empréstimo linguístico do inglês, através do substantivo flirt, à semelhança de Facebook, que apenas num segundo passo deu origem ao verbo derivado faceboquear.

        Através de um estudo empírico procurando estabelecer a cronologia relativa dos calques e das derivações na origem das formações híbridas e mediante uma análise dos contextos de mudança de classe lexical pretendemos explicar a conversão e os processos de hibridização lexical na interface entre semântica e morfossintaxe e prestar um contributo para os estudos de mudança linguística.

        Bibliografia
        - Correia, Margarita (2002): «A conversão em português, com particular incidência na construção de substantivos deadjetivais», em: Actas do Encontro Comemorativo dos 25 Anos do CLUP, vol. 2. Porto: CLUP, pp. 19-29.
        - Koch, Peter/ Oesterreicher, Wulf (2013): «Linguagem da Imediatez – Linguagem da Distância: Oralidade e Escrituralidade entre a Teoria da Linguagem e a História da Língua», em: Linha d’Água, vol. 26, n°1. S. Paulo: USP, pp. 153-174.
        - Marzo, Daniela/Umbreit, Birgit (2013): «La conversion entre le lexique et la syntaxe», em: Actes del 26éme Congrés de Lingüística i Filologia Romàniques. Emili Casanova & Cesáreo Rigual (eds.), volume 3. Berlin: de Gruyter, pp. 565-576.
        - Vogel, Petra M. (1996): Wortarten und Wortartenwechsel. Zu Konversion und verwandten Erscheinungen im Deutschen und in anderen Sprachen. Berlin, New York: de Gruyter.

        Speaker: Benjamin Meisnitzer (University of Leipzig)
      • 15:15
        Letramentos de pouco letrados: leitura, escrita e seus usos em julgamento 15m

        Resumo: Vivemos numa sociedade letrada tendo em vista que grande parte das interações sociais das quais participamos cotidianamente são intermediadas pela palavra escrita. Estudos desenvolvidos em torno dos usos sociais da leitura e da escrita, ou estudos dos letramentos, nos levam à compreensão de que o letramento é um fenômeno essencialmente social e que os usos da escrita são determinados pelas matrizes socioculturais que as configuram no contexto social. Com essa compreensão, desenvolvemos o presente estudo, que tem por objetivo verificar os usos que pessoas de baixíssima escolaridade formal, mas inseridos em contextos efetivamente letrados, fazem da leitura e da escrita e como julgam o próprio desempenho diante desses usos, ou seja, sua própria habilidade de usar a leitura e a escrita em situações sociais as mais diversas. Discutimos, pois, a maneira como essas pessoas se reconhecem enquanto usuários da leitura e da escrita, em um universo no qual esse recurso comunicativo ocupa um lugar significativo no contexto das práticas sociais cotidianas e sobre o que, segundo eles mesmos, os identifica e o que os diferencia dos demais usuários da escrita, aqueles que têm o domínio formal desse recurso. Sabemos que, no campo dos estudos da linguagem em geral e, particularmente, da linguagem em sua modalidade escrita – campo de estudos dos letramentos –, temos presenciado construções e reconstruções do objeto de estudo em raciocínios e perspectivas as mais diversas. Os Novos Estudos do Letramento ou estudos dos Letramentos Sociais (Street, 1993, 1995), modelo que norteia o presente estudo, apresentam uma perspectiva que questiona a visão de letramento como o conhecimento estrito do código da língua, manifestado num sistema gráfico, além de colocar em foco os debates sobre as concepções adotadas em torno das habilidades de leitura e escrita, tanto por parte da escola quanto por visões acadêmicas amplamente difundidas na sociedade e por aqueles que vivem distante desses ambientes. Essas discussões, então, são direcionadas para a compreensão de letramento enquanto uma prática social que se processa segundo especificidades requeridas pelos contextos onde se efetiva a comunicação linguística por meio da escrita. Os dados para este estudo são oriundos de pesquisas etnográficas realizadas em tempos e espaços diferentes, seguindo a tradição de observação de como está constituída a ordem social local e como a forma pela qual os indivíduos vivem faz sentido para eles mesmos, isto é, como explicar por que vivem da forma como vivem, diferentemente de outros, como fazem uso da escrita, pois. Assim, a investigação etnográfica aqui proposta focaliza grupos de pessoas que, embora vivam em espaços geográficos diferentes, em uma mesma unidade da federação brasileira, apresentam um perfil que os identifica efetivamente enquanto partícipes de contextos que os levam a usar um recurso comunicativo do qual não têm um domínio formal razoável. As análises dos dados, realizadas sob um enfoque qualitativo, dão conta de que esses usuários da escrita vinculam as habilidades de ler e de escrever à aprendizagem formal, adquirida no contexto escolar, mas veem-se como agentes que, mesmo não sendo dotados satisfatoriamente dessas habilidades, atuam de forma competente em práticas sociais intermediadas pela escrita e, assim, fazem um julgamento positivo do próprio desempenho diante de situações nas quais têm que usar a escrita.

        Speaker: Iveuta Prado (Universidade Federal do Piauí)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Cairu jornalista, reformismo e iluminismo católico na formação do Brasil 15m

        No momento em que nos aproximamos dos 200 anos da Independência do Brasil, essa apresentação tem como objetivo discutir o trabalho como jornalista do economista, funcionário público e censor real José da Silva Lisboa (1756-1835), o visconde de Cairu.

        É importante revisitar o papel deste que passou para história como representante do conservadorismo áulico e defensor ferrenho da dinastia de Bragança contra a agenda liberalizante das Cortes de Lisboa, e posteriormente da Constituinte Brasileira de 1823. Há erros e acertos nessa visão idealizada de inimigo da liberdade.

        Silva Lisboa, por exemplo, foi responsável pela difusão de conceitos como “recolonização” e seus escritos contribuíram na mudança de percepção por parte da opinião pública na capital do reino, que passa a apoiar a independência do Brasil. Separação frágil que, para manter a unidade nacional e um distanciamento forçado de Portugal, excluiu do seu projeto ideias liberais como o federalismo e a abolição da escravidão.

        Escritor prolífico, durante os cinco anos do processo de Independência – das Cortes de Lisboa em 1821 até o tratado de paz entre Portugal e o Brasil em 1825 – publicou 24 panfletos, oito periódicos e series de artigos no Diário de Governo. Foi seguido por aproximadamente outros dez panfletos, artigos e cartas para jornal, e um ou dois periódicos de 1825 até 1828, sem contar livros e tratados.

        Nesse período de turbulência política dos dois lados do Atlântico, foi alçado à condição de censor real, por meio da qual perseguia seus inimigos, e se manteve como aliado fiel de D. Pedro durante a dissolução antiliberal da constituinte brasileira de 1823.

        As ideias expressas nos seus panfletos tem um arcabouço teórico diretamente relacionado a mudanças sociais e politicas que o território luso-americano enfrentava desde a segunda metade do século XVIII como consequência de dois importantes acontecimentos ligados ao Iluminismo Português que influenciaram a visão do futuro visconde de Cairu. A primeira é a reforma do ensino promovida pelo marquês de Pombal que afetou a Universidade de Coimbra, onde Silva Lisboa foi aluno logo na sequência. A segunda foi a reforma administrativa da colônia, promovida pelo secretário de Estado da Marinha e do Ultramar, D. Rodrigo de Souza Coutinho, que viu em Silva Lisboa potencial intelectual para levar adiante seu projeto modernizante.

        Esses movimentos são resultado daquilo que ficou conhecido como Iluminismo Católico. O aspecto educativo e reformista relacionado às luzes nos países do sul católico da Europa esta presente em quase toda obra de Cairu, mas predominam nos periódicos educativos como Sabatina familiar de Amigos do Bem Commum, Causa do Brasil e Roteiro Brasílico.

        O meu maior interesse nos escritos de Silva Lisboa decorre de suas próprias contradições. Ele é um avido leitor de Adam Smith e Edmund Burke, crítico do Antigo Regime, do sistema mercantilista, do escravismo e defensor do constitucionalismo, seguindo as diretrizes do Iluminismo britânico, principalmente escocês, o que o levou a ser um dos responsáveis pela Abertura dos Portos às nações amigas em 1808. Ao mesmo tempo, ele se se coloca como opositor ferrenho da Revolução Francesa, do jacobinismo, do “anarquismo”, e da maçonaria, defendendo a todo custo a manutenção de uma coroa forte e de um estado unificado autoritário, seja em união com Portugal ou não.

        Speaker: Guilherme Celestino (King's College London)
      • 15:15
        “Tomar uma gelada” ou “entrar numa fria”: humor e crítica nas tirinhas de Edgar Vasques 15m

        A proposta pretende estabelecer questões de aproximação e distanciamento relacionadas a atuação da ficção na realidade vivenciada por uma sociedade específica, tendo como referencial a comparação entre o ‘milagre econômico’ brasileiro em contraponto propiciado pela visão do cartunista Edgar Vasques com seu personagem Rango. Tal análise foi construída a partir da contextualização histórica do progresso da economia através dos seus precedentes passando por sua efetivação e sua disseminação, sendo investigados, com o objetivo de conhecer, entender e interpretar como se fundamentou tal ato do governo brasileiro. Propomos evidenciar, com a ajuda das reflexões permeadas pela historiografia; pela economia; pela história; pela sociologia; pelo jornalismo; pela academia em geral e pela geografia, como tais elementos, incorporam a construção do momento em torno do milagre econômico brasileiro. Como parâmetro de leitura, propusemos a interpretação da percepção do artista gráfico, gaúcho que teve a oportunidade de expressar sua habilidade para o desenho e humor nos anos de 1970 nos quais criou Rango, um dos mais célebres anti-heróis das tiras brasileiras, um símbolo de resistência à ditadura militar. A discussão entre esses referenciais pretende trazer à tona a importância e a influência dos quadrinhos sobre a população, propiciando, assim, um debate entre a concepção histórica e a concepção de mundo do cartunista, tendo em vista as modificações que possam ser efetuadas a partir de sua representação da realidade. Para fundamentarmos as nossas discussões e interpretações em relação as tirinhas, trouxemos para o nosso texto caminhos traçados pela linguística e pela literatura. Durante esse intervalo histórico analisado, a economia do estado brasileiro teve um grande crescimento propiciado pela aceleração do aumento do Produto Interno Bruto (PIB), da industrialização e da baixa inflação. Entretanto, com essa grande prosperidade podemos também perceber retrocessos, tais como: o aumento da concentração de renda, a alta da corrupção e a exploração da mão de obra, que fizeram com que ‘milagre’ não fosse apenas um fortalecedor da economia. Nessa proposta, portanto, pretendemos verificar como as tirinhas, um gênero do jornalístico, podem funcionar como um texto opinativo que critica, satiriza e exposições de ideias e situações por meio do grafismo e do humor. Mediante o exposto, a discussão entre essas diretrizes pretende trazer à tona a importância e a influência desse gênero sobre a população propiciando um debate entre a concepção histórica e o ponto de vista do cartunista, tendo em vista as modificações que podem ser efetuadas diante de sua representação da realidade, afinal, “brincando pode se dizer de tudo até mesmo a verdade”, comprovando que o humor é uma forma eficaz de reflexão.

        Palavras-chave: Milagre econômico. Historiografia. Ficção. Tirinhas. Humor.

        Speaker: Manuela Luiza de Souza
      • 15:30
        O fotojornalismo e a construção narrativa na imprensa brasileira durante o Regime Militar (1964-1985). 15m

        Partindo de uma perspectiva interdisciplinar que engloba História, Fotografia e Comunicação, a hipótese que proponho apresentar é a de que, nos primeiros anos do Regime Militar Brasileiro (1964-1985), especialmente até 1968, ano de promulgação do Ato Institucional N° 5, os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo mantiveram um posicionamento, na maior parte das ocasiões, abertamente favorável ao regime. Com o passar dos anos, contudo, tal posicionamento foi se alterando, sobretudo devido ao advento da censura prévia verificando-se, dessa forma, uma atitude mais combativa de tais jornais a partir de meados dos anos 1970, critica ao autoritarismo dos militares, assim como, à violência do regime. Tal ponto de reflexão nasce de uma análise da construção do discurso fotográfico de alguns órgãos de imprensa brasileiros - Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo – esta é dedicada a refletir se e como tais discursos foram formulados de maneira a construir ou não, em diferentes momentos, um relacionamento de cumplicidade com o regime.
        Com o objetivo de sistematizar a análise e também a comunicação, algumas datas foram escolhidas como guia, e são, portanto, consideradas chave para a manutenção e consolidação do regime civil-militar, sua repressão política, implementação do projeto de nação existente, assim como seu fim. São elas: 31/03, 01/04 e 02/04 de 1964, momentos chave para o entendimento do golpe político-militar executado. 21/06 e 22/06 de 1968, os dois dias que compreendem a cobertura da chamada “sexta-feira sangrenta” um dos dias de maior repressão à manifestações; 13/12/1968, data da implementação do Ato Institucional N° 5; 28/08/1975, data da morte de Vladmir Herzog; além disso, 11/04/1984, dia de um dos maiores comícios do movimento “Diretas Já” reivindicando o direito de voto direto para presidente da república e, por fim, 15/01/1985, dia da eleição de Tancredo Neves .
        Nesse sentido, a análise das fotografias e a comunicação proposta buscam identificar e expor de que forma as imagens foram utilizadas no arco dos anos como parte da construção discursiva e também como forma de legitimação do sentido discursivo que cada periódico procurou construir. Com isso, a proposta é a de indicar como se dá a identificação do ethos de cada periódico a partir da análise da construção de significado nas publicações, especificando a função que as fotografias e suas formas de articulação com o resto da publicação - através das legendas, manchetes, “olho” das reportagens, leads - cumpriam no relacionamento dos cotidianos com o regime e seu público leitor. Por fim, ressalta-se o fato de que os conceitos de Dialogismo e de Fotografia Documento e Fotografia Expressão ajudam a fundamentar teórica e metodologicamente a reflexão proposta transitando entre os campos da História e Linguagem.

        Speaker: Thomas Dreux Miranda Fernandes (Università degli Studi di Cagliari)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Entre cartas e fotografias: uma pequena história do colonialismo 15m

        Este trabalho propõe a construção de uma pequena história do colonialismo a partir das fotografias de famílias cabo-verdianas, reunidas pelo projeto de investigação “Pós-Arquivo”, iniciado em 2009 (e cujo acervo está disponível online) pela artista multidisciplinar Mónica de Miranda, e dos personagens do romance Luanda, Lisboa, Paraíso (2018), de Djaimilia Pereira de Almeida. No pós-arquivo de Miranda, nos deparamos com fotos que fazem parte de álbuns de fotografias familiares e tantas outras que foram trocadas entre parentes e amigos que – por motivos vários – decidiram deixar Cabo Verde. São retratos, registros de casamentos, almoços, imagens de crianças pequenas. Já no livro de Djaimilia Pereira de Almeida, acompanhamos a história de Cartola de Sousa, um angolano assimilado que viaja a Lisboa com o filho Aquiles em busca de tratamento para o menino. E vemos a relação de esquecimento que se trava entre ele e sua mulher Glória, que, após o parto do caçula, se vê acamada e fica em Luanda com a outra filha do casal, Justina. Depois da partida do marido, o casal passa a se comunicar por telefonemas, cartas e bilhetes espalhados pelo romance em páginas destacadas. Ao avançar da leitura, a relação entre os dois se transforma e Cartola se sente cada vez mais distante da mulher e da vida que levavam juntos em Angola.

        Em uma de suas teses sobre o conceito de história, Walter Benjamin escreve: “O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para história” (1994, 223). A história, para Benjamin, não é aquela que reconstrói a linha cronológica de fatos passados; que busca obstinadamente a pretensa exatidão científica daquilo que passou. Antes, a história – como Benjamin a concebeu – explode o contínuo do tempo, junta seus cacos e recolhe os estilhaços. “Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo” (Ibidem, 224), diz outra das teses benjaminianas. Ou seja, à história processualística, hegeliana, acadêmica, Benjamin opõe uma história como poética do acontecimento. “Essa outra História, que Benjamin uma vez chamou de ‘História filosófica’, é a narração-trovão que o acontecimento ecoa. O acontecimento é um relâmpago; o céu onde ele relampeja é a memória: ‘o céu lívido onde aflora a ventania’” (Lissovsky 2014, 36). Assim como o processo de memória, o passado é apreensível apenas em seu breve cintilar. Também o arquivo de cartas e fotografias reunido por este trabalho não pretende a reconstrução contextual de cada imagem e sua correspondência também não será feita a partir do signo do fato. Trata-se antes de olhar este material como a história do que poderia ter sido. Cada memória, cada fotografia e cada texto nos poderá contar como cada época sonhou o seu futuro irrealizado. São fragmentos que compõem uma pequena história do colonialismo ou, antes: são o avesso da história colonial.

        Speaker: Luciana Martinez (Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra)
      • 15:15
        Cadernos Coloniais de Maria Archer: Apontamentos para representações da África portuguesa 15m

        Maria Archer foi a única mulher a colaborar nos Cadernos Coloniais, textos de temática africana produzidos por autores que conheciam e tinham vivenciado a realidade das colónias. Estes Cadernos visavam a divulgação da África portuguesa, a apologia do colonialismo e o incrementar do interesse pelos territórios para aliciar a imigração e aumentar/estabilizar a colonização dos brancos.
        Maria Archer, uma voz feminina e sensível num cenário dominado por vozes masculinas, demonstra o seu fascínio pelas colónias por onde viajou e viveu. Com base nas suas múltiplas experiências, produziu narrativas de temática colonial (crónicas de viagem, memórias, apontamentos, contos), onde sobressai a sua capacidade observadora e expressiva na descrição de paisagens e gentes, entrelaçada com reflexões, relatos de natureza autobiográfica e referências a episódios da história dos territórios africanos. Archer refletiu sobre e construiu as suas representações culturais das colónias portuguesas em África.
        Com esta proposta pretende-se reconhecer o valor da escrita feminina no retratar do império colonial português e retirar do esquecimento Maria Archer (e a sua obra), que se tornou numa figura incómoda para o regime e foi silenciada pela censura, sendo “deliberadamente apagada da história”, como afirma Maria Teresa Horta.
        Palavras-Chave: Maria Archer; Cadernos Coloniais; representação; colonização; Angola

        Speaker: Orquídea Ribeiro (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)
      • 15:30
        O rosto do pai: as heterogeneidades das pós-memórias 15m

        O destino mais óbvio da memória, pela inelutável passagem do tempo, parece o de não ter futuro. Mas apesar da natureza intransitiva da dor individual, os traumas passados, como o da guerra combatida entre Portugal e as ex-colónias africanas, tornam-se no objecto do olhar de uma nova geração que vai à procura de restos capazes de fundar a interrogação sobre um todo que parece estar sempre a escapar. A geração dos filhos dos ex-combatentes encontra na arte o lugar onde o ajuste de contas com os pais conjuga-se à re-imaginação dos arquivos do passado e à produção de representações que podem não só “salvar” um sentido da experiência pelos seus multíplices resíduos, como também tentar construir um horizonte de transmissão.
        No trabalho Pai, tiveste medo? (2014), publicado já depois da morte do pai, quando a autora ainda “estava a aprender a fazer perguntas de adulta”, Catarina Gomes responde à urgência de recolher os depoimentos das testemunhas e, sobretudo, capta a necessidade de estimular os interrogativos da geração da pós-memória “enquanto é tempo”. Como foi assinalado, o problema não é apenas encontrar maneiras de reproduzir o passado, mas garantir um sentido àquelas memórias também “depois da última testemunha” (Bidussa: 2009). O corte jornalístico reflecte o trabalho de pesquisa conduzido pela autora, cujo interesse se foca sobretudo em dar voz às memórias traumáticas de “segunda-mão”.A chave proposta pelo romance Estranha guerra de uso comum (2016) do Paulo Faria, também “filho da guerra”, é diferente. Aqui a escrita transforma a interrupção devida à morte em um diálogo com a ausência. Através das cartas que o Carlos destina ao pai, a narrativa elabora os elementos problemáticos do passado através da ficção, desencadeando um movimento que questiona o privado para abri-lo à dimensão da reflexão coletiva.
        Neste sentido, as artes visuais constituem um outro campo fundamental. Em particular, as curta-metragens do José Miguel Ribeiro e da Bárbara de Oliveira propõem imagens que conjugam a estética engajada à sofisticação da tecnologia de animação. Em Estilhaços (Ribeiro: 2016) a raiva do filho reconhece a sua origem nas inquietudes nunca verbalizadas do pai, enquanto a montagem das cenas tenta dar um sentido ao que não tem forma.No caso da Bárbara de Oliveira, a guerra é contada a partir do depoimento da mãe, uma refugiada angolana. A protagonista flutua dentro de uma geografia fabulosa, sem referências, espelho do sentido de não-pertença sofrido pelo grupo estigmatizado dos “retornados”, mais uma vez interrogado pelos filhos no esforço de recuperação do elo quebrado com uma África que só existe nas memórias. Lugar em parte nenhuma (2016), como as outras obras citadas, insere-se assim na multiplicidade de tentativas da geração da pós-memória de assumir a responsabilidade ética da narração “diante da dor dos outros” (Sontag: 2003).
        Cada representação constitui uma escolha consciente que re-usa os elementos traumáticos da memória herdada para imaginar novos caminhos de tradução de experiências irredutíveis. Recompor o “rosto do pai” olhando para as cicatrizes não saradas, torna-se então na possibilidade de reconhecer no presente os traços de outras temporalidades e de definir a atualidade enquanto espaço de divergências onde qualquer projecto de transmissão da memória não pode prescindir de uma inédita re-imaginação.

        Speaker: Rebecca Bentes Saldanha Pereira (Università di Bologna)
    • 15:00 16:00
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 15:00
        Vulnerabilidades Masculinas, Vidas Precárias: Luanda, Lisboa, Paraíso de Djaimilia Pereira de Almeida 15m

        Esta apresentação incide sobre o recente romance de Djaimilia Pereira de Almeida’s Luanda, Lisboa, Paraíso (2018) convocando uma perspectiva interseccional (Patricia Hill Collins et al). O título escolhido por Djaimilia remete para uma cidade pós-imperial (Lisboa) que é incontornavelmente moldada por movimentos migratórios oriundos do Sul (Luanda), ou seja, um espaço urbano europeu que encerra no seio da sua própria geografia múltiplas provas de marginalização social e exclusão herdadas da época colonial, como já foi referido por estudiosas como Margarida Calafate Ribeiro.

        Djaimilia delineia um dia-a-dia penoso num contexto de emigração e sobrevivência precárias nos subúrbios de uma Lisboa inóspita, centrando-se na relação mutuamente interdependente entre o adolescente Aquiles e o seu pai, o enfermeiro Cartola de Sousa, no intuito de revelar a forma como estas duas personagens masculinas são profundamente afetadas por circunstancias de grande vulnerabilidade racial, económica e emocional. Nesse sentido, a escritora traz à baile algumas das questões investigadas num número recente de periódico Journal of Black Studies and Research dedicado a ‘Black Masculinities and the Matter of Vulnerability’ (2019) coordenado por Darius Bost, La Marr Jurelle Bruce, e Brandon J. Manning.

        Este processo de desvendamento passa por uma súbtil interrogação do entrecruzamento de vectores de raça, enfermidade e classe social e de como os efeitos cumulativos de tais discriminações, se inscrevem insidiosamente no corpo e mente das personagens ao longo de um percurso de desencanto. Para além da questão de racial (já anteriormente tratada com grande mestria em textos como Esse Cabelo ou a crónica autoreflexiva ‘Chegar atrasado à própria pele’), trabalharemos em particular o interesse de Djaimilia pelo tema da doença, desde logo patente no ensaio Ajudar a Cair. Com efeito, em Luanda, Lisboa, Paraíso estamos perante um romance em que fica explicitamente assinalado que ‘Todos os Cartola de Sousa se viram adiados pela doença’. Nesse contexto, o que significa estar/ser doente? E, mais ainda, o que significa cuidar?
        Partindo de um enquadramento teórico que se vale dos chamados ‘intersectional studies’, procuraremos esmiuçar as subtilezas de um enredo que se alicerça sobre uma linguagem ficcional dotada de rara sensibilidade, e que pretende dar a conhecer as complexas subjectividades e matizes das ‘psychic lives of the poor’ (retomo aqui o termo da académica Ankhi Mukherjee, num projecto actualmente em curso). Nesse sentido, analisar-se-ão os recursos de linguagem que permitem uma transmissão ética e empática da enorme riqueza interior destas personagens silenciadas, bem como das suas resistências e fragilidades. À pobreza económica desta família angolana socialmente excluída por preconceitos de cor e pela violência tantas vezes disfarçada de um cotidiano melancólico e sem horizontes, Djaimilia contrapõe a possibilidade, sempre precária, da solidaridade humana, do amor e da amizade, para interrogar o que significa cuidar do ‘outro’ num contexto pós-imperial. Neste sentido, o seu romance dá corpo e voz a uma escrita empenhada, ou seja, profundamente investida contra o descuido.

        Speaker: Prof. Claudia Pazos Alonso (Universidade de Oxford)
      • 15:15
        Retorno às avessas: Djaimilia Pereira de Almeida em "Luanda, Lisboa, Paraíso" 15m

        Procurar-se-á evidenciar o lugar original que a obra Luanda, Lisboa, Paraíso (2018), de Djaimilia Pereira de Almeida, ocupa no quadro da escassa literatura portuguesa contemporânea que explora a presença de africanos ou afrodescendentes na sociedade portuguesa contemporânea, mesmo que consideremos obras como os consagrados romances de Lídia Jorge, O vento assobiando nas gruas (2002) ou de Lobo Antunes, O meu nome é Legião (2007), ou, mais recentemente, em 2018, os romances de estreia de Kalaf Epalanga, Também os Brancos Sabem Dançar, de Telma Tvon, Um Preto Muito Português ou de Yara Monteiro, Essa Dama Bate Bué! ou ainda Esse Cabelo ou As Telefones, que a mesma Djaimilia Pereira de Almeida publicou respetivamente em 2015 e em 2020.
        Dar-se-á a ver como o livro em causa explora experiências de hibridismo identitário, de margem e de exílio, envolvendo cidadãos angolanos que não deixaram mas deixaram de ser portugueses ou que pretenderam e não pretenderam deixar de ser angolanos. Poder-se-á falar de uma espécie de “retorno” às avessas, em muito oposto àquele abordado em obras que integram a problemática do retorno colonial como Celeste & Lalinha - Por cima de toda a folha (1979), de Cardoso Pires ou Cadernos de memórias coloniais (2010), de Isabela Figueiredo ou O Retorno (2011), de Dulce Maria Cardoso.

        Speaker: Isabel Pires de Lima (ILCML- Universidade do Porto)
    • 16:00 17:00
      Roma -Homenagem aos Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade La Sapienza 1h

      Apresentação das Miscelâneas: 1. «ET MULTIPLEX ERIT SCIENTIA» VOCI DEL PASSATO NELLA COMPLESSITÀ DELLA MEMORIA / VOZES DO PASSADO NA COMPLEXIDADE DA MEMÓRIA em homenagem a Silvano Peloso, organizada por S. Netto Salomão, J. L. Jobim e S. Celani e 2. A TEORIA GENTIL: O PROJETO E AS PRÁTICAS CRÍTICAS DE ETTORE FINAZZI-AGRÒ, organizada por R. Vecchi e V. Russo.

    • 17:00 17:15
      Pausa 15m
    • 17:15 18:15
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 17:15
        Entre Civilização e Barbárie: como ler o Brasil de hoje através da literatura 15m

        Desde sempre a literatura tem enfrentado a questão dos sentimentos agressivos ou de desforra do indivíduo em relação aos outros, ao mundo circunstante, à sociedade a que pertence. Esta atitude violenta, que toma forma no ressentimento ou na raiva e que se exprime através da ação vingativa, pode ser interpretada como regressão a respeito da convivência civil e como herança de um estado de barbárie onde a única lei possível é a lei do talião. Na literatura brasileira existem grandes autores como Guimarães Rosa (“O duelo”, “Fatalidade”, “Os irmãos Dagobé”...) ou Clarice Lispector (“Mineirinho”) que mostraram justamente esta passagem de um estado de direito a uma condição de inumanidade (e vice-versa) na qual o que que conta não é o direito e o sentido da comunidade, mas a ilegalidade, a força e a imunização diante das normas. O léxico e a atuação política mais recentes demonstraram, tanto no Brasil quanto em outros países ocidentais, como Ressentimento, Raiva e Vingança não sejam instâncias afastadas no tempo e no espaço, mas voltem a se apresentar (e agora de modo amplificado e simplificado pelo uso dos meios de comunicação social) cada vez que os direitos humanos são colocados numa condição de suspensão, levando ao estabelecimento daquele “estado de exceção” evocado por Benjamin e estudado, em todas as suas articulações teóricas e práticas, por grandes estudiosos da (bio)política e do direito.

        Speaker: Ettore Finazzi-Agrò (Universidade de Roma - Sapienza)
      • 17:30
        Conservadorismo regressivo, ressentimento e dogma 15m

        Entre os recentes ataques à democracia no Brasil, chamam a atenção duas formas de manifestação de conservadorismo regressivo. A primeira consiste na desvalorização da educação, em todos os seus níveis, articulada com tentativas de inviabilizar a sustentação de pesquisas científicas. A segunda consiste na agressão a produções culturais, com afrontas a artistas e atos de censura. As formas degradantes de referir à educação, à ciência e à produção cultural apontam para um substrato de ressentimento contra as capacidades de produzir conhecimento e de desenvolver ideias criativas. Aqueles que defendem a suspensão dos direitos civis, através de um novo AI-5, ou que consideram a ameaça de violência uma estratégia legítima de consolidação de poder, dependem da inumanidade para ficarem de pé. Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e A nova ordem, de Bernardo Kucinski, resistem a essa inumanidade. O conservadorismo regressivo recente não quer propor debates, mas dogmas. Conservadores regressivos, no Brasil contemporâneo, se valem de um paradoxo constitutivo que fomentou propagandas fascistas: o que o Executivo afirma deve ser considerado um dogma, uma verdade absoluta, e não está aberto a debates; independentemente disso, os conteúdos do dogma podem ser alterados constantemente de acordo com conveniências históricas e sociais. O ressentimento desses conservadores é expresso, por exemplo, pelo prazer atribuído ao uso de armas. Como não querem diálogos, e não querem correr o risco de serem derrotados em disputas argumentativas em debates públicos, esses conservadores regressivos propõem, de modo falso e arrogante, que a solução dos problemas sociais está em dar tiros. Não surpreende que reduzam investimentos em educação e em cultura; a raiva desses políticos se escancara no gozo pela barbárie, e é na expansão da barbárie que ela monstruosamente se ergue, como um fuzil apontado para cima.

        Speaker: Jaime Ginzburg (Universidade de São Paulo - USP)
      • 17:45
        Desinfestar o cânone. Insetos e crítica ecológica na literatura brasileira 15m

        Se, conforme a definição pioneira de Cheryll Glotfelty, a ecocrítica tem por objetivo “o estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico”, também é verdade que a própria noção de “ambiente físico” está assumindo um significado cada vez mais amplo e complexo, como evidenciado pelas posições extremas do movimento da “ecologia profunda” ou pela instigante teoria de uma “ecologia sem natureza” formulada por Timothy Morton. A impressão dominante é a de que o mundo ao nosso redor não responde mais a rígidas divisões conceituais (natural/artificial, humano/não humano), mas se apresenta como uma “realidade semiótico-material” extremamente articulada (Haraway), na qual vários agentes interagem uns com os outros de forma autônoma e incessante. Na verdade, esses aspectos que descrevem o mundo contemporâneo podem ser apontados como elementos constituintes da identidade brasileira. O Brasil não é apenas o país com a mais rica biodiversidade do planeta, mas também aquele onde a visão pós-antropocêntrica parece marcar a formação da literatura e da cultura desde o início, num constante questionamento da relação entre a natureza e seus habitantes (humanos, animais e vegetais).
        Assumindo como ponto de partida contribuições recentes sobre a definição do cânone animal nas literaturas latino-americanas (Kane, Few-Totorici), o presente estudo tentará destacar as peculiaridades do caso brasileiro, dedicando especial atenção à representação dos insetos, particularmente mosquitos e formigas. Desde os primeiros cronistas até os autores contemporâneos, eles provocam reações discordantes. Despertam atração e repulsa, seduzem e causam horror, numa coexistência paradoxal de elementos paradisíacos e infernais. Por um lado, mosquitos e formigas são acusados de serem uma calamidade destrutiva comparável às pragas bíblicas; por outro, são admirados por sua eficiência e capacidade de cooperação, constituindo a metáfora de uma sociedade ideal que o povo brasileiro deveria tomar a exemplo para resgatar seus defeitos e seus pecados.
        Entretanto, mosquitos e formigas não parecem pertencer totalmente ao cânone animal nacional. Quais são as razões para esta exclusão? Como, ao longo dos séculos, a literatura brasileira tem representado estes animais “não canônicos”? Há diferenças regionais? A raça e o gênero dos autores são fatores determinantes? Existem conexões entre a reflexão literária e os estudos científicos como, por exemplo, os de Bert Holldobler e Edward Wilson? Para responder a essas perguntas e ilustrar a complexidade do assunto, será analisado um amplo conjunto de cronistas, romancistas e poetas, canônicos e não canônicos, intérpretes e des-intérpretes do Brasil, entre os quais Inglês de Souza, Alberto Rangel, Rodolfo Teófilo, Lima Barreto, João Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Mário Palmeiro, Clarice Lispector e Márcio Souza.

        Speaker: Luca Bacchini (Universidade de Roma, Sapienza)
    • 17:15 18:15
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:15
        Comércio colonial e ensino das línguas: o fracasso de duas traduções na época de Pombal 15m

        Entre 1755 e 1759, publicaram-se em Paris os 47 números do periódico L'Observateur hollandais, uma série de cartas enviadas de Paris por um imaginário Monsieur van a um igualmente fictício Monsieur H de Haia. O autor era Jacob Nicolas Moreau (1717-1804), que mais tarde obteria o estatuto de historiador oficial da França e uma posição de bibliotecário especial da Rainha Maria Antonieta. As cartas de Moreau são ricas em descrições da estratégia colonial da Grã-Bretanha e da sua tentativa de minar o controlo da França sobre os seus territórios na América. Moreau atacou o governo britânico pelas suas práticas militares e diplomáticas que violavam os tratados de paz e visavam estabelecer o monopólio do comércio colonial.
        Em 1757-58, um jovem licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra à procura de notoriedade, António José de Miranda e Silveira, publicou a tradução dos primeiros quatro números de L'Observateur hollandais. Trata-se da primeira tradução de matéria económica publicada em Portugal no século XVIII e de uma das poucas autorizadas pela censura pombalina. O dedicatário era o futuro Marquês de Pombal, cuja autorização à publicar equivaleria à aprovação de dita obra como peça de apoio à sua tentativa de reestruturação das relações diplomáticas e comerciais entre Portugal e a Grã-Bretanha, no início da Guerra dos Sete Anos. E se a publicação foi descontinuada, foi provavelmente porque um texto em prol da França, portanto anti-britânico, teria sido embaraçoso para Pombal, no momento em que se tornou evidente a necessidade que Portugal tinha do apoio da Grã-Bretanha contra a aliança franco-espanhola, e que o preço a pagar era uma política comercial menos agressiva.
        O primeiro objetivo desta comunicação é reconstruir os antecedentes da tradução de Silveira e o significado que ela tem no quadro das estratégias coloniais e comerciais de Pombal.
        Em segundo lugar, o nosso estudo visa comparar esta história com aquela de outra tradução redigida por Silveira alguns anos depois (1766): trata-se de La Mécanique des Langues et l'Art de les enseigner de Noël-Antoine Pluche (1751). Silveira levou a cabo este último trabalho visando à sua publicação e ofereceu-o ao Secretário de Estado. Todavia, a tradução permaneceu inédita. Partidário de um método baseado no uso (em vez do que na regra) para aprender o latim e as línguas modernas, Pluche questionou alacremente a validade do “método tradicional”. Apesar dos pontos em comum com as ideias contidas no Verdadeiro Methodo de Estudar (1746) de Luís António Verney – e da influência que estas últimas exerceram nas reformas pombalinas no domínio da educação – as observações e as propostas de Pluche iriam introduzir em Portugal uma discussão aberta e umas possíveis divergências entre professores e diretores de escolas, um resultado que Pombal certamente queria evitar. O ensino de gramática ocupava, de facto, um lugar central na estratégia política do Secretário de Estado e tinha uma relação direta com à sua própria guerra contra os jesuítas e à imposição do português como língua oficial nos domínios coloniais brasileiros.
        O fracasso de ambos os empreendimentos editoriais é um caso interessante que revela as maneiras pelas quais o poder imperial, o controlo do comércio e o controlo da língua responderam em paralelo à lógica das reformas na época do despotismo esclarecido, lançando uma luz inédita sobre a ligação histórica entre a linguística e a economia política.

        Speakers: Monica Lupetti (Università di Pisa), Marco E.L. Guidi (Università di Pisa)
      • 17:30
        O português como língua veicular na divulgação das culturas indígenas no século XVIII: o caso do manuscrito "Noticias do Reyno do Malabár" 15m

        O século dos Descobrimentos coincide, parcialmente, com a afirmação das monarquias absolutas na Europa, que cresciam e identificavam no Novo Mundo e no conseguinte aparecimento de novas identidades culturais e linguísticas uma fonte de riqueza (Verdelho 2008). A partir do século XV, o português teve, portanto, que lidar com o panorama linguístico extraeuropeu: a Coroa Portuguesa expandiu os seus horizontes geopolíticos, alcançando, pelo que diz respeito à língua, uma difusão mundial, resultado de uma intensa atividade intercultural (Buesco Carvalhão 1983). Nesse quadro, a promoção das línguas e dos costumes indígenas revela-se uma constante nas ideias políticas do Reino Português dos séculos XVI-XVIII, em benefício da coexistência cultural, através do desenvolvimento da produção manuscrita redigida em português, em latim e nas línguas “exóticas” (Maia in: Brito 2010).
        O prestígio do português no cruzamento linguístico dos impérios coloniais sofreu um declínio no século XVIII, devido à redução maciça do Estado da Índia e à expulsão dos jesuítas das colónias, mas manteve a sua função de língua de intercâmbio cultural graças à preservação do Padroado Português (Martins Gonçalves 1990). Contribuíram para a preservação desta condição também figuras não nativas que consideravam o vernáculo lusitano um meio de divulgação global poderoso, prático e eficiente.
        A minha comunicação insere-se na vertente dos estudos filológicos relativa à transmissão da cultura indígena no período colonial português (Vasconcelos Leite 1929), visando pôr em luz um manuscrito do final do século XVIII, resultado do doutrinamento linguístico do português nas colónias (Mattos E Silva 2004). Trata-se do manuscrito 536, Notícias do Reyno do Malabár, anónimo e sem data, guardado na Biblioteca Nacional de Lisboa. A autoria é atribuída ao Arcebispo de Cranganore (Índia) Joseph Kariattil, o primeiro indígena a ocupar este cargo (Podipara 1971); expõe informações acerca de vários aspectos do Malabar, região do sudoeste da Índia, a sua terra natal e território de algumas dioceses do Padroado Português. A obra, redigida em português, é um relatório politemático e contém, na primeira parte, informações de carácter geográfico, histórico, linguístico, antropológico, naturalistico e religioso da zona, relatadas por um olhar externo, apesar do autor ser indígena. A segunda parte, por outro lado, retrilha a história da comunidade dos Cristãos de S. Tomás na Índia, a confissão do autor, expondo a cronotaxia dos seus Arcebispos, desde o Sínodo de Diamper (1599) até meados do século XVIII (Sorge 1983). Nesta secção, o ponto de vista do autor coloca-se dentro da questão, sendo ele membro ativo da comunidade religiosa, destacando a vontade de difundir a verdade acerca de um acontecimento histórico controverso e transmitido de forma falseada.
        Esse manuscrito testemunha o papel central da língua portuguesa nos processos de transmissão cultural internacional do século XVIII (Mira Mateus 2008): de facto, Kariattil, estudante poliglota do Collegio Urbano di Propaganda Fide (Payngot 1987), poderia ter redigido a obra em latim, língua institucional dos Estados da Igreja e idioma veicular dentro do contexto eclesiástico mundial. A escolha linguística do Arcebispo reflete a política cultural portuguesa da altura, que visava a construção de uma abundante coleção de textos relativos aos novos mundos, em competição com a ação da Propaganda Fide, sua rival anti-lusitana. O manuscrito, além de ser útil para uma identificação mais nítida do autor, revela-se proveitoso para os estudos da Historiografia Linguística do português (Banza & Gonçalves 2018) e da Linguística Missionária lusófona (Céu Fonseca 2006).

        Speaker: Matteo Migliorelli (Università di Pisa)
    • 17:15 18:15
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:15
        Aspectos populares ambivalentes no Esaú e Jacó: cousas futuras 15m

        Esaú e Jacó, penúltimo romance de Machado de Assis, publicado em 1904, faz parte da tetralogia famosa, integrada por Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. O escritor retoma no título a referência bíblica ao Antigo Testamento (Gênesis, capítulos 27 a 33), em que Esaú, o primogênito, é renegado pela mãe Raquel em favor do filho preferido, Jacó. Há, portanto, uma espécie de transferência simbólica aos personagens Pedro e Paulo, gêmeos que crescerão em eterno conflito, pessoal e político, no romance: disputarão o amor da mesma mulher, sendo o primeiro monárquico e o segundo, republicano. Esaú e Jacó é o romance da ambiguidade, narrado em terceira pessoa pelo Conselheiro Aires, personagem protagonista do último romance de Machado, Memorial de Aires (1908). O volume vem acompanhado por uma Advertência na qual não só o título é enriquecido por outras possibilidades, - como "Ab ovo" ou "Último", - como também se dão explicações sobre o narrador, supostamente o Conselheiro Aires. Após ter examinado em outros estudos o trabalho ficcional de Machado de Assis em relação ao cânone ocidendal, em que o escritor carioca realiza uma verdadeira antropofagia ante litteram, ativando processos de reescritura, apropriação, modulação ou rejeição, a comunicação objetiva estudar a relação do escritor com os símbolos populares de que a sua obra é repleta, a partir do entrelaçamento com elementos literários, religiosos e políticos. Aludindo a "cousas futuras", título do primeiro capítulo do Esaú e Jacó, a cabloca do Morro do Castelo vem bem acompanhada pela epígrafe do Canto V do Inferno de Dante: «Dico, che quando l'anima mal nata...». Aliás no quinto parágrafo do mesmo capítulo, o narrador explica a ancestralidade da Pítia, aconselhando o leitor a reler Ésquilo, ao chamar a atenção para o número da vez que era distribuído pelo pai da pitonisa carioca e a «ordem marcada pela sorte» no século VI a.C., na Grécia. A permanência de duas senhoras da alta burguesia de Botafogo, na casa da cabocla, que ocupa todo o capítulo, é palmilhada por diversos símbolos populares: o raminho de arruda nos cabelos da moça, as mechas de cabelos dos gêmeos, a viola do pai com uma cantiga do sertão do Norte, o balançar de quadris da cabocla, acompanhando a toada em que não faltam coqueiros, sinhás e saias brancas. Não se pode ignorar que o ano de 1871, quando Natividade sobre o morro com a irmã para depois saber que os filhos gêmeos brigaram na sua barriga, é o mesmo da Lei do Ventre Livre e que as décadas futuras reservarão outros elementos políticos de relevância como a Imigração, o Republicanismo, as tensões com a Igreja e a própria queda da Monarquia. Qual, então, a função desses símbolos ambivalentes?

        Speaker: Sonia Netto Salomão (Sapienza - Universidade de Roma)
      • 17:30
        Visões populares do amor num conto machadiano 15m

        Apesar das "advertências" e "prefácios" sugerindo o oposto, os volumes de contos de Machado de Assis apresentam certa unidade de temas e aproximações, como parte da crítica já tem demonstrado. O volume Histórias sem data, por exemplo, publicado originalmente em 1884, oferece um verdadeiro inventário de representações sociais sobre formas de amar. O objetivo desta comunicação é explorar o conto "Noite de almirante" em diálogo com outros contos presentes na mesma obra --tais como "Capítulo dos chapéus" e "Singular ocorrência"- para ver como neles aparecem visões contrastantes a respeito de fidelidade, traição, casamento, desejo, etc.

        "Noite de almirante" conta a estória de Deolindo Venta-Grande, um marujo apaixonado por Genoveva, "caboclinha de vinte anos, esperta, olho negro e atrevido". Acontece de Deolindo ter de ir em longa viagem de instrução, oito ou dez meses nos mares. Os namorados juram fidelidade mútua, despedida, lágrimas, saudade. Meses depois, Deolindo ainda ausente, Genoveva se apaixona perdidamente por um mascate. Apesar de haver resistido às investidas iniciais do rapaz, "um dia, sem saber como, amanhecera gostando dele". É assim que se explica a Deolindo, quando este lhe aparece à porta, já sabendo que a namorada lhe escapara, por isso traz o cérebro convulso como temporal em alto mar, pensando na "faca de bordo, ensanguentada e vingadora". Ainda que a tensão permaneça no ar, Genoveva consegue controlar a situação. Diz que ao jurar amor a Deolindo, jurara a verdade, porém "o coração mudou". Segundo o narrador, "Genoveva não se defendia de um erro ou de um perjúrio; não se defendia de nada; faltava-lhe o padrão moral das ações"; mais adiante, continuando o esforço para explicar a conduta da "caboclinha", observa, dirigindo-se, ao que parece, a um leitor genérico: "Vede que estamos aqui muito próximos da natureza".

        Uma análise detalhada do ponto de vista do narrador onisciente em terceira pessoa de "Noite de almirante" mostra que tal contador de estórias tem endereço de classe, gênero e raça bem definidos. Suas tiradas a respeito do comportamento de Genoveva como desprovido de "padrão moral", próximo à "natureza" etc., revelam um binarismo moral que atribui a si próprio o lugar da virtude e da civilização. A atitude geral do narrador em relação a Deolindo, como uma espécie de amante primitivo, simplório, guiado por instintos e predisposto à violência é outro sintoma do lugar senhorial, abastado, ocupado pelo narrador, que tampouco se mostra capaz de entender as atitudes de Genoveva segundo noções de fidelidade e desejo próprios dela. Ela "não se defendia de um erro" porque, segundo a sua visão de mundo, a régua da moral era ser fiel aos seus sentimentos, algo inteiramente estranho aos conceitos do contador da estória. Finalmente, o narrador registra a alteridade racial dos protagonistas desde o início, como a marcar a posição deles como distante da dele próprio, desejando-se branco, raça pura: Deolindo "Venta-Grande", quer dizer, de narinas largas e dilatadas como se imaginava as pertencentes a pessoas negras; já Genoveva era uma "caboclinha".

        Speaker: Sidney Chalhoub (Universidade de Harvard)
      • 17:45
        Aspectos da cultura popular em Dom Casmurro 15m

        O ensaio "Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade", publicado no ano 1873 na revista O Novo Mundo, é intrigante porque Machado de Assis sugere nele um fator essencial para a criação de uma literatura nacional: "um certo sentimo íntimo, que [. . .] torne [o autor] homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço", sem especificar, porém, quais seriam as características de tal sentimento. Nesta comunicação examinaremos alguns elementos da cultura popular brasileira, analisando os aspectos que oferecem um repertório de atitudes supostamente nacionais, rumo à apreciação da psicologia do brasileiro. No romance Dom Casmurro, publicado em 1899, o catolicismo popular se manifesta em promessas feitas por Bentinho e sua mãe, D. Glória, para conseguirem graças divinas. Depois de sofrer um aborto, para garantir uma prole no futuro, D. Glória promete encaminhar o primeiro filho homem ao sacerdócio. Bentinho promete rezar "mil Pai Nossos e mil Ave Marias" para livrar-se da obrigação imposta por sua mãe. As promessas são estudadas por Luís da Câmara Cascudo. Há também uma procissão do Santíssimo, rica em detalhes folclóricos e sugestões psicológicas (assunto também estudado por Câmara Cascudo). O texto é um ótimo espaço para o estudo da "cordialidade", tema, como se sabe, desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda (1936), manifestado nos esforços de Capitu para fazer visitas frequentes à casa vizinha, tornando-se pela conversação e pelas "curiosidades" uma pessoa íntima da familia Santiago. Presente no romance também está o "favor", estudado por Max Weber em 1922 e Vitor Nunes Leal em 1948, e demonstrado por José Dias em sua posição de agregado ou dependente da família Santiago, sempre disposto a contribuir serviços para mostrar seu valor no grupo. O "jeitinho", tema desenvolvido pelo antropólogo Roberto da Matta em 1989 -- uma manobra indireta para resolver problemas -- figura de uma maneira importante na liberação de Bentinho do seminário, quando o amigo Escobar sugere a identificação de um substituto, para tomar o lugar de Bentinho. O pregão das cocadas é um exemplo do amplo repertório de parlendas e toadas que ocupam a memória infantil dos brasileiros (Câmara Cascudo). Creio que o machismo e a obsessão pela fidelidade da esposa no matrimônio (Holanda), um traço muito evidente na personalidade de Bentinho e um fator essencial no argumento do romance, tem raízes muito profundas na alma do homem ibérico e também faz parte desse "sentimento íntimo" exigido por Machado de Assis.

        Speaker: Paul Dixon (Purdue University)
    • 17:15 18:15
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:15
        De poeta a poeta: Sophia de Mello Breyner Andresen lê Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Murilo Mendes 15m

        Sophia de Mello Breyner Andresen é seguramente uma das maiores vozes da literatura portuguesa do século XX. Situando-se entre o clássico e o moderno, o trabalho e a inspiração, o olhar e a audição, a poesia andreseniana não se deixou caber em modelos pré-definidos: fixou seus próprios contornos, transitou entre Portugal, Grécia e Brasil, estabelecendo para si uma tradição particular. O diálogo patente que Sophia Andresen entabula é com a literatura clássica, de raiz grega, mas não é possível contestar que a poesia brasileira, especialmente a do século XX, lhe tenha sido fonte; esta comunicação, fundada na dissertação de mestrado de que também carrega o nome, foca nas interlocuções com Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Murilo Mendes, três dos maiores nomes da poesia brasileira, que Sophia Andresen estabelece em sua obra. O corpus de análise é bastante específico: poemas e escritos de Sophia Andresen para/sobre os três poetas brasileiros estudados ou que façam menção a eles, nos quais fica expressa sua condição de leitora. Considerando, então, que os exercícios de leitura e escrita implicam-se um ao outro e que o posicionamento de um escritor como leitor é uma atitude de seleção e apropriação de seus precursores, examinamos, à luz de teóricos como Antoine Compagnon, Harold Bloom e Leyla Perrone-Moisés, bem como da fortuna crítica que cada um dos poetas engendrou, como as leituras dos brasileiros podem ter ajudado a formar a Sophia-poeta e de que maneira as obras deles acercam-se ou distanciam-se da que ela se propôs realizar. No exame da aproximação de Sophia Andresen de Manuel Bandeira, observamos a portuguesa ir ao cerne de sua formação poética; com Cecília Meireles, a vemos travar a maior agon de sua relação com a tradição brasileira; com Murilo Mendes, Sophia muda o tom e deixa expressa também uma intimidade que transpõe os limites do literário. Investigar como esses poetas brasileiros foram lidos por Sophia Andresen, como são por ela pronunciados com admiração e estima e reconhecidos na função essencial de religação, ao desvendarem os caminhos entre os mundos, as coisas e os leitores, permite-nos compreender melhor a obra dessa poeta portuguesa que, no contato com a poesia brasileira, aponta para a significação de sua própria escrita. Interessa-nos perscrutar o olhar dessa leitora que é também poeta, essa leitura que se mistura à composição, esse exercício de uma autora portuguesa que se dá a ler a poesia brasileira e, inevitavelmente, porque os papeis de autor e leitor estão em trânsito perpétuo, a incorpora à sua própria arte. Nesse intercâmbio, engrandecem-se as literaturas brasileira e lusitana, uma iluminando a outra, reforçando a vastidão do universo cultural de que Portugal e Brasil comungam.

        Speaker: Luana Flávia Cotta Drumond
      • 17:30
        O Natal, a alquimia, o tempo, e o espírito - leitura de um conto de Jorge de Sena 15m

        “[...] eu mesmo não saberia dar a chave do mistério, se o é.” Assim é que, em nota, Jorge de Sena refere-se ao seu conto “O Urso, a Pantufa, o Quadro, e o Coronel” (escrito em 1961 e publicado em 1966 na coletânea Novas Andanças do Demónio), fantástico texto de enredo paradoxal, em que o protagonista, Coronel Chagas, e o seu amigo, Doutor Figueiredo, passam tempestuosa noite de Natal em uma isolada pensão serrana. Apenas na sua mais superficial aparência essa narrativa emularia uma tradicional história de fantasmas e espíritos, como as da literatura fantástica dos 1800, descritas meritoriamente por Tzvetan Todorov na década de 1970. Aqui, a imprecisão das fronteiras entre sonho e vigília, imbricamento desses dois estados de consciência, revela sua incontornável condição novecentista, ao tornar impossível que se oscile de modo claramente delimitado entre uma solução mágica e uma explicação realista, já que, na diegese do conto, ambas contaminam-se mutuamente, confundindo-se. Se Jorge de Sena, ainda que por pura retórica, alega desconhecer-lhe a chave do mistério e, mais além, apesar do inegável aspecto hermético do texto, sugere a possibilidade de que ele nem mesmo possa ser denominado um mistério (se o é, diz ele), será talvez com alguma subversão que nossa leitura buscará possibilidades interpretativas para a narrativa (e talvez, em última instância, a função do leitor seja exatamente essa: a de, insubordinadamente, causar perturbação à obra lida, tumultuá-la em sua zona de conforto, atacando-lhe com chaves que a princípio não serviriam às suas fechaduras — com o agravante, nesse caso, de o próprio Sena ter certa vez condenado que “contos de fantástico realismo devam ser entendidos como parábolas simbólicas”). Desse modo, subversivos que somos, seguimos, e, em espelhamento ao título do texto, que coordena quatro elementos em sua composição, sugerimos, para divisar essa criação ainda tão pouco investigada pela crítica seniana, um quarteto temático em que poderiam circular os sentidos de sua enigmática trama. Seriam estas, portanto, as possíveis chaves para a compreensão não apenas da sua narrativa em si, mas também para a percepção das discussões que lhe reverberam para além dela: (1) as melancólicas e críticas produções natalinas que tão caras sempre foram à produção de Jorge de Sena (notadamente em suas poesias); (2) os estudos psicanalíticos de Carl Jung sobre o alquimista do século IV Zósimos de Panápolis (cujas palavras, aliás, servem de epígrafe à narrativa); (3) a ideologia trazida pelo ideólogo António Ferro ao Estado Novo salazarista e sua proposta de construção de pousadas pelo país (como essa que serve de cenário ao conto e a qual Sena, ainda em nota, afirma “que se estava mesmo a ver que podia ter sido a do Marão”); (4) e a constatação de uma fragmentação (ou, antes, uma distensão) do tempo no enredo da obra. Essas são nossas propostas de chaves do mistério (se o era, se ainda o for).

        Speaker: Marcelo Pacheco Soares (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ))
      • 17:45
        "Mas o Mar também chora de tristeza..." As imagens aquáticas em Florbela Espanca e Gilka Machado 15m

        Ao lermos, simultaneamente, a poesia de Florbela Espanca (1894 – 1930) e a da poetisa brasileira Gilka Machado (1893 – 1980), verificamos uma certa recorrência de versos e imagens imbuídos de elementos traduzidos em palavras que remetem a símbolos aquáticos, como, por exemplo, «lágrimas», «chorar», «tristeza», «mar», «ondas», «água». Esta linguagem baliza, por seu lado, o discurso poético de Florbela Espanca, bem como o de Gilka Machado, engendrando, assim, um «mar de mágoa» que banha os textos poéticos das autoras, cuja incomensurável Dor se desenreda em múltiplas representações. O tema do amor romântico ruboriza-se com os vocábulos da mal contida paixão, da assunção do desejo, como direito inalienável da mulher, “visitam” os versos dessas mulheres que alguns chamariam irreverentes, quiçá desrespeitosas, mas simplesmente mulheres que reivindicam o direito de o ser plenamente.
        Este ensaio objetiva discutir, entre outras, a representação da água como fonte na qual bebem as poetisas. Mar, rio, fontes, lagos, lágrimas, humores corporais. Mar e mãe, metáforas do líquido menstrual e amniótico, femininos, estreitamente ligados ao erotismo que captamos em ambas as autoras. Não por acaso, o texto bíblico elegeu a água para representar a criação do universo. O dilúvio, a diáspora, são tópicos fortemente ligados aos signos aquáticos, sugerindo imagens de dor e purificação, amor, sentimentos que se conjugam em poderosas cintilações de universos interiores particulares e multifacetados, na sua singularidade, aproximando-se da poesia viva, tão bem defendida pelo poeta português José Régio (1901 – 1969).
        A poesia de Flobela Espanca e a de Gilka Machado atravessam a centralidade, espargindo-se por margens que, frequentemente, renderam descrédito e críticas fundadas em um cânone ultrapassado, machista e travestido de uma moral duvidosa, atendendo, não raras vezes, ao princípio da escola do elogio mútuo: “eu te gosto, tu me gostas”. Assim, essas mulheres escritoras não se filiaram a quaisquer estilos da época, permitindo-se voos além. Da recorrência das imagens aquáticas, princípio e fim, indispensáveis à vida, eróticos e maternos fluidos, no cotejo do diálogo “impertinente” entre poetas que foram contemporâneas, vivendo em espaços diferentes, talvez sem conhecimento da obra uma da outra, mas vítimas das tentativas de invisibilização e silenciamento, trata esta comunicação.

        Palavras-chave: água - erotismo - poesia portuguesa - poesia brasileira

        BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
        ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos: Ensaios Sobre o Simbolismo Mágico-Religioso. Prefácio de Georges Dumézil. Trad. Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
        ESPANCA, Florbela, Livro de Mágos, organização, fixação crítica dos textos e notas de Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario da Silva, Lisboa, Editorial Estampa, 2012.
        ESPANCA, Florbela, Livro de ‘Sóror Saudade”, organização, fixação crítica dos textos e notas de Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario da Silva, Lisboa, Editorial Estampa, 2012.
        MACHADO, Gilka, Poesia Completa, org. de Jamyle Rkain, prefácio de Maria Lúcia Dal Farra, São Paulo, Selo Demônio Negro, 2017.

        Speaker: Matteo Pupillo (Scuola Superiore per Mediatori Linguistici Ancona)
    • 17:15 18:15
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 17:15
        História da Literatura - Esquecimentos (I) 15m

        Compete à história de uma literatura nacional o registro das obras transmitidas pela escrita em que se se reconhece qualidade artística; a essas obras associam-se as pessoas responsáveis por sua criação, independentemente de sua etnia, sexo ou idade. Sob esse aspecto, a história da literatura funda-se sobre uma noção de valor estético, constituído a partir das poéticas dominantes em dado tempo ou espaço. No caso do Brasil, a história da literatura recebeu uma tarefa adicional: responder pela identidade nacional. Formulada após a consolidação da separação política de Portugal, e à época da formação do Estado-nação, a história da literatura tornou-se fiadora da autonomia do país, privilegiando obras que o representavam em termos de território e sociedade. Se a literatura, em princípio, coincidia com a pátria brasileira, a história da literatura, ao inventariá-la, dava conta do todo da nação. Examinada retrospectivamente, porém, a história da literatura mostrou-se exclusiva e discriminatória, deixando de fora a produção das afrobrasileiros e de mulheres. Quando incluiu aqueles, ignorou sua pertença racial; quando deu conta daquelas, evitou abordá-las desde sua posição de gênero. Dessas circunstâncias adveio o que se poderia chamar um apartheid histórico-literário. Não se trata, porém, de substituir uma prática inclusiva por outra, ampliando os catálogos que compõem a história da literatura, mas refletir sobre as alternativas que se oferecem, verificando em que medida a produção literária pode ser pensada desde a condição da autoria e que incumbências teóricas e metodológicas derivam de tal perspectiva.

        Speaker: Regina Zilberman (UFRGS)
      • 17:30
        História da Literatura – Esquecimentos (II) 15m

        Desde os primórdios, a História da Literatura consagrou nomes a partir de categorias e especificidades que tinham como princípio fundamental a institucionalização da Literatura Nacional e durante muitos anos essa história foi relatada e aceita sem muitas contradições ou questionamentos. Contudo, com o passar do tempo e o aparecimento de novas linhas de pesquisas, os estudiosos da área começaram a perceber possíveis lacunas na costura dessa história literária quase impossível de ser reescrita. Nomes e títulos permanecem ignorados pela história literária que privilegiou as edições em livros, para organizar a historiografia. Assim, escritores como Antônio Joaquim da Rosa e seu romance A Feiticeira, lançado na revista Íris, do Rio de Janeiro, ficariam para sempre esquecidos se não fossem os trabalhos de Raimundo Menezes e José Ramos Tinhorão, ou de outros que percorreram os periódicos e constataram a possibilidade de esse suporte preservar partes da nossa história literária. Esta apresenta número circunscrito de romances e romancistas, com critérios restritos insuficientes para abranger homens e mulheres, romancistas, cujas obras circularam em nosso país mas ficaram de fora, tanto das histórias literárias, quanto de livros didáticos e aulas dos cursos de graduação.

        Speaker: Germana Sales (UFPa)
      • 17:45
        História da Literatura – Esquecimentos (III) 15m

        As circunstâncias político-econômicas do período ditatorial no Brasil imprimiram suas marcas em todos os setores da vida artístico-literária e cultural. Dentre os autores de narrativas ficcionais que tematizam tais circunstâncias, todavia, poucos alcançaram registro nos principais compêndios de história da literatura brasileira pós-64, como os de Alfredo Bosi (1970), Massaud Moisés (1984-87), Luciana Picchio (1996), José Aderaldo Castello (1999) e Carlos Nejar (2011). Os compêndios reconhecem, adequadamente, a relevância de autores cujo lavor artístico manifesta-se em plenitude, como Clarice Lispector e Osman Lins, ou de escritores como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca, dentre outros que, mesmo em menor grau de apuro estético, alcançaram um público numeroso e fiel. Todavia, poucos são os registros de obras voltadas para a temática da repressão, envolvendo violência, tortura e desaparecimentos políticos. Não houve produção volumosa nessa linha, nem seus autores foram particularmente atentos à linguagem, pois boa parte deles teve por motivação a denúncia dos traumas vividos. Poucas foram as obras publicadas "no calor da hora", como Em câmara lenta (Renato Tapajós, 1977); outras vieram a público logo após a anistia, em um contexto ainda turbulento, como O que é isso, companheiro? (Fernando Gabeira, 1979) e Batismo de Sangue (Frei Betto, 1983), permanecendo à margem da história literária brasileira. É surpreendente constatar que, nos decênios seguintes, a mesma temática continuou a produzir frutos que, em tempos recentes, alcançam inesperada repercussão, como ocorreu com K. Relato de uma busca (Bernardo Kucinski, 2011) ou A resistência (Julián Fuks, 2015). Tais retomadas asseguram uma sobrevida à reflexão, no âmbito da ficção (e, espera-se, na história literária) sobre danos irreparáveis produzidos pelo regime de exceção, que contribuíram — ao contrário do que um certo discurso "oficial" afirma — para a violência, a insegurança e o desrespeito à dignidade do ser humano que se verificam em nosso país na atualidade.

        Speaker: Helena Bonito Couto Pereira (UPM)
    • 18:15 19:15
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 18:15
        Quando a Periferia Se Torna Centro – A “Convivência Conflituosa” em O Sol na Cabeça de Geovani Martins 15m

        O Sol na Cabeça (2018), livro-estréia do jovem favelado Geovani Martins, consta de treze contos criados a partir das experiências e memórias do autor. O livro faz grande sucesso tanto em termos de venda quanto de repercussão crítica, tanto no Brasil como no exterior.

        Em 2006, ao analisar a literatura em torno das periferias urbanas publicada na virada do século, a exemplo de Paulo Lins e Ferréz, João César de Castro Rocha levantou a teoria de que a "dialética da malandragem", formulada por Antonio Candido, estava sendo substituída por uma "dialética da marginalidade", que recusa a se adaptar à reconciliação social e se impõe mediante descrição de sofrimento e violência. Tal teoria define bem a tendência da "literatura marginal" na última década, porém, O Sol na Cabeça não se encaixa nela. Mesmo que seja um livro bem escrito focalizando a vida dos pobres nas metrópoles brasileiras, o livro de Geovani Martins mostra características próprias e distintas, que poderiam levar a uma nova tendência literária, com destaque de personagens favelados mais sensíveis e complexos.

        Diferente das obras voltadas para a "malandragem", em que os protagonistas procuram conciliar antagonismos sociais por meio de folia e vadiagem (assim como nas obras de Jorge Amado), ou dos livros classificados como da "marginalidade", em que se salienta "cultura da periferia feita por gente da periferia" (Ferréz, 2004), O Sol na Cabeça trata principalmente da "convivência conflituosa" entre os moradores da favela e as pessoas de classe média. Trata-se de convivência, porque os favelados não se afastam completamente da vida da metrópole: bem ao contrário, eles compartilham praia, diversão, locais de trabalho e até mesmo sentimentos com quem vive em apartamento de luxo. Mas essa convivência é conflituosa porque, por um lado, a presença dos pobres sempre causa desconforto às pessoas das classes mais favorecidas; e por outro, os favelados se sentem discriminados diante da atitude preconceituosa e excludente dos outros. E o mais importante é que, em O Sol na Cabeça, os protagonistas favelados não só reagem instintivamente às dificuldades do dia a dia ou expõem a própria vida diante do olhar dos leitores, mas também têm preocupações intelectuais e sociais, sabem "observar" a vida das pessoas mais ricas e poderosas e criticar os preconceitos e a ignorância dessa "gente fina".

        Dessa maneira, Geovani Martins se livra do estereótipo de favelados sofridos e violentos, e quebra o paradigma da literatura marginal de hoje, porque em O Sol na Cabeça os moradores da favela não são meros objetos de observação ou vítimas agressivas, mas se tornam verdadeiros sujeitos ativos que sabem lutar contra a discriminação e desigualdade por meios não violentos. Nesse sentido, pode-se dizer que ele não só mostra a "periferia" ao "centro", mas consegue tornar a periferia o próprio centro.

        Speaker: Xing Fan (Universidade de Pequim (PKU))
      • 18:30
        Para uma análise da produção literária da FLUP, a Festa Literária das Periferias: Representações de corpos em movimento pelo espaço urbano carioca 15m

        A comunicação tem como objeto de discussão a FLUP, a Festa Literária das Periferias, um festival literário que acontece anualmente no Rio de Janeiro desde 2012, e que levou à publicação de mais de 20 livros de nova/os autora/es brasileira/os graças às próprias oficinas de escrita. O festival, ideado por Écio Salles e Julio Ludemir, passou por várias fases desde a sua inauguração: de FLUPP – a Festa Literária das UPPs – nome com o qual o projeto nasceu, passou a ser chamado de FLUP, a Festa Literária das Periferias, sendo organizado a cada ano em diferentes favelas do Rio até 2018, quando passou a acontecer no centro da cidade (ou, em 2020, por causa da pandemia de Covid-19, inteiramente online).

        Pode-se observar a tendência, na organização do evento, em acompanhar os acontecimentos na cidade do Rio e em redefinir os próprios objetivos conforme as transformações ocorridas no período em que foi organizado – como o processo de pacificação de algumas favelas e o fracasso desta operação; a celebração dos 450 anos da cidade; a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas; as obras de requalificação da zona portuária. A mesma abordagem do festival ao conceito “periferia” se transformou ao longo do tempo, dialogando com diferentes interpretações do conceito, tanto na sua dimensão local quanto internacional: de uma leitura situada geograficamente e historicamente orientada às periferias do Rio de Janeiro, suas favelas pacificadas e sua região metropolitana, o conceito parece ter agora uma acepção mais socialmente orientada para questões de raça e de gênero; isto tendo como foco não só a realidade brasileira, mas com o desejo de fortalecer diálogos entre diferentes “periferias” internacionais.

        A comunicação pretende, em primeiro lugar, oferecer uma leitura geral do festival, seus objetivos e transformações e o seu papel no campo literário em que se insere, individuado no movimento da literatura periférica ou marginal brasileira. Em segundo lugar, pretende-se propor uma análise da sua produção literária, constituída principalmente por coletâneas de contos e poesias que marcam o fim do processo formativo anual, e por romances ou coletâneas de poesia de autora/es que mais se destacaram neste processo.

        O objetivo é individuar como estas escritas abordam dois tópicos: a representação da cidade do Rio de Janeiro e dos sujeitos que aqui habitam. Desta forma quer-se sublinhar o papel deste festival literário em orientar e promover escritas que ofereçam um dado perfil do espaço e da sociedade carioca. De fato, corpos e espaços são identificados como dois elementos chaves que compõem a dimensão performativa da semana do evento literário: isto se observa, por exemplo, na definição dos lugares - considerados “periféricos” - onde o festival é organizado, dos escritores e artistas que são convidados para aqui falarem ou do público alvo das oficinas de escritas. É pela relevância destes elementos que se pretende analisar como a produção literária do mesmo evento lida com estes tópicos: como é representada a cidade do festival, Rio de Janeiro? Quais corpos habitam e movem-se por este Rio literário da Flup?

        Speaker: Laura Fracalanza (CEC-FLUL)
      • 18:45
        Memória dos Marginais na Narrativa de Milton Hatoum: Dois Irmãos e Órfãos do Eldorado, Uma Leitura Comparada. 15m

        Dois Irmãos (2000) e Órfãos do Eldorado (2008) são obras bem recebidas do autor manauense Milton Hatoum. Enquanto o primeiro conta a história de uma família de origem libanesa, focalizando na relação conturbada entre dois irmãos gêmeos Yaqub e Omar, o segundo, uma novela, trata da vida de Armindo Cordovil, homem de família rica que gasta toda a herança por se vingar da rejeição do pai e mora sozinho na pobreza, esperando a volta da única mulher que ama. Ambas as histórias têmcomo pano defundo a cidade de Manaus. Se a novela se situa no período do primeiro "ciclo da borracha", já o romance se desenrola a partir daí, mostrando o desenvolvimento de Manaus em meados do século XX. Os dois em conjunto nos permitem observar a capital do Amazonas com suas aparências distintas transformando-se no tempo, uma futura metrópole cuja história se relaciona estreitamente com a história do Brasil, um Eldorado perdido com as pessoas que vivem na marginalidade, testemunhas ignoradas e esquecidas na grande narrativa oficial da região e do país.

        Existe um contraponto entre as duas obras que é a crítica ao processo da modernização em Manaus, abordada de maneiras diferentes. Na novela Órfãos do Eldorado, o autor mostra a decadência do negócio da borracha e por consequência a derrocada de uma família rica. Hatoum interpreta o mito do Eldorado refundindo-o com os mitos locais, criticando a modernização induzida pela euforia econômica da exportação da borracha. Em Dois Irmãos, Hatoum nos apresenta uma família manauense de ascendência libanesa que tem uma dinâmica familiar disfuncional e, ao mesmo tempo, nos deixa observar questões sociais como a pobreza e a desigualdade que acompanham o desenvolvimento de Manaus, especialmente durante o período da ditadura militar, em que os pobres da cidade, que moram nas palafitas à beira do rio Negro, são expulsos para lugares mais marginais, enquanto novas construções que representam a prosperidade e a modernidade "embelezam" a cidade. Nasce então a "nova" Manaus que deixa para trás os pobres que haviam chegado primeiro e povoado a cidade desde o "ciclo da borracha". A Manaus em decadência se espelha no mito do Eldorado perdido e na disfuncionalidade da família. O confronto entre o atraso no desenvolvimento da capital do estado do Amazonas e o ritmo da urbanização se espelha no conflito entre os dois irmãos. Tudo isso é narrado através dos mitos e das memórias, nascidas das experiências próprias do narrador ou herdadas dos outros. Os sujeitos mais vivos dessas memórias são os pobres, nativos ou imigrantes nacionais e internacionais. Eles testemunham a mudança de Manaus, mas têm sua presença apagada pela história oficial.

        Assim sendo, os dois livros se complementam para reconstruir uma cidade de Manaus mais verídica, através das memórias de personagens que acompanham seu desenvolvimento desde o início, dos pobres que são expulsos do centro do palco, esquecidos durante o processo da modernização dessa futura metrópole amazônica. Desse modo, Milton Hatoum consegue guardar verossimilhança da realidade daquela região e desconstrói as representações estereotipadas historicamente estabelecidas.

        Speaker: Lin Ma (Universidade de Pequim (PKU))
    • 18:15 19:15
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:15
        Um devir índio do texto? Considerações sobre o dispositivo enunciativo-narrativo em "Meu tio o iauaretê", de Guimarães Rosa. 15m

        Fartamente explorado como símbolo da brasilidade, sobretudo durante o romantismo e o modernismo, o personagem ameríndio povoa as narrativas brasileiras e é uma das figuras incontornáveis da literatura nacional. Se, por um lado, constata-se certa abundância de estudos que se concentram sobre uma tal figuração, menos numerosos são aqueles que se interessam pelo personagem índio na condição de narrador. Em “Meu tio o iauaretê”, conto de João Guimarães Rosa publicado originalmente em 1961, o elemento indígena ganha centralidade, não apenas por ser seu protagonista, mas também em razão de ser sua a posição enunciadora que estrutura a experiência narrativa. Interessando-se pela arquitetura ficcional que decorre da atribuição ao índio da função narrativa, esta comunicação se propõe a identificar as particularidades da colocada em cena da voz narrativa índia, estabelecendo paralelos entre as soluções textuais que se verificam nesse texto rosiano e um procedimento de caracterização do personagem índio que, nesse caso, é emulado não apenas no plano do conteúdo, mas, sobretudo, no plano da forma de narrar. Nesse contexto, a oralidade e, mais especificamente, o ambiente enunciativo da conversa, são explorados como recursos narrativos, sugerindo que, mais do que simplesmente um deslocamento da posição tradicional de personagem narrado à de personagem enunciador-narrador, o dispositivo narrativo colocado em cena a partir da perspectiva (ficcional) índia acaba por interrogar as próprias noções de “texto” e de “narrar”, tais como estas foram se sedimentando no imaginário e nas práticas do Ocidente. Ao mesmo tempo, esses elementos, que reenviam a um certo ideário sobre o índio, explorando o ambiente da oralidade como presumidamente aquele em que o autóctone se exprime, apresentam torções em algumas de suas características estruturantes, o que resulta em um efeito insólito: a expressão textual se instala, desse modo, em uma espécie de fenda entre o elemento oral e o escrito, entre o som e a letra, entre o monólogo e o diálogo, não sendo mais possível situá-la inteiramente nem no ambiente escrito, nem tampouco no ambiente oral no qual é ficcionalmente construída. A fim de lançar luz sobre as discussões que se vão empreender, recorremos aos domínios da narratologia e da teoria da comunicação: no primeiro caso, partimos do conceito de situação narrativa, de Gérard Genette, em busca de elementos que nos permitam reconstituir as relações entre os enunciados que compõem o texto e a instância que os produz – isto é, a enunciação; no segundo caso, fazemos apelo ao esquema da comunicação verbal proposto por Jakobson, a partir do qual fazemos considerações sobre os mecanismos de torção operados pelo conto rosiano relativamente ao modelo do teórico russo, buscando, assim, realizar uma leitura das qualidades próprias que a situação comunicativa da conversa adquire no âmbito de sua recriação pelo discurso literário.

        Speaker: Victor Camponez Vialeto
      • 18:30
        A potência da memória involuntária em “Dão-lalalão”, de João Guimarães Rosa 15m

        Na novela “Dão-lalalão”, uma das sete narrativas de Corpo de baile, do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, um ex-boiadeiro, Soropita, apaixona-se por uma prostituta, Doralda, com quem se casa. Corroído pelo ciúme, pois sempre imagina que sua esposa poderá ser reconhecida por algum ex-cliente, é atormentado por uma memória sombria. A estória tem início durante o regresso de Soropita do Andrequicé, onde fora ouvir uma novela de rádio a ser compartilhada com os moradores do Ão, vila onde mora. No percurso, ele recorda-se da esposa. Portanto, é por meio dessas lembranças que saberemos a maneira como se deu o primeiro encontro amoroso do casal, em uma casa de prostituição na cidade de Montes Claros. A meio-caminho, Soropita reencontra um amigo, Dalberto, a quem não vê há alguns anos. Tal encontro alimenta ainda mais os ciúmes de Soropita que, ao se ver obrigado a convidá-lo para jantar em sua casa, posto que estão nas proximidades, começa a imaginar o amigo como um possível ex-cliente da esposa.
        Em “Dão-lalalão”, toda a narrativa é construída em um movimento de ida e volta da memória, parecendo que Soropita realiza duas viagens, uma de regresso à casa e outra por meio das reflexões, que paulatinamente vão sendo tecidas a partir das lembranças, há também as recordações que ele compartilha com o amigo Dalberto e com a própria esposa. Logo, as diferentes visões vão se sobrepondo à medida que os elementos externos, que estariam a cargo de um narrador supostamente imparcial, são penetrados por memórias evocadas pelas três personagens.
        Há nesta novela muito do que Gérard Genette observa ao analisar a Recherche proustiana, na obra Figuras: [...] “a analogia constante entre uma sensação presente e uma sensação passada em que a abstração operada consiste na abolição das distâncias temporais necessárias à eclosão de um minuto livre da ordem do tempo” (1972, p. 47). É nesta narrativa do ciclo Corpo de baile que mais se pode verificar a ação da memória involuntária, não só porque é a partir do cheiro de um sabonete que Soropita transporta consigo na bagagem, presente para a esposa, que Doralda é pela primeira vez evocada, como as lembranças deslizam de uma personagem a outra, durante o jantar oferecido por Soropita ao amigo Dalberto, ajudando o leitor a conhecer o passado de cada uma das personagens: seus desejos, projetos e segredos. Nesta comunicação, abordar-se-á a importância da memória na construção “Dão-lalalão”, em diálogo com o pensamento de Gérard Genette, Paul Ricoeur e Jean-François Lyotard.

        Speaker: Maria Viana (Universidade Nova de Lisboa)
      • 18:45
        "A terceira margem do rio" de João Guimarães Rosa e "O veredicto" de Franz Kafka: modos de encenar e contradizer a lei do pai 15m

        Com o trabalho aqui proposto, gostaria de chamar a atenção para uma subliminar afinidade entre a narrativa de Guimarães Rosa e a de Franz Kafka. Minha hipótese parte de uma indicação dada por Daniel Bonomo, em seu excelente artigo sobre a "Biblioteca alemã de Guimarães Rosa", redigido com base em pesquisa realizada junto ao arquivo do escritor, depositado no IEB/USP. Num estudo em muitos aspectos exemplar no campo do trabalho com arquivos literários, Bonomo expõe não apenas a ambivalente posição de Rosa para com a obra de Kafka, mas também certos intrigantes indícios da singular leitura que o escritor mineiro parece ter feito da obra de escritor tcheco. Para além do conhecido louvor a Kafka, expresso por Rosa na famosa entrevista ao crítico Günther Lorenz, há pelo menos dois curiosos registros dentro do único exemplar de uma obra de Kafka na biblioteca rosiana, qual seja, o de O Processo (em tradução francesa): 1) a presença de um recorte de artigo de jornal, afixado com cola dentro do exemplar e sem identificação de autoria, que dá conta da indicação, por parte de um crítico holandês, de que o estabelecimento da ordem dos capítulos do mais famoso romance kafkiano não teria sido realizado pelo próprio autor e sim levado a cabo por Max Brod, amigo, parceiro e executor testamentário de Kafka. Esse é um aspecto que só mais recentemente, com as sucessivas edições críticas alemãs passou a ter grande relevância no contexto dos estudos da obra do autor tcheco. 2) Guimarães Rosa volta seu olhar para o modo como Kafka trabalha certos pormenores de sua observação da realidade, mostrando-se mais interessado por um Kafka "realista" do que "surrealista" e atento aos aspectos anedóticos de sua narrativa, neles incluídos a construção narrativa e os efeitos do "humour" -- ou do Witz, em alemão.

        Sendo assim, a hipótese a partir da qual se pretende examinar a obra rosiana deverá ser posta à prova por meio de um cotejo entre o conto "A terceira margem do rio", do livro Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa e "O Veredicto", a narrativa que Franz Kafka considerou definidora de sua identidade como escritor e que pautaria toda a sua obra futura, sobretudo aquela póstuma, da qual faz parte também O Processo, entre outros escritos. Ambos os textos extraem a sua força narrativa do modo como constroem o enredo com vistas a um singular efeito final. Além disso, ambos os textos nutrem-se das ambivalências advindas do mais ancestral conflito de poder: aquele que se dá entre pai e filho, entre a lei e o sujeito. Em ambas as estórias (sendo permitida a atribuição desse gênero ao conto kafkiano...), o fluxo de um rio e a contenção de suas margens configuram tanto a construção identitária do personagem quanto os meandros da construção narrativa propriamente dita, sugerindo que a subjetividade possa ser resultado de forças antagônicas fundamentalmente ambivalentes e, paradoxalmente, avessas ao próprio movimento de identificação, pois avessas a se deixarem fixar num objeto único.

        Speaker: Susana Kampff Lages (Universidade Federal Fluminense)
    • 18:15 19:15
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:15
        Génese e revisão autoral de Ella canta, pobre ceifeira, de Fernando Pessoa 15m

        Desde as suas origens até à atualidade, a disciplina batizada em 1979 por Louis Hay com o nome de crítica genética sempre teve como objetivo fundamental a análise do processo criativo anterior à composição derradeira de um texto, retraçando as diferentes fases da génese de uma obra, desde os esboços preparatórios até à definição da versão final. Os materiais presentes nos espólios dos autores são frequentemente determinantes para o estudo do processo compositivo subjacente ao texto literário. Nas edições que, procurando representar a vontade final do autor, não prescindem de informar o leitor sobre as diferentes fases da elaboração, uma síntese das sucessivas lições que testemunham o processo da atividade compositiva do autor é exposta no dispositivo conhecido como aparato genético.
        Estabelecendo como premissa fundamental a ideia de que o texto literário não é um documento cristalizado, cujo aspeto se fixa no momento da sua publicação, mas antes, uma obra in fieri, fruto do processo criativo do autor, pretende-se traçar, no presente trabalho, a história genética do poema Ella canta, pobre ceifeira, de Fernando Pessoa, publicado pela primeira vez em 1916, nas páginas da revista “Terra Nossa”. O ponto de partida será o estudo dos dados genéticos e de reescrita presentes no aparato genético da edição crítica de Mensagem e poemas publicados em vida, da responsabilidade de Luiz Fagundes Duarte, pertencente ao primeiro volume da Edição Crítica de Fernando Pessoa.
        A análise do dossiê genético permitirá realizar um estudo mais aprofundado sobre o modus operandi do célebre poeta português, através da investigação das etapas da conceção das suas obras, procurando definir traços comuns da sua atividade criativa.
        A peculiaridade do poema em análise, que foi publicado uma segunda vez pelo autor com variações de tipo substancial na revista “Athena”, como parte de um conjunto poemático intitulado De um cancioneiro, compreendendo, no total, catorze poemas, permitirá não só refletir sobre o processo genético do texto, o grande destaque do presente trabalho, mas, também, desenvolver um estudo atinente à fase de revisão autoral realizada por Fernando Pessoa no espaço de tempo interposto entre a primeira e a segunda publicação, oferecendo, desta maneira, uma visão completa da atividade compositiva subjacente à obra e dos diferentes aspetos que o poema assumiu em diversos momentos e contextos.
        As variações que o texto sofreu durante as etapas da génese e da revisão autoral serão analisadas tendo em conta as fases mais significativas do desenvolvimento da personalidade artística de Fernando Pessoa e os traços peculiares do seu usus scribendi, confrontando as modalidades compositivas, tanto ao nível intertextual, através da comparação com procedimentos análogos observáveis na génese de outros poemas, assim como do ponto de vista intratextual.

        Speaker: Carlotta Defenu
      • 18:30
        O teatro de Fernando Pessoa: drama simbolista e poética do devaneio 15m

        Este trabalho propõe analisar a criação dramática do poeta Fernando Pessoa a partir da reunião de textos, alguns inéditos, intitulada Teatro Estático, publicada em Lisboa em 2017. Os textos teatrais a serem analisados são uma série de experimentos dramáticos cujas composições dialogam com 'O Marinheiro', que teve sua primeira publicação em Portugal, em 1915, no primeiro número da revista Orpheu. Conforme afirmam os organizadores da atual coletânea, Filipa de Freitas e Patricio Ferrari, na apresentação da obra, a peça 'O Marinheiro'” pode ser considerada a primeira experiência de Pessoa no sentido de conceber uma nova forma teatral, nas primeiras décadas do século XX, instituída pelo Simbolismo. A partir dela, segundo afirmam, o poeta português não só absorveu como transformou as características desse movimento para dar origem à sua própria noção de teatro, a partir da qual recriou o seu universo literário.

        É possível, portanto, identificar na escrita teatral de Fernando Pessoa a incisiva influência da corrente simbolista surgida no final do século XIX. Conforme as concepções de ação estática de Maurice Maeterlinck (1862-1949), dramaturgo belga do movimento do Simbolismo no teatro, a arte da cena figura no palco motivada pelas relações da personagem com sua vida interior. Para tanto, o homem vê seu destino representado na figura da morte, que se torna a protagonista da cena. Para além do caráter alegórico ou trágico, o drama simbolista, de natureza estática, substitui a ação pela situação. De acordo com o teórico Peter Szondi, o drama estático tira do homem a sua possibilidade de ação. Na não-ação ele persiste, em sua passividade, e se torna consciente de sua situação no momento em que se depara com a morte. No Teatro Estático de Fernando Pessoa, uma série de experimentos dramáticos encabeçada pelo texto 'O Marinheiro' - o único texto teatral que se sabe ter sido finalizado pelo poeta -, o isolamento e a incapacidade de agir são os principais motivos para que as personagens falem e justifiquem seus diálogos. Nessa concepção, o protagonismo da linguagem se desvincula da ação da personagem para reproduzir estados de ânimo que dominam todas as almas.

        Esta análise, por sua vez, propõe o diálogo entre os dramas pessoanos e as correntes teatrais que os embasaram, para fazer o entrecruzamento entre a construção poética do autor e a presença da ideia de devaneio, de Gaston Bachelard. Na reflexão intitulada A Poética do Devaneio, o teórico enfatiza a ligação da palavra falada às motivações e desejos mais profundos da alma. Assim, o obscurantismo, o psiquismo humano e o inconsciente dialogam através de lembranças e sonhos inacabados. Ao escrever uma dramaturgia com base no caráter estático, o poeta Fernando Pessoa evidencia os conceitos de devaneio e 'anima' que emergem, com base nas idéias do teórico francês, das próprias imagens poéticas que suscitam esse devaneio. Por conseguinte, é a 'anima' que sonha e canta, embalada pela profundidade da solidão, e vai caracterizar a dramaturgia de Fernando Pessoa, num universo dramático que se agrega às suas múltiplas e complexas formas de criação literária.

        Speaker: Luciana Éboli (UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
      • 18:45
        O poeta como leitor: a importância da marginalia de Fernando Pessoa 15m

        O fenómeno da marginalia pessoana, as formas que assume e a intenção que lhe está inerente é o tema desta comunicação, que pretende não só dar a conhecer a intensidade emotiva que caracterizou o processo de leitura realizado por Fernando Pessoa a partir de uma de uma vasta biblioteca, como mostrar que as anotações de cada livro são um elemento valioso para a construção de uma identidade literária e que tornam possível aceder aos processos mentais do leitor / anotador em que Pessoa se tornou e aos momentos de interacção com os autores de cada exemplar lido.
        Deste modo, a análise exaustiva da marginalia de Fernando Pessoa nos livros da sua biblioteca poderá provar-se como um auxílio precioso para a reconstrução dos percursos de leitura do poeta, já que os pensamentos expressos nos diversos volumes anotados reflectem preocupações estéticas e literárias que este manifestaria ao longo da vida na sua própria produção textual.
        Com esta comunicação, pretendemos também reconstituir algumas experiências pessoais de uma memória literária e intertextual, demonstrando a intensidade emotiva que caracterizou o processo de leitura dinâmica que Pessoa realizou e apresentando este autor como pensador e interlocutor de cada livro que lia e anotava e como construtor de um percurso de raciocínio e reflexão, que foi evoluindo ao longo do tempo e determinou a sua progressão como homem e artista.

        Speaker: Maria do Céu Estibeira (Universidade Nova)
    • 18:15 19:15
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:15
        O campo editorial galego de 2003 a 2019: uma aproximação empírica e relacional 15m

        A comunicação proposta estuda a produção das editoras incorporadas ao campo editorial galego desde o ano 2003. O estudo destas iniciativas editoriais é feito mediante uma metodologia empírica e relacional, empregando uma ferramenta desenhada especificamente ao efeito: uma base de dados (BD) de livro em galego entre 1978 e 2019, pensada para dar cobertura a um projeto académico em andamento, cujo objetivo é estudar a construção e funcionamento do campo editorial galego historicamente considerado, a começar pelo período autonómico.

        A aproximação ao nosso objeto de estudo é estruturada em três partes. Em primeiro lugar, são explicados os processos de desenho, importação e fixação de referências e construção da base de dados. Em segundo lugar, é fixado o estado do conhecimento sobre o campo editorial galego no período 2003-2019. Por último, são feitas algumas abordagens quantitativas e qualitativas sobre os dados fornecidos pela base de dados na atualidade, como teste das potencialidades da ferramenta para aprofundar no conhecimento do campo editorial galego.

        Os processos apontados acima permitem extrair várias conclusões. Primeiramente, constatamos que o estado dos dados bibliográficos fornecidos pelos catálogos que servem de fonte à nossa ferramenta é muito precário: a informação está muito dispersa e pouco acessível ao pessoal investigador, embora sendo essencialmente pública. Ante este défice, o projeto académico em que se insere esta comunicação trabalha em disponibilizar publicamente estas informações.

        Por outra parte, comprovamos que o desenho da base de dados preenche as nossas necessidades presentes e dá cobertura a abordagens qualitativas, quantitativas e relacionais de diverso tipo. A ferramenta permite contrastar as hipóteses colocadas no estado da questão e descrever a produção das editoras em foco quanto a diversos parâmetros, tais como o ritmo de incorporação ao campo, os volumes de produção,a tipologia da produção, os agentes envolvidos no campo e o papel da tradução nele. Neste sentido, os resultados destas abordagens oferecem uma primeira aproximação a este subcampo editorial, apontando para a alta diversificação da sua produção, a relativa independência do mercado e das instituições das editoras envolvidas, a predominância da narrativa e a literatura infanto-juvenil, a existência dum leque variado de línguas desde as quais são traduzidos os materiais, ou o viés de género no número de produtores e produtoras e nos repertórios que cultivam.

        Finalmente, verificamos que a base de dados possibilita a proposição de várias hipóteses susceptíveis de serem respondidas em trabalhos futuros. Estas hipóteses atingem o grau de profissionalização das editoras da nossa população, o papel desempenhado pelo associacionismo num campo editorial galego muito fragmentado, ou as características e estratégias implementadas por um conjunto numeroso de editoras que acumulam um volume relativamente baixo de produção, mas que garantem para si um mercado relativamente restrito em base a pessoas subscritoras ou associadas.

        Speaker: Lucia Cernadas
      • 18:30
        Conhecimento prévio e prática cultural de brasileir@s em Santiago de Compostela 15m

        Com o fenómeno de O Diário de um Mago de Paulo Coelho à frente, o Caminho de Santiago e a cidade têm gerado nos últimos tempos uma importante produção cultural no Brasil. No âmbito do romance registram-se, entre outros, O enigma de Compostela, de A.J. Barros, editado em 2009 na Geração Editorial, de São Paulo e O Descaminho de Santiago, de Sílvio Piresh, publicado em 2010 na Editora Limiar de São Paulo, além das reedições de O Diário de um mago, publicado inicialmente em 1987, e, mesmo, de O Alquimista (1988), ambos primeiro editados pela Rocco, a que podemos somar umha trilogia genericamente intitulada Os Cavaleiros de Santiago, em três volumes (Conspiração, 2007; Salvatierra, 2008; O Templário, 2009), publicado pola Editora Corifeu, do Rio de Janeiro.

        A obra de Coelho atua também como referência para visitantes brasileiros à Galiza. No âmbito de dous projetos de investigação, subordinados aos títulos “Discursos, imagens e práticas culturais sobre Santiago de Compostela como meta dos Caminhos de Santiago” (2012-2016) e “Narrativas, usos e consumos de visitantes como aliados ou ameaças para o bem-estar da comunidade local: o caso de Santiago de Compostela” (2018-2021, foi feito um trabalho de campo sobre visitantes procedentes do Brasil a Santiago de Compostela, entre março de 2013 e abril de 2014 diária e ininterruptamente. Foram 396 entrevistas pessoal com questionário estruturado e um nível de confiança de 95 %; p = q = 0,5 e mostragem de conveniência, a que foi unidas 59 entrevistas em profundidade, semi-estruturadas. 53,3% de pessoas entrevistadas afirmaram ter lido ou visto algum filme sobre o Caminho e/ou Santiago de Compostela

        Forom explicitamente citados 130 livros (alguma pessoa citou mais de um), dos quais, 111 de ficção. Dentro deles, 104 eram textos de Paulo Coelho (48 O Diário de um Mago; 56 O Alquimista) e apenas 7 doutra autoria. O número de citação de livros de ficção supera outros tipos: não ficção (guias e outros) 19; o áudio-visual 79 (43 filmes, 1 série de ficção e 18 reportagens e 17 documentários).

        Sobre esta base e outras manifestações do conhecimento prévio sobre a cidade e o Caminho, a presente comunicação oferece uma análise do repertório de Coelho e o seu contraste com as práticas culturais de visitantes do Brasil na cidade. Conclui-se que os textos de Coelho constituem uma das três Macro-narrativas fortes sobre o Caminho e a cidade (juntamente com as da Igreja Católica e a UNESCO, com as quais tem pontos relevantes de convergência) e é homóloga, de modo importante, dos comportamentos e das práticas culturais, de uso e consumo na cidade, por parte das pessoas visitantes do Brasil. Estas homologias são as que, igualmente, serão apresentadas.

        Speaker: Elias J. Torres Feijó (Rede Galabra (Universidade de Santiago de Compostela))
      • 18:45
        Fatores para a identificação de uma eventual comunidade afetiva galego-portuguesa-brasileira na comunidade local e em visitantes a Santiago de Compostela 15m

        No contexto dos projetos de pesquisa “Discursos, imagens e práticas culturais sobre Santiago de Compostela como meta dos Caminhos de Santiago” (2012-2016) e “Narrativas, usos e consumos de visitantes como aliados ou ameaças para o bem-estar da comunidade local: o caso de Santiago de Compostela” (2018-2021) foi feito um levantamento por meio de questionários e entrevistas entre pessoas visitantes procedentes da Galiza, Espanha, Portugal e Brasil, pessoas residentes em Santiago de Compostela (comunidade local) e comerciantes da cidade. Com o intuito de observar os efeitos sobre a comunidade do turismo vinculado ao Caminho de Santiago, o trabalho de campo pretendia ancorar as percepções que as pessoas participantes da pesquisa manifestavam em relação a diferentes dimensões identitárias e culturais, num entendimento alargado de cultura, e as suas eventuais modificações positivas ou negativas.
        Dentre os resultados desse levantamento, procuramos analisar neste trabalho os elementos que poderiam ser indicativos de uma eventual comunidade percebida galego-portuguesa-brasileira, constituindo-se esta apresentação num desenvolvimento e reelaboração de algumas das questões preliminares abordadas em “A existência de uma comunidade luso-galega como elemento afetivo nas visitas a Santiago de Compostela procedentes de Portugal: primeiros resultados através de inquéritos quantitativo-qualitativos” (2015). Naquele artigo foi detectada a evocação de um senso de comunidade (principalmente na percepção de similaridades entre Galiza e Portugal e na relação linguística), mas ficaram pendentes outros elementos afetivos e culturais como a gastronomia. Iremos agora aprofundar nestes elementos e alargar o nosso corpus às pessoas visitantes procedentes do Brasil para verificar ou refutar quatro hipóteses fundamentalmente:
        (1) Existe uma afetividade diferencial entre a Galiza e o Brasil por parte de visitantes procedentes do Brasil;
        (2) não existe uma afetividade diferencial entre a Galiza e o Brasil, mas uma percepção de comunidade entre Galiza e Portugal por parte de visitantes do Brasil;
        (3) Existe uma afetividade diferencial por parte da comunidade local em relação a visitantes procedentes do Brasil;
        (4) existe uma afetividade diferencial por parte da comunidade local em relação a visitantes procedentes de Portugal.
        As razões que justificam a procura destes indicadores são, fundamentalmente, a relevância quantitativa dos contingentes português e brasileiro no conjunto das pessoas que visitam Santiago de Compostela como resultado de uma peregrinação no Caminho ou não, além de motivos históricos e linguísticos que são reconstruídos e discutidos n o desenvolvimento deste trabalho.
        São objetivos deste artigo, também, a definição instrumental dos conceitos discurso, comunidade e afetividade, a partir do entendimento fixado no contexto do projeto tanto nesta como em anteriores publicações.

        Speaker: Raquel Bello Vázquez (UniRitter)
    • 18:15 19:15
      Sala virtual 04: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 4 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 18:15
        Sotaque e identidade: perspectivas de resgate da memória histórica através da documentação da entoação no espaço lusófono 15m

        A consciência da norma linguística coloca as línguas de superstato como polos atratores em posição de prestígio nos espaços de mistigenação linguística, levando a fenômenos como a descrioulização e a estandardização. Todavia, existe um nível linguístico onde tal processo é menos consciente, não é transcrito nem oficialmente normatizado, tornando tais influências padronizadoras, além da própria percepção do padrão, sujeitas a mecanismos distintos. Se trata da entoação: o uso da variação da altura melódica ao longo da fala para sinalizar diferentes modalidades e tipos pragmáticos de sentença. Se o falante de uma língua tonal tende a aprender uma língua entoacional com sua própria entoação (UEYAMA & JUN 1998, NGUYÊN et al. 2008), a saber, pela “imitação” dos padrões melódicos “alvo”, vários estudos (MENNEN 2004, RASIER & HILIGSMAN 2007, SWERTS & ZERBIAN 2010, SICHEL-BAZIN 2015) sugerem que, no contato entre línguas entoacionais, atua o mecanismo de transferência da entoação de substrato para a língua-alvo, criando assim variedades L2 desta. Todavia, tal mecanismo não atua uniformemente, podendo existir uma atração pela entoação da língua alvo, ou diretamente por imitação, ou após transferência dos contornos nativos, por acomodação (GILES 1989; GILES, COUPLAND and COUPLAND 1991; GASORIEK et al. 2015) que resulta em convergência e estandardização entoacional. Alguns estudos sugerem que a convergência entoacional é sensível ao tipo pragmático da sentença (BARONE 2020). Entendemos que, no uso da entoação, o falante é reconhecido pelo seu sotaque e procedência; contudo, existem dimensões de interação ou deslocamento, mais frequentemente internacionais, onde o falante pode decidir, sem ser estigmatizado, manter a identificação com sua entoação originária. O presente trabalho debate as possibilidades de 4 projetos (2 em andamento e 2 de mais longo alcance) de documentação da entoação de variedades não nativas de português em contato: português de Timor Leste, português caboverdiano, português regional brasileiro e português indígena brasileiro. Em Timor Leste o português é língua L2 ou L3 em contato com línguas nativas austronesianas, papuásicas e com a língua mista nacional Tétum-Praça, cujo estado de língua entoacional também parece depender do substrato nativo do falante. Junto a falantes não fluentes em português a entoação é dificilmente reconhecível, enquanto a maioria dos falantes fluentes moraram em outras terras lusófonas e geralmente aprendem a entoação do lugar, tornando difícil a identificação de um sistema entoacional do português timorense. O português caboverdiano possui como língua de substrato um crioulo da alta guiné, provavelmente entoacional, por ter sido influenciado pelo wolof, uma língua entoacional (RIALLAND & ROBERT 2001). Um estudo preliminar sobre caboverdianos no Brasil sugere que, na sua fala, coexistem contornos transferidos do crioulo e contornos adquiridos no Brasil. Mais de 200 línguas africanas pisaram em solo brasileiro (LUCCHESI 2008), das quais já não existe quase vestígio: como a entoação não possui efeito normatizador-centralizador, acreditamos que uma documentação paralela da entoação do português atual das regiões brasileiras de maior presença africana, comunidades quilombolas, e das línguas africanas atuais poderá trazer informações genéticas conectando semelhanças entre sistemas entoacionais transferidos entre línguas distintas. A documentação da entoação do português de comunidades indígenas que já perderam sua língua, mas cujos falantes mais idosos, no português, apresentam, para certos tipos de frases, contornos melódicos ausentes na fala dos locais não indígenas, poderá trazer informação genética relevante que ajudaria a lançar mão, confirmar ou refutar hipóteses de parentesco e classificação tipológica.

        Speaker: Marco Barone (Universidade Federal de Pernambuco)
      • 18:30
        Pluricentrismo, (d)estandardização e restandardização no português contemporâneo 15m

        Apesar de terem sido completa e inexplicavelmente ignorados em algumas recentes publicações internacionais dedicadas à sociolinguística românica (cf. Ayres-Bennett and Carruthers, 2018), os países lusófonos constituem um dos mais interessantes laboratórios sociolinguísticos da atualidade, abrangendo no seu interior um emaranhado de questões inerentes à identidade linguística das várias comunidades de fala e ainda parcialmente à espera de equacionamentos teóricos e pesquisas mais aprofundados. Em particular no que diz respeito a certos conceitos-chave da sociolinguística variacionista contemporânea, tal como o de pluricentrismo - que tem estimulado ao longo dos últimos anos uma ampla reflexão crítica (Silva 2014, Muhr 2016 e 2018), inclusive em torno da adequação das categorias tradicionais para lidar, por exemplo, com os novos problemas emergentes dos novos contextos de variação em nível nacional – ou a mesma, velha noção de norma-padrão que, para além do importantíssimo debate acadêmico e pedagógico suscitado em especial no Brasil, talvez possa ser repensada também em função não só das suas tendências evolutivas em relação a cada uma das variedades nacionais da Lusofonia, como também das implicações que essas dinâmicas podem vir a ter no processo de construção de uma eventual supranorma internacional do português. Se, de fato, a ideia do pluricentrismo supostamente prototípico e simétrico da língua portuguesa, conforme o modelo pioneiro de Clyne (1992), sofreu progressivos e oportunos ajustes que levaram a um redimensionamento desse estatuto pluricêntrico nos termos de um efetivo bicentrismo luso-brasileiro, resta contudo redefinir melhor a contribuição desses dois padrões com vistas a uma rearticulação, interna e externa (isto é, estendida inclusive a todos os membros da CPLP), dos mecanismos que presidem à postulada e ainda hoje desejada estandardização pluricêntrica da língua portuguesa. Aliás, levando em conta o caráter multifatorial da noção de padrão linguístico, nem sempre é facil responder em que deveria assentar a existência de um centro padronizador autônomo, a saber, qual o grau de endonormatividade para tal exigido (mensurável, por exemplo, com base na escala proposta por Ammon 1989) ou quantas as variantes necessárias para marcar a diferença em relação às outras variedades, sem considerar a dificuldade em caraterizar, do ponto de vista qualitativo, essas diferenças. E também no tocante às normas já existentes, até que ponto elas são hoje, de certo modo, o resultado da tensão dialética entre forças antitêticas atuantes no interior de cada uma delas, embora em porcentagens diversas, ou seja, entre “destandardização” e “restandardização”, conceitos que tomo emprestados da sociolinguística italiana e alemã (Berruto 1987, Mattheier, 1997), para dar conta dos específicos processos de reestruturação normativa atualmente presentes em Portugal e no Brasil? A partir, então, da refuncionalização de ferramentas teóricas “clássicas” capazes, porém, de integrar proficuamente as novas abordagens temáticas da sociolinguística contemporânea (Lebsanft-Tacke 2020), é a tais perguntas que essa comunicação pretende responder.

        Speaker: Roberto Mulinacci (Università di Bologna)
      • 18:45
        Políticas e mudanças linguísticas em Cabo Verde 15m

        Tendo sido negado às línguas crioulas o estatuto de línguas “normais”, estas são vistas como versões corruptas das línguas ditas superiores. Com isso, a concepção política da oposição errônea língua-dialeto. No senso comum é chamado erroneamente de dialeto por ser uma forma de comunicação desprestigiada e não utilizada em meios formais. Neste trabalho levantaremos algumas reflexões concernentes ao crioulo cabo-verdiano, um crioulo resultante da confluência do português com as línguas dos escravos africanos levados para o arquipélago. Sendo Cabo Verde parte da CPLP (Comunidade dos Países da Língua Portuguesa), torna se relevante reflexões e estudos sobre a língua crioula com a necessidade de apresentar a situação linguística dos povos recém–libertos da dominação colonial na sua convivência com a língua de prestígio (português) e com a Língua nacional ou nativa (crioulo cabo-verdiano). Este trabalho tem como objetivo analisar as políticas e mudanças linguísticas em Cabo Verde no seu contexto de bilinguismo e de diglossia, partindo da hipótese de que as medidas tomadas em relação às línguas colaboram para o prestígio da língua portuguesa (a oficial), o que gera um processo da descrioulização da língua cabo-verdiana (L1). Este processo faz com que a língua crioula se aproxime cada vez mais de seu superestrato linguístico. A língua, assim, passa a ter uma base menos basiletal (mais distanta da língua de prestígio) para adquirir uma base mais acroletal (mais próximo a língua de prestígio). Diante disso, valemo-nos de trabalhos na área de Sociolinguística, especialmente pesquisas referentes a políticas linguísticas, dentre as quais destacamos as de Calvet (1974; 2002), Labov (1976; 2008), Pennycook (2013), Severo (2013), Veiga (1988) e Duarte (2003). Compõem, também, o quadro teórico que fundamenta a presente pesquisa estudos sobre bilinguismo (VEIGA, 2000; 2004; DUARTE, 2003; FISHMAN, 1974) e code-switching (DABÈNE & MOORE, 1995; TREFFERS-DALLER, 2009). Para alcançar o objetivo da pesquisa, propomos analisar os documentos oficiais e, posteriormente, verificar alguns fenômenos como code-switching, morfologia flexional no sistema verbal, marcação de gênero e de número. Para isso, analisaremos alguns textos em língua cabo-verdiana verificando de que forma as transferências e mudanças linguísticas podem ocorrer e revelar embates provenientes de uma dimensão política considerando que que o caráter científico da linguística não deve se deter apenas em descrever os fatos, mas em ver uma linguística que, também, tem a sua dimensão política ao ponto de prescrever ações. Desta forma, o presente trabalho procura abordar as mudanças linguísticas compreendendo que a dimensão política sempre foi indissociável da língua tendo em conta que o homem, como um ser político, modifica-a.

        Speaker: Prof. Diltino Ferreira (Universidade Federal do Cerará)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 00: Apresentação de trabalhos

      Sessões de trabalhos a decorrer na sala A

      • 13:00
        Imagens de sonho de uma primavera incerta 15m

        As manifestações ocorridas no Brasil em 2013 têm sido cenário de uma série de produções literárias. Dentre elas, escolhemos como objeto de análise o romance Enigmas da primavera (2015), de João Almino, por considerarmos que nele o autor expande o tratamento desses eventos que transformaram a vida política brasileira, ao inseri-los na conjuntura mundial de protestos ocorridos, desde 2011, em várias partes do mundo, e vinculá-los também aos ideais que levaram às revoltas estudantis de 1968. Como sabemos, as manifestações de 2013 participam de um quadro mais vasto de movimentos anti-hegemônicos ocorridos em vários lugares a partir de 2011, como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados da Porta do Sol, na Espanha, os protestos estudantis ocorridos no Chile, etc. Tais rebeliões apresentam em comum a recusa aos institucionalizados canais de representação política e uma mudança na forma como são organizadas, sendo a ocupação do espaço público agora realizada de forma desierarquizada, por meio das redes sociais e dos dispositivos móveis de comunicação.
        Ao ampliar o foco para articular o local ao global, Almino, como diplomata e grande conhecedor da geopolítica mundial, constrói uma trama que lhe possibilita representar também os conflitos entre o mundo “ocidental” e o “oriental”, desconstruindo uma série de estereótipos que nos levam a novas interpretações sobre o que está em jogo no plano político, na contemporaneidade. Ao colocar em cena as angústias e os desejos de uma geração de jovens ansiosos por se transformarem em agentes de transformação do mundo, o romance evidencia como o campo dos possíveis se abre a partir de pequenos acontecimentos cujos resultados são bastante incertos, uma vez que, do exercício da liberdade pode advir não apenas a concretização dos sonhos que os impulsionaram a tomar as ruas, mas também o reforço de ressentimentos, preconceitos e fundamentalismos.
        Nesse sentido, a exposição Continuarà, que a artista franco-bósnia Maja Bajević realizou em 2011, em Madri, e que é explicitamente citada no romance, é tomada, em nossa análise, como uma metáfora da luta pela radicalização da democracia que, periódica e subitamente, irrompe em várias partes do mundo. Nela, a performer seleciona 5 acontecimentos que, nos 100 anos que antecedem a exposição, promoveram uma mudança de rumos na história, projetando os lemas que sustentaram tais eventos, de forma a evidenciar que essas palavras de ordem, infelizmente, também se abrem a uma reapropriação que, a depender do contexto, pode levá-las a adquirir um sentido inverso ao pretendido.
        Para subsidiar nossa leitura, retomaremos o conceito de “imagens de sonho”, de Walter Benjamin, de “multidão”, de Antonio Negri e Michael Hardt, e a análise empreendida por Georges Didi-Huberman sobre o tema dos levantes, no livro Désirer désobeir. Também lançaremos mão de outras obras que estudam os eventos tratados no romance, tentando demonstrar que a literatura, lida a partir de uma perspectiva interdisciplinar, constitui-se, também, como uma imprescindível forma de conhecimento e de transformação da realidade em que vivemos.

        Speaker: Rachel Esteves Lima (Universidade Federal da Bahia - UFBA)
      • 13:15
        A ficção brasileira contemporânea como mediadora de conflitos pelo domínio do discurso político 15m

        A comunicação é construída sobre a base da metáfora dos conflitos por fronteiras territoriais. Antes do surgimento e da popularização das plataformas eletrônicas de comunicação, a produção e a reprodução do discurso sobre a política no Brasil estiveram tranquilamente a cargo de atores bem definidos e facilmente reconhecíveis, como os veículos de imprensa, os partidos políticos, os políticos eleitos, os intelectuais de modo geral e os cientistas sociais de maneira específica e os artistas de visibilidade nacional, entre outros. Desde o início da última década, com a democratização do acesso à internet e a multiplicação de plataformas digitais de interação social sem regras rígidas de mediação, o discurso político anteriormente circunscrito aos ambientes domésticos e círculos sociais restritos, como o local de trabalho, o grupo religioso, os clubes sociais e esportivos, os bares e os cafés, começou a ocupar cada vez mais espaço e, na atualidade, disputa com os antigos produtores discursivos reconhecidos não somente visibilidade e audiência, como também a própria autoridade e o estatuto da verdade. Dessa fronteira em constante disputa, resultam verdadeiras guerras discursivas que, com a contribuição deliberada ou não de outros fenômenos contemporâneos de comunicação como as fake news e a pós-verdade, embaralham os papéis sociais e lançam o discurso político num torvelinho capaz de multiplicar exponencialmente as guerras das narrativas sem que se apresente qualquer marco de mediação. A literatura, como discurso estético de indiscutível potência política e social, percebe-se igualmente arremessada nesse abismo, e é do interior dessa cacofonia que os autores contemporâneos buscam organizar seu discurso e se fazerem ouvir. Qual a possibilidade de se pensar a literatura contemporânea como mediadora de discursos singulares e discrepantes sem se reduzir a apenas mais um grito efêmero das multidões falantes do século XXI? Nesta comunicação, busco investigar essa pergunta com o apoio de dois romances brasileiros publicados no ano de 2020, a saber, A tensão superficial do tempo, de Cristóvão Tezza, e Solução de dois estados, de Michel Laub. Trata-se de obras que trazem para o discurso literário os embates de narrativas que funcionam, já há alguns anos, como a base - nem sempre sustentada por elementos da realidade verificável - do debate político contemporâneo no Brasil, perpassando desde as relações familiares e as manifestações pessoais nas redes sociais até chegar a posicionamentos públicos de representantes eleitos ou de veículos da grande imprensa nacional.

        Speaker: Anderson Bastos Martins (Universidade Federal de Juiz de Fora)
      • 13:30
        Heterotopia à flor da pele, histórias de corpos e afetos 15m

        No Brasil, a necessária e continuada discussão racial se amplia e se adensa. Nos campos da vida, que quer perdurar, a evidência de feridas abertas – resultantes do atávico envolvimento à agência colonial – perfaz-se em seriadas consequências aos viventes. Nesse início de 2021, tempo de uma extensa e abissal política de mortes e apagamentos, modalidades polarizadas de projetos biopolíticos coexistem em guerra desigual e sem esperança de algum tipo de síntese. Aos olhos, escancaradas divisões: a primeira é a do campo da política hegemônica, que aterroriza, por meio da necropolítica aberrante, e que possui várias consequências e alcances, tanto nas intenções, como em inusitadas formas de produzir mortes, serial e maquinalmente (basta lembrar que estamos vivendo a maior epidemia planetária e que o Brasil é o segundo país com mais mortes); a segunda divisão refere-se a pautas estabelecidas em alguns estudos das ciências humanas, mais ou menos afetadas pelas múltiplas realidades, encarnadas e expressas em diferentes narrativas e plataformas de denúncia do mal-estar do presente, em busca de sua superação. Em conformidade com essa segunda divisão, há uma efervescente reação advinda de coletividades e movimentos direcionadores de demandas e estudos das práticas de si, vinculados a pensamentos/reflexões, bem como a tecnologias dos cuidados, que forçam a saída da obtusidade e do apagamento de questões raciais, ao criticar a figura do homem universal, este direcionado a um metafísico vivente funcional. É necessário e exigido, como política de vida, encontrar o corpo vivo, singularizado, aquele que conta, que se conta trazendo histórias estabelecedoras de realidades expressivas e interpretativas baseadas em outras epistemologias. Jeferson Tenório, em seu livro O avesso da pele (2020), exibe esses encaminhamentos que, muitas vezes, no curto-circuito, poderão oferecer condição de garantia de mais vida às pessoas negras, como na advertência da personagem do pai, orientando o filho a pactuar com um necessário avesso de si, em que é vital conectar-se a uma realidade de afetos, para não se consumir e desaparecer nas tramas raciais aprisionadoras. Esse avesso constitui um lugar heterotópico, absolutamente outro, que será o grau zero a ser discutido e problematizado no trabalho que nos propomos apresentar. Um lugar que, em conformidade com Michel Foucault, ao não possuir uma dimensão tópica e/ou quantificável, oximoricamente não é a suspeita metafísica ora descartada, mas, sim, espaço de possiblidades geradoras de novas forças de resistência e interpretação. Nossa proposta consiste em percorrer um trajeto combinatório de cenas da literatura de Tenório, com alguns frames de outras invenções inscritas e disponibilizadas na nossa história de país/mundo (i/mundo), que não conhece a trégua, pois se esparrama entre a resistência enfrentadora e as insistências das constrições mortíferas.

        Speaker: Prof. Anna Amélia de Faria (Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:00
        A grande travessia 15m

        Talvez se possa dizer que o deslocamento mais evidente realizado pela literatura brasileira a partir de 1970 esteja atrelado àquele que levou os brasileiros do meio rural para as cidades. O país se urbanizou em um período muito curto – o censo de 1960 registrava 45% de brasileiros vivendo em cidades, número que chegaria a 56% em 1970, 67,7% em 1980 e 84,4% em 2010 – e a nossa literatura acompanhou essa migração, expressando de modo menos ou mais direto as dificuldades de adaptação, a perda dos referenciais e os problemas novos que foram surgindo com a desterritorialização. Assim, o espaço da narrativa brasileira atual é essencialmente urbano ou, melhor, é a grande cidade, deixando para trás tanto o mundo rural quanto os vilarejos interioranos e, por consequência, muito da discussão sobre as desigualdades e a violência no campo. A intenção, aqui, é discutir algumas das estratégias literárias utilizadas para a representação desse movimento, observando, ainda, o percurso inverso, ou seja, um certo conjunto de obras muito recentes que vêm transportando suas personagens (a maior parte delas já urbanas) de volta para o meio rural.

        Speaker: Regina Dalcastagné (Universidade de Brasília)
      • 13:15
        A cena carioca nas obras de Lima Barreto: lugares e formas de convivência 15m

        No início do século XX, o Rio de Janeiro consolida o seu protagonismo, na medida em que, sendo a capital, exerce poderosa força centrípeta, que magnetiza cidadãos dos diversos cantos do país, em especial os que têm interesses e atributos especiais para as atividades governamentais. Neste aspecto, por ter sido o locus do cruzamento de informações, tanto por seu papel nacional, como pelo de representante do país no cenário internacional, a cidade acaba por se transformar no centro absoluto da vida política e cultural do Brasil, razão pela qual é utilizada como parâmetro e modelo de desenvolvimento das instituições sociopolíticas e econômicas da nação.

        O processo de urbanização do Rio de Janeiro, a partir de 1870, intensificado pelas mudanças trazidas com a República, especialmente no período de Pereira Passos, fez com que o hábito da rua se disseminasse nos principais setores da sociedade carioca. A cidade, a partir de então, vence a resistência da família em frequentar a rua, que passa a ser pressionada pela urbanização intensa, no intuito de ultrapassar as fronteiras privadas da vida doméstica, em especial após os irresistíveis atrativos para o uso do espaço público, oportunizados quando da grande reforma urbana perpetrada na primeira década do século XX.

        Com a inauguração da Avenida Central em 1905, por exemplo, mudaram-se os hábitos e costumes das famílias de forma significativa. Por meio dela, conjugou-se na cidade a definitiva concretização do ideário iluminista, repercutindo na afirmação do hábito de construção de uma extensa malha de relações sociais – ainda mais visível a partir da chegada de novas tecnologias, como o cinema, o automóvel e o ônibus – que iria tudo revolucionar e modificar os costumes urbanos. Tornou-se, portanto, o símbolo da cidade civilizada, exibindo a Escola de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, o Supremo Tribunal, o Palácio Monroe, o Teatro Municipal, clubes, hotéis, grandes companhias empresariais e comércio de luxo, que promoviam as pazes entre a cidade e a família de elite, outrora descontente com as más condições do espaço público, conforme verificado em vários relatos destacados dos principais jornais do país

        O Rio de Janeiro teve em Lima Barreto um de seus principais cronistas. O autor de “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” vivenciou diversas mudanças que ocorreram na cidade, descritas em suas obras, tais como a Reforma Pereira Passos, a construção do novo porto, o começo da expansão da cidade em direção à Zona Sul e outras transformações. Lima Barreto foi um dos primeiros a exaltar os bairros do subúrbio. Sua obra é um registro literário e histórico do Rio de Janeiro.

        Portanto, a partir dos principais personagens descritos nas obras do escritor, o propósito deste trabalho consiste em analisar as perspectivas de apreensão e usufruto exercidos pelo autor sobre o espaço de convivência urbana, destacando-se principalmente a crítica social subjacente. Afinal, as obras de Lima Barreto descortinam um cenário interessante para o olhar do leitor do terceiro milênio: patriarcal, pouco urbanizado, com forte herança colonial e, sobretudo, completamente desigual. A pobreza miserável ao lado da ociosidade da riqueza, as contradições raciais. Não faltou, à Lima Barreto, pena crítica ferina e elegante ao desenho da vida no Rio de Janeiro.

        Speaker: Benedicto Gonçalves Patrão (Universidade Federal Fluminense)
      • 13:30
        Uma flor nasceu na rua: laços e afetos em espaços de exclusão 15m

        O presente trabalho tem por objetivo analisar de que forma se constituem as relações afetivas projetadas a partir da figura da mãe desenhadas nos contos “Reza de mãe”, do jovem escritor paulista Allan da Rosa e “Nossas mães”, do baiano Jônatas Conceição em meio a cenários de absolutas carências, desamparo e negligência sociais impostos pelo poder público nacional.
        Os autores propõem formulações estéticas em que se percebe claramente que o ético é fator determinante para seus projetos literários, pois procuram problematizar e tensionar questões cruciais que se referem à experiência dos que ocupam as franjas da sociedade. Desta forma, eliminam barreiras que foram construídas historicamente e, no percurso, acabam por idealizar, no plano do imaginário, uma saída possível à manutenção de preconceitos e ao emparedamento da experiência de pobres e negros nos discursos hegemônicos que ainda prevalecem em nossa sociedade.
        É instigante notar como estão colocadas as contradições das relações raciais de um país marcado por um capitalismo dependente como denomina o sociólogo Clóvis Moura (MOURA, 1988). No entanto, Allan da Rosa e Jônatas Conceição ultrapassam esse postulado e condição ao acentuarem a delicadeza, a afetividade e a solidariedade que marcam a experiência materna e cujo desabrochar parece surpreender e encantar ao mesmo tempo.

        Speaker: Rosangela Sarteschi (USP - FFLCH / Depto Letras Clássicas e Vernáculas)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:00
        Fotografias e memórias de Moçambique em A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge e Caderno de Memorias Coloniais de Isabela Figueiredo 15m

        Este artigo debruça-se sobre a conexão íntima entre fotografias e a manutenção da memória sobre a Guerra Colonial em Moçambique (1961-74) e suas consequências imediatas. Essa relação será examinada através de fotografias da época de guerra ficcionadas por Jorge em A Costa dos Murmúrios (1988) e das fotografias de infância incluídas por Figueiredo em Caderno de Memorias Coloniais (2009). O trabalho de Hirsch (2008) sobre fotografias como um meio para herança de memória será empregue com respeito a ambas as autoras, juntamente com a pesquisa de Hill (1997) sobre o conceito de cor (whiteness, ou seja, branquitude).

        As fotografias têm o poder de preservar verdades ocultas. Este artigo focará a forma como as fotografias de Jorge expõem os crimes de guerra praticados pelos Portugueses e a realidade brutal da própria guerra, forçando o leitor a navegar na relação entre saber e não saber. Num primeiro momento, a ênfase será colocada nas fotografias descobertas pela protagonista Eva Lopo, revelando a participação de seu marido Alex Luís nos crimes de guerra em Moçambique. A forma como essas fotos rompem a narrativa oficial da guerra será explorada, juntamente com seu papel em questionar a memória fraudulenta e o valor de testemunho pessoal. O uso dessas fotografias inquietantes encoraja-nos a considerar o tipo de narrativa que é autenticada e lembrada através da fotografia, e a considerar o elemento performativo das fotografias, através do jogo de forças racial e de gênero.

        Muitas fotografias de infância agem como um lembrete nostálgico de um mundo perdido, com o objetivo de colmatar lacunas entre gerações. Este artigo, no entanto, examina num segundo momento o uso provocador das fotografias da infância de Figueiredo, que acompanham o retrato desconfortável de sua meninice na capital moçambicana de Lourenço Marques nas décadas de 60 e 70, e seu consequente ‘regresso’ a Portugal como uma retornada. As fotografias funcionam como uma crítica da memória da política colonial e do papel da sua própria família, incitando-nos a olhar além e "por trás" da lente da câmara para desmascarar o racismo e a violência do período colonial. Assim como no caso de Jorge, o elemento performativo das fotografias será investigado através de uma metodologia que assenta em teorizações de raça (Hill) e gênero (de Lauretis).

        Este artigo encerra questionando a possibilidade de ler essas fotografias, a fim de procurar respostas sobre a (re)construção da identidade familiar e pessoal, navegar a culpa colonial e, finalmente, expulsar os fantasmas imperialistas do passado.

        Speaker: Olivia Glaze (University of Oxford)
      • 13:15
        As Novas Cartas Portuguesas: as litterae nascem no género feminino 15m

        Em Maio de 1971, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa fizeram um pacto literário que deu origem a uma das obras mais difundidas e traduzidas por todo o mundo: As Novas Cartas Portuguesas. Em Abril de 1972, o livro seria publicado em Portugal com a chancela dos Estúdios Cor, sob a direcção literária de Natália Correia. Três dias após a sua publicação, a censura de Marcelo Caetano instaurou um processo judicial contra as três autoras por «conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório contra a moral pública». Uma das autoras pediu então a um amigo que levasse, clandestinamente, as Novas Cartas para o núcleo de feministas em Paris. O processo das «três Marias», como passaria a ser conhecido, levantou uma onda de solidariedade internacional, inspirou protestos, manifestações que tomariam proporções inimagináveis como a cobertura do julgamento por meios de comunicação como o Le Monde, New York Times, Nouvel Observateur, L'Express, Libération e muitos outros canais norte americanos. A polémica contou ainda com a defesa pública de Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, Christiane Rochefort, Iris Murdoch. O caso chegou mesmo a ser votado em Junho de 1973, numa Conferência da National Organization for Women (NOW) em Boston, como a primeira causa feminista internacional. Portugal ficava assim no palco do mundo e o seu regime político era alvo de escrutínio mediático.
        Este livro escrito a seis mãos é formado por 120 textos que dialogam e que se relacionam entre si, mas acima de tudo, que se questionam e complementam internamente. Entre cartas, poemas, relatórios, textos narrativos, ensaios, citações, retratam destemidamente uma sociedade marcada pela guerra colonial, pela emigração, pela assimetria social, pela violência contra os direitos das mulheres. As Novas Cartas portuguesas foram por isso um libelo contra a ideologia vigente no período pré-25 de Abril.
        Na concepção e composição da obra, as autors inspiraram-se no romance epistolar Lettres Portugaises, publicado anonimamente por Claude Barbin em 1669, apresentando uma tradução também anónima de cinco cartas de amor de Mariana Alcoforado, endereçadas a um oficial francês. Mariana era uma jovem freira enclausurada no convento de Beja.
        Estas três Marias – filhas de Antígona e comprometidas com uma forte dimensão política e social - desafiaram os poderes vigentes, (re)desenharam os papéis das mulheres, fundaram um neofeminismo de vanguarda, desestabilizaram as noções fixas de autoria e de autoridade, reequacionaram a noção de género literário, na senda da ruptura e da desconstrução de paradigmas impostos e vigentes. Esta obra antecipa por isso muitos dos posicionamentos literários, sociológicos e políticos que, nas décadas seguintes à sua publicação, seriam desenvolvidos em áreas de estudo como os Estudos feministas, os Estudos de Género, os Estudos Pós-Coloniais. Não se reduzem apenas a uma luta feminista pela afirmação da liberdade das mulheres, nem a um retrato histórico das movimentações de um mundo imperial e de dominação, nem tão pouco a uma mera descrição dos impulsos e vontades sexuais, ou a simples grito estético e inconformado de três escritoras. No entanto, as Novas Cartas Portuguesas não deixam de ser tudo isto amalgamado com tudo o resto que se possa afigurar aos olhos de cada leitor.
        O presente trabalho pretende lançar um olhar sobre todas estas polémicas, movimentações e enquadramentos histórico-culturais, dando enfoque à problematização de género literário, evidenciando as principais características estéticas e retóricas da obra.

        Speaker: Ana Martins (UNIVERSIDADE DE COIMBRA/UNIVERSIDADE DE RENNES 2)
      • 13:30
        A construção da alteridade humana e o não-humana na narrativa de Lobo Antunes 15m

        A composição do romance Até que as pedras se tornem mais leves que a água (2017), de António Lobo Antunes, tem a peculiaridade de engendrar a obsessão de lembranças do período da Guerra Colonial em África, marcado pela violência geradora de traumas que, mesmo transcorridas mais de quatro décadas, ainda não se apresentam curados, além de trazer para a narrativa elementos continuamente reiterados na obra ficcional do autor, como as evocações memorialísticas sobre a respectiva época. Nesse contexto, ao eleger como a principal linha articuladora do texto o antigo ritual português da matança do porco, o autor apresenta uma cena que nivela o colonizador, o sujeito colonial e o animal em um mesmo patamar, pois três corpos brutalmente abatidos estão subjugados pela violência deflagrada a cada um desses sujeitos: a matança do porco permeia a cultura e a tradição do interior de Portugal; um português, ex-alferes paraquedista, combatente em Angola, é assassinado pelo filho adotivo africano, trazido de sua aldeia natal para Lisboa, há mais de quarenta anos, como uma espécie de condecoração de guerra; este, por sua vez, após assassinar o pai de criação, é executado pelos que presenciaram a cena com a mesma faca utilizada para matar o porco. A reflexão sobre a construção da alteridade, na perspectiva desenvolvida por Ricoeur em O si-mesmo como um outro, permite que seja desenvolvida uma análise sobre as projeções do “eu” e do “outro” que, no romance, podem ser contempladas tanto sob o viés humano quanto não-humano, uma vez que, continuamente, o narrador destaca a empatia das personagens sobre o sofrimento animal, utilizando as circunstância que envolvem a violência no processo abatimento do porco, para encadear suas reflexões sobre a guerra e desumanização dos indivíduos. Nesse contexto, as representações alteritárias podem ser alinhadas ao conceito de senciência que, segundo Singer (2010), consiste na capacidade dos seres, humanos e não-humanos, de sentir sensações e sentimentos de forma consciente: “[…] há pessoas a jurarem que os porcos são iguaizinhos à gente” (ANTUNES, 2017, p. 59). Até que as pedras se tornem mais leves que a água, portanto, ao abordar o trauma de guerra e sua aparente impossibilidade de cura, mesmo transcorridas várias décadas após as personagens terem deixado os campos de batalha em África, revela a empatia do narrador pelo sofrimento animal, ao questionar os princípios que regem às tradições, pois apresenta o mesmo de forma nivelada à dor humana.

        Palavras-chave: Senciência; Alteridade; Violência; Trauma; Lobo Antunes.

        Speaker: Tatiana Prevedello (Professora)
    • 13:00 14:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 13:00
        Apontamentos sobre a memória da resistência ao colonialismo nos documentários de Diana Andringa 15m

        Desde 2013, minhas pesquisas têm se voltado para obras literárias e fílmicas que refletem sobre os estertores do anacrônico projeto colonial português no século XX e o fim do imaginário imperial nessa cultura. Durante as investigações, entrei em contato com a produção documental da jornalista Diana Andringa, que se caracteriza por uma revisitação crítica do salazarismo, iniciada no período em que trabalhou na RTP, de 1978 a 2001, e que se acentua a partir de seu desligamento da emissora, quando passa a atuar como documentarista independente. Da primeira fase, destacam-se os documentários Goa, 20 anos depois (1981), Geração de 60 (1989), Aristides de Sousa Mendes, o cônsul injustiçado (1992) e Humberto Delgado, obviamente assassinaram-no (1994); os dois últimos realizados por Teresa Olga, com argumento de Diana Andringa. A partir de 2001, sobressaem os filmes relacionados ao passado colonial português: Timor, o sonho do crocodilo (2002), As duas faces da guerra (2007), em parceria com o cineasta guineense Flora Gomes, Dundo, memória colonial (2009), Tarrafal, memórias do campo da morte lenta (2010), Operação Angola: fugir para lutar (2015) e, recentemente, Guiné-Bissau: da memória ao futuro (2019). Uma visada neste corpus revela a coerência do conjunto da obra de Andringa, em sua atuação como documentarista na busca por resgatar personagens e fatos históricos silenciados durante o Estado Novo, desde o período em que atuava na RTP. A investigação sobre essa obra é o centro do projeto de pesquisa “Memórias da resistência na obra de Diana Andringa” (apoio BPE-Fapesp/2019-2021), que visa sistematizar e refletir sobre o papel de seus documentários no processo de revisitação do passado português no último século. Para o Congresso da AIL, em 2020, o objetivo é discutir parte dessa produção cujo enfoque se concentra nas memórias de resistência ao colonialismo nos países de língua oficial portuguesa em África. Como trata-se de documentários, provavelmente desconhecidos da maior parte do público que estará presente ao congresso, e não haverá tempo de falar de todos, pretendo centrar a análise nos últimos. O que se ressalta nos documentários já analisados por mim, mas ainda inéditos, pois aguardam publicação, As duas faces da guerra e Tarrafal, memórias do campo da morte lenta, é o modo como Andringa, a partir do retorno aos espaços africanos que foram locais de cerceamento da liberdade e de luta contra o colonialismo, conjuga imagens de arquivo, com as filmagens que faz desses espaços na atualidade, e entrevistas com personagens (muitos deles anônimos), que viveram e testemunharam parte importante da conquista da autonomia das ex-colônias africanas portuguesas. De fato, esses documentários são estruturados a partir do resgate de memórias individuais e da revisitação de cenários que foram palco de memórias plurais, narradas pelos entrevistados, que acabam por alimentar o resgate de um passado comum. É a partir dessas memórias pessoais, na diversidade e unidade que muitas vezes as caracterizam, que parte da História do colonialismo e da guerra da independência não desaparecerá no limbo do tempo.

        Speaker: Fátima Bueno (Universidade de São Paulo)
      • 13:15
        Presença do Imperialismo em Angola na narrativa de Ondjaki 15m

        Esta comunicação pretende abordar a presença estrangeira em solo angolano, explorando, principalmente, situações relacionadas ao conceito histórico de Imperialismo, aludidas nos seguintes romances de Ondjaki: Bom dia camaradas (2003), Quantas madrugadas tem a noite (2004), AvóDezanove e o segredo do soviético (2008) e Os transparentes (2012). Embora pertença a uma geração posterior de escritores, a ficção de Ondjaki busca se inserir em uma tradição literária que dialoga com autores, tais como Luandino Vieira, Paula Tavares, Manuel Rui, Pepetela, entre outros, cuja literatura costuma refletir também sobre questões históricas, sociais, políticas e culturais vivenciadas em Angola desde o período colonial português. O autor angolano Ondjaki nasceu em 1977, portanto dois anos após a conquista da independência de seu país, e sua escrita permite a interpretação de um constante balanço entre a expectativa das lutas de emancipação de Angola contra o império português e os destinos tomados pelo país africano após sua independência política. O foco narrativo tem um peso relevante entre as estratégias utilizadas por Ondjaki. Seus romances mimetizam vozes de narradores meninos, boêmios, autodiegéticos ou oniscientes, que influenciam diretamente a interpretação de cada história narrada. A cidade de Luanda é seu principal espaço literário e o presente diegético nos romances supracitados abrange desde o período que sucedeu a assunção do governo angolano pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), vindo até os dias atuais, contendo, ainda, algumas reflexões sobre um passado histórico mais remoto, além de ilações quanto aos rumos possíveis, ou não, para o futuro. Fora dos textos deliberadamente ficcionais, durante esse intervalo, a narrativa histórica registra um período de guerra civil em Angola que perdurou até a virada dos anos 2000. A conjuntura internacional passou por grandes transformações como, por exemplo: a dissolução da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, marcando o fim do período conhecido como Guerra Fria, e o discurso do presidente norte-americano Jorge H. W. Bush, que anunciava em 1990 uma nova ordem mundial, para citar somente algumas entre as mais emblemáticas. A presença estrangeira em Angola na narrativa de Ondjaki pode ser observada em recordações de infância de seus narradores, menções a fatos históricos datados e utilização de alegorias e metáforas a serem interpretadas por leitores mais atentos. A partir da leitura dos romances propostos se buscará identificar um paralelo entre ficção e narrativa histórica do país, relacionado às presenças estrangeiras, principalmente de cunho imperialista, e sua interferência na sociedade angolana. O cenário histórico a ser utilizado como arcabouço teórico, será construído a partir da contribuição dos pensadores Eric Hobsbawm e Boaventura de Sousa Santos, em suas considerações sobre o Imperialismo e, mais especificamente, o modelo português, sem prejuízo de se recorrer a outros teóricos sobre o assunto.

        Speaker: Renato dos Santos Pinto (UFF - Universidade Federal Fluminense (Brasil))
      • 13:30
        A Luta de Libertação e os Jovens Militares Africanos. O Caso de Moçambique 15m

        Se, porventura quisermos recuar na História de Moçambique, procurando nela sementes do nacionalismo, poderemos em sintonia com René Pélissier (2000:29) apontar um húmus feito de anónimos ou de personalidades, algumas delas esquecidas, onde essas sementes germinaram. E, é o próprio que categoricamente afirma que o estudo de um nacionalismo num Estado jovem oferece sempre matéria para reflexões construtivas ou para a legítima exaltação por parte de algumas pessoas, mas que sofre sempre de falta de bases sólidas quando se teima em ignorar o período imediatamente anterior. Segundo ele, é nas “histórias de reis negros” que jaz uma das chaves do actual nacionalismo africano, referindo a existência de convergência de finalidades, entre aqueles primeiros e os que, com outros meios, tomaram em mãos o seu facho.
        Por seu turno, Dalila Cabrita Mateus (1999:58) ao estudar a formação das elites fundadoras dos movimentos de libertação, aponta para a existência de uma minoria urbana oriunda sobretudo do sul de Moçambique, como tendo papel de destaque no emergir de um pensamento nacionalista, onde já seria evidente uma linha de demarcação entre colonizados e colonizadores. Refere a autora ser, nos inícios dos anos de 1930, o jornal O Brado Africano, o principal depositário das manifestações literárias dos precursores de uma consciência cultural nacionalista. Acrescenta que não são ainda, ao tempo, formuladas as exigências da independência nacional, constituindo esta fase um período de denúncia e exigência de direitos.
        Para Malyn Newitt (1997:450) pelo contrário, foi no estrangeiro que o nacionalismo moçambicano teve a sua origem. Segundo ele, esses movimentos incipientes conseguiram que pela primeira vez viesse à tona uma liderança moçambicana negra e onde foram testadas as ideias iniciais sobre o futuro do país.
        E, Amélia Neves de Souto (2007:141) a propósito de se defender a necessidade de se abordarem cuidadosamente os princípios de bom relacionamento com as populações, assinala que na realidade o que se verificava, era a existência de posições que traduziam aspectos contraditórios (convivência e diálogo versus desconfiança e violência), prosseguindo uma ideia sempre teorizada, embora com diferentes nuances ao longo dos tempos: a da necessidade de um domínio férreo por parte do Estado justificado pela colonização de uma raça inferior. E, eis que uma nova situação surge com o desencadeamento da luta pela independência. Por essa razão, refere que o início da guerra colonial foi precedido pelo despertar do sentimento nacionalista, surgido não só da situação social que caracterizava a maioria da população africana sujeita a sistemas de cultura obrigatória, ao shibalo, ao controlo da sua mobilidade geográfica, a elevados impostos (de palhota e de capitação), a discriminação social, como também à intensidade que assumiu a repressão a partir de finais dos anos de 1950.
        Vindo desde tempos ancestrais, emergindo de minorias urbanas dos anos de 1920/30, da população no seu geral (oprimida socialmente), oriundo da diáspora pelo mundo nos anos de 1950 e subsequentes, convergentes em Dar-es-Salam, na fundação da Frente de Libertação de Moçambique, pensamos que esse também era o sentimento nacionalista que norteava os jovens militantes nas fileiras do exército de libertação. Mas, que tipo de papel e qual foi a importância que tiveram esses jovens militares nessa luta? Qual a sua origem social? Quais eram as suas expectativas? A estas e a muitas outras questões, só poderá ser possível ir respondendo com o evoluir da nossa investigação.

        Speaker: Maria Copeto (Iscte-IUL)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 01: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 1 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra): figurações da fome na literatura brasileira 15m

        A proposta deste trabalho é recuperar, num primeiro momento, obras artísticas e literárias do Alto Modernismo que atrelaram o tema da fome no Brasil com o exercício da linguagem. Graciliano Ramos, Glauber Rocha, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Raduan Nassar, Bartolomeu Campos Queiróz, entre outros, são alguns exemplos de escritores que não caíram na "tentação do realismo" (Gianni Vattimo) ou nas "formas do falso"(Walnice Galvão), não insistiram na cor local, no pitoresco, no sentimento nativista, nem no objetivismo típico de certo naturalismo do século XIX.
        Desde o fim do programa institucional nacional "Fome Zero", que disponibilizou políticas públicas permanentes no combate da pobreza e da fome, o retrato do Brasil se alterou profundamente. Desgraçadamente a fome novamente assombra o país e uma galeria de famintos, como apelidou Glauber Rocha, se preocupa novamente com as questões relativas ao estômago. E essa questão reverbera em novas textualidades contemporâneas, como no recente romance "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior. Este livro será analisado aqui, na segunda parte desta comunicação, como uma espécie de filiação ambivalente e questionadora da primeira cena modernista brasileira, e como também potente dispositivo de insubordinação social e política, capaz de cavar fundo no regime escravagista brasileiro (do passado e do presente) ao propor linhas de fuga no que tange à miséria, a falta, a escassez, a fome.

        Speaker: Sabrina Sedlemayer (Universidade de Minas Gerais)
      • 14:15
        André patriarca? - Análise do narrador-personagem em Lavoura arcaica, de Raduan Nassar 15m

        O romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, consagrou-se entre a crítica brasileira como propositor de uma ruptura, materializada na voz do narrador André, em relação à tradição. O narrador-personagem se delineia para o leitor como um questionador dos dogmas propostos pela palavra paterna, a qual enxerga o mundo de maneira dual, descartando a polissemia da linguagem e da constituição dos sujeitos, e define o mundo a partir de uma concepção estrita de verdade. A crítica à moral paterna compreende, para André, a crítica ao patriarcalismo, a qual se expressa de maneira mais evidente no capítulo 24, quando alega que a família, composta pelo pai e pela mãe, três irmãos e quatro irmãs, estaria implícita e simbolicamente dividida em dois ramos: o masculino, encabeçado pelo pai e favorável à preservação dos costumes e valores familiares, e o feminino, iniciado na mãe e propositor da transgressão e da destruição dos textos dos antigos. O narrador se declara pertencente ao ramo feminino, sugerindo, assim, um afastamento em relação ao que significa, na cultural ocidental e cristã, desempenhar o papel delegado pela tradição à figura masculina.
        Se por um lado a postura subversiva de André se confirma em episódios tais como a concretização do ato incestuoso com a irmã Ana e no embate ideológico travado com o pai em torno da “Parábola do faminto”, por outro lado, há marcas formais no romance, como o imperante silêncio feminino e o elogio à figura do avô, que permitem a hipótese de que a narrativa a princípio transgressora seja constitutivamente dialética, reiterando e perpetuando em determinados momentos a própria ordem de dominação masculina que no nível do conteúdo denuncia. Tal proposta se orienta pelo pensamento de Theodor Adorno, para quem, na sociedade marcada pela barbárie, a representação não é possível, impossibilidade que se volta contra o próprio narrador, o qual se esforça por corrigir sua inevitável perspectiva.
        A ideia que se sobressai na narrativa é a de que André seria um portador das trevas, com potencial de derrubar os fundamentos da tradição, em contraste com a luz pregada pelo pai, em uma linguagem própria às metáforas bíblicas. No entanto, se de fato o jovem realiza um movimento de afastamento ao, materialmente, deixar o espaço doméstico glorificado pelo pai e buscar abrigo em prostíbulos e em um quarto de pensão onde dá vazão aos anseios da carne, é também ele quem, parafraseando Novalis, confessa ao leitor: “estamos indo sempre para casa”. Compreendendo a natureza antitética da obra de Nassar e em conformidade com a Teoria estética adorniana, segundo a qual o conteúdo histórico se sedimenta na obra de arte a partir da sua forma, propomos uma leitura de Lavoura arcaica pautada pela desconfiança em relação ao narrador-personagem. Para tal, nos centraremos na confrontação entre a configuração do André personagem, localizado no tempo do presente da ação, e a configuração do André narrador, localizado, por sua vez, no tempo do presente da narrativa; bem como na análise do tópico da culpa e de como ele é construído, abordado e manipulado por aquele que conta a história. A leitura estabelecerá, ainda, um diálogo com nomes da crítica brasileira, tais como Jaime Ginzburg, André Luís Rodrigues e Sabrina Sedlmayer, procurando compreender de que maneira o discurso do narrador da Lavoura tem sido acolhido ou rejeitado pelo campo dos estudos literários.

        Speaker: Leandra Postay (Universidade de São Paulo / Universität Bielefeld)
      • 14:30
        Lavoura arcaica: uma alegoria do Brasil e da colonialidade 15m

        Tomando o romance Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar, como uma obra que trata da relação entre homem e terra, a proposta dessa comunicação é estudá-lo como uma alegoria do Brasil para discutir a terra e seu passado de colonização e escravidão e a repetição do curso de violência que se estende sobre o corpo individual, coletivo e natural. A partir do desnudamento do funcionamento da violência estrutural que marca a história cultural e social brasileira, a alegoria de Brasil no romance de Nassar permite refletir também sobre a permanência e naturalização dessa cadeia de violência nas práticas de dominação que se estabelecem no período da colonização, se fortalecem na modernidade, e se consolidam no período ditatorial brasileiro, quando o romance foi pulicado, vigorando até o presente.
        Seguindo a observação de Antonio Saraiva, que vê na obra o desdobramento de diferentes leituras possíveis, entre elas a de uma saga familiar e uma elegia da violência, podemos estender essa saga e a referência à “casa” como metáforas para a história de um país marcado por uma opressão que remonta à discussão de “origem”. Nessa leitura, o romance de Nassar também levanta a discussão sobre o ordenamento biopolítico que distribui os corpos socialmente a partir da implementação de forças de autoridade e origem patriarcal.
        O romance opera a mobilização dos corpos e de uma literatura que altera os sentidos por meio da deformação e ressensibilização da linguagem, colocando em questão a noção de cultura pela via do corpo. Toca nas hierarquias e nas economias de vida e morte, expõe a engrenagem que sustenta o oprimido e as vidas sacrificáveis em um mecanismo que alimenta a cultura da violência, refletindo sobre as relações de poder, dominação e submissão pelas figuras de pai e filho. É no confronto entre seus discursos que o romance reivindica o lugar da fome e a história dos famintos e passa da exposição de uma estrutura familiar fraturada para a discussão simbólica entre autoridade e subserviência em estrutura político-econômica que se alimenta dessa ordem.
        Nessa linha de raciocínio, a antropofagia oswaldiana nos servirá como ponto de partida para pensar a desterritorialização e a decolonização do pensamento e propor uma reflexão de contra-colonização sobre a realidade brasileira. Considerando-a como uma rede de cruzamentos, uma força de deformação e abertura para a diferença e o ambivalente, a antropofagia se sustenta como uma das linhas de força para se pensar a literatura e a cultura nos séculos XX e XXI, carregando a tarefa de inserir-se no tempo histórico, mostrando as suas ruínas e recalques e a relação entre passado e presente, produzindo efeitos sobre nossa história cultural que possibilitam sua reavaliação e alteração.

        Speaker: Mayara Ribeiro Guimarães (UFPA)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 02: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 2 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Eduardo Lourenço e Agustina Bessa-Luís: vivências brasileiras 15m

        Esta proposta desloca o interesse de artigo anterior, “Agustina Bessa-Luís e Eduardo Lourenço: intérpretes do Brasil” (2017), centrado numa discussão acerca de diferentes percepções e entendimentos para as complexas relações Brasil-Portugal, ao longo de cinco séculos. Como as perguntas se renovam a cada vez que refletimos sobre tal fenômeno, voltamos a consultar depoimentos, entrevistas concedidas por intelectuais, escritores, como os citados acima. Durante as celebrações dos 500 anos, como culminância de declarações motivadas por muitas viagens “transatlânticas”, os discursos trataram de questões organizadas a partir de núcleos comuns: identidade nacional, sentimento de dependência, descolonização literária, solo linguístico com as diferenças que caracterizam dois falares, aproximados pelas idênticas estruturas. Apresenta-se um tema que integra as discussões, as vivências de leitura dos dois intelectuais portugueses, de obras e autores da Literatura Brasileira, através de textos reunidos em Do Brasil Fascínio e miragem (2015) em seleção de artigos como “Novos romances brasileiros”, “A Casa perdida”, “Dom Casmurro ou da Escrita como desconfiança. Re-leitura de Machado de Assis”, “Aquilino e Guimarães Rosa”, “Tão Brasil!”, “A Miragem brasileira” (Entrevista). Do colonialismo como nosso impensado (2014) oferece “A Morte de Colombo” e “Celebremos o Brasil”, este debate, uma vez que as funcionalidades do texto literário proporcionam leituras abertas ao cruzamento de diferentes percepções temporais para o que se nos apresenta como trocas frequentes entre escritores que cruzam o Atlântico, nas duas direções e ambas as culturas têm se beneficiado com as experiências concretas de serem ouvidos em suas propostas que poderiam sinalizar uma revisão diante de colonialismos sob outros formatos e trazidos à luz de discussões corajosas e alvissareiras. Das falas de Agustina Bessa-Luís (1922 - 2019), além das metaforizadas em textos ficcionais e em depoimentos de memória, selecionamos a seção “Outros textos”, acrescentados ao que consta de Breviário do Brasil (1991), para a edição ampliada de 2016, publicada pela Editora Tinta-da-China Brasil. As experiências escritas após várias demoras no Brasil, tanto de Eduardo Lourenço, quanto de Agustina Bessa-Luís, particularizam contatos com diferentes traços culturais do Brasil, o que proporciona a leitores de gerações recentes uma redescoberta, por outros olhos, por perspectivas amadurecidas, das complexas relações luso-brasileiras da História, Cultura, Literatura, sobretudo da leitura de discursos do que foi efetivamente evidenciado e vivido.

        Palavras-chave: Eduardo Lourenço - Agustina Bessa-Luís - Experiência - Cultura - Literatura

        Speaker: Odalice de Castro Silva (Universidade Federal do Ceará)
      • 14:15
        A realidade poética, ou a questão da poesia no pensamento crítico de Eduardo Lourenço 15m

        Um dos interesses de Eduardo Lourenço como pensador, para além estabelecer uma imagem crítica da literatura portuguesa, é a compressão do fenómeno poético, ou em termos mais radicais: uma decisão em torno do Poeta, figura a partir da qual o pensador português tenta legitimar o ato poético como realidade desconforme. Sabendo que eles, os poetas, são os que instituem, provavelmente, a verdadeira instância crítica em termos de sensibilidade (entre ver e dizer), Lourenço decide responder a questão desta “realidade” desde a palavra poética mesma –o que diz do muito respeito do carácter programático da sua postura crítica: “os Poetas seriam os meus guias e não os críticos”–, do que resulta uma aproximação crítica bem ontológica, bem como forma de assunção de certa estética negativa (Adorno). E é assim que em alguns artigos, inéditos até agora, aparece a ideia da escrita poética como acontecimento fundamentalmente crítico, quer dizer, entendendo a palavra poética, ao mesmo tempo irredutível e precária, num medio social que contemporaneamente afirma-se na imagem do cálculo e da utilidade normativa da linguagem. Por isso são os poetas aqueles que confrontam um imaginário de banalização –ou distração– cultural na conformação da sua ação poética e, na sua defesa, Lourenço fala-nos de eles em termos de heterogeneidade poética, do outrem, até adornianamente da poesia como aquilo não-idêntico: “em todos os tempos o Poeta apareceu ao não-Poeta” (em ‘A situação existencial do poeta’).
        Nesse sentido a comunicação tentará estudar o pensamento crítico de Eduardo Lourenço e, concretamente, –como sustenta Carlos Mendes de Sousa no estudo introdutório das Obras Completas (volume III: Tempo e poesia) na edição da Fundação Calouste Gulbenkian– esse “território denominado realidade poética”. Será, justamente, esse espaço crítico onde o pensador aproveita para ficar ligado ao pensamento filosófico de sempre (Heidegger, Platão, Aristóteles, pensamento romântico, Ortega y Gasset, María Zambrano), mas ao redor da margem do poético para, ao final, continuar pensando na última e essencial questão: qual é o lugar do poeta e o sentido da sua palavra na nossa realidade contemporânea, o que significa, ainda na tradição da Modernidade mais trágica, mais uma atualização da questão hölderliniana do "habitar poeticamente esta terra". Desta maneira, a proposta não trata só de visar estes trabalhos críticos, mas de dimensionar o pensamento poético e o caráter propriamente meta-reflexivo que deles surgem, ao mesmo tempo que remete contra certos tópicos teóricos da crítica literária (estruturalista) que, sobre estas mesmas questões, foram apresentados quase contemporaneamente.

        Speaker: Antonio Alías (Universidad de Granada)
      • 14:30
        "Não há ensaísmo feliz": Eduardo Lourenço no espelho de Montaigne 15m

        É Eduardo Lourenço quem afirma em Heterodoxia II: "O ensaio é a forma escrita do discurso virtual de uma existência que renunciou às certezas." É essa ausência da certeza que, para o autor, caracteriza o gênero e faz dele uma aposta sempre dificilmente conseguida, já que a sua elaboração é pressentida, na esfera do desejo, como falta absoluta.

        A proposta que trago é a de um espelhamento entre dois ensaístas: Eduardo Lourenço e Michel de Montaigne, e o faço inspirada pelo formato de coletânea de textos seus publicados em Paris, Eduardo Lourenço, une vie écrite (2015), cuja organização revela, numa espécie de incipit metatextual, a sua visão própria do gênero ensaístico, a que se segue, como concepção idealmente realizada desse conceito, uma leitura de Montaigne, "Montaigne ou la vie écrite", datada, em primeira edição, de junho de 1992.

        O objeto desta apresentação gira, pois, em torno de uma reflexão sobre o conceito de ensaio, o que aponta para o desvelamento de uma constante metalinguística que está sempre presente na obra de Eduardo Lourenço. A linhagem do gênero ensaístico se inscreve, tal como ele próprio o define, no modo "heterodoxo", o que significa assumir o gênero no limite da falência, mais geradora de questões do que de respostas -- "Recusar a verdade dos outros ou o espírito com que eles a vivem não é o mesmo que encontrar a sua"(Heterodoxia II).

        Essa espécie de humildade socrática seria o seu modo de escapar ao que ele próprio designa como a "única tragédia", que é, afinal, "estar nu e supor-se vestido", para retomar em metáfora o clássico eco das narrativas fundadoras da nossa cultura. Nessa linha de pensamento é que parecem ganhar sentido teórico os versos de Jorge de Sena citados em epígrafe ao mesmo texto: "tu não podes saber, tu não chegas a saber / o que é ou não é eterno", que apontam para a consciência da precariedade de todo discurso assertivo e facultam, para além da revelada autocrítica, uma possibilidade de problematização desses conceitos por parte do seu leitor.

        O risco do novo, ao aventurar-se em vertentes polêmicas na leitura de temas da tradição (marxismo e cristianismo, marxismo e ortodoxia, Fernando Pessoa e o vazio da identidade) ou, ao contrário, ao elaborar escritos sur le vif dos acontecimentos históricos ("Psicanálise mítica do destino português" ou as reflexões contidas em Nós e a Europa em tempos dos 500 anos do "descobrimento" da América), vai de par com uma contínua revisitação de seu pensamento anterior (cf o "Segundo prólogo sobre o espírito da heterodoxia"), como modo de reiterar o fato de que ensaiar é pressupor o erro e a sua frutuosa possibilidade -- embora nunca definitiva -- de superação.

        Essa consciência da precariedade talvez seja a mola que lhe permite atravessar campos diversos do saber como a literatura, a música, a filosofia, a sociologia, a política, dialogando com os pares de todos os tempos, herdeiro ele próprio do rico jogo de referências e citações que iluminam Les Essais de Montaigne.

        Speaker: Teresa Cristina Cerdeira (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
    • 14:00 15:00
      Sala virtual 03: Apresentação de trabalhos

      Sala virtual 3 para a apresentação de trabalhos (3 trabalhos por sessão, de 15 minutos, e 15 minutos para a discussão).

      • 14:00
        Aspectos da tradução enquanto prática de escrita e operação editorial: a difusão de Corografia Brasílica (1817) na imprensa francesa em 1821 15m

        Esta comunicação aborda a tradução enquanto prática social de escrita a partir das traduções em francês de Corografia Brasílica, ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil (1817), de Manoel Aires de Casal (1754-1821), publicadas no Journal des Voyages, ou Archives Géographiques du XIXe siècle et nos Nouvelles Annales des Voyages, de la Géographie et de l’Histoire durante o ano de 1821. Através de uma micro-análise de práticas de escrita e de publicação, torna-se possível ver agir os atores sociais e apreender a economia específica de suas ações, questões históricas fundamentais, de modo a permitir um melhor tratamento de mecanismos multiescalares da produção de escritos e de práticas intelectuais colaborativas.

        Speaker: Rafael Souza Barbosa
      • 14:15
        Sangue, Suor e Raça - Elza Soares na Itália nos anos de 1970 15m

        É muito frequente a ausência de mulheres e sobretudo de mulheres negras no debate sobre os “intérpretes do Brasil”. Esse silenciamento, decorrente de séculos de lutas e desigualdades sociais, de gênero e raciais, vê-se quebrado pela obra da cantora Elza Soares, que alcançou grande projeção e que vem recolocando o lugar de fala da mulher negra brasileira em discos gravados desde os anos de 1950. Ao mesmo tempo em que faz parte de uma indústria de entretenimento, a canção popular desempenha um importante papel como meio de expressão da sociedade e de sua época. A partir de tal perspectiva, a discografia da intérprete faz transparecer uma trajetória de violências e resistências e carrega uma postura e um conteúdo claramente críticos, tanto nos repertórios como nas performances nos palcos. Seus discos mais recentes trazem títulos enfáticos e que traduzem sua visão de mundo: “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), “Deus é Mulher” (2018) e “Planeta Fome” (2019). No “single” lançado em 2020 “Negão Negra” (Elza Soares e Flávio Renegado), a letra toma emprestado o conceito do historiador Sergio Buarque de Holanda para desmascarar a violência e o racismo da cultura brasileira: “Fala pro homem cordial e a sua falha engrenagem/ Meu corpo é livre, com amor, cor e coragem/ Pra cada um que cai, choramos rios e mares/ Mas nunca calarão as nossas vozes milenares”. Durante anos, sua carreira de canto